Rinovírus
pode se esconder em células nas amígdalas e isso pode ser positivo; entenda
hipótese de estudo da USP
Pesquisadores
da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, identificaram um
comportamento até então desconhecido do rinovírus (RV), principal causador do
resfriado comum. O estudo mostrou que o vírus não apenas circula nas vias
aéreas, mas também infecta e se multiplica dentro de células de defesa
linfócitos B e T CD4, localizadas nas amígdalas e adenoides de crianças.
A
descoberta foi publicada na revista científica "Journal of Medical
Virology" e muda a percepção sobre o vírus. Até então, acreditava-se que o
rinovírus se limitava principalmente às células da superfície da mucosa
respiratória.
"Nossa
hipótese é que isso seja algo positivo. Funciona como um reforço da memória
imunológica, o que faz com que anticorpos continuem a ser produzidos mesmo após
longos períodos da exposição inicial”, avaliou Enrico de Arruda, coordenador da
investigação, em entrevista à Agência Fapesp.
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O “esconderijo” do vírus
A
equipe analisou amostras de 293 crianças que passaram por cirurgia para
retirada das amígdalas ou adenoides devido ao crescimento excessivo desses
tecidos. Quase metade delas (46,7%) apresentava o vírus, mesmo sem ter tido
sintomas de resfriado por pelo menos um mês antes da operação.
Ao
examinar os tecidos em laboratório, os pesquisadores confirmaram que o vírus
estava em processo ativo de replicação.
“Nossos achados demonstram que o rinovírus
infecta linfócitos T e B, sugerindo que as tonsilas (amígdalas e adenoides)
podem servir como sítios de infecção prolongada”, aponta o estudo.
Essas
células têm vida longa e guardam a chamada “memória imunológica”. Em vez de
destruí-las, o rinovírus pode permanecer dentro delas por longos períodos, em
um estado de persistência semelhante à latência observada em vírus como herpes,
HPV e citomegalovírus.
“Tenho a impressão de que qualquer vírus comum
que formos procurar vamos encontrar. E não só nas amígdalas e adenoides, mas
também em outros tecidos linfoides do organismo, como linfonodos e gânglios. Já
temos algumas evidências preliminares de que os tecidos linfoides são uma
espécie de ‘horta’ de vírus”, avaliou Enrico de Arruda, coordenador da
investigação, em entrevista à Agência Fapesp.
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O que é o rinovírus?
O
rinovírus é responsável pela maioria dos resfriados comuns. Os primeiros
sintomas costumam ser coceira no nariz ou irritação na garganta. Depois de
algumas horas, surgem espirros e secreção nasal.
A
congestão nasal também é frequente. Diferentemente da gripe, no entanto, a
maioria dos adultos e crianças não apresenta febre ou tem apenas febre baixa.
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Por que isso é importante?
A
capacidade do vírus de permanecer em tecidos do sistema linfático pode ajudar a
explicar dois fenômenos.
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Transmissão silenciosa:
• Crianças
sem sintomas podem continuar eliminando o vírus e infectando outras pessoas,
funcionando como reservatórios silenciosos.
• O
estudo não incluiu acompanhamento para avaliar a transmissão secundária. No
entanto, a detecção do rinovírus em tecidos tonsilares de crianças
assintomáticas levanta a possibilidade de que esses indivíduos possam servir
como fontes de excreção viral silenciosa.
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Relação com a asma:
• A
presença do vírus nessas células de defesa estimula a produção de substâncias
inflamatórias, como as citocinas IL-17 e TNF-α. Isso pode estar associado ao
agravamento de crises de asma em crianças.
• Segundo
os pesquisadores, a retirada cirúrgica desses tecidos costuma resultar em
melhora significativa do quadro asmático em alguns pacientes, o que reforça a
hipótese de que o vírus possa contribuir para a inflamação das vias
respiratórias.
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Metodologia
Para
garantir a precisão dos resultados, os cientistas adotaram critérios rigorosos.
Crianças com sintomas de resfriado ou que haviam usado antibióticos no mês
anterior à cirurgia foram excluídas do estudo, assegurando que os casos
analisados eram assintomáticos.
Durante
os procedimentos cirúrgicos, foram coletados fragmentos das amígdalas e
adenoides, além de amostras da nasofaringe por meio de swabs.
O
diferencial do trabalho foi o uso de técnicas avançadas de microscopia e
biologia molecular para demonstrar que o vírus estava vivo e infectante dentro
das células de defesa. Para evitar confusão com vírus semelhantes, os
pesquisadores também excluíram amostras que continham enterovírus, isolando
especificamente o efeito do rinovírus.
Fonte:
g1

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