Reynaldo
José Aragon Gonçalves: Por que Lula incomoda Trump e seu projeto fascista
Quando
o ataque é direto, a soberania unifica. Quando o conflito se disfarça de
cordialidade, o desgaste opera por dentro. Trump sabe disso. Por isso evita o
confronto com Lula, desloca a pressão para instituições, economia e narrativas
e transforma a "boa relação" em instrumento de contenção. Nada é
acaso. Tudo é método.
Quando
Donald Trump afirma ter boas relações com Vladimir Putin, Xi Jinping, Recep
Tayyip Erdogan ou Narendra Modi, ninguém sério entende isso como ausência de
conflito. Ao contrário. Trump elogia, respeita e conversa, enquanto sanciona,
tarifa, cerca militarmente, bloqueia tecnologia e pressiona aliados. A
cordialidade verbal nunca foi sinônimo de conciliação. Sempre foi forma de
conduzir o conflito. O erro é tomar o tom pela substância.
Esse
padrão é recorrente e verificável. Trump não rompe relações para atacar. Ele
mantém canais abertos enquanto age por outros vetores. A guerra comercial
contra a China não impediu elogios públicos a Xi. As sanções contra a Rússia
coexistiram com declarações amistosas sobre Putin. A pressão sobre a Turquia
veio acompanhada de gestos pessoais a Erdogan. A lógica é simples: o conflito
não precisa ser anunciado para ser exercido. Ele opera melhor quando não se
apresenta como guerra.
É nesse
padrão que o caso brasileiro precisa ser lido. Não como exceção, mas como
variação. Trump não evita confrontar Lula por simpatia, nem por fraqueza. Evita
o confronto direto porque ele sabe exatamente o que o confronto produz quando o
adversário ocupa uma posição específica no tabuleiro global. E Lula, hoje,
ocupa essa posição.
Aqui
está a diferença central. Ao contrário de outros líderes, Lula não aceita o
jogo do conflito silencioso. Ele expõe. Ele nomeia. Ele fala em público, nos
fóruns certos, diante das audiências certas. Ele chama a falta dentro da grande
área, com o estádio cheio e o juiz olhando. Denuncia assimetrias, cobra
responsabilidade das potências centrais, defende autonomia e recusa a
naturalização da tutela. Isso muda a equação.
Quando
Lula confronta, ele não o faz por bravata. Ele faz porque sabe que a disputa
central é política, simbólica e estrutural. E sabe que, nesse plano, o silêncio
favorece sempre o lado mais forte. O incômodo nasce daí. Não do conteúdo
isolado de uma fala, mas do efeito acumulado de expor o jogo diante do mundo.
Trump
percebe isso. E não cai. Não transforma o embate em duelo pessoal. Não responde
na mesma moeda. Não eleva o conflito ao plano simbólico direto, onde Lula ganha
densidade, visibilidade e capacidade de articulação internacional. Ao
contrário. Ele absorve o ataque, mantém cordialidade pública e desloca a
disputa para onde ela rende mais e custa menos.
Esse
deslocamento tem método. O primeiro vetor é institucional. A pressão deixa de
mirar o presidente e passa a incidir sobre a arquitetura do Estado.
Questiona-se a legitimidade das decisões, constrói-se a narrativa do abuso,
acusa-se a Justiça de extrapolar limites. Não é uma divergência jurídica. É uma
tentativa de corroer a capacidade soberana de decidir, regular e punir.
O
segundo vetor é econômico. Tarifas, ameaças comerciais e instabilidade induzida
aparecem como respostas técnicas, não políticas. Esse enquadramento é
deliberado. Ele oculta o conteúdo coercitivo sob a linguagem da economia e
dificulta a mobilização social. O custo é imposto sem barulho, sem bandeira,
sem inimigo visível. Funciona como disciplina material.
O
terceiro vetor é narrativo. Ao deslocar o conflito para temas como liberdade de
expressão, plataformas digitais e regulação, cria-se uma inversão eficaz. O
Estado que regula passa a ser retratado como agressor. A potência que pressiona
se apresenta como defensora de princípios universais. Não é necessário
convencer a maioria. Basta gerar confusão suficiente para paralisar a reação.
Esses
vetores operam juntos. A pressão institucional fragiliza a autoridade do
Estado. A pressão econômica desgasta por dentro. A pressão narrativa fornece
justificativa moral para ambas. O resultado é um conflito permanente, porém
difuso. Sem choque, sem clímax, sem fechamento soberano. É nesse ponto que a
normalização se torna mais eficaz do que o ataque aberto.
Por
isso Trump mantém o discurso cordial. Não é contradição. É amortecedor. Ele
reduz a percepção de agressão externa ao mesmo tempo em que a coerção segue
operando nos pontos sensíveis. A ausência de confronto direto não sinaliza
recuo. Sinaliza sofisticação. O conflito não diminuiu. Ele apenas se tornou
menos visível e mais difícil de enfrentar.
Lula
incomoda porque rompe essa lógica. Porque insiste em tornar o conflito legível.
Porque expõe o caráter político do que se vende como técnico. Porque recoloca o
Brasil como ator, não como variável. Em um mundo em rearranjo, onde a
multipolaridade deixa de ser abstração e passa a ser disputa concreta, isso tem
peso real.
Transformar
Lula em antagonista direto seria um erro estratégico. Isso ampliaria sua
estatura, facilitaria a construção de solidariedades e reforçaria sua imagem
como liderança capaz de desafiar assimetrias. Trump sabe disso. Por isso evita
o duelo. Prefere conter sem personalizar, pressionar sem confrontar, desgastar
sem provocar fechamento.
O
alerta é simples e urgente. Quando o conflito parece diminuir, ele pode estar
apenas mudando de forma. Quando a retórica amacia, a pressão pode estar se
reorganizando. Normalização não é paz. Muitas vezes, é a etapa mais perigosa da
disputa. Entender isso não é exercício acadêmico. É condição para não ser
derrotado sem perceber que a guerra continua.
¨
A América Latina no século XXI. Por Emir Sader
A
América Latina foi vítima de uma brutal ofensiva neoliberal na última década do
século passado, uma década em que quase todos os países do continente se
tornaram neoliberais.
Fomos
vítimas do forte consenso neoliberal no plano global, da crítica do Estado,
como gerador da inflação, da suposta necessidade de, como prioridade, passar a
limpo as finanças públicas, sobretudo com cortes dos recursos para políticas
sociais.
Como
reação, já na primeira década, proliferaram os governos com políticas
antineoliberais. Políticas que privilegiam as políticas sociais ao invés do
ajuste fiscal, o fortalecimento do Estado, ao invés do Estado mínimo.
Se
projetava já um século latino-americano, de superação do neoliberalismo. Houve
retrocessos, com golpes militares em países como o Brasil e a Bolívia, além da
eleição de governos de direita em vários países.
Ao
final do primeiro quarto do século, dois dos três países mais importantes na
região – Brasil e México – colocam em prática políticas antineoliberais, tendo
como resultado economias que se expandem, desemprego cada vez menor, governos
com grande apoio popular.
Outros
se somam a essa tendência, como a Colômbia e o Uruguai, enquanto a Argentina –
o outro país dentre os mais importantes – apresenta uma situação econômica e
social desastrosa, mesmo tendo conseguido conter a inflação, o que permitiu
vitórias eleitorais de Javier Milei, que coloca em prática as políticas mais
ortodoxamente neoliberais.
A
eleição de um candidato neopinochetista no Chile rompe o isolamento de Milei
que até ali só tinha aliados nos Estados Unidos e em Israel. Hoje conta com
governos direitistas no Equador, em Honduras e no Chile.
A
América Latina conta com o declínio da hegemonia norte-americana neste século
e, também, com o fortalecimento e a extensão dos Brics, que reúne a força
militar da Rússia, o poderio econômico e tecnológica da China, a capacidade de
articulação política do Brasil e uma lista cada vez maior de países, incluídos
petroleiros, anteriormente aliados dos Estados Unidos.
Embora
os Estados Unidos vivam seu maior isolamento na América Latina, do ponto de
vista político, ainda assim conta com a influência ideológica e cultural do
“modo de vida norte-americano”, que tem nos shopping centers sua expressão mais
significativa. O que faz com que as disputas no plano ideológico e cultural
sejam decisivas para a América Latina pelo menos na primeira metade do século.
¨
A Trump o que é de Trump. Por Camilo Irineu Quartarollo
Na
noite de 15 de agosto de 1971, o presidente Nixon interrompeu o programa
Bonanza, falando em cadeia nacional de televisão e laçou o sistema monetário
internacional, impondo o dólar. Se alguém viesse cobrar sua dívida em ouro, não
receberia o metal e sim mais dólares, impressos pela Casa da moeda, com a frase
“nós confiamos em Deus”. Outras nações poderiam ter escrito em moedas nacionais
“seja lá o que Deus quiser”. Nem tudo se aceita, vejam o golpe urdido no banco
Master, para valorizar artificialmente os próprios títulos, pagando altos juros
sem ter “com o quê”. Será que virá um jeitinho aí, uma “prisão” itinerante
pelas ilhas gregas?
Na
idade média, grossas muralhas protegiam os castelos feudais, cidades e abadias,
para manter estrangeiros e as vilas abaixo, longe dos nobres. Mesmo assim, as
moedas passavam pelos vãos dos muros e dos dedos.
Com
medo de ladrões, os donos do ouro entregavam-no a um guardião, mediante recibo
do peso e valor. Quando o dono vendia o ouro, o novo dono não retirava do lugar
seguro, lá deixava, mediante recibo. “Tinha” o metal na despensa, sob
vigilância e valor. Então o guardador aventurou-se em dar recibos para várias
pessoas, do mesmo ouro, ao qual sabia que ninguém ia retirar do lugar ou
reclamar, somente repassaria recibos. No caso americano, os recibos tornaram-se
mais valiosos que o próprio ouro! E únicos.
A
poderosa máquina de guerra estadunidense se impõe, faz valer seus acordos e
descumpre os quais assinou e não mais os interessa. Dominam nações
“insubordinadas” com punições, embargos comerciais para sufocar os governos e
leis desses países e, assim, subtrair suas riquezas naturais como o petróleo,
ouro e terras raras. Esses embargos às nações perseguidas não permitem aos
governos vender ou comprar, boicote. Esperam que os venezuelanos, cubanos,
iranianos e até os brasileiros culpem seus presidentes e sistema de leis – ou
mesmo suas tradições, para aceitarem puxa-sacos com seus bonés. Vergonha até no
seu próprio campo político-eleitoral.
O que
tira o sono do Trump é a queda do dólar e as negociações feitas em outras
moedas, como a chinesa Yuan com a cara de Mao. Quase a metade dos negócios
entre os países já é feita na moeda chinesa ou nas próprias. A guerra contra o
Irã ou pelo Ártico é, na verdade, contra a rota de produtos, negócios e
parcerias chinesas em construções logísticas daqueles estados.
Os
chineses não vão abdicar do Irã ou de qualquer outro país em suas rotas, vão
“comendo pelas beiradas”. Países vizinhos dos americanos como o Canadá ou
parceiros de longa data como os da Europa entram para o BRICs, presidido por
Dilma Roussef – aliás, presidência premiada e com louvor pelos chineses. As
nações atacadas por taxas ou ofendidas por Trump entram para o BRICS sem trocar
de Mao com os EUA, mas entram, inclusive a Argentina americanófila faz negócios
com os chineses, sem cerimônia.
Quem
derrubará o Império? A China, a Rússia, a Índia...o Brasil. Não. Cai sozinho.
Fonte:
Brasil 247

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