Lauro
Mattei: Escolas cívico-militar
Desde o
lançamento do programa de escolas cívico-militar pelo governo de Jair Bolsonaro
(2019-2022) no ano de 2021 ficou claro que não se tratava de uma política
educacional específica, mas sim de um projeto político conservador e
reacionário cujo principal objetivo era doutrinar crianças e adolescentes de
todo o país. E tudo isso foi sendo feito sob o pretexto de que essas escolas
aumentariam a segurança dos estudantes, ao mesmo tempo em que reforçariam o
processo disciplinar escolar.
Diante
de suas debilidades pedagógicas básicas, tal projeto não prosperou em âmbito
nacional, inclusive tendo sido extinto no início do governo Lula III. Mesmo
assim, algumas unidades federativas passaram a adotar tal projeto político no
âmbito de suas jurisdições legais, com destaque particular para os estados do
Paraná (312 escolas), Mato Grosso (105), Goiás (82), São Paulo (100), Santa
Catarina (26) e Minas Gerais (9). Estimativas revelaram que ao final de 2025
estavam em funcionamento no país aproximadamente 800 unidades escolares
dominadas por essa “filosofia militar”.
Após
cinco anos de implementação dessas escolas está claro que tal projeto está
muito distante de uma proposta pedagógica democrática e libertária. Ao
contrário, achar que disciplina e segurança serão construídas a partir da
obediência restrita aos policiais militares aposentados que são contratados
para atuar nessas escolas – cuja formação pedagógica é praticamente nula –
representa um retrocesso societário irreparável.
Registros
recentes revelam que em todas as unidades federativas que implementaram esse
“modelo de escola” os problemas não param de crescer. Por um lado, a hierarquia
militar autoritária está criando um ambiente de medo e de silenciamento que
afasta, inclusive, o envolvimento dos familiares dos estudantes da comunidade
escolar.
Por
outro, crianças e adolescentes estão sendo submetidos ao “modo operandis
militar” dentro das escolas que é marcado por humilhações e abuso de poder que,
no limite, está se revelando também em diversos tipos de assédio, conforme está
sendo divulgado em vários estados.
Reportagem
recente da BBC News-Brasil mostrou inúmeros casos de abusos em escolas
cívico-militares no Paraná, inclusive com denúncia de assédio e violência
sexual explícita contra estudantes do sexo feminino. Tais problemas foram
registrados, todavia as investigações policiais se encontram em sigilo e sem
publicidade, diferentemente do caso de processos administrativos contra
servidores educacionais civis que são públicos e abertos para consultas.
Crianças
com idade entre 9-13 anos foram expostas por longo período a diversos tipos de
violência sob a complacência dos órgãos públicos estaduais. Tudo isso está
sendo feito para acobertar os infratores militares, bem como para blindar o
“projeto” que, na visão de diversos governadores, é um modelo maravilhosos e
muito eficaz.
É
importante registrar que a ação e as funções dos professores da pré-escola ao
ensino médio vão muito além das atividades específicas em salas de aulas, uma
vez que os professores têm também a responsabilidade de estimular e acompanhar
o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes no sentido da formação
cidadã baseada em valores éticos e de respeito no âmbito social.
Neste
quesito, deve-se registrar que os policiais militares não têm nenhuma formação
básica para lidar com crianças e adolescentes, uma vez que suas atribuições e
responsabilidades dizem respeito a outras atividades que, não essência, não
guardam relação com o processo pedagógico, uma vez que se movem pela obediência
cega à normas e hierarquias constituídas nas respectivas instituições
militares.
Por
mais que os defensores desse projeto argumentem que o papel desses policiais
militares não interfere no processo pedagógico, são inúmeros os exemplos
exatamente no sentido contrário. Dentre os diversos exemplos nesta direção
destacam-se a atuação de policiais militares como agentes de disciplinas,
desenvolvimento de projetos interdisciplinares, organização da rotina escolar,
participação na elaboração do regimento escolar sem participação da comunidade
(atribuição cuja competência é do Conselho Escolar), etc.
Na
sequência destacamos alguns casos recentes que procuram atacar, tanto as
lacunas como os problemas criados por esse projeto político educacional. No
estado de São Paulo, por exemplo, a justiça acaba de suspender parte das regras
do programa do governador Tarcísio de Freitas ao proibir a atuação de militares
em salas de aulas, restringindo a atuação dos policiais apenas ao quesito
segurança dos estudantes.
Nessa
unidade federativa observam-se problemas de infraestrutura básica, falta de
materiais pedagógicos, falta de apoio à formação de docentes, etc. Todavia, não
faltam recursos para contratar policiais militares aposentados com salários
superiores ao salário médio dos professores efetivos.
No
Paraná – estado que concentra um número bastante elevado dessas escolas – ao
contrário continua ocorrendo problemas graves que estão sendo acobertados pelos
órgãos do governo estadual. Por exemplo, estudantes sendo obrigados a cantar
músicas com alto teor racista e xenófobo; crianças expostas a armamentos
pesados na própria sala de aula; estudantes sendo discriminados pelas roupas
utilizadas; assédios sexuais praticados contra crianças, etc. Mesmo assim, para
o governo estadual o programa é um exemplo de sucesso.
Em
Minas Gerais uma decisão judicial recente suspendeu o programa em todo o
estado. Todavia, o vice-governador Mateus Simões (PSD) – que em breve deverá
assumir o governo mineiro – divulgou um vídeo em 10.02.2026 afirmando que não
irá cumprir a ordem judicial, inclusive indicando que irá ampliar o programa em
todo o estado a partir de sua posse como governador. Assim falou: “podem se
preparar para me prender porque eu vou abrir colégios cívico-militares assim
que eu entrar no exercício como governador do estado”.
No Mato
Grosso – estado em que esse projeto avançou fortemente – ocorreu um fato
lastimável. Um diretor de uma escola cívico-militar foi denunciado por uma
estudante de 17 anos por cometer assédio sexual. Além do caso ter sido
acobertado, a família acabou tendo que transferir a estudante para outra
escola.
O
conjunto dessas informações também é do conhecimento de organismos
internacionais que o Brasil faz parte. Neste sentido, é importante registrar a
decisão do Comitê de Direitos da Criança (CDC) da Organização das Nações Unidas
(ONU) de 05.06.2025. Essa organização recomendou que seja proibida a
militarização das escolas públicas nos estados e municípios em todo o país por
entender que esse modelo contraria os compromissos internacionais do Brasil em
prol de uma educação democrática e de qualidade.
Todos
os relatos acima mencionados mostram a gravidade da situação escolar no país,
particularmente nos estados em que o projeto educacional se resume à
implantação desse tipo de escolas militarizadas. Por isso é urgente uma reação
articulada da sociedade denunciando a verdadeira intenção, bem como as
consequências futuras desse tipo de projeto educacional para o país.
Também
é preciso reafirmar que a disciplina escolar e o respeito não serão obtidos por
meio da imposição da autoridade e das regras rígidas dos quartéis. Ao
contrário, a escola é o local onde os estudantes possam desenvolver seus
potenciais criativos e suas visões de sociedade de forma autônoma e sem o medo
imposto por agentes externos a esse ambiente.
Fonte:
A Terra é Redonda

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