João
dos Reis Silva Júnior: Ausência de lucidez – a comédia legislativa
Há
países que constroem sua história com tragédias fundadoras; o Brasil, mais
coerente consigo mesmo, optou por transformá-las em rotina administrativa.
Aqui, o colapso não é evento, é expediente. E a política, esse velho teatro da
representação, converteu-se em espetáculo de gabinete: um drama protocolar onde
cada ato vem acompanhado de parecer técnico e ata em anexo.
A
barbárie é regulamentada; o delírio, licitado; o golpe, finalmente,
internalizado como procedimento. E assim seguimos, com a serenidade de quem já
fez da catástrofe um ritual de expediente.
O
Congresso Nacional, esse manicômio climatizado, não legisla – encena. A cada
legislatura, reestreia o mesmo elenco com figurino renovado e hashtags
atualizadas. A diferença é que agora o cinismo vem com crachá. O plenário
tornou-se uma espécie de “reality show republicano”, no qual cada fala é medida
em curtidas, e cada escândalo é monetizado em cliques.
Não há
mais adversários ideológicos, apenas concorrentes de engajamento. A política
não disputa projetos, mas métricas. A retórica nacional foi reduzida ao
algoritmo da indignação – indignar-se virou método de autopromoção.
Paulo
Arantes chamaria isso de “niilismo administrativo”: o colapso elevado à
categoria de ofício público. O que antes era golpe agora é regimento interno; o
que era exceção tornou-se protocolo. O autoritarismo descobriu que é mais
eficiente quando redigido em Word e publicado no Diário Oficial.
A nova
forma de poder não precisa suprimir a democracia – basta geri-la com perícia
burocrática até que se torne irreconhecível. A antiga paixão pelo golpe militar
foi substituída pelo prazer do parecer técnico. Não há tanques nas ruas, apenas
carimbos. O país aprendeu a conspirar dentro da legalidade.
Nesse
arranjo tragicômico, o “mané” – essa figura central do teatro político
brasileiro – atravessou uma metamorfose digna de nota sociológica: de bárbaro
improvisado em 2023 a paladino da Constituição em 2025. A mesma mão que invadiu
o Congresso agora o preside.
A
metamorfose não é moral, é funcional. O ressentimento, devidamente reciclado,
encontrou morada no protocolo. O fascismo tropical, cansado de quartéis, vestiu
terno e descobriu o regimento. A história brasileira, sempre afeita à paródia,
produziu sua síntese final: a barbárie constitucional.
A
comédia legislativa é o espelho ampliado do país – e o riso que ecoa do
plenário é o mesmo que ressoa nas esquinas. O brasileiro aprendeu a rir do
próprio colapso com uma dignidade quase filosófica, como quem cumpre um destino
ontológico. O riso, aqui, é uma forma de anestesia moral. Rir é sobreviver.
A
lucidez, por sua vez, tornou-se vício melancólico, um luxo de quem ainda
acredita que pensar pode surtir efeito. Pensar é, hoje, um gesto de
excentricidade; refletir, uma prática subversiva. O país desconfia da razão
porque ela atrapalha o fluxo da fé. A estupidez, ao contrário, é o novo
denominador comum da comunhão nacional.
Nas
universidades – outrora refúgio da reflexão – o pensamento crítico é tratado
como ameaça à ordem. Os que insistem em pensar são rotulados de ideólogos, e os
que não pensam são promovidos a gestores. A razão perdeu a aura e ganhou
planilha.
O saber
virou produto, e a ignorância, identidade. O país transformou o desprezo pela
lucidez em política pública. O anti-intelectualismo não é mais acidente
histórico, mas estratégia de governo. A ignorância, quando institucionalizada,
produz estabilidade. A barbárie tem metodologia, cronograma e rubrica
orçamentária.
A
imprensa, cúmplice terapêutica da decadência, transformou o absurdo em rotina
compreensível. Cada delírio é rebatizado como “polêmica”, e cada atrocidade,
como “declaração controversa”. O jornalismo da era democrática aprendeu a
normalizar o anormal, porque o escândalo permanente não vende – cansa.
A
sociedade, esgotada, adotou o tédio como defesa psíquica. Chama-se de
“resiliência” o que, no fundo, é resignação. A democracia, dizem, resiste –
como quem descreve um paciente em coma que ainda respira por aparelhos
institucionais.
O país
vive, portanto, sob um “tempo morto”, essa categoria arantiana que descreve o
movimento sem história e a história sem movimento. O Brasil gira em falso. As
reformas se repetem, as crises se clonam, os personagens ressurgem em posições
trocadas, e o espetáculo prossegue, previsível e interminável. A cada nova
legislatura, o país promete reiniciar, mas apenas atualiza o software da
decadência. Não há revolução nem restauração, apenas looping. A dialética
nacional virou planilha circular.
O mais
trágico é que ninguém parece escandalizar-se. O país naturalizou a farsa como
forma de governo. O grotesco veste terno, o ridículo cita Hegel, e o desastre é
conduzido com decoro. Tudo segue dentro da normalidade – e essa normalidade é o
verdadeiro escândalo. Paulo Arantes já advertira: “quando o anormal se
estabiliza, o colapso é apenas questão de agenda”. A vida pública brasileira é
uma coreografia do caos, executada com pontualidade protocolar. O país cai de
pé.
A
esquerda institucional, zeladora da ruína, orgulha-se de administrar o que
resta. Fala em “responsabilidade” enquanto o chão se desmancha sob seus pés.
Tornou-se o síndico da catástrofe. Defende a ordem por falta de imaginação e
governa o absurdo com ar de prudência. A racionalidade, antes emancipadora,
virou o disfarce respeitável da impotência. A gestão do colapso é o novo
horizonte do possível.
A
psicologia coletiva que sustenta esse teatro é a mesma do “mané” elevado à
categoria sociológica. Ele acredita na moral como escudo contra a dúvida. Sua
ignorância é reconfortante porque lhe poupa o esforço de compreender. Ele não
teme a mentira, teme a complexidade. Sua fé é a forma institucional do medo;
seu moralismo, o teatro público de sua culpa. A democracia que ele defende é a
versão protocolar do autoritarismo que deseja. O mané é a metáfora viva da
ausência de lucidez.
Resta,
ao observador lúcido – essa figura cada vez mais anacrônica –, rir com método.
Rir não como fuga, mas como diagnóstico. A ironia tornou-se o último abrigo da
razão, uma forma de resistir à estupidez sem a pretensão de corrigi-la. O riso
filosófico é a lucidez que se recusa a sucumbir inteiramente. É o desespero
disciplinado, ou, como diria Paulo Arantes, a “esperança invertida”: continuar
pensando sabendo que não há mais lugar para o pensamento.
A
ausência de lucidez é, afinal, a forma brasileira da consciência moderna: uma
claridade que ilumina o próprio abismo. O país compreende demais para ainda
acreditar, mas compreende de menos para transformar. Vive no intervalo entre o
diagnóstico e o desespero, entre a crítica e o cansaço. A comédia legislativa
é, nesse sentido, apenas a mise-en-scène daquilo que todos já sabem, mas
preferem não encarar. O Brasil tornou-se o laboratório mais sofisticado da
desesperança.
E
enquanto o plenário segue com suas sessões performáticas, entre uma fala
exaltada e outra, alguém pede um café; entre uma votação e outra, o país renova
sua fé protocolar de que, desta vez, será diferente. Mas nada muda – apenas o
cenário. O espetáculo prossegue com a disciplina do absurdo: o público cativo,
os atores convictos, e a plateia exausta.
A
lucidez é um ornamento e o desespero, uma rotina. A democracia virou
performance; o golpe, procedimento; e a catástrofe, expediente. O país continua
funcionando – e esse talvez seja o verdadeiro colapso.
Compreender,
aqui, é o mesmo que desesperar-se com método. E talvez esse seja, afinal, o
traço mais autêntico de nossa modernidade tropical: a capacidade de administrar
a ruína com serenidade e ironia, como quem aprendeu a fazer do colapso um
ofício de Estado. A ausência de lucidez é o nome próprio da nação que se
especializou em sobreviver ao próprio fracasso – com elegância, eficiência e
senso de humor.[1]
• Os inimigos do congresso. Artigo de
Marcelo Seráfico e José Alcimar
O grau
de rebaixamento do Congresso causa asco. Vivemos, como disse Paulo Nogueira
Batista Jr., numa caquistocracia, o governo dos piores. No atual Congresso
brasileiro o que há de pior na política adquiriu forma e conteúdo. Três forças
ali, inter pocula e numa cópula da mais explícita venalidade e rebaixamento
escatológico, se abraçaram para tramar contra os restos da República que nunca
foi: a caquistocracia (o poder do pior), a plutocracia (o poder da riqueza) e a
necrocracia (o poder da morte). Sob a política do descaminho, afogado nas
urgências de um presente sem futuro, o Brasil consolida seu destino distópico
para se afirmar como maior país emergencial do mundo. Aqui o atraso se
constitui na mais irremovível e reacionária forma de poder. É o país da
história lenta, conforme apontou José de Souza Martins.
Que
racionalidade preside a essa conspiração legalizada? A bem dizer, a única
racionalidade que orienta suas ações tem a ver com a sobrevivência e o
enriquecimento dos grupos a que pertencem: bala, bíblia, bola, bet, agro,
finanças e facções criminosas, todos associados entre si. Podemos dizer que
existe alguma forma de cálculo racional em relação a fins adequados ao espírito
do capitalismo, no agir desses sujeitos? Não cremos! As finanças liquidaram com
o que restava de racionalidade sistêmica; a riqueza proveniente da pura e
simples especulação e da lavagem de dinheiro, todas operadas por agentes
financeiros, abriu um portal para o que Antonio David Cattani qualificou como
economia bandida, logo, para todo tipo de bandidagem.
Os
personagens dessa economia são exatamente aqueles que estavam presentes na
origem do capitalismo, sem nunca terem eles mesmos sido capitalistas: os
aventureiros, os piratas, os conquistadores com suas práticas de butim,
pilhagem e roubo. O capitalismo acabou! O problema não é apenas no Brasil.
Aparentemente, todos os países que se viam como capitalistas experimentam essa
degradação generalizada das instituições burguesas. Essa é a tese de Niall
Ferguson, de 2013: as instituições experimentam uma grande degradação. Está em
curso, estruturalmente, uma brutal alteração nas relações de produção, que
passaram do assalariamento a novas formas de exploração do trabalho, que vão da
escravidão, pura e simples, até uma espécie de auto-subordinação-produtiva,
adocicada pela linguagem tecnocrática como empreendedorismo. Para que ambas
existam há uma premissa: o absoluto descontrole das relações de produção e
trabalho. Esse descontrole nos faz viver num tempo em que formas originárias de
acumulação se tornam predominantes em todos os setores da vida econômica.
Não
vivemos mais o capitalismo, mas sim um momento de acumulação primitiva de outro
tipo. Não se trata mais de capital, mas de formas de poder (econômico e
político) assentadas no objetivo exclusivo de entesourar e ostentar. O ethos
dominante dessa lumpemburguesia se afirma pela arrogância financeira da baixa
política, a inocular nos indivíduos, segundo escreve Paulo Freire, o apetite
burguês do êxito pessoal. A própria ideia de investimento desapareceu junto com
a de planejamento. Essa foi a consequência da desregulamentação, da
reestruturação produtiva e da desestatização. Se há um aspecto positivo nisso
tudo, é que o futuro está em aberto: das duas uma, nos transformamos
definitivamente em um Elysium ou rompemos com essa conduta para a qual não há
futuro, não existe sociedade e muito menos desigualdade. A revolução burguesa,
sempre e em todo lugar inconclusa, não é mais parâmetro para pensar a
realidade.
O
Congresso, apartado das demandas sociais, segue sob ocupação e direção dos
inimigos do povo, eleitos majoritariamente pela conjugação do voto da
desinformação, da instrumentalização das carências de muitos e do mau-caratismo
dos que mentem de forma programática, com a (má) consciência da verdade que
ocultam. A verdade sem retoques permanece: em 136 anos de uma república que
nunca foi (a propósito, continua atual o livro Os bestializados, de José Murilo
de Carvalho), a esquerda nunca esteve no poder. Estar no governo não significa
estar no poder. No Brasil, o Congresso sempre esteve nas mãos da direita e sob
o comando férreo das mãos invisíveis (nem tanto), mas sempre sujas do poder
econômico. E o Judiciário? Desde quando há justiça no Estado burguês? E as
Forças Armadas? Algum dia estiveram ao lado da classe trabalhadora?
Hoje
temos o pior Congresso da história do Brasil. As exceções não alteram a regra
venal. Um Congresso de perfil reacionário, antipovo, pautado pela
extrema-direita. Dos governos com perfil de esquerda (mas sempre impedidos de
governar), três foram golpeados pela direita e extrema-direita.
É
preciso recorrer sempre à história e à memória com estratégia de luta e de
sobrevivência. Como escreve Agnes Heller: a história é a substância da
sociedade. A estupidez (tão bem instrumentalizada pela extrema-direita) se
alimenta da falsificação da história, da destruição da memória, da afronta à
cultura e do ódio ao pensamento, sobretudo do pensamento científico e
filosófico. E o que nos cabe? Seguir na luta e no contracurso da dominação.
Fonte:
A Terra é Redonda/IHU

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