Maria
Luiza Falcão: O Estado da União como reality show
Nos
Estados Unidos, o State of the Union não é apenas um discurso anual. É uma
tradição constitucional prevista no Artigo II da Constituição: o presidente
deve informar ao Congresso sobre a situação do país e propor diretrizes
legislativas. Trata-se de um rito institucional de grande peso simbólico,
televisionado em horário nobre, acompanhado por milhões e interpretado como
momento de prestação de contas. Diferentemente de muitos presidencialismos, o
evento adquiriu nos EUA contornos quase litúrgicos — uma cerimônia cívica que
combina política, institucionalidade e dramaturgia.
O que
Donald Trump apresentou nesta terça-feira (24) foi sobretudo dramaturgia.
Desde
os primeiros minutos ficou claro que não se tratava de um relatório sobre o
estado real da União, mas de uma experiência cuidadosamente roteirizada.
Medalhas distribuídas ao vivo. Convidados-surpresa convocados sob aplausos.
Reencontros emocionais. Heróis militares chamados ao palco como se estivéssemos
na final do Super Bowl. Em vez de uma exposição estruturada de políticas
públicas, assistiu-se a um programa de auditório com trilha sonora patriótica.
Quando
a política vira game show, a realidade vira figurante.
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A economia da hipérbole
Trump
insistiu que os Estados Unidos vivem uma “era de ouro”. O crescimento seria
“histórico”, os preços estariam “despencando”, a indústria estaria “renascendo
como nunca antes”. A retórica, como sempre, operou por superlativos.
Os
dados, no entanto, continuam mais sóbrios.
A
inflação anual permanece acima da meta de 2% do Federal Reserve, girando na
faixa de 3%–4%. As taxas hipotecárias, mesmo com alguma acomodação, continuam
elevadas para padrões da última década. O endividamento das famílias ultrapassa
US$ 17 trilhões. O déficit federal projetado para este exercício supera US$ 1,5
trilhão. O custo da saúde continua pressionando os orçamentos domésticos. O
crédito ao consumo permanece caro.
Nada
disso apareceu como problema estrutural. No universo retórico do presidente,
qualquer desaceleração vira “transição estratégica” e qualquer indicador
ambíguo se transforma em “a maior recuperação da história”.
Se o
crescimento não impressiona, declara-se impressionante. Se a inflação não
desaparece, afirma-se que está “despencando vertiginosamente”. Se as tarifas
elevam custos internos, chamam-se de “proteção patriótica”.
É uma
política econômica por adjetivo.
Estudos
recentes mostram que grande parte do custo das tarifas impostas recai sobre
empresas e consumidores americanos, pressionando cadeias produtivas e preços
domésticos. Mas no discurso presidencial, tarifas são apresentadas como arma
mágica contra o déficit comercial, como se a macroeconomia pudesse ser
conduzida à base de bravatas.
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A política do inimigo
A
imigração voltou a ser o eixo emocional da noite. Fronteira sitiada, invasão
iminente, ameaça permanente. Dados complexos sobre fluxos migratórios foram
substituídos por casos isolados narrados com carga dramática. O método é
conhecido: substituir estatística por anedota, análise por indignação.
Estudos
acadêmicos reiteram que imigrantes não apresentam taxas de criminalidade
superiores às da população nativa. O presidente prefere contar histórias que
cabem no tempo da televisão. É mais eficiente politicamente.
A cada
momento em que a atenção do público poderia vacilar, surgia um novo gesto
teatral: mais uma medalha, mais um herói, mais uma cena emocionalmente
calculada. Não se tratava de governar. Tratava-se de manter a audiência.
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O mundo reduzido a slogan
No
plano internacional, o discurso revelou algo ainda mais inquietante: a ausência
de estratégia.
Num
momento em que a economia mundial atravessa transição estrutural — com a Ásia
respondendo por mais de 60% do crescimento global — a Casa Branca ofereceu
pouco além de retórica competitiva. A China foi mencionada como rival, mas sem
plano consistente para lidar com sua liderança em tecnologia, semicondutores ou
infraestrutura global. Nenhuma reflexão séria sobre a expansão do BRICS, sobre
a reorganização financeira internacional ou sobre o declínio relativo da
centralidade atlântica.
Enquanto
Pequim investe pesadamente em cadeias tecnológicas estratégicas e consolida
articulações regionais, Washington celebra medalhas ao vivo.
Em
relação ao Irã, manteve-se o tom de ameaça e pressão, mas sem qualquer desenho
diplomático claro. A política externa foi apresentada como extensão da política
doméstica — musculatura retórica para consumo interno.
Não
houve praticamente nenhuma menção substantiva à crise climática, apesar de
eventos extremos cada vez mais frequentes no próprio território americano.
Nenhuma proposta robusta de reconstrução multilateral. Nenhum esforço visível
para recompor a credibilidade internacional erodida nos últimos anos.
O mundo
está se reorganizando. O discurso preferiu fingir que está vencendo.
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A normalização da ficção
Talvez
o elemento mais perigoso não seja o exagero — exageros fazem parte da política.
O problema é a naturalização da distorção sistemática como método de governo.
Quando
o presidente afirma que “estamos vencendo tanto que as pessoas pedem para parar
de vencer”, não se trata apenas de humor involuntário. Trata-se da construção
de uma narrativa impermeável a fatos. Uma realidade alternativa que dispensa
verificação.
O
Estado da União deveria ser momento de convergência mínima institucional.
Transformou-se em palco de polarização deliberada. Democratas foram retratados
como sabotadores. Críticas foram enquadradas como traição. O Congresso
funcionou como cenário.
A
política deixou de ser prestação de contas para virar performance.
Há algo
de profundamente simbólico nisso. Um governo que inclui figuras oriundas do
entretenimento e da televisão constrói uma lógica governamental compatível com
essa estética: emoção acima de argumento, imagem acima de diagnóstico,
audiência acima de política pública.
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O custo democrático
Pesquisas
recentes indicam que parcela relevante da população americana acredita que o
país está no rumo errado e que sua situação econômica pessoal não melhorou
substancialmente. O hiato entre experiência concreta e narrativa oficial
cresce.
Quando
a política insiste que tudo vai “melhor do que nunca” enquanto o eleitor sente
o contrário, instala-se uma tensão cognitiva. Essa tensão não desaparece. Ela
se acumula.
Democracias
dependem de um mínimo compartilhado de realidade factual. Quando a política
passa a operar predominantemente no registro da versão — e não do dado — a
erosão institucional é silenciosa, mas constante.
O
Estado da União de 2026 não foi apenas um discurso longo. Foi a consolidação de
um estilo de governo: espetáculo permanente, polarização estratégica e
hipérbole como instrumento central.
Se esse
é o “estado da União”, a pergunta que permanece não é sobre aplausos ou
medalhas.
É sobre
quanto tempo uma democracia consegue sustentar-se quando a política decide
competir com o entretenimento — e vencer.
¨ Paradoxo geopolítico
de Trump. Por Pedro Benedito Maciel Neto
A
decisão de Donald Trump de substituir parte de sua política tarifária,
considerada ilegal pela Supreme Court dos EUA, por uma tarifa global uniforme
de 15% produziu um efeito paradoxal: países duramente criticados pela Casa
Branca, como Brasil e China, tornaram-se os maiores beneficiários relativos do
novo regime.
Segundo
levantamento da Global Trade Alert, o Brasil registra a maior redução na tarifa
média ponderada aplicada às suas exportações para os EUA: queda de 13,6 pontos
percentuais. A China aparece em seguida, com redução de 7,1 pontos. Em
contraste, aliados tradicionais dos EUA - como Reino Unido, União Europeia e
Japão - enfrentam aumentos marginais.
O dado
é politicamente eloquente. O Brasil, que chegou a enfrentar tarifas que
alcançavam 40% ou 50% sobre determinados produtos, passa a operar sob um regime
significativamente mais brando. Produtos agrícolas estratégicos - como café,
carne bovina e frutas - já haviam obtido suspensões parciais; agora, a tarifa
uniforme representa, comparativamente, uma melhora relevante.
O
presidente Lula reagiu com cautela, afirmando estar “aliviado por não ter se
precipitado”. A leitura é pragmática: a volatilidade jurídica e política da
política comercial da era Trump recomenda prudência.
O maior
prejudicado proporcionalmente é o Reino Unido, cuja tarifa média sobe 2,1
pontos percentuais. A União Europeia enfrenta aumento de 0,8 ponto percentual,
com países como Itália e França particularmente expostos quando consideradas
categorias antes isentas.
A
presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, observou que o custo
das tarifas tende a recair sobre importadores e consumidores americanos - uma
lembrança de que o protecionismo não é isento de efeitos domésticos.
A
tensão atinge também o chamado Acordo de Turnberry entre EUA e UE, cuja
ratificação enfrenta questionamentos no Parlamento Europeu.
A
decisão da Suprema Corte invalidou tarifas impostas com base na IEEPA (Lei de
Poderes Econômicos de Emergência Internacional). Trump reagiu rapidamente,
recorrendo à Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para impor tarifa de 10% -
elevada para 15% - válida por 150 dias sem aprovação do Congresso.
Analistas
como Simon Evenett argumentam que a alavancagem americana não diminuiu; apenas
mudou de instrumento. A possibilidade de novas investigações sob a Seção 301
mantém parceiros comerciais sob pressão permanente.
Ou
seja: o regime atual é transitório e estrategicamente ambíguo. Trata-se menos
de estabilização e mais de reorganização do poder de barganha.
O
segundo conteúdo analisado reforça essa leitura. Apesar da decisão judicial,
governos dificilmente romperão acordos firmados com Washington. O receio de
retaliações em setores sensíveis - aço, automóveis, semicondutores - e em áreas
extracomerciais, como defesa e segurança, atua como freio.
A
política comercial americana passa a operar sob lógica de dissuasão: mesmo
quando juridicamente fragilizada, mantém capacidade coercitiva por meio de
múltiplos instrumentos legais (Seções 232 e 301).
O
paradoxo é evidente. Países acusados de práticas desleais ou superávits
excessivos - Brasil, China, Vietnã - acabam proporcionalmente beneficiados. Já
aliados históricos, cujas exportações concentram-se em setores já tarifados
(aço, alumínio, automóveis), sofrem maior impacto.
Isso
sugere que a política comercial de Trump não é meramente econômica, mas
geopolítica: busca redefinir hierarquias e forçar renegociações contínuas,
mantendo todos os parceiros em estado de incerteza calculada.
Para o
Brasil, o momento é de oportunidade cautelosa. A redução tarifária melhora
competitividade relativa, mas o horizonte permanece volátil. O regime é
temporário (150 dias) e sujeito a novas reconfigurações legislativas ou
judiciais.
No
tabuleiro global, o que se vê não é o fim da guerra comercial, mas sua
metamorfose: menos baseada em decretos emergenciais amplos e mais estruturada
em instrumentos legais fragmentados, porém igualmente eficazes como mecanismos
de pressão.
O
comércio internacional, sob Trump, deixa de ser arena de previsibilidade
normativa e transforma-se em instrumento permanente de negociação estratégica.
O jogo não terminou - apenas começou de novo.
¨ Trump diz que EUA
buscam domínio no Hemisfério Ocidental
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (24) que
Washington pretende consolidar uma posição de predominância no Hemisfério
Ocidental. A declaração foi feita durante o discurso anual sobre o Estado da
União, realizado no Capitólio, diante de membros da Câmara dos Representantes e
do Senado.
De
acordo com a agência russa TASS, que divulgou trechos do pronunciamento com
base em informações da assessoria de imprensa da Casa Branca, Trump destacou
que a estratégia do governo envolve reforço da segurança e defesa dos
interesses nacionais norte-americanos na região.
Em sua
fala, o presidente declarou: "Estamos também restaurando a segurança
e a dominância americana no Hemisfério Ocidental, agindo para garantir nossos
interesses nacionais e defender nosso país da violência, das drogas, do
terrorismo e da interferência estrangeira. Durante anos, grandes extensões de
território em nossa região, incluindo grandes partes do México, estiveram sob o
controle de cartéis de drogas assassinos".
O
discurso foi proferido no tradicional pronunciamento anual ao Congresso,
momento em que o chefe da Casa Branca apresenta diretrizes e prioridades da
administração federal. A ênfase na atuação regional e no combate ao crime
organizado marcou parte central da fala, com menção direta à atuação de cartéis
de drogas em países vizinhos.
Ao
associar segurança interna à política externa no entorno geográfico dos Estados
Unidos, Trump reiterou a intenção de fortalecer a presença e a influência
norte-americana no Hemisfério Ocidental, apontando o enfrentamento ao
narcotráfico e à interferência estrangeira como pilares de sua estratégia.
¨
Financial Times vê estado mental de Trump como risco
global
A
atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representa um fator de
risco para a estabilidade internacional, na avaliação do jornal britânico
Financial Times. Em análise publicada nesta terça-feira (24), o veículo
sustenta que o comportamento e as decisões do mandatário ampliam incertezas
geopolíticas e podem gerar impactos que ultrapassam as fronteiras
norte-americanas.
O
Financial Times argumenta que, embora psiquiatras norte-americanos evitem
comentar publicamente a saúde mental de figuras públicas desde a chamada “regra
Goldwater”, criada nos anos 1970, a conduta de Trump levanta questionamentos
entre observadores. O jornal afirma que, enquanto o presidente prepara uma
mobilização militar dos Estados Unidos no Oriente Médio sem detalhar claramente
seus objetivos, uma avaliação honesta dos riscos globais deveria considerar sua
psicologia como elemento central.
Segundo
a publicação, mentiras frequentes não configuram, por si só, prova de
irracionalidade. No entanto, o problema se agrava quando auxiliares e aliados
passam a reforçar essas versões, criando um ambiente no qual o presidente pode
acreditar nas próprias afirmações. O texto destaca que líderes estrangeiros têm
recorrido à exaltação pessoal como forma de influência. O secretário-geral da
Otan, Mark Rutte, descreveu Trump como um “papai” que estaria tomando atitudes
firmes para proteger a família — gesto interpretado pelo jornal como tentativa
de alimentar sua vaidade para direcionar decisões.
No
plano interno, o artigo aponta que integrantes do governo competem em elogios
públicos. A procuradora-geral Pam Bondi declarou que Trump é “o maior
presidente da história dos Estados Unidos”. O secretário de Comércio, Howard
Lutnick, afirmou que ele inaugurou “uma era de ouro americana”. Já o secretário
de Defesa, Pete Hegseth, ao comentar uma operação na Venezuela, classificou a
ação como “a operação militar mais poderosa, eu diria, da história mundial”.
Para o Financial Times, declarações desse tipo substituem avaliações técnicas
realistas por demonstrações de lealdade.
O
jornal também destaca reveses institucionais enfrentados pelo presidente. Na
sexta-feira (data não informada no texto original), a Suprema Corte decidiu por
seis votos a três invalidar a maior parte das tarifas impostas pelo governo. Em
reação, Trump chamou dois ministros indicados por ele próprio, Neil Gorsuch e
Amy Coney Barrett, de “desleais” e “antipatrióticos”, além de insinuar
influência estrangeira sobre ambos.
Outro
foco de tensão envolve o Federal Reserve. No mês passado (data não
especificada), o presidente do banco central, Jerome Powell, fez um
pronunciamento público em defesa da independência da instituição após o
Departamento de Justiça ameaçá-lo com acusação criminal relacionada a custos de
reforma da sede da entidade. O Financial Times avalia que, mesmo com a possível
substituição de Powell por Kevin Warsh, não há garantia de alinhamento
automático com a Casa Branca, especialmente diante da pressão inflacionária.
A
política migratória também enfrenta resistência crescente. Agentes do serviço
de imigração (ICE) têm sido alvo de desconfiança pública, enquanto tribunais e
organizações civis impõem obstáculos aos planos de deportação. A Suprema Corte
deverá analisar, nas próximas semanas, a contestação do governo ao direito à
cidadania por nascimento.
Ao
mencionar a chamada “regra Taco” — sigla em inglês para a ideia de que “Trump
sempre recua” — o jornal reconhece que o presidente tende a retroceder quando
enfrenta forças institucionais robustas. Ainda assim, conclui que a combinação
entre vaidade, estímulo constante por parte de aliados e decisões de alto
impacto estratégico configura um risco que, segundo a análise, não se limita
aos Estados Unidos, mas alcança a ordem internacional.

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