Pensar
de modo abolicionista produz uma ética da generosidade
A
chamada “revolução verde” pouco tem de revolucionária, sendo uma espécie de
capitalismo embalada com papel reciclado. É uma variável contemporânea, sob
outros termos e contextos, do que Chico Mendes dizia sobre a ecologia sem luta
de classes, que era meramente “jardinagem”. “A revolução verde funciona muitas
vezes como uma estratégia de imunização parcial que permite a continuidade na
operacionalização do sistema, isso sem necessariamente enfrentar as suas
contradições estruturais. Nesse sentido, me parece que o discurso ecológico
contemporâneo corre o risco de se mostrar como um verniz de moralidade que
retoca as grandes máquinas do agro”, pontua Bräulio Marques Rodrigues, em
entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
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Confira a entrevista.
·
Atualmente,
quando se trata de pensar os limites do capitalismo, uma alternativa que
costuma aparecer é o que se convencionou chamar de “revolução verde”. Do que se
trata essa perspectiva?
Bräulio
Marques Rodrigues – A chamada revolução verde costuma designar um conjunto de
estratégias que procuram compatibilizar a continuidade de uma economia de
escala com a mitigação dos impactos ambientais. Em linhas gerais, eu tentaria
definir como uma aposta na inovação tecnológica, na transição energética, na
financeirização dos serviços ambientais e na reorganização produtiva em torno
de critérios de eficiência ecológica, como a redução de emissões, o uso de
fontes renováveis e, de modo subsidiário, uma economia circular. De um ponto de
vista geopolítico, pode-se dizer que essa aposta emerge para responder aos
limites biofísicos do planeta sem romper estruturalmente com a lógica do
capitalismo. Em vez de uma mudança profunda das formas de vida mercantis,
leia-se, do consumo e das relações de produção, a revolução verde tende a
operar como uma reprogramação do mesmo modelo civilizatório, agora sob o signo
da sustentabilidade. Em minha formação e, em especial, em minha tese de
doutorado, procurei analisar esse tipo de solução à luz do que [Peter]
Sloterdijk chama de paradigma imunológico. A partir desta teoria, pode-se dizer
que a revolução verde funciona muitas vezes como uma estratégia de imunização
parcial que permite a continuidade na operacionalização do sistema, isso sem
necessariamente enfrentar as suas contradições estruturais. A meu ver, isso
acontece porque, tal como apontado por Fisher, o capitalismo tardio demonstra
uma notável capacidade de absorver e neutralizar contradições, reempacotando
soluções defasadas em novos nichos de mercado. Nesse sentido, me parece que o
discurso ecológico contemporâneo corre o risco de se mostrar como um verniz de
moralidade que retoca as grandes máquinas do agro. Penso que uma revolução
verde efetiva implica menos em soluções exclusivamente tecnocráticas e mais na
constituição de novos modos de cooperação, ou melhor, uma articulação entre
engenharia e governabilidade capaz de redefinir a relação entre técnica e natureza
em um horizonte pós-extrativista e pós-colonial.
·
Mark
Fisher é, talvez, o responsável por ter tornado célebre a frase de Frederic
Jameson, segundo a qual é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do
capitalismo. Olhando para a realidade amazônica, até que ponto essa afirmação é
verdadeira e a partir de quando ela não ajuda a compreender a realidade?
Bräulio
Marques Rodrigues – A frase retomada por Fisher – e originalmente formulada por
Jameson – aponta para um bloqueio imaginativo característico do realismo
capitalista: a dificuldade de conceber alternativas ao capitalismo, mesmo
diante de catástrofes evidentes. Segundo Fisher, isso não é apenas uma
constatação econômica, mas um diagnóstico de recessão horizontal: o capitalismo
passa a organizar não só a produção, mas também o horizonte do possível,
colonizando o próprio imaginário. Na realidade amazônica, essa afirmação
adquire um tom quase literal quando nos voltamos para a memória da província. A
destruição da fauna e da flora, a marginalização do natural e a exclusão do
nativo frequentemente aparecem como mais realistas do que qualquer iniciativa de
desmobilização deste percurso histórico voltado para o progresso. Em muitos
contextos, torna-se mais fácil apressar o fim do mundo e imaginar o esgotamento
da floresta, a desertificação transversal e até cenários de colapso climático,
do que a interrupção das cadeias de valor que sustentam o agronegócio, a
mineração, ou mesmo, como bem dito por [Martin] Heidegger em um sentido mais
amplo e fundamental, o obscurecimento do mundo.
Do meu
ponto de vista, em consonância com as formulações de Eduardo Viveiros de
Castro, talvez seja necessário reconhecer que este mundo governado pela lógica
do dinheiro se aproxima de fechar suas cortinas, e que os povos ameríndios
oferecem não apenas diagnósticos, mas também tipologias de pensamento e
preparação, como posto por [Davi] Kopenawa em sua investigação sobre a
cosmologia yanomami, A Queda do Céu. Trata-se de compreender com urgência, como
práticas ancestrais, que vão desde os regimes de habitação até políticas de
cuidado, desafiam concretamente a tese neoliberal de que não há alternativa. Acredito
que a frase de Jameson repetida por Fisher é extremamente útil para
diagnosticar a recessão criativa do Espírito imposta pelo capitalismo, mas é
insuficiente como descrição de contextos colonizados. Aqui, talvez não seja
apenas uma questão de conceber uma escatologia para o capitalismo, mas de
reconhecer que já existem, na floresta e em suas margens, experiências de
temporalidade e pertencimento que nunca compraram a ideia do capitalismo como
fim da história.
·
Um
dos imperativos do neoliberalismo é propor “soluções” individuais, investindo
em pequenos gestos grande envergadura ética e cósmica. Que casos concretos
podem exemplificar essa dinâmica e quais são as consequências sociais dessas
práticas?
Bräulio
Marques Rodrigues – Um dos traços centrais do neoliberalismo, como já
diagnosticado por Fisher, é a privatização do sofrimento. Isso gera uma
equiparação de responsabilidade entre as classes que ignora intencionalmente a
apropriação das reservas de recursos pelas elites. Em outras palavras, em vez
de atentar para os patrocinadores do desastre, o neoliberalismo desloca o foco
para microgestos morais, investindo-os de uma carga ética quase redentora. O
hambúrguer vegano é mais um exemplo de como a tarefa de salvar o mundo atual
parece recair em uma escolha individual. Como se o estilo de vida pudesse, por
si só, reverter processos de destruição ambiental consequentes da
industrialização em larga escala. Ao dizer isso, não quero negar a importância
ética dessas escolhas, mas observar como elas são insuficientes: substitutos
simbólicos para reformas tecno-orgânicas. No caso dos hambúrgueres veganos, por
exemplo, temos uma situação curiosa: práticas alimentares que poderiam estar
associadas à valorização da culinária regional, por meio de círculos locais de
produção e gastronomia, acabam se voltando para produtos ultraprocessados,
inseridos nos mesmos dispositivos globais de logística. A promessa implícita é
a de que o consumidor pode salvar o planeta por meio de um autointitulado
consumo inteligente. As consequências deste novo aristocratismo estão aí. Para
além da moralização do consumo, cumpre observar como o elitismo passa por um
rebranding, uma vez que a sustentabilidade passa a ser ativo de uma nova marca
e os sujeitos destas marcas são interpelados a se identificarem individualmente
com os seus produtos, em vez de participarem de agências e coletivos capazes de
disputar outros modelos de produção e, por sua vez, outras formas de valor.
·
Qual
a relação entre desejo e capitalismo tardio e como ela nos ajuda a compreender
o contemporâneo?
Bräulio
Marques Rodrigues – No capitalismo tardio, o desejo deixa de ser apenas
percebido como uma carência a ser satisfeita e passa a ser embalado como
mercadoria. Desde pelo menos Gilles Deleuze e Félix Guattari, sabemos que o
desejo não é simplesmente falta, mas uma energia criadora de corporalidades e
capilarizadora de relações. O capitalismo contemporâneo se mostra
particularmente eficiente em capturar essa potência, assim como proposto por
[Jean-François] Lyotard, redirecionando-a para o consumo, mesmo quando isso
implica a inscrição do desejo em uma economia libidinal interminável. Fisher
mostra como essa captura do desejo funciona também em nível psíquico por meio
de um estímulo sutil. É por isso que a promessa permanente de realização
convive com aquilo que ele chama de hedonia depressiva, a saber, uma erotização
da depressão. O desejo é continuamente estimulado na medida em que um pânico de
baixa intensidade reforça a nossa dependência para com as telas. Penso que a
principal tela esteja hoje nas plataformas digitais e, em especial, nas redes
sociais. Em ambientes de hibridização e hiper-realismo – para retomar o
diagnóstico de [Jean] Baudrillard acerca do regime em que a simulação precede e
organiza o real –, a articulação entre desejo e neoliberalismo sofre uma
inflexão decisiva. Já não estamos diante de uma economia centrada apenas em
bens observáveis, mas de uma economia da atenção, estruturada pela captura
contínua de dados comportamentais e pela modulação algorítmica das condutas.
Se, como sugeria Baudrillard, consumimos signos antes que objetos, agora somos
também consumidos enquanto perfis estatísticos, convertidos em variáveis
preditivas no interior de uma maquinaria que antecipa, orienta e explora o
desejo. Essa transição implica uma virtualização de todas as formas de vida e
uma criptografia do comportamento. O que se consome não é apenas um objeto, mas
uma promessa de validação, um tipo vital que passa por uma identidade a ser
consumida. O desejo passa a ser continuamente mapeado, antecipado e induzido
por bots que operam abaixo do limiar da consciência reflexiva, instalando uma
área de socialização no qual os sujeitos não apenas desejam, mas são desejados
como perfis e conjuntos de dados. Dito isso, penso que o que está em jogo não é
apenas o conteúdo do desejo – o que desejamos –, mas o próprio modo de desejar:
como esse desejo é distribuído também por meio de uma cadeia de valor, em quais
condições emerge, quais os seus ritmos, como até as suas disrupções são
controladas e, sobretudo, como se dá a sua mediação pela técnica.
·
Do
que se trata a crítica de Jacques Derrida, em seu último seminário, a partir do
conceito de carnofalogocentrismo?
Bräulio
Marques Rodrigues – A crítica do carnofalogocentrismo pode ser desenvolvida a
partir da tematização de três eixos da tradição ocidental, tal como
generalizados por [Jacques] Derrida: o carnivorismo, o falocentrismo e o
logocentrismo. O neologismo visa explicitar como a antropologia do sujeito que
chega até nós – humano, masculino, racional e falante – instituiu uma
correlação íntima entre soberania e consumo da carne, entendida aqui tanto como
prática de ingestão quanto de possessão, tanto como alimentação quanto como
filiação, bem como com a produção de uma hierarquia entre o humano e o animal. Nos
últimos seminários, especialmente aqueles dedicados à questão do animal e da
hospitalidade, Derrida aprofunda essa crítica, ao que hoje se costuma denominar
de patriarcado, ao mostrar que a figura do sujeito soberano – aquele que fala,
decide, mata e consome – está vinculada a um regime de autorização da violência
contra o animal e, por extensão, contra formas de vida consideradas matáveis,
ou seja, sacrificáveis, ou mesmo, descartáveis. O carnofalogocentrismo, nesse
sentido, não se reduz a uma crítica aos hábitos alimentares, mas designa uma
matriz civilizatória mais ampla, na qual a afirmação da racionalidade está
estreitamente apoiada em uma bestialização do homem. A crítica derridiana
aponta, assim, para a necessidade de repensar a legitimação na apropriação dos
corpos, deslocando o humanismo clássico e abrindo espaço para uma ética da
alteridade que inclua aquelas formas de vida até então consideradas não
humanas: os animais, os corpos vulneráveis e as formas de vida historicamente
subordinadas.
·
Por
que e como o projeto veganista neoliberal contemporâneo opera, paradoxalmente
ou não, no interior dos muros do carnofalogocentrismo?
Bräulio
Marques Rodrigues – Tal como desenvolvi no ensaio Não se faz revolução com
dieta vegana, penso que o ponto central não é a crítica ao veganismo enquanto
escolha ética individual, mas a sua captura neoliberal como tecnologia de
subjetivação. Nessa configuração, o engajamento político é reconfigurado como
prática de consumo, deslocando a crítica do maquinário extrativista para o
plano da autorregulação moral. Esse deslocamento permite que o projeto
veganista neoliberal opere no interior da gramática do carnofalogocentrismo,
não como a sua negação, mas como a sua reconfiguração. A lógica sacrificial, a
hierarquização moral e a centralidade de um sujeito soberano que administra a
sua própria pureza estão lá, permanecem ativas, ainda que sob uma nova
estética. A economia política da exploração não é desativada, mas recodificada
por meio de selos como plant-based, que reproduzem regimes coloniais de
invisibilização do trabalho. Nesse sentido, o veganismo neoliberal não
constitui uma ruptura com o regime carnofalogocêntrico, mas uma
compatibilização da crítica com o mercado acionista da indústria alimentar. A
substituição alimentar opera como mera mediação simbólica que preserva a
acumulação, ao mesmo tempo que a distinção moral resultante inviabiliza a
possibilidade de uma politização coletiva mais ampla que passe pela
transparência nas condições materiais do trabalho.
·
Do
que se trata o automatismo psicoeconômico formulado por Mark Fisher e como ele
se engendra em nossas sociedades?
Bräulio
Marques Rodrigues – Esse automatismo reflete a patologização do mal-estar
social – a ansiedade decorrente de como a precariedade é atualmente
interpretada como falha individual – e a colonização do tempo pelas semióticas
do capital digital. Acredito que Fisher, em sua viragem para uma assombrologia
ou hauntologia, oferece um diagnóstico preciso: vivemos em um presente tão
contínuo que chega a ser espectral, de modo que o passado está sempre
retornando no fantasma da nostalgia. A ontologia empresarial é ao mesmo tempo
condição e consequência do automatismo: se não se pode imaginar algo diferente
do trabalho como agregação de valor para uma mercadoria, então só resta a
automatização dos sentidos da vida. O automatismo psicoeconômico, portanto,
descreve o processo pelo qual a lógica do capitalismo neoliberal é
internalizada a ponto de se tornar imanente. Além disso, pode-se sustentar que
a determinação da existência no capitalismo tardio é engendrada por meio de
circuitos hipersticionais que naturalizam imperativos como produtividade,
flexibilidade e competição. Tais imperativos passam, por sua vez, a organizar a
produção social do desejo, de modo a dissolver a fronteira entre a
autenticidade e as demandas do mercado. Em síntese, acredito que o problema
maior se encontra no fato de que tal adaptação parece criar uma subjetividade
esquizo que está longe de ser criadora e livre. Ao contrário, essa divisão
absoluta entre o mundo da vida e o mundo do trabalho nos exila na angústia.
Depois de uma vida inteira dedicada a uma carreira, não sobra muita vida para
viver e o bônus é a depressão.
·
Como
sabotar a máquina da mercadoria e interromper seus fluxos de funcionamento? Por
que isso é essencial para, de fato, propor uma revolução que não seja de
fachada, mas estrutural?
Bräulio
Marques Rodrigues – Sabotar a máquina da mercadoria não significa apenas
recusar determinados produtos ou adotar estilos alternativos de vida, mas
intervir nos dispositivos que organizam os fluxos de valor. Em termos
deleuzianos, trata-se de enfrentar não apenas objetos isolados, mas a própria
axiomática do capital, isto é, o conjunto de operações que permite ao
capitalismo integrar diferenças, apreender performances e reconverter linhas de
fuga em novas oportunidades de valorização.
A noção
de máquina de guerra, em Deleuze e Guattari, é central para pensar essa
sabotagem. A máquina de guerra não se confunde com o aparelho de Estado nem com
suas formas institucionais; trata-se de uma designação para um experimentalismo
que vem de fora – ou das bordas – dos dispositivos de captura. Uma dificuldade
na constituição de agências de resistência, no momento atual, se encontra no
fato de que as milícias digitais se mostram particularmente eficientes em
legitimar a cultura hegemonônica e monetizar o dissenso por meio de uma
espetacularização da ambiguidade. Startups, economia criativa, contraculturas e
até expressões de dissidência estética frequentemente funcionam como exemplos
dessa captura. É nesse ponto que penso que a contribuição de Fisher se torna
decisiva para uma renovação da filosofia política com tom revolucionário. O
realismo capitalista nomeia precisamente a atmosfera na qual essa captura se
naturaliza: a sensação de que não há exterior ao sistema, de que toda linha de
fuga já nasce antecipadamente formatada para a reabsorção mercantil. A
sabotagem, portanto, não pode se limitar à invenção de novas identidades, pois
estas tendem a ser rapidamente convertidas em capital. Uma máquina de guerra
efetivamente antagonista, nesse contexto, precisaria operar no nível dos fluxos
materiais e temporais: interrupção de cadeias logísticas, disputa sobre o tempo
de trabalho e de vida, criação de redes coletivas que escapem, ainda que
parcialmente, à equivalência geral da mercadoria. Trata-se menos de produzir
novas diferenças e mais de produzir fricções e zonas de não conversão, nas
quais nem tudo possa ser imediatamente traduzido em valor, de modo que se abra
espaço para uma livre valoração que não pode ser dada por nenhum algoritmo.
·
Em
que sentido a questão de fundo para os desafios ambientais e sociais não é
propriamente o consumo, mas a produção?
Bräulio
Marques Rodrigues – A centralidade da produção, e não do consumo, como questão
de fundo dos desafios ambientais e sociais decorre do fato de que é no nível da
organização produtiva que se definem as escalas de extração, os regimes
energéticos, as cadeias logísticas, as formatações da propriedade e os padrões
tecnológicos que estruturam materialmente a devastação e a desigualdade. O
consumo aparece, em grande medida, como efeito e não como causa primária desses
arranjos. Do ponto de vista ecológico, a produção define o metabolismo com a
natureza. A escolha de matrizes fósseis e a escala de extração de materiais são
determinados na esfera produtiva, não na de consumo. A obsolescência
programada, por exemplo, é uma estratégia produtiva deliberada para encurtar
ciclos de reposição, gerando simultaneamente desperdício e demanda artificial.
Mesmo que o consumo se tornasse verde ou minimalista, um sistema produtivo
baseado em crescimento exponencial, externalização de custos ambientais e uso
intensivo de recursos não renováveis, assim como ressalta Andreas Malm,
continuaria a gerar degradação, pois a reprodução do capital fóssil exige
expansão material constante. No âmbito social, a organização da produção define
as relações de trabalho, a distribuição de renda e as variações da
desigualdade. A precarização laboral, a deslocalização de fábricas para regiões
com baixos padrões regulatórios e a financeirização, que prioriza o valor para
o acionista em detrimento do valor comunitário, são características intrínsecas
do modo de produção pós-fordista. O consumo, nesse sentido, é um momento
posterior que pode até mascarar essas contradições (via acesso a bens baratos
oriundos de exploração), mas não as causas.
Portanto,
a raiz do problema reside na lógica produtiva orientada para a acumulação
infinita em um planeta finito. Enquanto a produção for alijada em torno dessa
lógica, mesmo reduções no consumo (em nível individual ou setorial) tenderão a
ser compensadas pelo mecanismo de rebote sistêmico (effet de rebond), onde
ganhos de eficiência são anulados por aumentos na escala de produção.
·
Como
a mesma lógica implicada na negação ao consumo de carne está presente nas
grandes monoculturas de milho e soja? Dito de um modo mais coloquial, por que o
buraco é mais embaixo?
Bräulio
Marques Rodrigues – Se recorrermos à figura da carne na obra de Francis Bacon,
o pintor, podemos iluminar de modo particularmente expressivo por que o
problema não se esgota na negação do consumo de carne. Em Bacon, a carne não
aparece apenas como alimento a ser consumido, mas como essa matéria exposta,
dilacerada, pendurada e tensionada por forças. A carne é aqui aquilo que resta
quando o corpo é reduzido ao descartável. Bacon pinta a carne não como
alimento, mas como superfície que tenciona forças: dor e deformação aparecem
como um corpo cujos órgãos foram retirados e expostos nas pressões do quadro.
Essa carne é a metáfora do lugar onde as possibilidades reais da vida
confrontam o desejo por excesso – o problema nesse caso é que tal abundância desejada
é apenas para si e o outro nem sequer é convidado para o banquete, até porque a
carne que comemos é a sua. Acho que a mesma lógica que organiza a indústria da
carne reaparece, sob outra forma, nas grandes monoculturas de milho e soja que
você citou. Ainda que não se trate de carne animal, trata-se da produção de uma
carne vegetal genérica: vastas superfícies territoriais são convertidas em
matéria homogênea, destituídas de singularidade, reduzidas a unidades de
rendimento. Assim como nos corpos pintados por Bacon, o território deixa de ser
o corpo vivo e passa a ser a carne exposta ao regime de corte, repetição e
expiação. A figura baconiana da carne ilustra, para mim, como o problema do
neomalthusianismo, por exemplo, não é apenas ético-alimentar, mas ontológico e
político: trata-se de um regime no qual tudo aquilo que existe deve ser
convertido em mais-valia. As monoculturas não superam essa lógica, mas a
territorializam, transferindo a carne do animal para o território e do corpo
individual para a paisagem inteira. É por isso que no plano estrutural a
crítica ao carnivorismo precisa ser inseparável da crítica aos regimes de
produção que transformam a própria terra em carne disponível.
·
De
que ordem é o puritanismo moderno em voga?
Bräulio
Marques Rodrigues – O puritanismo moderno em voga é uma tendência reativa da
classe média e do que chamei antes de novo aristocratismo. Parece-me que passa
por um poder pastoral que precisa a todo momento corrigir o discurso com base
no que [Judith] Butler chamou de princípio de coerência. Com isso, a própria
possibilidade de vocalizar uma opinião fica restrita a quem domina uma
gramática conforme um cânone acadêmico que a classe trabalhadora não tem
acesso. A meu ver, esse é um traço central da polarização ideológica. Outro
ponto é aquele apontado por Fisher em Exiting the Vampire Castle. Há esse
atomismo da consciência virtuosa cada vez mais isolada tal como se estivesse
aprisionada em um castelo. Nesse castelo, se já não bastasse a alienação do que
acontece lá fora, ainda há um vampiro que drena toda a alegria e a generosidade
ao confinar a consciência em um ciclo infinito de medo e ódio. Isso é o que
resta do superego quando um futuro de comunhão é cancelado. A saber, o castelo
pode ser lido como um identi-camp: não apenas uma clausura, mas uma tecnologia
de captura identitária que opera por segmentação afetiva e autopoliciamento
permanente. Trata-se de um campo sem arame farpado, no qual a subjetividade é
organizada em microssoberanias ressentidas, cada uma defendendo a sua própria
ferida como território e a sua própria posição como fortaleza. O identi-camp
não produz comunidade, mas agregados de perfis; não produz solidariedade, mas
alinhamentos reativos: não produz mundo algum. Nesse regime, a identidade deixa
de ser um vetor de articulação e serve única e exclusivamente ao confinamento e
à vigilância recíproca. Sair do castelo implica desertar deste lugar que estou
chamando de identi-camp e trocar a posição de juiz pela de familiar: não a
familiaridade da identidade, mas a do encontro entre corpos que não precisam
ser puros para poderem ser solidários. Nesse movimento, o erro deixa de
funcionar como marca de exclusão e passa a operar como condição de aprendizagem
coletiva, nas quais sujeitos igualmente falhos podem ainda assim construir algo
em comum. O puritanismo aparece, aqui, como a patologia política de um campo
sem movimento: tanto da esquerda paralisada quanto da direita em delírio, ambos
presos à lógica do adiamento perpétuo. O tempo próprio do identi-camp é sempre
o depois, o ajuste de contas futuro, o amanhã que nunca chega. Mas o amanhã,
como Fisher sabia, continua a ser o tempo do vampiro: um futuro prometido que
se alimenta da suspensão indefinida do presente.
·
Quais
os caminhos possíveis para pensarmos uma alternativa concreta ao capitalismo?
Bräulio
Marques Rodrigues – Uma alternativa concreta ao capitalismo não pode ser
formulada apenas no registro da gestão ou da reforma incremental. Trata-se de
uma agenda civilizatória que exige a articulação simultânea de infraestruturas
inclusivas com sintonias de coexistência que partam do subsolo do realismo
capitalista, tomado como horizonte aparentemente incontornável. Para Fisher, o
comunismo ácido nomeia precisamente essa transição codependente: não um
programa econômico fechado, mas uma intervenção que possa abrir fissuras na
naturalização da escassez. Nesse sentido, vejo a proposição de [Aaron] Bastani,
sobre o comunismo de luxo, como complementar. A automação não deve aparecer
como fetiche tecnofílico, mas como condição histórica para a superação
estrutural do trabalho compulsório. Sloterdijk, por sua vez, desloca a questão
para o plano das arquiteturas de convivência por meio do conceito de
coimunismo. O capitalismo se organiza como um regime de imunização, no qual
segurança e sobrevivência são privatizadas, ao custo da externalização
sistemática de riscos e vulnerabilidades. O coimunismo de Sloterdijk, por sua
vez, não propõe uma ética abstrata da interdependência, mas a construção
material de esferas compartilhadas de cuidado e sustentação, nas quais a vida
deixa de ser administrada como ativo individual e adquire qualidade de
antropotécnica: uma técnica criadora de pessoas melhores. Dito isso, e diante
da exigência de uma proposta concreta, cabe afirmar que, no contexto de
crescente intervenção política das big techs, defendo aqui a soberania
tecnológica. Esta deve ser pensada como uma forma de blindagem contra aquilo
que [Günther] Anders diagnosticou como a superficialidade técnica do ódio. Se,
na era da destruição automatizada, a violência prescinde da paixão e se realiza
sob o signo da indiferença operacional, então o problema não é apenas moral,
mas infraestrutural: trata-se de quem controla as mediações técnicas que
permitem matar, excluir, classificar e aniquilar à distância. A soberania tecnológica
não designa um fechamento nacionalista nem uma fantasia de autarquia digital,
mas um investimento massivo em saúde e educação públicas, universalmente
acessíveis, pois é nelas que se encontram os dispositivos que organizam a
percepção, a decisão e a execução. Trata-se, assim, de interromper a conversão
automática da vida em alvo, dado ou imagem. Contra a indiferença operacional e
a excitação mediática do ódio, impõe-se a construção de arquiteturas
tecnopolíticas capazes de reinscrever responsabilidade, copresença e
reversibilidade – isto é, de instaurar, na linha de Sloterdijk, esferas
conectadas em espuma nas quais ainda seja possível responder pelo que se faz,
restituindo a espessura do agir frente à abstração assassina da máquina
extrativista.
Fonte: Entrevista
com Bräulio Marques Rodrigues, para IHU

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