quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Reynaldo José Aragon Gonçalves: Por que Lula incomoda Trump e seu projeto fascista

Quando o ataque é direto, a soberania unifica. Quando o conflito se disfarça de cordialidade, o desgaste opera por dentro. Trump sabe disso. Por isso evita o confronto com Lula, desloca a pressão para instituições, economia e narrativas e transforma a "boa relação" em instrumento de contenção. Nada é acaso. Tudo é método.

Quando Donald Trump afirma ter boas relações com Vladimir Putin, Xi Jinping, Recep Tayyip Erdogan ou Narendra Modi, ninguém sério entende isso como ausência de conflito. Ao contrário. Trump elogia, respeita e conversa, enquanto sanciona, tarifa, cerca militarmente, bloqueia tecnologia e pressiona aliados. A cordialidade verbal nunca foi sinônimo de conciliação. Sempre foi forma de conduzir o conflito. O erro é tomar o tom pela substância.

Esse padrão é recorrente e verificável. Trump não rompe relações para atacar. Ele mantém canais abertos enquanto age por outros vetores. A guerra comercial contra a China não impediu elogios públicos a Xi. As sanções contra a Rússia coexistiram com declarações amistosas sobre Putin. A pressão sobre a Turquia veio acompanhada de gestos pessoais a Erdogan. A lógica é simples: o conflito não precisa ser anunciado para ser exercido. Ele opera melhor quando não se apresenta como guerra.

É nesse padrão que o caso brasileiro precisa ser lido. Não como exceção, mas como variação. Trump não evita confrontar Lula por simpatia, nem por fraqueza. Evita o confronto direto porque ele sabe exatamente o que o confronto produz quando o adversário ocupa uma posição específica no tabuleiro global. E Lula, hoje, ocupa essa posição.

Aqui está a diferença central. Ao contrário de outros líderes, Lula não aceita o jogo do conflito silencioso. Ele expõe. Ele nomeia. Ele fala em público, nos fóruns certos, diante das audiências certas. Ele chama a falta dentro da grande área, com o estádio cheio e o juiz olhando. Denuncia assimetrias, cobra responsabilidade das potências centrais, defende autonomia e recusa a naturalização da tutela. Isso muda a equação.

Quando Lula confronta, ele não o faz por bravata. Ele faz porque sabe que a disputa central é política, simbólica e estrutural. E sabe que, nesse plano, o silêncio favorece sempre o lado mais forte. O incômodo nasce daí. Não do conteúdo isolado de uma fala, mas do efeito acumulado de expor o jogo diante do mundo.

Trump percebe isso. E não cai. Não transforma o embate em duelo pessoal. Não responde na mesma moeda. Não eleva o conflito ao plano simbólico direto, onde Lula ganha densidade, visibilidade e capacidade de articulação internacional. Ao contrário. Ele absorve o ataque, mantém cordialidade pública e desloca a disputa para onde ela rende mais e custa menos.

Esse deslocamento tem método. O primeiro vetor é institucional. A pressão deixa de mirar o presidente e passa a incidir sobre a arquitetura do Estado. Questiona-se a legitimidade das decisões, constrói-se a narrativa do abuso, acusa-se a Justiça de extrapolar limites. Não é uma divergência jurídica. É uma tentativa de corroer a capacidade soberana de decidir, regular e punir.

O segundo vetor é econômico. Tarifas, ameaças comerciais e instabilidade induzida aparecem como respostas técnicas, não políticas. Esse enquadramento é deliberado. Ele oculta o conteúdo coercitivo sob a linguagem da economia e dificulta a mobilização social. O custo é imposto sem barulho, sem bandeira, sem inimigo visível. Funciona como disciplina material.

O terceiro vetor é narrativo. Ao deslocar o conflito para temas como liberdade de expressão, plataformas digitais e regulação, cria-se uma inversão eficaz. O Estado que regula passa a ser retratado como agressor. A potência que pressiona se apresenta como defensora de princípios universais. Não é necessário convencer a maioria. Basta gerar confusão suficiente para paralisar a reação.

Esses vetores operam juntos. A pressão institucional fragiliza a autoridade do Estado. A pressão econômica desgasta por dentro. A pressão narrativa fornece justificativa moral para ambas. O resultado é um conflito permanente, porém difuso. Sem choque, sem clímax, sem fechamento soberano. É nesse ponto que a normalização se torna mais eficaz do que o ataque aberto.

Por isso Trump mantém o discurso cordial. Não é contradição. É amortecedor. Ele reduz a percepção de agressão externa ao mesmo tempo em que a coerção segue operando nos pontos sensíveis. A ausência de confronto direto não sinaliza recuo. Sinaliza sofisticação. O conflito não diminuiu. Ele apenas se tornou menos visível e mais difícil de enfrentar.

Lula incomoda porque rompe essa lógica. Porque insiste em tornar o conflito legível. Porque expõe o caráter político do que se vende como técnico. Porque recoloca o Brasil como ator, não como variável. Em um mundo em rearranjo, onde a multipolaridade deixa de ser abstração e passa a ser disputa concreta, isso tem peso real.

Transformar Lula em antagonista direto seria um erro estratégico. Isso ampliaria sua estatura, facilitaria a construção de solidariedades e reforçaria sua imagem como liderança capaz de desafiar assimetrias. Trump sabe disso. Por isso evita o duelo. Prefere conter sem personalizar, pressionar sem confrontar, desgastar sem provocar fechamento.

O alerta é simples e urgente. Quando o conflito parece diminuir, ele pode estar apenas mudando de forma. Quando a retórica amacia, a pressão pode estar se reorganizando. Normalização não é paz. Muitas vezes, é a etapa mais perigosa da disputa. Entender isso não é exercício acadêmico. É condição para não ser derrotado sem perceber que a guerra continua.

¨      A América Latina no século XXI. Por Emir Sader

A América Latina foi vítima de uma brutal ofensiva neoliberal na última década do século passado, uma década em que quase todos os países do continente se tornaram neoliberais.

Fomos vítimas do forte consenso neoliberal no plano global, da crítica do Estado, como gerador da inflação, da suposta necessidade de, como prioridade, passar a limpo as finanças públicas, sobretudo com cortes dos recursos para políticas sociais. 

Como reação, já na primeira década, proliferaram os governos com políticas antineoliberais. Políticas que privilegiam as políticas sociais ao invés do ajuste fiscal, o fortalecimento do Estado, ao invés do Estado mínimo.

Se projetava já um século latino-americano, de superação do neoliberalismo. Houve retrocessos, com golpes militares em países como o Brasil e a Bolívia, além da eleição de governos de direita em vários países.

Ao final do primeiro quarto do século, dois dos três países mais importantes na região – Brasil e México – colocam em prática políticas antineoliberais, tendo como resultado economias que se expandem, desemprego cada vez menor, governos com grande apoio popular.

Outros se somam a essa tendência, como a Colômbia e o Uruguai, enquanto a Argentina – o outro país dentre os mais importantes – apresenta uma situação econômica e social desastrosa, mesmo tendo conseguido conter a inflação, o que permitiu vitórias eleitorais de Javier Milei, que coloca em prática as políticas mais ortodoxamente neoliberais.

A eleição de um candidato neopinochetista no Chile rompe o isolamento de Milei que até ali só tinha aliados nos Estados Unidos e em Israel. Hoje conta com governos direitistas no Equador, em Honduras e no Chile.

A América Latina conta com o declínio da hegemonia norte-americana neste século e, também, com o fortalecimento e a extensão dos Brics, que reúne a força militar da Rússia, o poderio econômico e tecnológica da China, a capacidade de articulação política do Brasil e uma lista cada vez maior de países, incluídos petroleiros, anteriormente aliados dos Estados Unidos.

Embora os Estados Unidos vivam seu maior isolamento na América Latina, do ponto de vista político, ainda assim conta com a influência ideológica e cultural do “modo de vida norte-americano”, que tem nos shopping centers sua expressão mais significativa. O que faz com que as disputas no plano ideológico e cultural sejam decisivas para a América Latina pelo menos na primeira metade do século.

¨      A Trump o que é de Trump. Por Camilo Irineu Quartarollo

Na noite de 15 de agosto de 1971, o presidente Nixon interrompeu o programa Bonanza, falando em cadeia nacional de televisão e laçou o sistema monetário internacional, impondo o dólar. Se alguém viesse cobrar sua dívida em ouro, não receberia o metal e sim mais dólares, impressos pela Casa da moeda, com a frase “nós confiamos em Deus”. Outras nações poderiam ter escrito em moedas nacionais “seja lá o que Deus quiser”. Nem tudo se aceita, vejam o golpe urdido no banco Master, para valorizar artificialmente os próprios títulos, pagando altos juros sem ter “com o quê”. Será que virá um jeitinho aí, uma “prisão” itinerante pelas ilhas gregas?

Na idade média, grossas muralhas protegiam os castelos feudais, cidades e abadias, para manter estrangeiros e as vilas abaixo, longe dos nobres. Mesmo assim, as moedas passavam pelos vãos dos muros e dos dedos. 

Com medo de ladrões, os donos do ouro entregavam-no a um guardião, mediante recibo do peso e valor. Quando o dono vendia o ouro, o novo dono não retirava do lugar seguro, lá deixava, mediante recibo. “Tinha” o metal na despensa, sob vigilância e valor. Então o guardador aventurou-se em dar recibos para várias pessoas, do mesmo ouro, ao qual sabia que ninguém ia retirar do lugar ou reclamar, somente repassaria recibos. No caso americano, os recibos tornaram-se mais valiosos que o próprio ouro! E únicos. 

A poderosa máquina de guerra estadunidense se impõe, faz valer seus acordos e descumpre os quais assinou e não mais os interessa. Dominam nações “insubordinadas” com punições, embargos comerciais para sufocar os governos e leis desses países e, assim, subtrair suas riquezas naturais como o petróleo, ouro e terras raras. Esses embargos às nações perseguidas não permitem aos governos vender ou comprar, boicote. Esperam que os venezuelanos, cubanos, iranianos e até os brasileiros culpem seus presidentes e sistema de leis – ou mesmo suas tradições, para aceitarem puxa-sacos com seus bonés. Vergonha até no seu próprio campo político-eleitoral. 

O que tira o sono do Trump é a queda do dólar e as negociações feitas em outras moedas, como a chinesa Yuan com a cara de Mao. Quase a metade dos negócios entre os países já é feita na moeda chinesa ou nas próprias. A guerra contra o Irã ou pelo Ártico é, na verdade, contra a rota de produtos, negócios e parcerias chinesas em construções logísticas daqueles estados. 

Os chineses não vão abdicar do Irã ou de qualquer outro país em suas rotas, vão “comendo pelas beiradas”. Países vizinhos dos americanos como o Canadá ou parceiros de longa data como os da Europa entram para o BRICs, presidido por Dilma Roussef – aliás, presidência premiada e com louvor pelos chineses. As nações atacadas por taxas ou ofendidas por Trump entram para o BRICS sem trocar de Mao com os EUA, mas entram, inclusive a Argentina americanófila faz negócios com os chineses, sem cerimônia. 

Quem derrubará o Império? A China, a Rússia, a Índia...o Brasil. Não. Cai sozinho.

 

Fonte: Brasil 247

 

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