“Lição
para a sociedade”, diz líder indígena após derrubada de decreto sobre rio
Tapajós
Reunidas
em uma grande roda, dezenas de pessoas faziam um ritual de preparação no final
de tarde da última segunda-feira, 23 de fevereiro. Com os enormes silos de soja
e milho ao fundo e o relógio correndo contra o prazo dado pela Justiça para que
elas desocupassem o entorno de um terminal portuário da Cargill, elas se
preparavam para um possível confronto com forças policiais. Na multidão, alguém
gritou para que olhassem o WhatsApp. Em poucos segundos, toda a tensão se
dissipou – e se transformou em uma grande comemoração, como mostra o vídeo
abaixo.
Depois
de 33 dias de uma mobilização de vários povos indígenas da região Tapajós que
ocupou a área da multinacional agrícola americana, obstruiu rodovias e
interceptou uma embarcação que transportava grãos no rio Tapajós, eles
conseguiram o que queriam: a revogação pelo governo federal do decreto 12.600
que abria caminho para a concessão à iniciativa privada de hidrovias em três
rios amazônicos: Tapajós, Madeira e Tocantins.
“Fica
uma lição para toda a sociedade: somente a luta popular, somente a nossa
resistência e o nosso enfrentamento é capaz de mudar a realidade”, afirmou em
entrevista à Agência Pública Auricelia Fonseca Arapiun, uma das principais
lideranças do movimento dos povos indígenas do Baixo Tapajós.
Auricelia
estava entre as cerca de 60 pessoas dos 14 povos do Baixo Tapajós que, no dia
22 de janeiro, iniciaram a ocupação do terminal da Cargill, às margens do
Tapajós, em Santarém (PA), para protestar contra o decreto do governo Lula e
contra um edital, publicado semanas antes, que previa uma licitação para fazer
uma dragagem de manutenção no leito do rio, para facilitar a navegação de
grandes embarcações.
“Não
foi uma construção fácil, porque até para muitos parentes [termo usado por
indígenas para se referir a outros indígenas] era coisa de doido ocupar a
gigante do agronegócio”, disse Auricelia à Pública na entrevista (leia na
íntegra mais abaixo).
“A
própria Cargill não entrou com ação de reintegração de posse no começo, porque
achavam que a gente não ia durar muito”, disse ela.
Mas
eles duraram. Em dez dias, já eram 700 indígenas, que se organizaram para
estabelecer cozinha, instalar banheiros e tendas, realizar assembleias de
discussão e espalhar sua mensagem.
Na
última sexta-feira, dia 20 de fevereiro, a tensão aumentou com uma ordem de
reintegração de posse expedida pela Justiça que deu um prazo de 48 horas para a
desocupação da área. A decisão se deu após uma ação da Associação dos Terminais
Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport), que,
assim como a Cargill, alegou na Justiça prejuízos financeiros provocados pelo
bloqueio com a paralisação do escoamento de grãos.
Na
manhã do dia seguinte, os manifestantes optaram por mais um movimento de
pressão e ocuparam uma área interna do escritório da Cargill. “Nossa decisão
não foi impulsiva e nem violenta. Foi construída coletivamente, a partir da
escuta dos mais velhos, de análises jurídicas e políticas e da indignação
diante do Decreto 12.600. Estamos aqui porque defendemos o direito de existir”,
dizia uma carta aberta publicada pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns
(Cita), que representa os povos do Baixo Tapajós. Em notas à imprensa, a
Cargill afirmou que suas operações foram interrompidas e que havia “fortes
evidências de vandalismo” – acusação negada pela organização da ocupação.
A
pressão surtiu efeito, e dois dias depois, Auricelia e outras lideranças
viajaram à Brasília para se reunir com os ministros da Secretaria-Geral da
Presidência, Guilherme Boulos, e dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara.
Nesta
segunda-feira, 23 de fevereiro, quando Boulos anunciou a decisão do presidente
Lula de revogar o decreto, cerca de 1.500 pessoas participavam da manifestação,
segundo as lideranças locais. Além dos povos do Baixo Tapajós, outros se
juntaram à mobilização, como os Munduruku, Kayapó e Paraná.
“Nós
somos movidos pelo rio, pela floresta, pela fé e pela coragem. Parecemos um
povo tão pequeno, mas somos gigantes
quando a gente enfrenta o inimigo”, afirmou, em lágrimas, Alessandra Korap, uma
das principais lideranças do povo Munduruku, em um vídeo gravado pouco depois
do anúncio da revogação, publicado pelo Tapajós de Fato.
Segundo
Auricelia, os povos da região não vão descansar e se sentem fortalecidos para
enfrentar ameaças que ainda pairam sobre eles, como o projeto da Ferrogrão, uma
ferrovia que visa ligar o Mato Grosso e o Pará para escoar a produção de grãos.
Na última semana, um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU)
recomendou a suspensão do andamento do processo da ferrovia até que sejam
realizadas audiências públicas, conforme informações do Jornal O Globo.
Outro
desafio será a eleição. Em outubro, os brasileiros vão às urnas eleger não
apenas o presidente da República, mas também governadores, deputados federais e
estaduais e renovar dois terços do Senado Federal.
À
Pública, Auricelia disse que, até o momento, é pré-candidata à deputada
estadual, mas que essa decisão ainda está sendo construída. “Meu maior medo é
que esse espaço [de poder] eventualmente me mude”, disse ela.
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Leia a entrevista:.
• Mais de um mês de ocupação e mobilização
para o governo revogar o decreto. Qual o significado dessa vitória?
Auricélia:
Eu fico até sem palavras pra dizer o quanto isso significa. Acho que fica uma
lição para toda a sociedade e para toda a população: somente o povo, somente a
luta popular, somente a nossa resistência e o nosso enfrentamento é capaz de
fazer mudar a realidade que temos vivido hoje no nosso país. São muitas
ameaças. Acho que nós, os povos indígenas da região do Tapajós, mostramos para
a sociedade que os nossos direitos são inegociáveis, o nosso território é
inegociável. É uma vitória histórica, não só para os povos indígenas. E é uma
vitória para o próprio governo.
• Em que sentido?
Primeiro
porque eu acho que eles não reconheceram o erro, o decreto só foi revogado por
muita pressão. Mas [foi uma vitória] para a ala do governo que a gente
acredita, que nós votamos, que foi a esperança para tirarmos o autoritarismo do
poder. Foi importante para que o governo também voltasse a enxergar a sua
essência e os graves erros que tem cometido contra os nossos territórios e os
nossos direitos. E para mostrar para o governo que, independentemente do
governo que for, nós não iremos nos calar.
• Você falou que foi uma vitória para toda
a sociedade. Em relação ao rio Tapajós, quais os impactos atuais da navegação e
de que maneira eles seriam agravados com a possível concessão da hidrovia para
a iniciativa privada?
O rio
Tapajós já sofre muitas ameaças. A hidrovia abriria ainda mais caminhos, que
inclusive, já estão abertos, para a morte total do rio. O governo falava que ia
fazer a dragagem de manutenção por conta das embarcações, mas nós nunca pedimos
e nem tivemos necessidade de dragar o rio para navegar. A hidrovia tinha o
único objetivo de atender ao agronegócio, que é o nosso principal inimigo, que
tem muitos projetos de morte de vários corpos. É o mesmo agronegócio da
Ferrogrão que ainda é uma ameaça aos povos indígenas. Nossa resposta para o
governo é que ele não pode negociar as nossas vidas, nem com os nossos
direitos. Os nossos rios, nossos territórios não estão à venda. Os danos seriam
irreversíveis e irreparáveis. Esse decreto era uma tragédia anunciada para a
Amazônia.
• Lá na COP30 (Conferência das Nações
Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025) vocês já estavam pedindo a
revogação do decreto. Foi uma luta de vários meses. Como você interpreta a
demora do governo em dar uma resposta?
É,
realmente não foram só 30 dias. É muito tempo de luta pela proteção do rio
Tapajós. Antes mesmo de qualquer decreto, a gente já lutava, inclusive pelo
arquivamento da hidrelétrica São Luiz do Tapajós, que foi uma vitória do
movimento indígena. Desde agosto, quando o governo assinou o decreto, a gente
já vinha fazendo esse enfrentamento. Fomos para a COP com essa como principal
pauta, porque como é que temos uma COP na Amazônia e o governo com projetos de
privatização de rios, de mineração, vários projetos que nos impactam? Essa luta
é política, mas ela é espiritual também. Durante a COP, os encantados falaram
que era para nós voltarmos para o território, que a nossa força estava no
território. Hoje faz muito sentido o que eles falaram para a gente. Esse
espírito da ancestralidade guiou a gente o tempo todo. Porque lá na COP foram
feitas promessas falsas, era o governo querendo dar respostas pra sociedade,
porque não foi só para nós. Mas, foi um discurso que não nos convenceu, porque
pela lei a consulta [aos povos indígenas] não é póstuma. É prévia. Nós falamos
desde o começo que não aceitávamos a consulta sem revogação do decreto.
• Sobre a ancestralidade. Vocês já falaram
que aquele espaço da Cargill é sagrado. Por que? Qual é a história daquele
lugar?
Santarém
é a cidade mais antiga da Amazônia, [era] uma das mais populosas. E cidade no
sentido do que é pensado como cidade hoje. Nós éramos muitos. Muitos mais do
que somos hoje, muitos povos foram dizimados. Ali, onde está a Cargill, é um
cemitério dos nossos antepassados. Inclusive, a Cargill já deveria ter pagado
pelos danos à nossa ancestralidade. Foi um lugar muito significativo para a
gente rememorar e guardar a memória dos nossos antepassados, acho que eles
estão muito orgulhosos disso. Inclusive, nós falávamos que era uma retomada de
território, não uma ocupação: quem invadiu foi a Cargill, não fomos nós. Ali
antes era também uma praia, uma praia linda, eu ainda me lembro quando era
criança e ia na cidade por algum motivo, de ver aquela praia com muita gente.
Hoje, é um lugar impróprio para banho.
• E como foi a construção da ocupação e a
estratégia de mobilização, que envolveu muita gente, mulheres, crianças,
jovens, anciãos. Pode contar?
Não é
uma construção fácil, porque até para muitos parentes, inclusive, era coisa de
doido ocupar a gigante do agronegócio, ainda mais sendo uma multinacional
americana. Não foi fácil para a gente que estava na linha de frente, a gente
não tinha recurso nenhum, a gente só tinha coragem.
Éramos
em torno de 60 pessoas quando ocupamos no dia 22 de janeiro, sem alimentação,
sem água. Fomos chamando a parentada, chamando os movimentos sociais, fazendo
plenária e construindo e cativando a sociedade, chamando atenção do porquê
estávamos lá e a sociedade toda foi aderindo à luta. Nas primeiras semanas, a
população local não sabia que o rio Tapajós estava sendo privatizado, não sabia
da gravidade do que estava acontecendo, a gente foi conscientizando. E o apoio
que recebemos foi muito importante, porque agora, no final, tínhamos que
alimentar 1.500 pessoas por dia. Teve muita gente falando que eram as ONGs que
estavam por trás, sempre subestimando a nossa capacidade de mobilização. A
própria Cargill não entrou com ação de reintegração no começo, porque achavam
que a gente não ia durar muito.
Mas nós
fomos construindo, construímos cozinha, colocamos banheiro, dormitório, espaço
para os parentinhos [termo para se referir às crianças], para a saúde. E daí
quando eles viram que não íamos sair, entraram com as ações judiciais.
Todo o
apoio recebido, não só da população de Santarém, dos povos do [rio] Madeira e
do [rio] Tocantins, mas também da sociedade e a união dos movimentos sociais
foi o que fez com que esse decreto fosse revogado.
• Você falou sobre como cativaram a
sociedade. À distância, eu mesma pude acompanhar muito da ocupação pelas redes
sociais. As páginas do movimento, mas também várias outras, produziram vídeos,
conteúdos explicativos, vários posts. Em que medida a comunicação foi
importante para o resultado que vocês tiveram?
Nós
temos uma juventude muito boa, modéstia à parte. Uma juventude formada de base
com muita consciência política, e a gente trabalha nessas formações, os nossos
encontros e assembleias são espaços de formação.
Para
mim, o espaço mais importante dessa ocupação era o dos parentinhos. Tenho
certeza que estamos formando uma base muito forte do movimento indigena com a
juventude e as crianças. Todos os dias, eles nos faziam chorar. A carta que
eles escreveram, elas mesmas, com as próprias mãos, para o presidente Lula foi muito significativa. Toda
vez que chegavam na plenária (e nós tivemos plenária todos os dias), eles
sempre surpreendiam a nós, as lideranças ali da linha frente.
• Surpreendiam como?
Com a
consciência deles, da importância que o rio tem na vida deles. A forma com que
eles falavam. Eles fizeram poemas, músicas, gritos de guerra. Tudo isso foi
muito forte. Voltar para o território com essa consciência dá muita força para
a gente acreditar na luta em um momento em que o movimento indígena nacional
tem muito recuo. No Tapajós, a gente se colocou em risco com essa mobilização,
[mas] a gente sai muito fortalecido.
E a
gente não vai descansar, porque não darão descanso para a gente. Revogou o
decreto, mas não foi fácil revogar. E não sabemos quais foram os acordos com o
agronegócio para que isso acontecesse. A batalha não é, e não vai ser, fácil.
Mas estamos prontos para os próximos desafios.
• Falando de próximos desafios. Durante a
ocupação, um vereador chegou a avançar com o carro para cima dos manifestantes.
Este é um ano eleitoral e sabemos do tamanho da bancada ruralista e
anti-indígena no Congresso. Como os povos do Tapajós vão se preparar para a
eleição?
Havia
muita gente que falava que a ocupação era uma campanha política. Houve essa
fala do próprio governo. Bom, e se fosse? E se fosse, qual o problema? Mas sim,
a gente precisa se preparar para enfrentar as eleições, principalmente dentro
desse Congresso, o Congresso inimigo do povo, dos povos indígenas. Precisamos
preparar o nosso povo para nos representar para que a gente consiga aumentar a
bancada indígena que está hoje no Congresso. É uma eleição muito desafiadora.
Mas, [durante a mobilização] não chegamos a comentar sobre isso, alguns
deputados [que estiveram na ocupação] falaram sobre isso, sobre nos
prepararmos. Mas, enquanto movimento, a gente até evitava falar sobre eleições
por conta do que podia ser interpretado, para não parecer que era algo partidário.
A nossa
comunicação é muito preparada, todo mundo trabalhou voluntário, cada
contribuição foi muito importante. Organizamos a nossa aldeia ali,
infraestrutura, alimentação, os guardiões, tudo foi muito bem organizado, mas a
gente sabe que tem um desafio das campanhas.
• Mas você já pensou em sair candidata? Ou
ainda não?
Eu
tenho uma formação de base muito consolidada no movimento indígena. Sou do
movimento desde a minha adolescência, sempre estive no Tapajós. Ultimamente
tenho estado em vários espaços do movimento indígena nacional. Nas últimas
eleições, cheguei a ser pré-candidata a vereadora de Santarém, mas desisti,
porque achei que não era o meu momento. Também porque tenho muito medo disso e
porque acho que as coisas acontecem na hora certa.
Mas,
naquele momento, ficou muito evidente essa cobrança dos parentes, de quem não é
parente, de simpatizantes: “acho que você tem que vir, tem que vir”. Mas
estamos nesse processo de construção da minha pré-candidatura, até agora, estou
pré-candidata à deputada estadual. Ainda estou muito na dúvida se é isso que eu
quero, pelas minhas avaliações como liderança. E eu sou muito ligada à
espiritualidade, tudo que eu faço é guiado por isso. A última resposta quem vai
dar é a espiritualidade.
• Você já é uma pessoa politicamente
exposta, ainda que não seja política. Tem preocupação com a segurança?
Eu
nunca tive preocupação, apesar de que eu já tive ameaças, tenho trauma, tive
que sair da minha casa algumas vezes, nunca entrei em programa de proteção,
porque acho que eles são falhos e não atendem a minha necessidade. Mas é uma
das missões mais difíceis que eu posso vir a encarar, porque a exposição, as
ameaças, os inimigos, que são inimigos declarados mesmo, vai ter muita
perseguição. Mas eu não estou com medo não.
Se eu
for mesmo [sair candidata], meu único medo é que esse espaço me mude e que eu
seja uma outra pessoa, que eu não atenda às expectativas – minhas e dos
parentes. Meu medo é que esse espaço possa vir a me transformar, tenho muita
insegurança com isso, mas tenho pedido muito aos encantados que andam comigo
que me guiem no caminho certo. E que se for a vontade deles eu ser candidata e
eleita, que eu nunca perca minha essência, porque já vi muito isso acontecer
quando as pessoas chegam em espaços de poder.
• E, para terminar, queria te ouvir sobre
demarcação, porque várias Terras Indígenas no Baixo Tapajós ainda precisam ser
demarcadas. Como estão esses processos e quais as expectativas?
Vamos
ter reunião hoje [quarta-feira, 25 de fevereiro] com a Funai para ter retorno
sobre algumas demandas que apresentamos na semana passada. Uma delas, a
Munduruku e Apiaká do Planalto Santareno, teve uma audiência [pública] na
semana passada, [em Santarém], que foi meio tensa. Duas Terras Indígenas estão
no momento da demarcação física, que é o ato antes da homologação [etapa
final]. Estou na expectativa de que eles terminem esse serviço e que a gente
receba a homologação ainda no governo Lula. Outras estão com os processos
parados, outras para sair os RCIDs (Relatórios Circunstanciados de
Identificação e Delimitação). A demarcação é a nossa pauta sempre.
Fonte:
Por Isabel Seta, da Agencia Pública

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