Tuberculose:
a negligência é o que mata
As
chamadas Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) continuam a ser tratadas como
um “resto” da saúde pública — como se fossem um problema periférico,
inevitável, quase naturalizado. Essa nomenclatura esconde uma verdade incômoda:
não são as doenças que são negligenciadas, e sim as pessoas, os territórios e
as vidas marcadas pela pobreza estrutural, pelo racismo, pelo estigma e pela
exclusão histórica das políticas públicas.
A negligência não é um acidente: é um efeito
esperado de um sistema de exclusão que define quem terá cuidado, proteção e
futuro — e quem será deixado para trás. De acordo com a OMS, no mundo, ainda em
2023, 1,495 bilhão de pessoas precisaram de intervenções contra DTNs, e as
mortes relacionadas a essas doenças, embora em queda, permanecem na casa de
centenas de milhares (estimadas em 119 mil em 2021).
Essa
mesma lógica de exclusão se repete de modo emblemático na tuberculose (TB).
Mesmo com diagnóstico e tratamento conhecidos — e com oferta gratuita no SUS —
a TB segue persistente e letal onde o cuidado falha. Por isso, embora não seja
formalmente classificada como DTN, a tuberculose precisa entrar aqui: ela é
produzida pelos mesmos mecanismos que sustentam as DTNs (territorialização da
pobreza, insegurança alimentar, moradia precária, prisões, barreiras de acesso,
estigma). No plano global, o retrato é brutal: a OMS estima 1,23 milhão de
mortes por TB em 2024, incluindo 150 mil entre pessoas vivendo com HIV. A
contradição revela o núcleo do problema: comprar medicamentos não é o mesmo que
garantir cuidado, e acesso não se esgota na existência formal de um esquema
terapêutico. O que mata é a negligência.
É
indispensável trazer também a dimensão da pesquisa e desenvolvimento (P&D)
para o centro do debate político. Um artigo recente publicado na Frontiers in
Public Health, expõe o subfinanciamento estrutural da resposta global à
tuberculose: a P&D em TB permanece em torno de US$ 1 bilhão por ano, muito
abaixo da meta política de US$ 5 bilhões anuais; e, dentro desse quadro,
vacinas concentram o maior déficit — em 2023, o investimento combinado foi de
US$ 227 milhões, menos de 20% da meta de US$ 1,25 bilhão. Ao mesmo tempo,
existe um pipeline relevante, com 17 candidatas em ensaios clínicos, e um
compromisso internacional de acelerar a P&D e o “roll-out” de vacinas pré e
pós-exposição em cinco anos (prazo político para 2028).
A
pergunta, então, não é apenas “se” haverá inovação, mas em que condições ela
será financiada, governada e distribuída: até quando o mundo dirá que quer
eliminar a TB sem pagar o preço político e financeiro de uma inovação orientada
ao interesse público — e, quando paga, sem garantir que o resultado chegue como
bem comum?
<><>
Medicamentos viram negócio
A
bedaquilina, medicamento para tuberculose resistente, ilustra essa contradição
de forma concreta. O mesmo artigo lembra que tecnologias-chave para TB — como a
própria bedaquilina — contaram com forte participação de financiamento público,
mas ainda assim chegaram sob dinâmicas de monopólio e preço elevado, demandando
mobilização social por transparência e redução de preços. Essa leitura global
dialoga com o estudo de caso brasileiro sobre os obstáculos à produção pública
da bedaquilina, que mostra como monopólios e barreiras de PI distorcem preços e
ameaçam a sustentabilidade do acesso — e por que produzir no país é parte da
solução.
Por
isso, discutir negligência exige ligar três camadas que costumam ser separadas:
1) determinantes sociais e cuidado; 2) P&D e capacidade produtiva; e 3)
monopólios, preços e falta de transparência. O modelo privado tende a
negligenciar “doenças endêmicas de regiões pobres” porque elas não são os
mercados mais rentáveis; e a resposta não pode ser torcer para que a boa
vontade corporativa apareça. O que se impõe é um planejamento público de saúde
que vá do laboratório à capacidade produtiva: defesa da pesquisa pública
orientada ao interesse social, fortalecimento dos laboratórios oficiais,
produção local de insumos farmacêuticos ativos, medicamentos e tecnologias, e
enfrentamento dos monopólios farmacêuticos que inviabilizam o acesso.
No
Brasil, o monitoramento de preços e compras públicas feito pelo GTPI/ABIA, como
nas Tabelas Políticas, apresentado durante o 14º Abrascão, evidencia como os
preços elevados de medicamentos, os monopólios, os contratos opacos e as
escolhas políticas drenam recursos do sistema público. Cada real pago a mais em
medicamentos é um real a menos para equipes de saúde, busca ativa de casos,
acompanhamento contínuo, tratamento diretamente observado, assistência social e
cuidado integral.
A
Tabela Política de Tuberculose (2025), mostra discrepâncias importantes entre o
que o Brasil paga e os menores preços internacionais. No esquema básico, por
exemplo, o país paga R$ 443,52 enquanto preços internacionais de referência
indicam valores em torno de R$ 206,08. Preços inflados não são um detalhe
técnico: eles ameaçam a sustentabilidade do SUS e aprofundam desigualdades no
acesso.
A
política de acesso a medicamentos, quando dissociada da política de cuidado,
produz uma ilusão perigosa: a de que basta comprar para garantir acesso. Não
basta. Não existe tratamento efetivo sem água potável, coleta de lixo regular,
saneamento, moradia digna, alimentação adequada e renda — essas condições não
são “determinantes externos” abstratos; são parte constitutiva da política de
saúde. E a experiência do cuidado — marcada por estigma, discriminação e
relações desiguais entre serviços e usuários — interfere diretamente na adesão
e perpetua ciclos de exclusão social, como vemos na tuberculose e em tantas
DTNs. Quando o Estado paga caro e paga mal, falta recurso para o que salva
vidas: vínculo, cuidado contínuo e proteção social, além das condições materiais
de existência.
<><>
Uma luta pela vida
Não se
trata apenas de combater doenças. Trata-se de defender a vida, a democracia e o
direito à saúde como princípio inegociável. Defesa da pesquisa pública
orientada para o interesse social, fortalecimento dos laboratórios oficiais,
produção pública e enfrentamento dos monopólios farmacêuticos que inviabilizam
o acesso. Não existe tratamento efetivo sem condições dignas de vida. Por isso,
insistir apenas na compra de medicamentos, sem enfrentar preços abusivos,
desigualdades estruturais e falhas no cuidado, é insuficiente — e, em certa
medida, cúmplice da reprodução dessas mortes.
É nesse
contexto que o Programa Brasil Saudável – Unir para Cuidar (2024) representa um
avanço ao reconhecer que tuberculose, hanseníase e outras doenças de
determinação social só podem ser enfrentadas com políticas intersetoriais,
integrando saúde, assistência, moradia, saneamento e combate à pobreza.
Trata-se de uma resposta construída a partir de reivindicações históricas dos
movimentos sociais e com potencial de se tornar referência internacional.
No
entanto, causa perplexidade que um programa dessa envergadura não ocupe lugar
central na agenda política do governo, nem do Ministério da Saúde, tampouco
conte com orçamento garantido e execução efetiva. Sem prioridade política,
recursos sustentáveis e compromisso institucional, corre o risco de se tornar
letra morta, como denuncia a Carta
Aberta “Por um Brasil Saudável para Todas, Todes e Todos” publicada em agosto
de 2025.
Enquanto
a política de saúde não for integral — enfrentando preços abusivos,
desigualdades estruturais e condições de vida — continuaremos comprando
medicamentos e enterrando pessoas.
Fonte:
Por Susana Van Der Ploeg, em Outra Saúde

Nenhum comentário:
Postar um comentário