Jessé
de Souza e a vingança dos desprezados
No
livro O Pobre de Direita o sociólogo Jessé de Souza afirma que não é a falta de
racionalidade, nem a religião e costumes conservadores e nem mesmo a condição
econômica de pobreza (como afirmam “alguns marxistas”) que explicam o motivo de
considerável parcela das classes populares terem votado duas vezes em
Bolsonaro, o mais radical representante das classes dominantes exploradoras do
povo, com quem só têm a perder e nada a ganhar.
Defende
que as pessoas têm como razão última de sua ação social a dimensão moral, a
luta por reconhecimento social que garante autoestima e auto confiança.
Afirma:
“Somos seres frágeis e vulneráveis, construídos pela visão positiva ou negativa
que a sociedade possui de nós. Essa necessidade é mais primária e importante
que qualquer outra, é a partir dela que devemos nos inquirir quando, muito
especialmente, as pessoas ‘aparentemente’ agem sob a ética de utilidade
econômica contra seus melhores interesses”.
Como já
se viu de seus livros anteriores como “A Elite do Atraso” (ver resenha) Jessé
divide a sociedade brasileira em quatro grupos que ele chama “classes”. A elite
proprietária (1% da população); a classe média “real”, que não vai além de 20%;
a classe trabalhadora precária, segundo ele, chamada equivocadamente de “nova
classe média”, 40%; e, abaixo de todos, os pobres de tudo, desprezados e
humilhados, que chama de ralé, que representam outros 40% da população.
Como
são minoritárias, a elite e a classe média “real” não elegem ninguém em
eleições majoritárias. Precisam dos votos dos 80% de explorados e oprimidos.
Como conseguem, é o que ele tenta explicar.
Para
isso, apresenta um outro corte da sociedade, que opõe os brancos do Sul (Rio
Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná) e São Paulo, aos negros e mestiços do
restante do país.
80% da
população do Sul se compõem de brancos, de origem europeia, principalmente
italianos e alemães. 60 a 70% da população de São Paulo também são brancos. 80%
da população do Nordeste e Norte são negros ou mestiços.
(Ver
mapas do Brasil a partir da página 93 com dados sobre a população, localizando
a cor, a raça, a religião em cada estado. E em cada região, como votou o
eleitorado nas três últimas eleições presidenciais).
Essas
diferenças alimentam o que o autor chama de “racismo regional”, muito voltado
contra os nordestinos. Este é um disfarce do racismo cultural que é um traço
indelével da sociedade resultante da escravidão, por 350 anos o motor da
produção e a chaga do Brasil. Jessé, até porque é potiguar e moreno, deve saber
do que está falando.
Nessa
sociedade, assim dividida pelo preconceito, os pobres, negros e mestiços
convivem cotidianamente com a humilhação. E o mais grave, não conhecem as
causas profundas de seu sofrimento, cujo pano de fundo é o capitalismo
financeiro mundial, que enriquece meia dúzia às custas de bilhões de
empobrecidos.
Vivendo
numa sociedade em que o modo de produção é o capitalismo neoliberal, os
explorados e oprimidos são induzidos a aceitar a propaganda do sistema que
inventou equações e números para criar a impressão de que na economia há uma
neutralidade técnica traduzida por números e ciências exatas. Diz o autor: “O
que imaginamos ser econômico de modo moralmente neutro é a presunção de que uma
forma muito específica de produzir e distribuir lucros se torna algo “natural”,
aparentemente sem alternativa possível (…) tudo foi montado para não se ver que
toda forma de produção e de circulação de bens já é prenhe de determinada
definição de justiça que diz que alguns vão ter tudo e os outros nada ou muito
pouco. O que importa é saber quem ganha e quem perde com essa definição de
justiça”.
Mas
essa realidade não é divulgada pelos grandes meios de comunicação de massa,
comprados pelo capital, portanto não está presente aos olhos dos trabalhadores.
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O Coringa é o pobre de direita
A
autoestima propiciada por uma ideia positiva sobre si é sempre mediada pela
percepção dos outros sobre nós. Sem ela, já estamos derrotados na competição
social. As doenças da época, depressão e alcoolismo são causadas pela falta de
autoestima e autoconfiança – emprego mal pago, trabalho precário, culto aos
ricos, ódio aos pobres, corte de gastos sociais, desorientação e falta crônica
de esperança. O novo oprimido encontra-se sozinho e sem defesa. Não tem mais os
sindicatos ou associações sociais que o apoiem. O insucesso não é visto por ele
como resultado do sistema, mas como fracasso pessoal. Ele se sente culpado pelo
seu fracasso. Talvez esse seja o subproduto mais importante da guerra aos
sindicatos promovida pelo capital financeiro desde 1980.
Quando
a realidade se torna insuportável, a saída é a fuga na fantasia e na
imaginação. O autor sugere como exemplo desse desajuste a figura do Coringa,
personagem do cinema conhecido pelo grande público. Humilhado e desprezado por
todos, até pela sua mãe, em casa, na rua, no metrô, ele se refugia na fantasia
e acaba numa revolta sem rumo, cheia de violência.
A elite
proprietária e a classe média “real” não vivem essa experiência. A primeira, 1%
da sociedade brasileira, concentra a riqueza. A classe média branca, 20% da
população, de origem europeia, se apropria do capital cultural e comanda a
sociedade, em nome dos proprietários, na economia, na política e na esfera
pública. Não há como competir. A grande maioria, os 80% restantes, excluídos
das benesses do sistema, se dividem entre classe trabalhadora precarizada e a
ralé de marginalizados.
Os 40%
representados pela classe trabalhadora precarizada pelo sistema financeiro
apresentam contextos familiares mais estáveis, embora com dificuldades. Há
estímulo pela escola, mas em geral conseguem frequentar uma escola de baixa
qualidade, que produz aptidão social e profissional para empregos “uberizados”,
cargos intermediários no serviço público, policiais e militares, pequenos
empreendedores. Seus ganhos ficam entre 2 e 5 salários mínimos. É o pobre
remediado, carente de tudo um pouco, mas sem fome e com apoio familiar básico.
Já os
40% marginalizados vivem o aqui e agora, o almoço de hoje, ausência de futuro.
Empregos pesados como os dos antigos escravos. As mulheres são como escravas
domésticas. Ênfase no trabalho muscular. São desumanizados e animalizados,
produzidos intencionalmente para serem explorados e humilhados numa
continuidade da sociedade escravocrata. A polícia foi criada para perseguir,
humilhar e matar essa classe, quase toda preta e mestiça, sob aplauso das
classes privilegiadas. Diz Jessé: “se for preto e pobre, é bandido – simples
assim”. Em uma sociedade tão desigual pode-se justificar todo o esquema injusto
e conferir a culpa à própria vítima.
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O pobre remediado
O autor
chega ao objeto central do livro, o pobre remediado, a classe trabalhadora
precarizada. Esse setor da sociedade vive uma fragilidade social. Aspira a ser
como a classe média, idolatra a elite, assume seus pontos de vista e
preconceitos sem se dar conta de que essa falsa moralidade foi formulada contra
ele. E se afirma juntando-se ao desprezo com relação aos mais pobres, a ralé,
vista como um abismo onde teme cair.
Os
brancos pobres remediados representam 70 a 80% do eleitorado do Sul e cerca de
60% do eleitorado de São Paulo. Pelo fato de não terem tido a mesma
oportunidade de se formar culturalmente, e de terem suas aspirações
profissionais frustradas, alimentam um ressentimento, sentem-se injustiçados.
Para o
pobre “honesto” e “homem de bem”, a moralidade – falsa e fabricada contra ele
próprio – passa a ser tudo. Como a maior vulnerabilidade é a necessidade de
autoestima e reconhecimento social, qualquer boia de salvação moralista chega
em solo fértil. É a razão mais importante do sucesso da pregação moralista e
conservadora dos evangélicos. Vai dar a essas pessoas carentes de respeito
social um fundamento para que possam se orgulhar de si mesmas, como “homem de
bem”, “pai de família”. Sentem-se acolhidos como participantes de uma
comunidade, ouvidos e influenciados politicamente.
Na
hipótese de trabalho do autor o fator decisivo para esse segmento social aderir
à direita é o racismo “racial” disfarçado de racismo regional. Daí a fúria
contra o Nordeste e os nordestinos, provocada pela derrota de Bolsonaro,
disseminada por conservadores nas redes sociais.
Pois,
como mostram as entrevistas realizadas pelo autor no Sul e em São Paulo, em
geral aspiraram profissões na classe média, mas se frustraram, sendo obrigados
a ocupar trabalhos secundários. Como o jovem gaúcho de porte atlético que vem
da classe média decadente e não conseguiu reproduzir a trajetória de seus
ascendentes. Ele foi reprovado em inúmeros exames para ser policial federal.
Apenas conseguiu ser guarda penitenciário, onde se ocupa em espancar e torturar
prisioneiros.
O
exemplo mais significativo desse processo de alienação da realidade vem de
Concórdia, Santa Catarina. Um brasileiro, descendente de alemães de terceira
geração, mas que ainda se considera alemão, o que mostra desprezo pela condição
de brasileiro. Lembra com orgulho que seu avô foi um ardoroso simpatizante do
nazismo. Subgerente de uma loja de materiais de construção, ganha cerca de 5
mil reais por mês, mas assume a postura de quem pertence à elite econômica e
cultural. Mora em um quarto e sala do prédio da loja, que pertence a seus tios.
Queria ser administrador de empresas. Tentou várias universidades públicas, mas
não conseguiu aprovação. Racionaliza dizendo que a vida prática no trabalho
ajuda mais que os estudos na universidade. Na região todos que não são de
origem europeia são chamados “bugres” desde o tempo da guerra do Contestado
(1912-1916). É por esse apelido desdenhoso que ele trata quase “carinhosamente”
a funcionária que é caixa da loja.
Concórdia
tem falta de mão-de-obra e recebe trabalhadores de fora, haitianos, negros,
nordestinos. O entrevistado tratava muito mal um funcionário haitiano até que
este reuniu amigos e bateram nele. O rapaz foi demitido. Comentando esse fato,
disse: “não sou racista, tenho amigos e empregados negros. Agora, que os caras
são lentos e sem disciplina, isso é inegável. Nossa cultura é do trabalho e
disciplina. A cultura negra é a da festa, da dança, da preguiça e do barulho,
não do trabalho”.
Mas os
piores para ele são os nordestinos. O Sul e o Sudeste produzem as riquezas e os
nordestinos se aproveitam de uma riqueza para a qual não contribuíram. Diz: “os
nordestinos só fazem filho para poder receber do governo. Eu gostaria de poder
entrar no Nordeste usando passaporte, entendeu? Como qualquer estrangeiro”. Ele
explica que quando fala de querer passaporte para poder ir ao Nordeste é para
poder aproveitar as coisas boas de lá, sem que seja o nordestino quem diga quem
vai comandar o país. “É só dar alguma vantagem que eles passam a te seguir como
um cãozinho. Foi isso que o Lula fez”. Conta que votou duas vezes em Bolsonaro.
“Eu acho ele parecido com a gente. É um dos nossos (…) 90% da comunidade daqui
é Bolsonaro”.
Há uma
série de outras entrevistas, muito reveladoras. Todas têm em comum a
frustração, o sentimento de que foram injustiçados e de que Bolsonaro é igual a
eles e os representa. Para o autor, “o ressentimento social é a procura de um
culpado externo para a sensação do fracasso objetivo daqueles que não possuem
nem capital econômico nem cultural legítimo”.
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O negro evangélico
Segundo
Jessé, também muitos negros, sobretudo evangélicos, votaram duas vezes em
Bolsonaro, que “é um racista da velha escola, que faz piada com os negros”. Por
que um negro pobre votaria nele? A explicação: o pentecostalismo, versão
popular do protestantismo, criada nos Estados Unidos, desenvolveu uma versão
que valoriza a tradição negra, a oralidade da liturgia, testemunhos orais,
inclusão do êxtase, sonhos e visões, xamanismo religioso, coreografia e muita
música nos cultos.
É uma
manifestação religiosa que se dirige aos desterrados, humilhados e imigrados.
São pessoas que não se sentem pertencentes à realidade social, visto que ela os
humilha e não reconhece. Nasceu assim uma religião para os abandonados e
excluídos. Essa versão religiosa se disseminou rapidamente no Brasil, em várias
ondas.
A
terceira onda teve início nos anos 1970 e seu principal protagonista é a Igreja
Universal do Reino de Deus. A novidade de sua pregação está no exorcismo dos
demônios. É a luta direta entre Deus e o demônio. É uma guerra. Particularmente
voltada contra as religiões de raiz africana, o umbandismo, candomblé etc.
Na
verdade, trata-se de uma “antropofagia” da fé inimiga. Opera da mesma forma com
o transe religioso, com a incorporação dos espíritos (no caso, demônios) ao
corpo da pessoa em transe. Demônio que o pastor expulsa significando a vitória
da “língua de fogo” do Espírito Santo. O enorme crescimento da IURD demonstra o
sucesso de sua pregação entre os mais humildes, os desprezados, abandonados
pela sociedade e pelo Estado.
O
neopentecostalismo se alimenta do racismo existente que criminaliza os negros e
todas suas práticas, inclusive as religiosas. Assim, opina o autor, o
neopentecostalismo é ideal para quem pretende “embranquecer”. Que implica
estigmatizar o negro, seu vizinho, seu irmão, e sua criminalização.
Nas
expressivas entrevistas que o livro apresenta com negros evangélicos está
presente o moralismo evangélico que se manifesta no apoio a Bolsonaro, “o mal
menor”, no repúdio a Lula e ao PT. “Querem destruir a sociedade, liberar a
maconha”. A crítica aos LGBTmais, ao feminismo “as mulheres querem ganhar o
mesmo salário que os homens” etc.
Nessas
manifestações transparece que o negro, desumanizado pelas classes melhor
posicionadas na escala social, encontra acolhimento na igreja evangélica,
sente-se fazendo parte de uma comunidade, “homem de bem”, que “embranquece” um
pouco. A rígida moralidade evangélica lhe dá a justificativa moral. A
superioridade que sente em relação aos outros negros lhe dá o sentimento de
pertencimento.
Na
conclusão o autor afirma: “para cada negro que “embranquece” existe um negro
que será ainda mais hostilizado, agora também por seus irmãos de cor. Como as
oposições visíveis são sempre ‘moralistas’ – como a salvaguarda da família –
não chega à consciência do negro oprimido (que quer embranquecer) o conteúdo
profundamente racial do preconceito original (antes da canalização e
mascaramento pseudomoralista) em jogo aqui. Ele, como diria Cartola, cava sua
tragédia com os próprios pés”.
Fonte:
Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

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