sábado, 28 de fevereiro de 2026

O que a ciência realmente sabe sobre o "hormônio do amor"

Dentro do cérebro, o amor se traduz em um coquetel químico composto por diversos hormônios. A ocitocina, produzida no hipotálamo e liberada pela hipófise, costuma ser apontada como a mais importante dessas substâncias. Ela auxilia no trabalho de parto e, assim como endorfinas e serotonina, está associada a sensações de bem-estar.

Segundo a Harvard Saúde, o corpo libera ocitocina quando estamos excitados por um parceiro sexual, ou quando nos apaixonamos. O hormônio induz contrações uterinas, o que explica sua origem etimológica: do grego oxys (rápido) e tokos (nascimento).

Apesar disso, a molécula em si é simples: uma cadeia de nove aminoácidos, presente em todos os mamíferos e com versões semelhantes em peixes, répteis e até vermes. "Não há nada inerentemente social na ocitocina", afirma Sarah Winokur, neurocientista da Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova Iorque (NYU).

Por que, então, ela ganhou a fama de "hormônio do amor"?

<><> Pesquisas popularizaram o hormônio

Nos anos 1990, pesquisadores da Universidade Emory, nos EUA, estudaram arganazes-da-pradaria, roedores conhecidos por formar pares monogâmicos. Eles observaram que a ocitocina desempenhava papel central nesse comportamento.

Mas o verdadeiro hype começou quando pesquisadores encontraram um papel semelhante em humanos.

Em 2005, um estudo famoso colocou voluntários em um "jogo da confiança", no qual precisavam decidir se entregariam dinheiro a um segundo jogador. O valor entregue seria triplicado, e então o segundo jogador poderia decidir livremente quanto devolver. Isso, claro, colocava o primeiro jogador em risco de ser traído. Metade dos participantes recebeu ocitocina sintética por spray nasal; a outra metade, placebo.

Ao final, os participantes sob efeito da ocitocina confiaram mais e investiram mais dinheiro, confiando mais no parceiro. O estudo ganhou enorme repercussão na comunidade científica, e a substância passou a ser chamada de "molécula da confiança".

O entusiasmo foi tão grande que uma empresa nos EUA começou a vender frascos de ocitocina sintética prometendo melhorar relacionamentos. Entre 2004 e 2011, as buscas por "spray nasal de ocitocina" cresceram 5.000%.

Em 2009, pesquisadores suíços repetiram o experimento com casais discutindo temas sensíveis. A metade que recebeu a ocitocina manteve mais contato visual, conversaram de forma mais construtiva e expressaram sentimentos com mais abertura.

Seria a ocitocina sintética, então, uma espécie de poção do amor? Não exatamente.

<><> Novos estudos mudam o cenário

A percepção sobre a substância começou a mudar em 2020, quando uma pesquisadora belga mostrou que muitos estudos sobre ocitocina não podiam ser replicados. Quando cientistas repetiam os experimentos, os resultados frequentemente eram diferentes.

Foi o caso do estudo da confiança de 2005: ao ser replicado 15 anos depois, com mais participantes, o efeito sumiu. Quem recebeu ocitocina na nova rodada não se comportou de forma diferente de quem recebeu placebo.

Outro estudo recente com arganazes-da-pradaria mostrou que, mesmo quando cientistas removeram geneticamente os receptores de ocitocina dos animais, eles ainda formaram vínculos de casal.

<><> Hormônio tem efeitos colaterais

"Se você der ocitocina para alguém na tentativa de fazê-lo se apaixonar, isso pode vir com efeitos colaterais", alerta Winokur. Isso porque a substância não produz apenas empatia e proximidade. Ela também pode aumentar agressividade, inveja e até a "schadenfreude", palavra alemã para o prazer diante do infortúnio alheio, especialmente contra pessoas fora do "grupo social" do indivíduo.

Então a ocitocina cria atração e vínculos, ou aumenta a agressividade?Segundo a Harvard Saúde, a ocitocina pode, sim, fortalecer vínculos com pessoas queridas e ser liberada por toque, música e exercício. O hormônio não perdeu sua importância para funções essenciais do corpo humano.

Mas Winokur ressalta que seu papel é mais amplo: ela amplifica aquilo que já é relevante no contexto social de cada um, incluindo vícios. Ou seja, pode estar ligada à criação de segurança entre parceiros, por exemplo, mas seu uso sintético não necessariamente leva ao amor.

"Não é tão simples quanto dizer: ‘Ah, você simplesmente ama todo mundo quando há ocitocina por perto'." Além disso, como outros hormônios, a ocitocina depende de níveis adequados no organismo. Em homens, concentrações excessivas, por exemplo, podem estar associadas à hiperplasia prostática benigna (BPH), uma doença caracterizada pelo aumento de próstata que pode causar problemas para urinar.

•        O gene que influencia pais a serem carinhosos ou violentos

Cientistas do Instituto de Neurociências da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, descobriram que um gene associado à pigmentação da pele ajuda a entender o comportamento parental em camundongos.

O resultado de sua pesquisa sobre as bases neurológicas da paternidade em roedores foi publicado na semana passada na revista Nature.

Existem cerca de 6 mil espécies de mamíferos, mas em menos de 5% delas os pais ajudam na criação dos filhotes. Em geral, pais apresentam um amplo leque de comportamentos, que vão dos mais afetuosos aos claramente hostis.

Os melhores cuidadores têm um papel ativo nos cuidados: lambem e limpam os filhotes para mantê los higienizados, ou os abrigam sob o ventre para mantê los aquecidos e protegidos das intempéries. Já os piores ignoram os filhotes indefesos ou até os atacam.

Os neurocientistas Forrest Rogers e Catherine Peña, junto com uma equipe de outros cinco pesquisadores, decidiram investigar o motivo dessas diferenças.

Eles tomaram como exemplo o camundongo listrado africano (Rhabdomys pumilio), que apresenta diferentes reações perante suas crias após se tornar pai. A equipe registrou a atividade neuronal desses roedores em diversas situações, com e sem filhotes.

<><> Faltam estudos em humanos

Eles descobriram que os pais atenciosos apresentavam maior atividade numa região do cérebro chamada área pré-óptica medial (MPOA).

Até aí nada de muito novo. Os cientistas já sabiam que mães de outras espécies de roedores, como hamsters, também sofrem mudanças nessa mesma área do cérebro. "Décadas de pesquisa demonstraram que a MPOA funciona como um centro de cuidados maternos em mamíferos", declarou Rogers ao site especializado Live Science.

A equipe então se voltou para os cérebros dos camundongos e mediu a atividade gênica em células da MPOA. A partir disso, os cientistas descobriram que pais mais carinhosos também apresentavam níveis mais baixos de atividade gênica de um gene chamado agouti, relacionado, em estudos anteriores, ao metabolismo e à pigmentação da pele. "Descobrir esse papel até então desconhecido no cérebro, ligado ao comportamento parental, foi emocionante", disse Rogers.

Machos solitários também apresentavam níveis menores de atividade gênica nesse gene do que os que viviam em grupo.

<><> Terapia genética para modificar o comportamento

Para entender melhor como esse gene influencia o cuidado paternal, os pesquisadores utilizaram terapia genética para aumentar artificialmente a atividade do gene agouti no cérebro, tentando assim imitar a biologia natural de um pai negligente. Eles constataram que, quando esses machos reencontravam seus filhotes após o tratamento, demonstravam menos interesse do que antes, e alguns até se tornavam agressivos.

O inverso também foi observado: ao aplicar um tratamento "natural", transferindo machos de um ambiente comunitário para um ambiente solitário, descobriram que seus níveis de atividade gênica consequentemente diminuíam e que os animais passavam a demonstrar mais interesse pelos filhotes.

"Nossas descobertas apontam o agouti como um mecanismo evolutivo potencial que permite aos animais integrar informações ambientais, como competição social ou densidade populacional, e ajustar o equilíbrio entre autoconservação e investimento na prole", explica Peña, coautora do estudo.

Os pesquisadores destacaram que o gene agouti também existe em humanos, mas ainda é preciso estudar seu impacto na atitude parental. "Criar filhos é um traço complexo. Não estamos sugerindo que alguém possa tomar uma pílula para ser um pai ou mãe melhor, nem que dificuldades na criação reflitam alguma deficiência molecular", afirmou Peña.

 

Fonte: DW Brasil

 

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