Celso
Pinto de Melo: A crise brasileira e a reconstrução da Escola
Há
momentos históricos em que sociedades percebem que a escola pública não pode
continuar a ser tratada como um mero serviço administrativo do Estado. Em
contextos de reconstrução nacional, transições econômicas profundas ou risco de
fragmentação social – como ocorreu na Finlândia e no Japão no pós-guerra, ou na
Coreia do Sul após o conflito coreano – a educação passa a ser vista como
infraestrutura estratégica de coesão social, mobilidade e pertencimento cívico,
e não apenas como política setorial.
Quando
a desigualdade social é profunda, o direito formal à educação torna-se
insuficiente. Crianças entram pela mesma porta da escola, mas saem para mundos
radicalmente distintos. Nessas condições, a escola deixa de ser um espaço de
encontro e passa a operar como um mecanismo silencioso de triagem social. Não é
apenas a mobilidade que se rompe, mas sim a própria ideia de comunidade
política compartilhada.
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Quando a desigualdade se torna problema de sistema
Foi
diante desse dilema que alguns países, ao longo da segunda metade do século XX,
decidiram enfrentar a desigualdade educacional não como fatalidade histórica,
mas como falha de arquitetura institucional. A pergunta que se colocaram não
foi simplesmente “como melhorar a educação”, mas algo mais incômodo: que tipo
de desigualdade o sistema escolar está autorizado a produzir e legitimar?
A
experiência da Finlândia é emblemática. Até meados do século passado, o país
mantinha um sistema educacional dual, seletivo e socialmente estratificado. A
reforma iniciada no final dos anos 1960 não resultou de entusiasmo pedagógico
abstrato, mas de uma decisão política clara: não é aceitável que o destino
educacional – e, por extensão, social – seja definido cedo demais. A resposta
foi a construção de uma escola comum, longa e exigente, sustentada por
investimento deliberado na formação, na autonomia e no prestígio social dos
professores. A equidade não apareceu como correção posterior, mas como
princípio de projeto.
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Equidade como princípio de projeto
A
Coreia do Sul seguiu um caminho distinto, marcado pela urgência da reconstrução
nacional, pela escassez de recursos e por uma intensa pressão social pela
escolarização. Ainda assim, enfrentou o mesmo problema estrutural: a
desigualdade entre as escolas. A política de equalização do ensino médio, com
regulação da seleção e redistribuição de oportunidades, expressou a mesma
intuição fundamental: não basta expandir o acesso se o sistema continua a
produzir hierarquias educacionais rígidas e socialmente previsíveis.
Esses
casos estão longe de serem modelos perfeitos. Enfrentaram resistências,
produziram efeitos colaterais e exigiram correções de rumo. Ainda assim,
compartilham um traço decisivo: trataram a desigualdade educacional como um
problema sistêmico, e não como uma falha individual dos estudantes ou déficit
moral das famílias.
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O mito da neutralidade escolar
Como
mostraram Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, sistemas escolares
aparentemente neutros tendem a converter desigualdades sociais prévias em
desigualdades escolares “legítimas”, apresentadas como resultado de mérito
individual. As grandes reformas educacionais do século XX podem ser lidas como
tentativas – sempre imperfeitas, mas politicamente conscientes – de interromper
esse mecanismo de reprodução da desigualdade.
Vale
notar também o que essas reformas não fizeram. Elas não começaram por
tecnologia, nem por avaliações punitivas, nem por slogans de eficiência.
Começaram por decisões de alto nível que redesenharam o sistema educacional em
torno de alguns eixos recorrentes: mais tempo de escola comum, professores como
eixo da qualidade, financiamento redistributivo, governança estável e avaliação
voltada à melhoria, não à exclusão .
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Os bloqueios estruturais do caso brasileiro
No
Brasil, esses dilemas assumem contornos particularmente complexos. Um obstáculo
central para qualquer reforma educacional orientada à equidade reside na
condição material, profissional e simbólica do magistério. Até hoje, não houve
um projeto nacional consistente que articule formação inicial, formação
continuada, carreira, remuneração, reconhecimento social e condições de
trabalho como partes de uma mesma arquitetura institucional. Sem enfrentar esse
nó estrutural, toda promessa de equidade tende a se dissolver na retórica.
A
desigualdade educacional brasileira também é profundamente territorial. As
condições de funcionamento das escolas – bibliotecas, laboratórios,
conectividade, saneamento – variam drasticamente entre regiões, redes e
contextos urbanos e rurais. Falar em equidade sem enfrentar essas assimetrias
materiais é ignorar que o direito à aprendizagem começa pelo direito a uma
escola minimamente equipada.
Há
ainda uma contradição estrutural difícil de contornar: enquanto as classes de
maior renda recorrem majoritariamente ao ensino privado de melhor qualidade, a
escola pública tende a ser percebida como alternativa residual. Essa segregação
educacional fragiliza a legitimidade política da escola pública e esvazia sua
função como espaço comum de formação cidadã. Experiências internacionais
indicam que reformas orientadas à equidade exigem, em algum grau, o
fortalecimento da escola pública como referência compartilhada – inclusive
pelas classes médias.
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Tecnologia, risco e soberania cognitiva
A esses
desafios soma-se um novo elemento. A escola deixou de ser o principal ambiente
de circulação do saber. Crianças e jovens vivem imersos em plataformas
digitais, algoritmos e sistemas de recomendação. Silenciosamente, a
inteligência artificial já participa da formação de expectativas, da atenção,
da linguagem e das visões de mundo.
Isso
cria um risco e uma oportunidade.
O risco
é imaginar que as plataformas e a inteligência artificial irão substituir uma
política educacional que nunca foi feita. Sem um projeto explícito de equidade,
a tecnologia tende a amplificar desigualdades já existentes, agora com
aparência de modernização.
A
oportunidade é reconhecer que a cidadania do século XXI inclui uma dimensão
nova: soberania cognitiva – a capacidade de compreender, verificar, argumentar
e decidir em ambientes informacionais complexos, sem subordinação à
desinformação, à opacidade algorítmica ou à dependência tecnológica.
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Equidade como escolha política
Nada
disso será resolvido por decretos rápidos ou por soluções mágicas. As reformas
educacionais que mudaram países levaram décadas. Mas deixaram uma lição clara:
a equidade educacional não é subproduto do crescimento econômico; é uma escolha
política de longo prazo, que redefine a integração nacional e o próprio sentido
de cidadania.
Este
texto abre uma série de reflexões sobre educação como pacto nacional. Nos
próximos artigos, serão discutidos os desafios específicos do caso brasileiro e
os contornos de uma agenda de possível transformação educacional compatível com
a diversidade do país e com os desafios do século XXI.
• Na escola cívico-militar, quem são os
violentos? Por Deivisson Vianna Dantas dos Santos e Rosana Teresa Onocko-Campos
“Homem
de preto, o que é que você faz? Eu faço coisas que assusta o satanás. Homem de
preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar o corpo no chão. O Bope tem
guerreiros que matam fogueteiros. Com a faca entre os dentes, esfola eles
inteiros. Mata, esfola, usando sempre o seu fuzil”.
Este é
um trecho chocante entoado por alunos de uma escola cívico-militar no Paraná,
em uma aparente aula de educação física no final do ano passado. O caso ganhou
repercussão nas redes depois que vídeo postado em forma de denúncia, pelo
sindicato dos professores do Paraná, retratava esta atividade. O caso,
entretanto, não é isolado. Desde que o modelo foi implantado, são diversas
denúncias e ocorrências semelhantes: imposição de regras para cabelo e
vestimenta e até violações piores em escolas que adotaram o modelo
cívico-militar.
Paraná
e São Paulo são dois estados em que o modelo mais avança, mesmo após o Programa
Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), criado em 2019 pelo
ex-presidente Jair Bolsonaro ter sido encerrado em 2023. Os programas, que
sobrevivem em âmbito estadual, preveem a contratação de policiais militares
aposentados para atuar e interagir com os(as) estudantes nas escolas em
sobreposição à autoridade dos(as) profissionais da educação. Só no Paraná, em
2026, serão 345 colégios cívico-militares ativos, seguido por São Paulo, com
mais de 100 unidades.
O
avanço do modelo com práticas anacrônicas de formação de estudantes é um grande
desafio atual. Famílias e estudantes têm judicializado as imposições dos
códigos morais destas escolas, construídos sob uma base moralista, que confunde
pedagogia e disciplina escolar com controle, e inculca subserviência e
obediência hierárquica. O autoritarismo sempre foi uma ferramenta utilizada na
formação de pessoas, algo comum em sociedades violentas e autoritárias como a
brasileira. Mas ela se renova, e políticas públicas criadas para proteger
também são tomadas por este expediente que reproduzem a humilhação, trauma e
omissões vivenciados pelos jovens que ao buscarem educação, acabam recebendo
mais violência1.
O caso
dos colégios cívico-militares, em expansão em diversos estados, mesmo com a
oposição federal, não é uma política pública isolada. É sintoma de um projeto
já antigo e estrutural brasileiro que transforma espaços públicos em locais de
controle, medo e silenciamento. A tendência da militarização do ensino apenas
revela de forma didática a normalização da brutalidade e a desumanização de
quem vive nas periferias. Assim como no canto macabro que iniciou este texto,
os alvos desses discursos são sempre os jovens negros, pobres e moradores das
periferias.
Quando
perdemos a dimensão dos determinantes sociais como instrumento de análise da
realidade, sobra-nos a tendência de buscarmos respostas simples a elementos
complexos, levando à culpabilização ou à redução da causa ao âmbito individual.
Assim, assume-se que a culpa de uma suposta “violência inata” e “oposição”
presente na juventude seja algo “da geração atual” independente do desemprego,
pobreza, racismo, fome, desproteção, maus-tratos, mortes, exploração sexual,
tráfico, trabalho infantil a que muitas famílias estão sujeitas. Silvia
Bleichmar afirmava que a associação de pobreza com violência é uma falácia
encobridora do efeito que séculos de promessas incumpridas causaram em amplos
setores da população sob a forma de ressentimento e revolta.
Na
maioria das periferias das grandes cidades falta acesso a creche para a
primeira infância e as escolas têm turnos de menos de 4 horas diárias. Os
contraturnos escolares existem somente em alguns estados mais ricos ou são
ofertados esporadicamente por alguma iniciativa comunitária ou ONG, além de
faltar acesso para cultura e lazer. Pesquisas vêm mostrando as conexões entre a
violência infanto-juvenil e as violências de que crianças, adolescentes e
jovens padecem. Entretanto, as ações políticas concentram-se mais na figura de
crianças e adolescentes como réus e autores de atos de violência do que na sua
condição de vítimas. Temos, hoje, um pêndulo que oscila desde o cruel e
autoritário até a omissão na qual crianças e adolescentes assumem o lugar de
cuidadores dos seus pais,
Como
antidoto, lança-se mão de uma religiosidade dura, rígida e prescritiva ou de
uma disciplina militar de igual retidão. Reforça-se a crença no “tratamento
moral” como ferramenta da correção humana. O tratamento moral é um conceito do
século XVIII e fundamentava-se na crença de que seria possível introduzir
mudanças significativas no comportamento de pessoas por meio de normas e
disciplinas rigorosas. O método foi usado em manicômios, orfanatos, unidades
correcionais para jovens e escolas em geral.
Neste
mesmo caminho, multiplicam-se as diversas ferramentas classificatórias para
identificar o elemento que pode ser tratado ou corrigido, com foco apenas no
sujeito. Uma gama de condutas indisciplinadas, que sempre aconteceram nas
escolas – principalmente na fase naturalmente opositora da adolescência –,
passaram a ser vistas e classificadas como violências. Interpreta-se uma
diversidade de comportamentos como desviantes, em uma categoria segregadora e
estigmatizante dos “violentos”.
Os
diagnósticos de crianças e adolescentes se popularizam nas escolas e na
sociedade. As categorias de normal-anormal, de aluno-problema, de transtorno
desafiador opositor (TOD) reforçam a individualização de questões mais amplas,
que são ancoradas nas raízes sociais e raciais brasileiras. Entretanto,
passaram a ser vistas como quesitos sintomáticos, biológicos e de qualidades
morais dos alunos, de suas famílias e de sua origem. Tais classificações,
contudo, mais segregam do que incluem essas crianças, adolescentes ou jovens
desviantes para os quais a sociedade clama por ordem e normas correcionais.
Talvez
o sistema escolar tenha reduzido sua função de educar a meramente transmitir
conteúdos, habilidades e competências para a inserção no mercado. Mas fiquemos
atentos. Toda vez que a violência, o apagamento do diferente e o anseio por
regras universais e correcionais entra pela porta da escola, a democracia sai
pela janela.
Fonte:
Outras Palavras

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