A
saúde da mulher negra
A
história da saúde da mulher negra no Brasil não é marcada por falhas ocasionais
nem por insuficiências técnicas do Estado. Ela é estruturada por uma lógica
histórica de violência racial que atravessa a escravidão, a ciência médica, as
políticas públicas e o funcionamento contemporâneo do sistema de saúde.
Ao
longo de mais de quatro séculos, os corpos das mulheres negras foram
explorados, controlados e expostos à morte evitável sem que isso produzisse
escândalo moral duradouro. A desigualdade que hoje se manifesta na violência
obstétrica e na mortalidade materna não é desvio do sistema: é herança direta
de um projeto histórico que administra quem pode viver e quem pode morrer.
Essa
hierarquia racial da vida não surge de forma acidental nem se explica por
insuficiências administrativas contemporâneas. Ela foi historicamente
construída desde o período colonial, quando a mulher negra passou a ocupar um
lugar específico na organização social brasileira: o de corpo disponível ao
trabalho forçado, à violência sexual, à reprodução compulsória e ao adoecimento
silencioso.
A
saúde, nesse contexto, nunca foi concebida como direito, mas como recurso
econômico, preservado apenas enquanto garantisse produtividade. Como demonstram
autoras do feminismo negro, a construção simbólica da mulher negra como corpo
que “aguenta”, “resiste” e “suporta” não apenas legitimou a exploração, mas
instituiu uma ética social que naturaliza a dor negra e normaliza sua exclusão
do campo do cuidado.
Essa
lógica não se encerra com a abolição da escravidão nem com a modernização do
Estado. Ela atravessa regimes políticos, discursos científicos e políticas
públicas, reaparecendo sob novas formas, mas com a mesma estrutura: a vida da
mulher negra como vida tolerada, não protegida.
Durante
o regime escravista, a mulher negra ocupou posição central no funcionamento do
sistema colonial. Seu corpo não era apenas força de trabalho, mas
infraestrutura biológica da economia escravista. A gravidez não interrompia o
trabalho forçado, o parto não gerava cuidado, o puerpério não implicava
proteção. A medicina colonial, profundamente racializada, existia para manter
corpos funcionais, não para preservar vidas. A mortalidade materna e infantil
era elevada, mas socialmente invisível, pois a morte dessas mulheres não
representava perda social, apenas custo econômico.
A
violência sexual não foi exceção, mas prática estrutural. Estupros cometidos
por senhores e feitores eram extensões do direito de propriedade. Essas
violências produziram traumas físicos e psíquicos, infecções, gestações
forçadas e mortes, jamais reconhecidas como problema de saúde ou de justiça. A
miscigenação forçada, frequentemente romantizada na narrativa nacional, esconde
uma história profunda de coerção e silenciamento.
No
século XIX, com a consolidação da medicina moderna, a violência não desaparece:
ela se institucionaliza. A ginecologia e a obstetrícia se desenvolvem ancoradas
em hierarquias raciais que classificavam o corpo da mulher negra como
biologicamente diferente, mais resistente à dor e menos digno de consideração
ética. Mulheres negras foram submetidas a procedimentos invasivos, muitas vezes
sem anestesia, mesmo quando esta já estava disponível, sob o mito
pseudocientífico da resistência natural ao sofrimento.
A
ciência médica, longe de neutra, produziu e legitimou imaginários raciais que
ultrapassaram o campo científico e passaram a orientar práticas institucionais.
Técnicas desenvolvidas em corpos racializados foram incorporadas aos protocolos
como universais, apagando sua origem violenta. A violência explícita se
transforma em rotina técnica. O experimento vira procedimento. A desumanização
torna-se norma.
Com a
abolição da escravidão, inaugura-se um novo ciclo de violência: o abandono
sanitário. O Estado brasileiro se exime de qualquer responsabilidade pela vida
da população negra recém-liberta. Não há políticas de reparação, integração ou
cuidado. Mulheres negras são lançadas à marginalização urbana e rural, expostas
a condições extremas de pobreza, sem acesso a serviços básicos de saúde. A
saúde da mulher negra torna-se um não-tema político.
Nas
primeiras décadas da República, o higienismo e o saneamento urbano não visavam
a universalização do cuidado, mas a proteção das elites e da imagem do país.
Populações negras eram tratadas como ameaça sanitária, não como sujeitos de
direitos. Nesse contexto, a maternidade negra passa a ser vista como problema
moral e demográfico. O racismo científico e a eugenia, amplamente difundidos no
início do século XX, defendiam o embranquecimento da população e a contenção da
reprodução negra como caminho para o progresso nacional.
Ao
longo do século XX, essa lógica se traduz em políticas de controle reprodutivo.
Mulheres negras tornam-se alvos preferenciais de esterilizações, muitas vezes
realizadas sem consentimento livre e esclarecido, especialmente durante partos
cesáreos. Sob o discurso do planejamento familiar, da modernização e do combate
à pobreza, o Estado define silenciosamente quem pode ou não ter futuro. A
autonomia reprodutiva da mulher negra é sistematicamente expropriada.
Essas
práticas se intensificam durante a ditadura civil-militar, quando políticas de
controle populacional são impulsionadas com apoio de organismos internacionais.
A violência deixa de ser explícita e passa a operar por meio de formulários mal
explicados, decisões médicas unilaterais e relações profundamente assimétricas
entre profissionais de saúde e pacientes.
No
presente, essa herança histórica se manifesta de forma contundente no racismo
obstétrico. O parto, que deveria ser espaço de cuidado e proteção da vida,
torna-se para muitas mulheres negras um campo privilegiado de violência.
Mulheres negras recebem menos analgesia, são mais submetidas a intervenções
invasivas desnecessárias, têm suas queixas desqualificadas e enfrentam maior
risco de morte materna por causas evitáveis.
A
persistência do mito da maior resistência à dor segue orientando práticas
clínicas. Frases humilhantes, ausência de consentimento informado e comunicação
violenta fazem parte da experiência cotidiana de muitas mulheres negras nos
serviços de saúde. Essas práticas não são desvios individuais, mas expressão do
racismo institucional, entendido como a incapacidade sistemática das
instituições de oferecer respostas adequadas a populações racializadas.
A
criação do SUS – Sistema Único de Saúde representou avanço normativo ao afirmar
a saúde como direito universal. No entanto, a universalidade formal convive com
desigualdades profundas. Tratar desigualmente sujeitos historicamente desiguais
não corrige injustiças; aprofunda-as. Para mulheres negras, o SUS
frequentemente opera como espaço de desconfiança, vigilância e revitimização. A
Política Nacional de Saúde Integral da População Negra reconhece o racismo como
determinante social da saúde, mas sua implementação enfrenta resistências,
subfinanciamento e negação ideológica.
Os
índices elevados de mortalidade materna entre mulheres negras revelam que a
morte segue sendo socialmente tolerável quando atinge determinados corpos. A
maioria dessas mortes decorre de falhas assistenciais evitáveis: diagnóstico
tardio, negligência clínica, peregrinação hospitalar e ausência de
acompanhamento adequado. A repetição do padrão revela que não se trata de
fatalidade, mas de política.
Essa
violência não se limita ao corpo físico. O mito da mulher negra forte produz
adoecimento psíquico profundo. Ao ser construída como aquela que aguenta tudo,
a mulher negra tem sua dor emocional silenciada e sua saúde mental
negligenciada. Ansiedade, depressão e esgotamento são tratados como fraqueza
individual, não como resultado de um regime histórico de violência contínua.
Diante
da omissão estatal, mulheres negras construíram saberes próprios de cuidado.
Parteiras, redes comunitárias, práticas religiosas e a escrevivência constituem
formas de resistência e afirmação da vida. Esses saberes foram historicamente
deslegitimados e criminalizados, configurando o que Sueli Carneiro nomeia como
epistemicídio. Reconhecê-los não é romantizar a resistência, mas denunciar a
falência institucional que a tornou necessária.
À luz
da necropolítica, conceito desenvolvido por Achille Mbembe, torna-se possível
compreender essa trajetória como gestão diferencial da vida e da morte. O
Estado não apenas decide quem deve morrer, mas sob quais condições determinadas
populações podem viver. No caso das mulheres negras, viver significou
historicamente sobreviver sob risco permanente, dor normalizada e ausência de
direitos plenos.
A saúde
da mulher negra revela, com nitidez incômoda, os limites éticos da democracia
brasileira. Quando mortes evitáveis se repetem sem produzir responsabilização
institucional, o que se expõe não é a precariedade do sistema, mas a
persistência de uma ordem social que administra a vida por critérios raciais.
Enquanto a dor e a morte de mulheres negras seguirem sendo tratadas como
estatística tolerável, o direito à saúde permanecerá condicionado, e a
cidadania, incompleta.
Enfrentar
o racismo na saúde não exige apenas aprimoramentos técnicos, mas a recusa
explícita do pacto social que naturaliza a violência e anestesia o olhar.
Diante de quatro séculos de gestão desigual da vida e da morte, a neutralidade
não é científica – é cumplicidade.
Fonte:
Por Carlos A. P. Vasques, em A Terra é Redonda

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