quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

João dos Reis Silva Júnior: Ausência de lucidez – a comédia legislativa

Há países que constroem sua história com tragédias fundadoras; o Brasil, mais coerente consigo mesmo, optou por transformá-las em rotina administrativa. Aqui, o colapso não é evento, é expediente. E a política, esse velho teatro da representação, converteu-se em espetáculo de gabinete: um drama protocolar onde cada ato vem acompanhado de parecer técnico e ata em anexo.

A barbárie é regulamentada; o delírio, licitado; o golpe, finalmente, internalizado como procedimento. E assim seguimos, com a serenidade de quem já fez da catástrofe um ritual de expediente.

O Congresso Nacional, esse manicômio climatizado, não legisla – encena. A cada legislatura, reestreia o mesmo elenco com figurino renovado e hashtags atualizadas. A diferença é que agora o cinismo vem com crachá. O plenário tornou-se uma espécie de “reality show republicano”, no qual cada fala é medida em curtidas, e cada escândalo é monetizado em cliques.

Não há mais adversários ideológicos, apenas concorrentes de engajamento. A política não disputa projetos, mas métricas. A retórica nacional foi reduzida ao algoritmo da indignação – indignar-se virou método de autopromoção.

Paulo Arantes chamaria isso de “niilismo administrativo”: o colapso elevado à categoria de ofício público. O que antes era golpe agora é regimento interno; o que era exceção tornou-se protocolo. O autoritarismo descobriu que é mais eficiente quando redigido em Word e publicado no Diário Oficial.

A nova forma de poder não precisa suprimir a democracia – basta geri-la com perícia burocrática até que se torne irreconhecível. A antiga paixão pelo golpe militar foi substituída pelo prazer do parecer técnico. Não há tanques nas ruas, apenas carimbos. O país aprendeu a conspirar dentro da legalidade.

Nesse arranjo tragicômico, o “mané” – essa figura central do teatro político brasileiro – atravessou uma metamorfose digna de nota sociológica: de bárbaro improvisado em 2023 a paladino da Constituição em 2025. A mesma mão que invadiu o Congresso agora o preside.

A metamorfose não é moral, é funcional. O ressentimento, devidamente reciclado, encontrou morada no protocolo. O fascismo tropical, cansado de quartéis, vestiu terno e descobriu o regimento. A história brasileira, sempre afeita à paródia, produziu sua síntese final: a barbárie constitucional.

A comédia legislativa é o espelho ampliado do país – e o riso que ecoa do plenário é o mesmo que ressoa nas esquinas. O brasileiro aprendeu a rir do próprio colapso com uma dignidade quase filosófica, como quem cumpre um destino ontológico. O riso, aqui, é uma forma de anestesia moral. Rir é sobreviver.

A lucidez, por sua vez, tornou-se vício melancólico, um luxo de quem ainda acredita que pensar pode surtir efeito. Pensar é, hoje, um gesto de excentricidade; refletir, uma prática subversiva. O país desconfia da razão porque ela atrapalha o fluxo da fé. A estupidez, ao contrário, é o novo denominador comum da comunhão nacional.

Nas universidades – outrora refúgio da reflexão – o pensamento crítico é tratado como ameaça à ordem. Os que insistem em pensar são rotulados de ideólogos, e os que não pensam são promovidos a gestores. A razão perdeu a aura e ganhou planilha.

O saber virou produto, e a ignorância, identidade. O país transformou o desprezo pela lucidez em política pública. O anti-intelectualismo não é mais acidente histórico, mas estratégia de governo. A ignorância, quando institucionalizada, produz estabilidade. A barbárie tem metodologia, cronograma e rubrica orçamentária.

A imprensa, cúmplice terapêutica da decadência, transformou o absurdo em rotina compreensível. Cada delírio é rebatizado como “polêmica”, e cada atrocidade, como “declaração controversa”. O jornalismo da era democrática aprendeu a normalizar o anormal, porque o escândalo permanente não vende – cansa.

A sociedade, esgotada, adotou o tédio como defesa psíquica. Chama-se de “resiliência” o que, no fundo, é resignação. A democracia, dizem, resiste – como quem descreve um paciente em coma que ainda respira por aparelhos institucionais.

O país vive, portanto, sob um “tempo morto”, essa categoria arantiana que descreve o movimento sem história e a história sem movimento. O Brasil gira em falso. As reformas se repetem, as crises se clonam, os personagens ressurgem em posições trocadas, e o espetáculo prossegue, previsível e interminável. A cada nova legislatura, o país promete reiniciar, mas apenas atualiza o software da decadência. Não há revolução nem restauração, apenas looping. A dialética nacional virou planilha circular.

O mais trágico é que ninguém parece escandalizar-se. O país naturalizou a farsa como forma de governo. O grotesco veste terno, o ridículo cita Hegel, e o desastre é conduzido com decoro. Tudo segue dentro da normalidade – e essa normalidade é o verdadeiro escândalo. Paulo Arantes já advertira: “quando o anormal se estabiliza, o colapso é apenas questão de agenda”. A vida pública brasileira é uma coreografia do caos, executada com pontualidade protocolar. O país cai de pé.

A esquerda institucional, zeladora da ruína, orgulha-se de administrar o que resta. Fala em “responsabilidade” enquanto o chão se desmancha sob seus pés. Tornou-se o síndico da catástrofe. Defende a ordem por falta de imaginação e governa o absurdo com ar de prudência. A racionalidade, antes emancipadora, virou o disfarce respeitável da impotência. A gestão do colapso é o novo horizonte do possível.

A psicologia coletiva que sustenta esse teatro é a mesma do “mané” elevado à categoria sociológica. Ele acredita na moral como escudo contra a dúvida. Sua ignorância é reconfortante porque lhe poupa o esforço de compreender. Ele não teme a mentira, teme a complexidade. Sua fé é a forma institucional do medo; seu moralismo, o teatro público de sua culpa. A democracia que ele defende é a versão protocolar do autoritarismo que deseja. O mané é a metáfora viva da ausência de lucidez.

Resta, ao observador lúcido – essa figura cada vez mais anacrônica –, rir com método. Rir não como fuga, mas como diagnóstico. A ironia tornou-se o último abrigo da razão, uma forma de resistir à estupidez sem a pretensão de corrigi-la. O riso filosófico é a lucidez que se recusa a sucumbir inteiramente. É o desespero disciplinado, ou, como diria Paulo Arantes, a “esperança invertida”: continuar pensando sabendo que não há mais lugar para o pensamento.

A ausência de lucidez é, afinal, a forma brasileira da consciência moderna: uma claridade que ilumina o próprio abismo. O país compreende demais para ainda acreditar, mas compreende de menos para transformar. Vive no intervalo entre o diagnóstico e o desespero, entre a crítica e o cansaço. A comédia legislativa é, nesse sentido, apenas a mise-en-scène daquilo que todos já sabem, mas preferem não encarar. O Brasil tornou-se o laboratório mais sofisticado da desesperança.

E enquanto o plenário segue com suas sessões performáticas, entre uma fala exaltada e outra, alguém pede um café; entre uma votação e outra, o país renova sua fé protocolar de que, desta vez, será diferente. Mas nada muda – apenas o cenário. O espetáculo prossegue com a disciplina do absurdo: o público cativo, os atores convictos, e a plateia exausta.

A lucidez é um ornamento e o desespero, uma rotina. A democracia virou performance; o golpe, procedimento; e a catástrofe, expediente. O país continua funcionando – e esse talvez seja o verdadeiro colapso.

Compreender, aqui, é o mesmo que desesperar-se com método. E talvez esse seja, afinal, o traço mais autêntico de nossa modernidade tropical: a capacidade de administrar a ruína com serenidade e ironia, como quem aprendeu a fazer do colapso um ofício de Estado. A ausência de lucidez é o nome próprio da nação que se especializou em sobreviver ao próprio fracasso – com elegância, eficiência e senso de humor.[1]

•        Os inimigos do congresso. Artigo de Marcelo Seráfico e José Alcimar

O grau de rebaixamento do Congresso causa asco. Vivemos, como disse Paulo Nogueira Batista Jr., numa caquistocracia, o governo dos piores. No atual Congresso brasileiro o que há de pior na política adquiriu forma e conteúdo. Três forças ali, inter pocula e numa cópula da mais explícita venalidade e rebaixamento escatológico, se abraçaram para tramar contra os restos da República que nunca foi: a caquistocracia (o poder do pior), a plutocracia (o poder da riqueza) e a necrocracia (o poder da morte). Sob a política do descaminho, afogado nas urgências de um presente sem futuro, o Brasil consolida seu destino distópico para se afirmar como maior país emergencial do mundo. Aqui o atraso se constitui na mais irremovível e reacionária forma de poder. É o país da história lenta, conforme apontou José de Souza Martins.

Que racionalidade preside a essa conspiração legalizada? A bem dizer, a única racionalidade que orienta suas ações tem a ver com a sobrevivência e o enriquecimento dos grupos a que pertencem: bala, bíblia, bola, bet, agro, finanças e facções criminosas, todos associados entre si. Podemos dizer que existe alguma forma de cálculo racional em relação a fins adequados ao espírito do capitalismo, no agir desses sujeitos? Não cremos! As finanças liquidaram com o que restava de racionalidade sistêmica; a riqueza proveniente da pura e simples especulação e da lavagem de dinheiro, todas operadas por agentes financeiros, abriu um portal para o que Antonio David Cattani qualificou como economia bandida, logo, para todo tipo de bandidagem.

Os personagens dessa economia são exatamente aqueles que estavam presentes na origem do capitalismo, sem nunca terem eles mesmos sido capitalistas: os aventureiros, os piratas, os conquistadores com suas práticas de butim, pilhagem e roubo. O capitalismo acabou! O problema não é apenas no Brasil. Aparentemente, todos os países que se viam como capitalistas experimentam essa degradação generalizada das instituições burguesas. Essa é a tese de Niall Ferguson, de 2013: as instituições experimentam uma grande degradação. Está em curso, estruturalmente, uma brutal alteração nas relações de produção, que passaram do assalariamento a novas formas de exploração do trabalho, que vão da escravidão, pura e simples, até uma espécie de auto-subordinação-produtiva, adocicada pela linguagem tecnocrática como empreendedorismo. Para que ambas existam há uma premissa: o absoluto descontrole das relações de produção e trabalho. Esse descontrole nos faz viver num tempo em que formas originárias de acumulação se tornam predominantes em todos os setores da vida econômica.

Não vivemos mais o capitalismo, mas sim um momento de acumulação primitiva de outro tipo. Não se trata mais de capital, mas de formas de poder (econômico e político) assentadas no objetivo exclusivo de entesourar e ostentar. O ethos dominante dessa lumpemburguesia se afirma pela arrogância financeira da baixa política, a inocular nos indivíduos, segundo escreve Paulo Freire, o apetite burguês do êxito pessoal. A própria ideia de investimento desapareceu junto com a de planejamento. Essa foi a consequência da desregulamentação, da reestruturação produtiva e da desestatização. Se há um aspecto positivo nisso tudo, é que o futuro está em aberto: das duas uma, nos transformamos definitivamente em um Elysium ou rompemos com essa conduta para a qual não há futuro, não existe sociedade e muito menos desigualdade. A revolução burguesa, sempre e em todo lugar inconclusa, não é mais parâmetro para pensar a realidade.

O Congresso, apartado das demandas sociais, segue sob ocupação e direção dos inimigos do povo, eleitos majoritariamente pela conjugação do voto da desinformação, da instrumentalização das carências de muitos e do mau-caratismo dos que mentem de forma programática, com a (má) consciência da verdade que ocultam. A verdade sem retoques permanece: em 136 anos de uma república que nunca foi (a propósito, continua atual o livro Os bestializados, de José Murilo de Carvalho), a esquerda nunca esteve no poder. Estar no governo não significa estar no poder. No Brasil, o Congresso sempre esteve nas mãos da direita e sob o comando férreo das mãos invisíveis (nem tanto), mas sempre sujas do poder econômico. E o Judiciário? Desde quando há justiça no Estado burguês? E as Forças Armadas? Algum dia estiveram ao lado da classe trabalhadora?

Hoje temos o pior Congresso da história do Brasil. As exceções não alteram a regra venal. Um Congresso de perfil reacionário, antipovo, pautado pela extrema-direita. Dos governos com perfil de esquerda (mas sempre impedidos de governar), três foram golpeados pela direita e extrema-direita.

É preciso recorrer sempre à história e à memória com estratégia de luta e de sobrevivência. Como escreve Agnes Heller: a história é a substância da sociedade. A estupidez (tão bem instrumentalizada pela extrema-direita) se alimenta da falsificação da história, da destruição da memória, da afronta à cultura e do ódio ao pensamento, sobretudo do pensamento científico e filosófico. E o que nos cabe? Seguir na luta e no contracurso da dominação.

 

Fonte: A Terra é Redonda/IHU

 

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