Álcool:
é possível evitar o consumo precoce
O
consumo de álcool entre crianças e adolescentes segue como um dos principais
desafios de saúde pública no Brasil. Embora pesquisas recentes indiquem
mudanças geracionais nos padrões de consumo, o impacto sobre o SUS, a
persistência do uso abusivo e as dificuldades na implementação de políticas de
prevenção revelam um cenário complexo.
À
frente de estudos que avaliam programas governamentais nessa área, a professora
Zila Sanchez, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista
de Medicina (Unifesp), sustenta que apenas intervenções fundamentadas em
evidências científicas são capazes de produzir efeitos reais e duradouros.
Os
efeitos do consumo de álcool extrapolam as estatísticas diretas de dependência.
Agressões, acidentes, comportamentos de risco e violências associadas ao uso da
bebida, além de cânceres e inúmeras outras doenças crônicas não transmissíveis,
geram uma sobrecarga contínua para o Sistema Único de Saúde.
Essas
consequências nem sempre são contabilizadas como prejuízos causados pela
bebida, mas impactam diretamente os serviços de saúde. Internações,
atendimentos de urgência e sequelas físicas e mentais ampliam custos e
pressionam uma rede já tensionada, especialmente quando o consumo se inicia de
forma precoce.
<><>
Padrões de consumo
O III
Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) revela um quadro que exige
atenção: cerca de 40% dos brasileiros com 14 anos ou mais consomem álcool;
aproximadamente 11% apresentam uso abusivo, e 5,7% dos adolescentes já têm
transtorno por uso de álcool. Embora outros levantamentos, como o relatório
Covitel de 2023, indiquem que jovens da geração Z bebem menos, Zila alerta para
leituras simplificadas desses dados.
“Não
significa que eles não bebam, mas que o padrão mudou”, explica. Atualmente,
observa-se menor frequência de consumo e maior concentração em episódios
pontuais, marcados pelo uso de destilados baratos e em grandes quantidades.
“Temos trabalhado muito com adolescentes do interior de São Paulo em um estudo
financiado pela FAPESP. O que identificamos é que hoje eles bebem o ‘copão’ de
700 ml, na frente da adega, contendo destilado barato e uma mistura de outras
bebidas. O controle de venda praticamente não existe, inclusive, o próprio
vendedor é adolescente em alguns casos”, relata Zila.
A
recente crise envolvendo bebidas adulteradas com metanol explicitou a
fragilidade do controle sobre o acesso ao álcool. A falsificação sempre
existiu, mas o uso de metanol elevou o risco a um patamar inédito. Entre
adolescentes, o medo foi imediato: por algumas semanas, muitos evitaram
destilados. O efeito, no entanto, foi passageiro. “O impacto é curto, não muda
comportamento no longo prazo”, afirma Zila. A facilidade de compra por
aplicativos de entrega, sem qualquer checagem de idade, agrava o problema e
neutraliza avanços legais, como o endurecimento das penas para a venda de
álcool a menores.
<><>
Foco em prevenção
A
principal linha de pesquisa de Zila Sanchez é a avaliação de programas já
implementados pelo poder público. Nos últimos anos ela foi responsável pela
avaliação de dados dos principais programas de prevenção ao uso de drogas do
Brasil. No caso do Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à
Violência) da Polícia Militar, presente em cerca de metade das escolas
brasileiras, os estudos apontaram ausência de efeito na redução do uso de
álcool e, entre adolescentes mais velhos, até aumento do consumo episódico
pesado. Falhas de adaptação cultural, limitações estruturais das escolas e
desvios na implementação ajudam a explicar esses resultados.
O
programa #Tamojunto, implementado no Brasil desde 2013 como uma adaptação
brasileira do europeu Unplugged, tornou-se um caso emblemático. A versão
original apresentou redução no consumo de álcool, mas as alterações feitas no
Brasil – mudando o foco de “não uso” para redução de danos para adolescentes
que ainda não bebiam – resultaram em aumento de 30% na experimentação. “A
redução de danos não funciona da mesma forma para menores de idade. Para esse
grupo, que está em fase de desenvolvimento, não existe dose segura e falar em
redução de danos aumentou o interesse na experimentação entre os que não
bebiam”, afirma a pesquisadora. O programa, atualmente disseminado pela Senad
(Secretaria Nacional de Política sobre Drogas e Gestão de Ativos), voltou à
versão original e demonstra redução de 22% na experimentação entre adolescentes
brasileiros.
Já o
Famílias Fortes, hoje também disseminado pela Senad, voltado ao fortalecimento
das habilidades parentais, um dos principais fatores de proteção ao uso de
álcool por adolescentes, apresentou resultados positivos, como a redução da
negligência parental e o aumento da disciplina não violenta. Segundo Zila, o
programa exemplifica como intervenções bem desenhadas podem atuar sobre fatores
de proteção centrais, como vínculo familiar, comunicação e definição de
limites.
<><>
Da Saúde para a Justiça
A
partir de 2023 a prevenção ao uso de álcool e outras drogas migrou do
Ministério da Saúde para o Ministério da Justiça, no âmbito da Secretaria
Nacional de Políticas sobre Drogas, sem manter coordenação conjunta de
programas de prevenção com o Ministério da Saúde, como ocorria no passado. Para
Zila, essa mudança e segmentação da política dificulta a consolidação de uma
abordagem baseada em princípios da saúde pública.
“Entendemos
que a prevenção ao consumo de substâncias por adolescentes é uma questão social
e de saúde, não necessariamente uma responsabilidade do setor Justiça. É
essencial o envolvimento do Ministério da Saúde na disseminação dos programas
efetivos ”, defende. Além disso, a fragmentação entre União, estados,
municípios e escolas, somada à descontinuidade a cada troca de governo, impede
que programas de prevenção se consolidem como políticas de Estado.
Nesse
contexto, a pesquisadora destaca o papel da universidade pública: avaliar,
corrigir rumos e indicar o que funciona ou não. “Sem ciência, corremos o risco
de gastar recursos em intervenções ineficazes ou até prejudiciais”, afirma. Em
um país onde o álcool segue sendo a substância mais consumida por adolescentes,
transformar evidências científicas em políticas públicas efetivas permanece
como um dos maiores desafios para o SUS e para a sociedade.
Fonte:
Por Carol Ito, em Outra Saúde

Nenhum comentário:
Postar um comentário