Um
mundo sem drogas é possível? Táticas que o Brasil pode adotar nessa luta
A
questão das drogas é um problema de saúde pública. A solução desse problema é
missão conjunta de toda a sociedade, orientada por uma política antidrogas bem
estruturada e de abrangência nacional. As iniciativas dos últimos anos, que
tentam dispersar os dependentes da Cracolândia, em São Paulo, talvez visem
"limpar" a cidade, mas estão longe de propor um modelo para a solução
do problema das drogas na cidade e na nação.
O
desenvolvimento de tal política não pode ser baseado em ideologias ou
interesses políticos. O diálogo não evolui com posturas radicais de liberação
total versus repressão férrea. Mandar a polícia dispersar os dependentes é
repressão inútil, guiada pelo mote "o que eu não vejo, não existe".
Até
porque, no que diz respeito à repressão, é emblemático o fracasso histórico da
Lei Seca nos Estados Unidos (1920–1933): a proibição de fabricar e vender
bebidas alcoólicas deu origem a organizações criminosas, à produção ilegal e à
oferta de produtos de baixa qualidade que agravavam o dano à saúde dos
consumidores. A máfia se fortaleceu, e este foi o saldo final. Portanto,
simplesmente proibir não é a solução.
A
tragédia social causada pela epidemia de crack, um dos problemas de maior
impacto para a saúde e a segurança públicas em nossa terra, deve orientar a
prioridade na discussão de uma política antidrogas.
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Lições de fora que podem funcionar no Brasil
De
início, não precisamos inventar a roda. Devemos aprender com a experiência
internacional, incorporando o que deu certo e evitando o que deu errado. A
Suíça é um dos países cuja boa política antidrogas dos anos 90 foi adotada
total ou parcialmente por outros países, como Alemanha e Portugal. Embora a
época e o ambiente fossem diferentes dos nossos, com predominância do abuso de
drogas injetáveis (heroína), as bases do programa merecem nossa attention. A
política suíça é baseada em quatro pilares, que poderiam orientar o nosso
trabalho no Brasil:
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1. Prevenção
Este é,
sem dúvida, o pilar mais importante. A prevenção começa na escola. Na Suíça,
foi inserido no currículo das escolas o tema "drogas", ao lado de
matemática, história e geografia, em que se ensina o que as drogas fazem e como
prejudicam a saúde e a vida dos usuários. Uma campanha preventiva em nosso
meio, começando pelas escolas, em parceria com o Ministério e as Secretarias de
Educação, teria grandes chances de bons resultados; o enorme sucesso obtido com
as campanhas antifumo mostra que nossa sociedade é permeável a esse tipo de
ação educativa, bem estruturada, que acompanha o indivíduo sem trégua, ao longo
da vida.
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2. Tratamento
Sabemos
das dificuldades de recuperar dependentes, sejam de álcool ou de crack. Sejamos
realistas: os índices de sucesso são tristemente baixos, e a demanda por
recursos terapêuticos será sempre maior que a oferta. Tratamento para todos é
inviável. Portanto, devemos investir recursos em usuários que espontaneamente
desejam abandonar a droga, com maior motivação para o tratamento.
Tratamento
compulsório é ineficaz. Um programa de reinserção social e profissional é
imprescindível para o dependente mudar o foco de sua vida, saindo da procura e
aquisição da droga para o trabalho e para a melhora de sua qualidade de vida.
Em Portugal, o Estado oferece incentivos fiscais para empresas que contratam
dependentes. A descriminalização do uso (mas não do tráfico) de drogas
contribui para a diminuição do estigma e do preconceito contra os usuários,
facilitando sua reintegração à sociedade.
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3. Redução do dano
Kofi
Annan, ex-secretário-geral da ONU (1997–2007) e Prêmio Nobel da Paz (2001), em
um ensaio na revista alemã Der Spiegel em 2016, declarou que "um mundo
livre de drogas é uma ilusão". Essa visão é compartilhada por um número
significativo de historiadores, sociólogos, profissionais de saúde mental e
demais estudiosos do tema.
Portanto,
se não podemos eliminar o problema, devemos adotar estratégias para reduzir seu
dano, tanto para o usuário quanto para a sociedade. Como exemplos, estratégias
adotadas na Suíça e em Portugal tiveram bons resultados:
• Distribuição
de seringas descartáveis para usuários de drogas injetáveis reduziu em 20 vezes
o número de usuários infectados com o HIV e a hepatite C;
• Criação
de recintos limpos e supervisionados para o uso de drogas reduziu as mortes por
overdose;
• Distribuição,
pelo Estado, de drogas para dependentes cadastrados reduziu a criminalidade e a
prostituição ligadas às drogas.
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4. Repressão
É
evidente que a repressão e a criminalização do usuário são inócuas no combate
às drogas, lotando nossas cadeias sem reduzir o consumo pela população. A
guerra contra as drogas não pode continuar a ser uma guerra contra as pessoas,
os usuários. A repressão deve se dirigir contra o tráfico e a lavagem de
dinheiro.
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Quem deve controlar as drogas? O debate que incomoda
No
mesmo ensaio na Der Spiegel, Kofi Annan defendeu que "as drogas são
perigosas demais para o seu controle ficar nas mãos de criminosos; o Estado
deve assumir o seu controle". Essa sugestão é arrojada e, no Brasil, no
curto prazo, talvez inexequível. Mas ela merece atenção.
O
dinheiro é a origem do imenso poder do tráfico. Pois bem: se o controle da
droga passar para o Estado, logo de cara enfraqueceremos o tráfico por
cortarmos as suas vendas.
Ademais,
os traficantes não têm interesse em reduzir o dano, produzindo produtos mais
puros. Pelo contrário, seu interesse é produzir e vender produtos com cada vez
maior potencial de dependência, independentemente de causarem ou não maior dano
à saúde. Portanto, partindo do princípio de que sempre haverá drogas no nosso
mundo, a questão é "de quem é menos ruim comprá-las": do traficante
ou do Estado. Pensemos nisso.
Fonte:
CNN Brasil

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