O
que a ciência realmente sabe sobre o "hormônio do amor"
Dentro
do cérebro, o amor se traduz em um coquetel químico composto por diversos
hormônios. A ocitocina, produzida no hipotálamo e liberada pela hipófise,
costuma ser apontada como a mais importante dessas substâncias. Ela auxilia no
trabalho de parto e, assim como endorfinas e serotonina, está associada a
sensações de bem-estar.
Segundo
a Harvard Saúde, o corpo libera ocitocina quando estamos excitados por um
parceiro sexual, ou quando nos apaixonamos. O hormônio induz contrações
uterinas, o que explica sua origem etimológica: do grego oxys (rápido) e tokos
(nascimento).
Apesar
disso, a molécula em si é simples: uma cadeia de nove aminoácidos, presente em
todos os mamíferos e com versões semelhantes em peixes, répteis e até vermes.
"Não há nada inerentemente social na ocitocina", afirma Sarah
Winokur, neurocientista da Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova
Iorque (NYU).
Por
que, então, ela ganhou a fama de "hormônio do amor"?
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Pesquisas popularizaram o hormônio
Nos
anos 1990, pesquisadores da Universidade Emory, nos EUA, estudaram
arganazes-da-pradaria, roedores conhecidos por formar pares monogâmicos. Eles
observaram que a ocitocina desempenhava papel central nesse comportamento.
Mas o
verdadeiro hype começou quando pesquisadores encontraram um papel semelhante em
humanos.
Em
2005, um estudo famoso colocou voluntários em um "jogo da confiança",
no qual precisavam decidir se entregariam dinheiro a um segundo jogador. O
valor entregue seria triplicado, e então o segundo jogador poderia decidir
livremente quanto devolver. Isso, claro, colocava o primeiro jogador em risco
de ser traído. Metade dos participantes recebeu ocitocina sintética por spray
nasal; a outra metade, placebo.
Ao
final, os participantes sob efeito da ocitocina confiaram mais e investiram
mais dinheiro, confiando mais no parceiro. O estudo ganhou enorme repercussão
na comunidade científica, e a substância passou a ser chamada de "molécula
da confiança".
O
entusiasmo foi tão grande que uma empresa nos EUA começou a vender frascos de
ocitocina sintética prometendo melhorar relacionamentos. Entre 2004 e 2011, as
buscas por "spray nasal de ocitocina" cresceram 5.000%.
Em
2009, pesquisadores suíços repetiram o experimento com casais discutindo temas
sensíveis. A metade que recebeu a ocitocina manteve mais contato visual,
conversaram de forma mais construtiva e expressaram sentimentos com mais
abertura.
Seria a
ocitocina sintética, então, uma espécie de poção do amor? Não exatamente.
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Novos estudos mudam o cenário
A
percepção sobre a substância começou a mudar em 2020, quando uma pesquisadora
belga mostrou que muitos estudos sobre ocitocina não podiam ser replicados.
Quando cientistas repetiam os experimentos, os resultados frequentemente eram
diferentes.
Foi o
caso do estudo da confiança de 2005: ao ser replicado 15 anos depois, com mais
participantes, o efeito sumiu. Quem recebeu ocitocina na nova rodada não se
comportou de forma diferente de quem recebeu placebo.
Outro
estudo recente com arganazes-da-pradaria mostrou que, mesmo quando cientistas
removeram geneticamente os receptores de ocitocina dos animais, eles ainda
formaram vínculos de casal.
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Hormônio tem efeitos colaterais
"Se
você der ocitocina para alguém na tentativa de fazê-lo se apaixonar, isso pode
vir com efeitos colaterais", alerta Winokur. Isso porque a substância não
produz apenas empatia e proximidade. Ela também pode aumentar agressividade,
inveja e até a "schadenfreude", palavra alemã para o prazer diante do
infortúnio alheio, especialmente contra pessoas fora do "grupo
social" do indivíduo.
Então a
ocitocina cria atração e vínculos, ou aumenta a agressividade?Segundo a Harvard
Saúde, a ocitocina pode, sim, fortalecer vínculos com pessoas queridas e ser
liberada por toque, música e exercício. O hormônio não perdeu sua importância
para funções essenciais do corpo humano.
Mas
Winokur ressalta que seu papel é mais amplo: ela amplifica aquilo que já é
relevante no contexto social de cada um, incluindo vícios. Ou seja, pode estar
ligada à criação de segurança entre parceiros, por exemplo, mas seu uso
sintético não necessariamente leva ao amor.
"Não
é tão simples quanto dizer: ‘Ah, você simplesmente ama todo mundo quando há
ocitocina por perto'." Além disso, como outros hormônios, a ocitocina
depende de níveis adequados no organismo. Em homens, concentrações excessivas,
por exemplo, podem estar associadas à hiperplasia prostática benigna (BPH), uma
doença caracterizada pelo aumento de próstata que pode causar problemas para
urinar.
• O gene que influencia pais a serem
carinhosos ou violentos
Cientistas
do Instituto de Neurociências da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos,
descobriram que um gene associado à pigmentação da pele ajuda a entender o
comportamento parental em camundongos.
O
resultado de sua pesquisa sobre as bases neurológicas da paternidade em
roedores foi publicado na semana passada na revista Nature.
Existem
cerca de 6 mil espécies de mamíferos, mas em menos de 5% delas os pais ajudam
na criação dos filhotes. Em geral, pais apresentam um amplo leque de
comportamentos, que vão dos mais afetuosos aos claramente hostis.
Os
melhores cuidadores têm um papel ativo nos cuidados: lambem e limpam os
filhotes para mantê los higienizados, ou os abrigam sob o ventre para mantê los
aquecidos e protegidos das intempéries. Já os piores ignoram os filhotes
indefesos ou até os atacam.
Os
neurocientistas Forrest Rogers e Catherine Peña, junto com uma equipe de outros
cinco pesquisadores, decidiram investigar o motivo dessas diferenças.
Eles
tomaram como exemplo o camundongo listrado africano (Rhabdomys pumilio), que
apresenta diferentes reações perante suas crias após se tornar pai. A equipe
registrou a atividade neuronal desses roedores em diversas situações, com e sem
filhotes.
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Faltam estudos em humanos
Eles
descobriram que os pais atenciosos apresentavam maior atividade numa região do
cérebro chamada área pré-óptica medial (MPOA).
Até aí
nada de muito novo. Os cientistas já sabiam que mães de outras espécies de
roedores, como hamsters, também sofrem mudanças nessa mesma área do cérebro.
"Décadas de pesquisa demonstraram que a MPOA funciona como um centro de
cuidados maternos em mamíferos", declarou Rogers ao site especializado
Live Science.
A
equipe então se voltou para os cérebros dos camundongos e mediu a atividade
gênica em células da MPOA. A partir disso, os cientistas descobriram que pais
mais carinhosos também apresentavam níveis mais baixos de atividade gênica de
um gene chamado agouti, relacionado, em estudos anteriores, ao metabolismo e à
pigmentação da pele. "Descobrir esse papel até então desconhecido no
cérebro, ligado ao comportamento parental, foi emocionante", disse Rogers.
Machos
solitários também apresentavam níveis menores de atividade gênica nesse gene do
que os que viviam em grupo.
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Terapia genética para modificar o comportamento
Para
entender melhor como esse gene influencia o cuidado paternal, os pesquisadores
utilizaram terapia genética para aumentar artificialmente a atividade do gene
agouti no cérebro, tentando assim imitar a biologia natural de um pai
negligente. Eles constataram que, quando esses machos reencontravam seus
filhotes após o tratamento, demonstravam menos interesse do que antes, e alguns
até se tornavam agressivos.
O
inverso também foi observado: ao aplicar um tratamento "natural",
transferindo machos de um ambiente comunitário para um ambiente solitário,
descobriram que seus níveis de atividade gênica consequentemente diminuíam e
que os animais passavam a demonstrar mais interesse pelos filhotes.
"Nossas
descobertas apontam o agouti como um mecanismo evolutivo potencial que permite
aos animais integrar informações ambientais, como competição social ou
densidade populacional, e ajustar o equilíbrio entre autoconservação e
investimento na prole", explica Peña, coautora do estudo.
Os
pesquisadores destacaram que o gene agouti também existe em humanos, mas ainda
é preciso estudar seu impacto na atitude parental. "Criar filhos é um
traço complexo. Não estamos sugerindo que alguém possa tomar uma pílula para
ser um pai ou mãe melhor, nem que dificuldades na criação reflitam alguma
deficiência molecular", afirmou Peña.
Fonte:
DW Brasil

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