Uruguai:
juventude, militância e a questão do conflito
O 55º
aniversário da Frente Ampla (FA) do Uruguai não aconteceu na data prevista.
Aconteceu mais tarde. Foi adiado em alguns dias, definido para um sábado, e
ocorreu em uma cidade pequena. Essa mudança — temporal, espacial, simbólica —
não é um detalhe logístico ou uma mera anedota de agendamento: é uma forma. E,
como todas as formas políticas, ela diz muito antes mesmo de uma única palavra
ser proferida no palco. A FA nasceu em 5 de fevereiro como um gesto de ruptura,
como uma condensação inesperada de vontades dispersas; comemorá-la dois dias
depois não nega isso, mas a reposiciona. E isso só aconteceu no ano passado e
neste ano, desde a queda da ditadura. Isso nos força a perguntar em que tipo de
tempo habita agora a força política que outrora fez da dissonância histórica
sua característica definidora.
Uma
comemoração de aniversário fora de época, em uma cidade menor, sem um aparato
nacional simultâneo capaz de produzir densidade política, surge menos como uma
escolha estratégica do que como a expressão de uma dificuldade persistente em
transformar o aniversário em um evento, a memória em mobilização, a história em
um presente ativo.
Juan
Lacaze, com suas raízes operárias, nosso próprio prefeito e sua herança
industrial, não é o problema. Pelo contrário: sua mera menção evoca uma
tradição de trabalho, luta e organização que dialoga naturalmente com a
genealogia frentista. Mas, precisamente por essa razão, basear toda a
explicação nesse local equivale a transferir a questão. Não se trata de onde o
evento ocorreu, mas de que tipo de evento era possível — e qual não era — dado
o estado atual da Frente Ampla. Quando uma comemoração parece precisar de justificativa
com base no território que a acolhe, algo dentro da estrutura comemorativa já
está falhando.
Este
fevereiro não fala tanto de um passado que precisa ser lembrado, mas sim de um
presente difícil de organizar. O chamado à ação existe, mas não transborda; as
palavras circulam, mas sem nenhum conflito real. Não é a nostalgia que emerge
nessa desconexão, mas uma questão política mais incômoda: o que foi
desmantelado na transição do movimento para o governo, quando o pulso coletivo
se torna procedimento, da epopeia fundadora para a administração prudente, da
unidade laboriosa para a unidade proclamada? A questão permanece ali, suspensa,
como um eco que não busca uma resposta imediata, mas sim as condições para
serem reformuladas coletivamente.
Toda
comemoração é uma cena política condensada. Não apenas pelo que recorda, mas
também pelo que omite; não apenas pelo que evoca, mas também pelo que deixa de
fora. Nesse sentido, os aniversários funcionam como testes de resistência:
tensionam a relação entre passado e presente, entre identidade e prática, entre
memória organizada e corpos mobilizados. Quando essa tensão se resolve em um
gesto controlado, sem risco ou atrito, o que emerge não é a serenidade
política, mas uma forma de fadiga. Não o cansaço daqueles que lutaram com
afinco, mas a exaustão silenciosa de formas que permanecem de pé, mas que já
não transmitem energia nem nos desafiam.
A
Frente Ampla (FA) soube transformar seus aniversários em atos de afirmação
coletiva, mesmo em contextos adversos. Não porque todo mês de fevereiro
atraísse multidões, mas porque conseguia inscrever a data em uma narrativa de
conflito, de projeto e de futuro. Hoje, porém, a comemoração parece suspensa
entre a obrigação institucional e a nostalgia, como se lembrar tivesse se
tornado uma tarefa rotineira e não um ato político, como arquivar fotos de
aniversário.
Essa
mudança não pode ser interpretada como um mero produto dos tempos, embora o
enfraquecimento sedutor dos movimentos de esquerda e progressistas não seja
exclusivamente uruguaio, nem uma consequência inevitável de se estar no
governo. Ou seja, só pode ser interpretada dessa forma se aceitarmos que
governar implica quase naturalmente renunciar à produção de conflito, à
educação política e à construção de sujeitos coletivos. Mas essa aceitação
nunca fez parte do DNA da Frente Ampla. A força nasceu precisamente como uma
anomalia: uma articulação heterogênea capaz de contestar o poder sem sufocar a
mobilização, de gerir sem silenciar a crítica, de governar sem abandonar o
desconforto que toda transformação exige.
Esta
não é a primeira vez que essa preocupação surge por volta de um aniversário.
Nem é a primeira vez que é descartada com argumentos circunstanciais, apelos ao
contexto ou explicações tranquilizadoras. Há anos, com tons variados e em
contextos diversos, a preocupação com a perda do ativismo de base, a crescente
dificuldade em mobilizar apoio e o estreitamento da vida política no nível
local ressurge como um fio condutor persistente. Não como um lamento ritual,
mas como um sinal persistente. Um sinal que muitas vezes é interpretado —
quando ouvido — como exagero, impaciência ou nostalgia não digerida, e ainda
assim retorna todo mês de fevereiro, teimosamente, como aquelas borboletas que
sempre reaparecem como se fossem donas do calendário.
Com a
passagem do aniversário sem um evento central na capital e o adiamento para o
fim de semana seguinte, esse mal-estar tomou a forma de uma mensagem dirigida
aos camaradas. Não se tratava de uma declaração pública com o intuito de gerar
controvérsia, mas sim de um gesto pungente, quase imediato, escrito no exato
momento em que o aniversário era comemorado sem, de fato, ser comemorado. As
mesmas questões que agora são reformuladas com elementos diferentes já estavam
presentes: a dificuldade em gerar uma mobilização genuína, a transformação do
ato político em um evento controlado, a sensação de que algo essencial se
perdia mesmo antes do início do próprio evento.
Mas
chega um ponto em que a preocupação deixa de ser quantitativa — quantos de nós
somos, quantos virão — e se torna qualitativa, estrutural e, portanto, mais
perturbadora: a quase ausência dos jovens. Quando as comemorações são
preenchidas principalmente por memórias compartilhadas, mas não por
expectativas de construção, quando os presentes parecem convocados mais pela
fidelidade ao passado do que pela luta pelo futuro, o problema não é mais a
presença, mas a própria reprodução do sujeito político.
Os
jovens não estão “ausentes” por não terem sido convidados, nem por terem sido
absorvidos por uma cultura abstrata e individualista (o 8 de março ou o 20 de
maio desmentem isso). Eles estão ausentes — ou aparecem apenas esporadicamente
— quando não encontram nesses rituais um espaço para se reconhecerem, para
discutirem, para contestarem significados. Quando a comemoração não possibilita
o conflito nem oferece uma linguagem para nomear as precariedades
contemporâneas, quando o ato funciona não como um limiar, mas como um
fechamento, o fosso geracional deixa de ser uma questão de idade e se torna uma
questão política.
Nesse
ponto, o aniversário deixa de ser um espelho complacente do passado e se torna
uma superfície que reflete questionamentos. Ele não mede lealdades ou memórias
acumuladas: mede a capacidade de questionar. E quando esse questionamento
falha, não basta invocar tradições, bastiões históricos ou identidades
herdadas. Porque nenhuma tradição sobrevive apenas por seu peso histórico; ela
sobrevive na medida em que consegue ser reapropriada, discutida e questionada
por aqueles que não a vivenciaram como sua origem, mas que a recebem — se é que
a recebem — como uma promessa ainda a ser cumprida. Esse foi o meu caso. Dois
dos meus irmãos são fundadores, quando eu estava apenas começando o ensino
médio, embora quatro anos depois eu já fosse membro da Frente Patriótica Manuel
Rodríguez (FPMR), visitando meu irmão preso nas masmorras da ditadura
terrorista.
O
evento, visto de perto, revela-se como uma superfície saturada de significado.
Nada é deixado ao acaso: as bandeiras, os ônibus, a música, os slogans, os
discursos, as fotografias que depois circulam como prova de existência, como se
a política precisasse se certificar como prova de existência. Não basta que o
evento tenha ocorrido; ele precisa ser interpretado como histórico, como uma
reafirmação. Essa insistência excessiva não é um exagero retórico: é uma
necessidade política. Quando a vitalidade deixa de ser presumida, precisa ser
demonstrada. E quando precisa ser demonstrada, algo semelhante à espontaneidade
militante começa a se erodir.
Não
pude comparecer porque assuntos familiares me mantêm em Montevidéu, mas os
relatos mais simpáticos insistem nos números, na atmosfera, na ocupação do
espaço urbano, como se a escala logística por si só pudesse responder a
questões de outra natureza. É evidente que houve uma forte presença e que Juan
Lacaze estava repleta de ativistas de todo o país, a ponto de saturar uma
cidade que, na melhor das hipóteses, tem uma população de treze mil habitantes.
Mas reduzir o evento à sua dimensão quantitativa significa mudar o foco: a
capacidade de mobilizar através de uma participação excepcional não equivale a
uma densidade política sustentada. A política se desenrola, de forma mais
sutil, no que acontece antes e depois do evento, na continuidade das relações, na
persistência da organização, na produção diária de significado.
Juan
Lacaze é uma cidade imersa em história industrial, na experiência da classe
trabalhadora e numa história de lealdade à Frente Ampla que persiste mesmo após
o colapso de suas principais fontes de emprego. Precisamente por essa razão,
sua escolha como data comemorativa é ambivalente. Essa faca de dois gumes
torna-se mais evidente quando se observa a mudança no foco discursivo. O
aniversário, em vez de um momento para reflexão sobre a força política,
torna-se um ato de defesa do governo. Grande parte da retórica se estrutura em
torno de respostas às acusações de tibieza, listando as conquistas do primeiro
ano de mandato e contrastando o presente com a “meia década perdida” da
administração anterior. Internacionalismo, condenação do genocídio em Gaza, denúncia
do imperialismo estadunidense, defesa de políticas redistributivas — tudo isso
compõe um discurso consistente, ideologicamente reconhecível e eticamente
defensável. Mas sua centralidade desloca a questão incômoda: o que esse
aniversário revela sobre o estado da força política governante?
Quando
a comemoração se torna primordialmente uma ferramenta de proteção
governamental, uma espécie de muro discursivo erguido tanto para fora quanto
para dentro, tão impenetrável que nem mesmo um drone consegue sobrevoá-lo, a
política partidária é subsumida pela lógica da governança, e o aniversário
perde seu potencial questionador. Não se trata de negar a necessidade de
defender o próprio governo contra uma direita agressiva e depreciativa;
trata-se de reconhecer o custo dessa defesa quando ela ocupa todo o espaço
disponível. O aniversário deixa de ser uma oportunidade para refletir sobre a
organização, o ativismo, o controle e a direção do próprio governo e sua
relação com a sociedade, e se torna, em vez disso, uma extensão do discurso
governamental por outros meios.
É aqui
que a questão da juventude deixa de ser um detalhe marginal e se torna
estrutural. Não porque os jovens “não queiram” participar, nem porque tenham
sido capturados por uma suposta apatia geracional abstrata, mas porque os
espaços oferecidos não os envolvem como sujeitos políticos do presente. A
memória é necessária, mas não suficiente. A história só convoca quando se abre
como uma promessa, não quando se fecha como uma herança. Um ato que olha mais
para o passado do que para o conflito atual, que reafirma mais do que
questiona, dificilmente pode funcionar como um limiar para a incorporação
geracional.
Os
jovens não se aproximam dos rituais para aplaudir as trajetórias alheias; eles
o fazem quando encontram a linguagem para nomear suas próprias situações
precárias, seus próprios medos, suas próprias expectativas. Quando isso não
acontece, o distanciamento não é relacionado à idade, mas sim político. E esse
distanciamento não se resolve com gestos simbólicos ou invocações de
identidade, mas com a reabertura do conflito, com uma pedagogia política capaz
de traduzir o presente em um projeto.
Há um
tema recorrente em quase toda a cobertura jornalística, mas raramente é
analisado: a resposta em chave defensiva. Não contra a direita — o que seria
previsível, até necessário —, mas contra as críticas internas. A insistência de
que “não existe governo morno”, a enumeração meticulosa de medidas, números,
impostos e políticas sociais, não visa apenas desafiar as narrativas externas;
busca, acima de tudo, impor ordem internamente. O ato, portanto, funciona como
um espaço para recentralizar: limites são traçados, estabelecem-se os limiares
do que pode ser dito e fica marcado quem “entende a direção” e quem ainda não a
compreende totalmente. Esse movimento defensivo não se dirige apenas à direita,
mas também — e talvez principalmente — às críticas internas, que são
reformuladas como um mal-entendido da direção, em vez de um problema político a
ser abordado.
Algo
semelhante acontece com a unidade. Poucas palavras aparecem com tanta
frequência em aniversários quanto essa. Unidade como conquista histórica, como
virtude moral, como condição de sobrevivência diante de um mundo hostil. E, no
entanto, quanto mais se proclama, mais evidente se torna que deixou de ser uma
experiência imediata e se transformou em uma tarefa inacabada. A unidade vivida
não precisa ser reiterada; a unidade invocada, sim. Não porque esteja rompida,
mas porque não surge mais espontaneamente, porque exige um trabalho político
diário que nem sempre encontra espaço ou tempo.
Neste
ponto, o aniversário volta a assumir um papel excessivo. Espera-se que ele
torne a unidade visível, que a encene, que a restaure simbolicamente. O
problema não é a tentativa em si, mas sim a incapacidade de substituir aquilo
que só se constrói com prática prolongada: o debate interno genuíno, a análise
das divergências, a construção coletiva de significado. Quando o ritual toma o
lugar do processo, a unidade torna-se um slogan em vez de uma experiência.
O
contraste com outros fevereiros é quase inegável. Houve aniversários menores,
mais caóticos, até mesmo mais conflituosos, em que a comemoração serviu não
como um evento de encerramento, mas como de abertura. Não porque fossem mais
“autênticos”, mas porque faziam parte de uma dinâmica política mais densa, mais
contenciosa e menos controlada. A irregularidade histórica dos eventos da
Frente Ampla — anos sem evento, anos com múltiplos eventos, anos com
comemorações discretas — não é uma falha: reflete uma força que nunca teve um
ritual fixo e único.
É por
isso também que o tema da juventude reaparece repetidamente, mesmo quando não é
explicitamente mencionado. Ele se manifesta não apenas como uma ausência física
no evento, mas também como uma ausência discursiva. Onde estão as palavras que
conectam o aniversário às precariedades atuais — a fragmentação do trabalho, as
novas formas de exclusão e politização — e também às transformações na vida
sexual e emocional e à diversidade de relações, entre tantas outras? Sem essas
questões, o evento corre o risco de se tornar um espelho que sempre reflete a
mesma imagem, pouco alterada pela passagem do tempo, envelhecida.
Nesse
contexto, recorrer à história é inevitável e legítimo. Mas a história pode
funcionar de duas maneiras: como uma reserva crítica ou como um álibi. Quando é
invocada para levantar questões — o que fizemos? O que deixamos de fazer? O que
ficou inacabado? — ela se torna uma força motriz. Quando é invocada para
encerrar discussões — “é assim que somos”, “sempre fomos assim” — ela se torna
um refúgio. Juan Lacaze, com toda a sua densidade operária e fidelidade
histórica, oscila entre esses dois usos. E essa oscilação não é culpa da
cidade, mas sim da forma como a história é inscrita na narrativa do evento.
Nada
disso justifica interpretações catastróficas ou diagnósticos terminais. A
Frente Ampla não está esgotada nem reduzida a uma mera formalidade simbólica.
Ela possui um governo (ou governos), uma base, uma história e ainda alguma
capacidade de mobilização. Precisamente por essa razão, a questão é mais
complexa. Não se trata de medir a vitalidade pela presença em um evento
específico, mas de examinar que tipo de energia política está sendo gerada,
como ela circula, onde estagna e onde se renova.
O 55º
aniversário não oferece respostas definitivas. Em vez disso, apresenta um campo
visível de tensões: entre memória e presente, entre liturgia e ativismo, entre
a defesa do governo e a reflexão sobre a força política, entre a unidade
proclamada e a unidade arduamente conquistada. Examinar esse campo sem pressa
em fechá-lo é talvez o gesto mais fiel a uma tradição que, quando
verdadeiramente transformadora, nunca hesitou em falar abertamente sobre si
mesma.
Naquele
5 de fevereiro, quando a data de fundação passou sem qualquer cerimônia ou
declaração no site oficial, e o aniversário foi transferido para o sábado
seguinte, meu desconforto pessoal não se manifestou na forma de um artigo ou de
uma intervenção pública destinada a desafiar a agenda estabelecida. Assumiu a
forma mais modesta — e mais reveladora — de uma mensagem a camaradas e
contatos, escrita no calor do momento, mas não de improviso. Não dizia nada de
novo. Repetia, quase palavra por palavra, o que vem reaparecendo há anos em
diferentes registros e contextos: a crescente dificuldade de mobilização, a
perda da densidade militante, o enfraquecimento da vida política cotidiana, a
sensação de que o movimento se reúne cada vez mais para relembrar o que já foi,
em vez de criar o que poderia ser.
Aquele
post ainda não era sobre o evento em Juan Lacaze, porque o evento ainda não
tinha acontecido. Era sobre o vazio que o precedeu, a ausência de um gesto
político no próprio aniversário, a substituição do evento por uma promessa
adiada. Não como uma crítica logística, mas como um sintoma dos tempos: quando
uma força política deixa de perturbar o calendário, algo na sua ligação com o
presente começa a afrouxar-se.
O que é
notável é que algumas das respostas que essa mensagem suscitou — e que
ressurgiram posteriormente, com tons diferentes, após o evento — não abordaram
a mesma preocupação levantada. Quando questionadas sobre a capacidade de
mobilização, as respostas basearam-se na identidade. Quando questionadas sobre
a densidade da base ativista, a resposta foi histórica. Quando preocupadas com
a falta de representatividade juvenil, as respostas foram territoriais: Juan
Lacaze como um bastião operário, como uma cidade leal, como um emblema
inquestionável. Nada disso é mentira. Mas nada disso responde à pergunta que
estava sendo feita. Alguns chegaram a exigir que essa preocupação fosse levada
do âmbito da conversa privada para a esfera pública, como nestes versos.
É aqui
que entra em jogo uma importante reviravolta argumentativa. A crítica
organizacional — como estamos mobilizando as pessoas? Com quem estamos
interagindo? Que linguagem estamos usando? Como podemos manter a continuidade?
— é deslocada para uma defesa simbólica: quem somos, de onde viemos, qual
história nos sustenta. O problema não é que essa defesa seja ilegítima; o
problema é que ela funciona como um substituto para uma resposta real. Como se
o peso da história pudesse, por si só, resolver as dificuldades do presente.
Essa
publicação não negou o valor de Juan Lacaze, nem ignorou o significado
emocional do evento que se aproxima. O que ela fez — e continua fazendo — foi
insistir em uma questão incômoda: se não estamos começando a exigir que os
aniversários compensem o que o ativismo diário já não produz com a mesma intensidade.
Se o evento não está começando a assumir uma função que ultrapassa em muito sua
capacidade: demonstrar vitalidade, sanar lacunas, reafirmar a unidade, garantir
a continuidade geracional.
A
questão da organização é respondida com feitos épicos; a questão da juventude,
com a memória; a questão da participação contínua, com uma logística
excepcional.
Essa
desconexão não é um erro isolado ou uma leitura equivocada passageira. Trata-se
de um modo de operação que vem se consolidando. A crítica que não encontra seu
próprio canal político é deslocada para o âmbito da identidade, onde é mais
fácil absorvê-la sem ser transformada. Assim, a preocupação muda de forma, é
reescrita, é debatida, mas nunca chega a produzir uma mudança real nas
práticas. Quando uma questão persiste, não é porque está mal formulada, mas sim
porque ainda não encontrou o espaço político onde possa ser abordada sem ser
neutralizada.
Talvez
o problema não seja que a Frente Ampla não se mobilize mais como antes, mas sim
que se mobilize de uma maneira diferente, para propósitos diferentes. O
aniversário tornou-se um espaço de confirmação em vez de questionamento, um
momento para reafirmar a identidade em vez de gerar conflito. Isso não se deve
à falta de vontade política, nem à perda de convicção ideológica, mas sim ao
fato de o partido se encontrar preso em um paradoxo difícil: quanto mais
governa , mais difícil se torna se enxergar como um movimento; quanto mais
administra, mais tende a ritualizar a memória para manter uma continuidade que
já não surge espontaneamente.
O ato
não é prova de declínio, mas sim um reflexo de uma encruzilhada. Mostra que
ainda existem alicerces, história, afeto e lealdade. Mas também mostra que
essas reservas simbólicas estão sendo convocadas para cumprir tarefas antes
realizadas por outros meios: ativismo cotidiano, debate constante, produção
política de base e conflito interno como força motriz, e não como ameaça.
Quando esses meios enfraquecem, o ritual se intensifica, como se tentasse
compensar o que já não circula.
Nada
disso se resolve com mais ações ou ações melhores. Nem com o recuo para um
passado idealizado ou com um otimismo voluntarista que confunde gestão com
hegemonia. A questão que o aniversário deixa em aberto — e que este texto não
pretende encerrar — é diferente, mais exigente e menos confortável: como
recriar o próprio tempo político dentro de uma força que aprendeu, na prática,
a gerir o tempo institucional. Como reabrir espaços onde a crítica não seja
interpretada como deslealdade, onde a unidade não seja apenas um slogan, onde
os jovens não sejam convidados a aplaudir a história alheia, mas a contestar o
seu significado.
A
Frente Ampla (FA) nasceu como uma anomalia, como uma ruptura com a ordem
estabelecida, como um compromisso com uma unidade que não negava o conflito,
mas o organizava. Seu desafio não é preservar essa imagem, mas reativar essa
lógica. Aniversários podem ajudar, mas não podem fazer isso sozinhos. Não podem
substituir o que se constrói apenas por meio de prática prolongada, por meio de
conversas desconfortáveis, por meio do trabalho político que drones não
conseguem capturar.
Talvez
o maior risco não seja a perda do engajamento oportuno, mas sim a normalização
da política ocorrendo apenas em datas específicas, em ambientes pré-arranjados
e dentro de prazos administráveis. Quando isso acontece, a política começa a se
adaptar ao calendário, em vez de subvertê-lo. E aí, sem alarde ou rupturas
visíveis, algo essencial começa a mudar.
O 55º
aniversário, portanto, deixa uma questão no ar. Não sobre a força da Frente
Ampla — que existe — nem sobre a solidez de seus princípios — que permanecem
válidos —, mas sobre sua capacidade de ser um espaço para produzir o presente:
para desestabilizar, para convocar sem pedir permissão, para gerar conflito
onde hoje há administração, para abrir o futuro onde hoje há memória
cuidadosamente ordenada.
Isto
não é uma acusação nem uma previsão. É um aviso suave, quase indireto, do tipo
que costuma ser o mais difícil de ouvir: a história da Frente Ampla não se
esgota nos seus aniversários. O pior seria que ela fosse simplesmente lembrada,
em vez de continuar a ser vivida.
Fonte:
Por Emilio Cafassi, em A Terra é Redonda

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