Mudanças
climáticas aumentam riscos na mineração
Debruçada
sobre tabelas, números e abreviações, Daniela Campolina transforma dados
públicos em boletins compreensíveis sobre a mineração no país. Foi decifrando
essas informações que ela se impressionou quando percebeu o que Congonhas (MG)
guardava: 81 milhões de metros cúbicos de rejeitos em barragens.
O
volume é 27 vezes maior do que o total barrado nas mesmas estruturas em
Brumadinho atualmente. Supera em sete vezes o que vazou da unidade da Vale em
2019, quando 272 pessoas morreram soterradas pela lama.
"O
grande volume acumulado faz com que os riscos sejam amplificados, exigindo
atenção especial",
dizia um trecho do boletim publicado pelo Grupo de Ensino, Pesquisa, Educação,
Mineração e Território, da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG), de janeiro de 2025, do qual Campolina faz
parte.
Um ano
depois, a ameaça partiu não de barragens tradicionais, mas de um outro tipo de
contenção usada na mineração, o sump. Ele funciona como uma piscina escavada
para armazenar água e conter sedimentos levados pela chuva.
Num
período de 24 horas, dois episódios de uma enxurrada de água turva foram
registrados dentro de unidades da Vale. Em um deles, uma enxurrada invadiu a
área da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e foi parar no córrego que cruza o
centro de Congonhas.
A
empresa alegou que chuvas extremas levaram ao extravasamento de sumps para
áreas fora do previsto. Em 25 de janeiro, o incidente ocorreu na mina de
Fábrica, na divisa entre Congonhas e Ouro Preto. No dia seguinte, foi na
unidade Viga, em Congonhas.
"Quando
a mineradora vai fazer o licenciamento, ela fala que está super preparada para
isso. Mas aí na hora que começa a chover e acontece algo, a culpa é da
chuva", critica Campolina.
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"O que eu vi me chocou muito"
João
Lobo, secretário de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Congonhas, disse à
DW ter se impressionado com o que viu no terreno da Vale durante a
fiscalização. Encontrou grande quantidade de material arrastado, marcas de água
que chegavam à altura aproximada de 1,60 metro, árvores arrastadas.
"A
chuva por si só não justifica o que aconteceu. Houve realmente uma falta de
atenção à manutenção, à qualidade dessas estruturas", diz Lobo à DW.
A
estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mais próxima a essas
cidades fica em Ouro Branco, a 25 quilômetros de Congonhas. À DW, o órgão
informou que 100 milímetros de chuva foram registrados entre 23 e 27 de janeiro
na região. Na comparação, o total ficou abaixo da média histórica para o mês.
Segundo
a prefeitura, nas primeiras horas do domingo de 25 de janeiro, às 1h40,
trabalhadores da CSN viram uma onda de 1,5 metro atingir o almoxarifado. A água
turva correu depois por córregos até chegar ao rio Maranhão, que corta
Congonhas e deságua no rio Parauapebas – já afetado pelo rompimento de 2019 em
Brumadinho.
"Por
sorte, era um domingo de madrugada. Porque o impacto poderia ter arrastado
pessoas", afirma o secretário.
A
prefeitura soube às 11h da manhã por um trabalhador da CSN que algo havia
acontecido na Vale e atingido a empresa vizinha. Durante a fiscalização, as
autoridades municipais dizem ter avistado uma estrutura de contenção rompida.
Ela protegia um sump de grande dimensão na mina de Fábrica, na divisa entre
Congonhas e Ouro Preto.
Enquanto
ainda estavam na empresa, um outro rompimento ocorria. Mas as autoridades
municipais só tomaram conhecimento durante a noite por meio de uma denúncia de
um morador. Quanto foram à unidade da Vale, constataram que 186 pequenos sumps
dos 250 construídos na mina Viga teriam registrado problemas.
"O
segundo incidente nos chocou muito. O nível de impacto que a gente percebeu em
campo foi mais preocupante do que o do primeiro", narra Lobo.
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Ponto cego na legislação
Não
existe uma lei que obrigue as mineradoras a monitorar e divulgar as condições
de estruturas como diques e sumps. No Brasil, a Política Nacional de Segurança
de Barragens (PNSB), regulamentada em 2022, foi criada para reduzir as chances
de desastres como os vistos em Mariana , em 2015, e Brumadinho, em 2019.
O
sistema, alimentado por informações fornecidas pelas próprias empresas, lista
611 barragens de rejeitos de mineração no Brasil. Das 128 cadastradas em Minas
Gerais, a maioria (85) tem potencial de dano associado – 30 delas estão dentro
de minas da Vale.
"Como
as pessoas não têm noção de que novos rompimentos podem acontecer, inclusive em
territórios já atingidos, nós começamos a mapear o padrão de distribuição de
barragens", explica Campolina, ressaltando a proximidade preocupante de
muitas delas.
Mas a
PNSB não prevê o monitoramento de outras estruturas usadas na mineração, como
cavas, sumps e diques, explica Carlos Barreira Martinez, professor do Instituto
de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Itajubá (Unifei). "De
certa forma é um pecado cometido, mas pode ser corrigido. À medida que as
coisas vão acontecendo, a gente vai adaptando a legislação", comenta ele.
Campolina,
pesquisadora na UFMG, questiona até os termos usados na indústria. Pelas
imagens que analisou, a cava de onde a água teria extravasado no primeiro
incidente tem um barramento.
"É
uma cava exaurida que possui barramento para conter sedimentos, ou seja, uma
barragem de mineração. Então a gente está tendo uma disputa aqui, inclusive de
termos técnicos", questiona.
Maria
Teresa Corujo, ambientalista e fundadora do Movimento Pelas Águas e Serras de
Minas, relembra o rompimento em uma cava que armazenava rejeitos e matou cinco
trabalhadores na mineradora Rio Verde, em Nova Lima, em 2001.
"Em
Brumadinho, depois do rompimento, a Vale pode colocar parte dos rejeitos
recuperados numa cava. Seja cava mal operada, mal monitorada, seja sump, ela
também tem sido usada para segurar sedimentos", critica Corujo.
<><> E as mudanças climáticas?
O
aumento de chuvas cada vez mais extremas, provocado pelas mudanças climáticas ,
preocupa quem acompanha os impactos socioambientais da mineração. Até o governo
mineiro decidiu rever em 2025 o seu plano de enfrentamento ao período chuvoso
por causa da elevação das ocorrências.
"Minas
Gerais tem as barragens de mineração mais antigas do Brasil. Nem existia
política voltada para isso naquela época. Se os planos de novos empreendimentos
não consideram as mudanças climáticas, imagine os construídos no passado",
pontua Campolina.
Diante
da intensificação de eventos climáticos extremos, tudo precisaria ser
reavaliado, argumenta Martinez. Professor com longa trajetória, ele acompanha
de perto a indústria e afirma que diversas mineradoras vêm revisando, de
maneira reservada, parâmetros de projeto, operação e segurança para incorporar
cenários climáticos mais severos.
"Muitas
estão promovendo a descaracterização de barragens. Será necessário refazer os
cálculos. Extravasores, por exemplo, terão de ser reprojetados para suportar
esse novo cenário", afirma.
Ninguém
sabe exatamente o que pode acontecer quando uma chuva extrema cair, por
exemplo, sobre pilhas de estéreis. Essas estruturas acumulam material
"seco" removido da mina, sem valor econômico, que se deposita ao
longo do tempo e forma grandes maciços, frequentemente semelhantes a pirâmides.
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Investigação em andamento
A
dimensão dos impactos ambientais causados pelos episódios de extravasamento em
Congonhas é desconhecida. Um relatório está sendo elaborado pelas autoridades
municipais.
Diante
do vácuo da legislação federal, a cidade se prepara para discutir regras
específicas sobre pilhas de rejeitos, diques e sumps. O fórum temático está
programado para março.
À DW, a
Vale afirmou que apura a causa dos extravasamentos e que "os aprendizados
extraídos serão imediatamente incorporados aos planos de chuva da
companhia".
A
prefeitura de Congonhas decidiu suspender o alvará de funcionamento das duas
minas envolvidas no incidente. Com isso, a Vale fica impedida de emitir notas
fiscais e comercializar o minério que sai das unidades, explica Lobo.
Fonte:
DW Brasil

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