sábado, 28 de fevereiro de 2026

Maria Luiza Falcão: O Estado da União como reality show

Nos Estados Unidos, o State of the Union não é apenas um discurso anual. É uma tradição constitucional prevista no Artigo II da Constituição: o presidente deve informar ao Congresso sobre a situação do país e propor diretrizes legislativas. Trata-se de um rito institucional de grande peso simbólico, televisionado em horário nobre, acompanhado por milhões e interpretado como momento de prestação de contas. Diferentemente de muitos presidencialismos, o evento adquiriu nos EUA contornos quase litúrgicos — uma cerimônia cívica que combina política, institucionalidade e dramaturgia.

O que Donald Trump apresentou nesta terça-feira (24) foi sobretudo dramaturgia.

Desde os primeiros minutos ficou claro que não se tratava de um relatório sobre o estado real da União, mas de uma experiência cuidadosamente roteirizada. Medalhas distribuídas ao vivo. Convidados-surpresa convocados sob aplausos. Reencontros emocionais. Heróis militares chamados ao palco como se estivéssemos na final do Super Bowl. Em vez de uma exposição estruturada de políticas públicas, assistiu-se a um programa de auditório com trilha sonora patriótica.

Quando a política vira game show, a realidade vira figurante.

<><> A economia da hipérbole

Trump insistiu que os Estados Unidos vivem uma “era de ouro”. O crescimento seria “histórico”, os preços estariam “despencando”, a indústria estaria “renascendo como nunca antes”. A retórica, como sempre, operou por superlativos.

Os dados, no entanto, continuam mais sóbrios.

A inflação anual permanece acima da meta de 2% do Federal Reserve, girando na faixa de 3%–4%. As taxas hipotecárias, mesmo com alguma acomodação, continuam elevadas para padrões da última década. O endividamento das famílias ultrapassa US$ 17 trilhões. O déficit federal projetado para este exercício supera US$ 1,5 trilhão. O custo da saúde continua pressionando os orçamentos domésticos. O crédito ao consumo permanece caro.

Nada disso apareceu como problema estrutural. No universo retórico do presidente, qualquer desaceleração vira “transição estratégica” e qualquer indicador ambíguo se transforma em “a maior recuperação da história”.

Se o crescimento não impressiona, declara-se impressionante. Se a inflação não desaparece, afirma-se que está “despencando vertiginosamente”. Se as tarifas elevam custos internos, chamam-se de “proteção patriótica”.

É uma política econômica por adjetivo.

Estudos recentes mostram que grande parte do custo das tarifas impostas recai sobre empresas e consumidores americanos, pressionando cadeias produtivas e preços domésticos. Mas no discurso presidencial, tarifas são apresentadas como arma mágica contra o déficit comercial, como se a macroeconomia pudesse ser conduzida à base de bravatas.

<><> A política do inimigo

A imigração voltou a ser o eixo emocional da noite. Fronteira sitiada, invasão iminente, ameaça permanente. Dados complexos sobre fluxos migratórios foram substituídos por casos isolados narrados com carga dramática. O método é conhecido: substituir estatística por anedota, análise por indignação.

Estudos acadêmicos reiteram que imigrantes não apresentam taxas de criminalidade superiores às da população nativa. O presidente prefere contar histórias que cabem no tempo da televisão. É mais eficiente politicamente.

A cada momento em que a atenção do público poderia vacilar, surgia um novo gesto teatral: mais uma medalha, mais um herói, mais uma cena emocionalmente calculada. Não se tratava de governar. Tratava-se de manter a audiência.

<><> O mundo reduzido a slogan

No plano internacional, o discurso revelou algo ainda mais inquietante: a ausência de estratégia.

Num momento em que a economia mundial atravessa transição estrutural — com a Ásia respondendo por mais de 60% do crescimento global — a Casa Branca ofereceu pouco além de retórica competitiva. A China foi mencionada como rival, mas sem plano consistente para lidar com sua liderança em tecnologia, semicondutores ou infraestrutura global. Nenhuma reflexão séria sobre a expansão do BRICS, sobre a reorganização financeira internacional ou sobre o declínio relativo da centralidade atlântica.

Enquanto Pequim investe pesadamente em cadeias tecnológicas estratégicas e consolida articulações regionais, Washington celebra medalhas ao vivo.

Em relação ao Irã, manteve-se o tom de ameaça e pressão, mas sem qualquer desenho diplomático claro. A política externa foi apresentada como extensão da política doméstica — musculatura retórica para consumo interno.

Não houve praticamente nenhuma menção substantiva à crise climática, apesar de eventos extremos cada vez mais frequentes no próprio território americano. Nenhuma proposta robusta de reconstrução multilateral. Nenhum esforço visível para recompor a credibilidade internacional erodida nos últimos anos.

O mundo está se reorganizando. O discurso preferiu fingir que está vencendo.

<><> A normalização da ficção

Talvez o elemento mais perigoso não seja o exagero — exageros fazem parte da política. O problema é a naturalização da distorção sistemática como método de governo.

Quando o presidente afirma que “estamos vencendo tanto que as pessoas pedem para parar de vencer”, não se trata apenas de humor involuntário. Trata-se da construção de uma narrativa impermeável a fatos. Uma realidade alternativa que dispensa verificação.

O Estado da União deveria ser momento de convergência mínima institucional. Transformou-se em palco de polarização deliberada. Democratas foram retratados como sabotadores. Críticas foram enquadradas como traição. O Congresso funcionou como cenário.

A política deixou de ser prestação de contas para virar performance.

Há algo de profundamente simbólico nisso. Um governo que inclui figuras oriundas do entretenimento e da televisão constrói uma lógica governamental compatível com essa estética: emoção acima de argumento, imagem acima de diagnóstico, audiência acima de política pública.

<><> O custo democrático

Pesquisas recentes indicam que parcela relevante da população americana acredita que o país está no rumo errado e que sua situação econômica pessoal não melhorou substancialmente. O hiato entre experiência concreta e narrativa oficial cresce.

Quando a política insiste que tudo vai “melhor do que nunca” enquanto o eleitor sente o contrário, instala-se uma tensão cognitiva. Essa tensão não desaparece. Ela se acumula.

Democracias dependem de um mínimo compartilhado de realidade factual. Quando a política passa a operar predominantemente no registro da versão — e não do dado — a erosão institucional é silenciosa, mas constante.

O Estado da União de 2026 não foi apenas um discurso longo. Foi a consolidação de um estilo de governo: espetáculo permanente, polarização estratégica e hipérbole como instrumento central.

Se esse é o “estado da União”, a pergunta que permanece não é sobre aplausos ou medalhas.

É sobre quanto tempo uma democracia consegue sustentar-se quando a política decide competir com o entretenimento — e vencer.

¨      Paradoxo geopolítico de Trump. Por Pedro Benedito Maciel Neto

A decisão de Donald Trump de substituir parte de sua política tarifária, considerada ilegal pela Supreme Court dos EUA, por uma tarifa global uniforme de 15% produziu um efeito paradoxal: países duramente criticados pela Casa Branca, como Brasil e China, tornaram-se os maiores beneficiários relativos do novo regime.

Segundo levantamento da Global Trade Alert, o Brasil registra a maior redução na tarifa média ponderada aplicada às suas exportações para os EUA: queda de 13,6 pontos percentuais. A China aparece em seguida, com redução de 7,1 pontos. Em contraste, aliados tradicionais dos EUA - como Reino Unido, União Europeia e Japão - enfrentam aumentos marginais.

O dado é politicamente eloquente. O Brasil, que chegou a enfrentar tarifas que alcançavam 40% ou 50% sobre determinados produtos, passa a operar sob um regime significativamente mais brando. Produtos agrícolas estratégicos - como café, carne bovina e frutas - já haviam obtido suspensões parciais; agora, a tarifa uniforme representa, comparativamente, uma melhora relevante.

O presidente Lula reagiu com cautela, afirmando estar “aliviado por não ter se precipitado”. A leitura é pragmática: a volatilidade jurídica e política da política comercial da era Trump recomenda prudência.

O maior prejudicado proporcionalmente é o Reino Unido, cuja tarifa média sobe 2,1 pontos percentuais. A União Europeia enfrenta aumento de 0,8 ponto percentual, com países como Itália e França particularmente expostos quando consideradas categorias antes isentas.

A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, observou que o custo das tarifas tende a recair sobre importadores e consumidores americanos - uma lembrança de que o protecionismo não é isento de efeitos domésticos.

A tensão atinge também o chamado Acordo de Turnberry entre EUA e UE, cuja ratificação enfrenta questionamentos no Parlamento Europeu.

A decisão da Suprema Corte invalidou tarifas impostas com base na IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional). Trump reagiu rapidamente, recorrendo à Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para impor tarifa de 10% - elevada para 15% - válida por 150 dias sem aprovação do Congresso.

Analistas como Simon Evenett argumentam que a alavancagem americana não diminuiu; apenas mudou de instrumento. A possibilidade de novas investigações sob a Seção 301 mantém parceiros comerciais sob pressão permanente.

Ou seja: o regime atual é transitório e estrategicamente ambíguo. Trata-se menos de estabilização e mais de reorganização do poder de barganha.

O segundo conteúdo analisado reforça essa leitura. Apesar da decisão judicial, governos dificilmente romperão acordos firmados com Washington. O receio de retaliações em setores sensíveis - aço, automóveis, semicondutores - e em áreas extracomerciais, como defesa e segurança, atua como freio.

A política comercial americana passa a operar sob lógica de dissuasão: mesmo quando juridicamente fragilizada, mantém capacidade coercitiva por meio de múltiplos instrumentos legais (Seções 232 e 301).

O paradoxo é evidente. Países acusados de práticas desleais ou superávits excessivos - Brasil, China, Vietnã - acabam proporcionalmente beneficiados. Já aliados históricos, cujas exportações concentram-se em setores já tarifados (aço, alumínio, automóveis), sofrem maior impacto.

Isso sugere que a política comercial de Trump não é meramente econômica, mas geopolítica: busca redefinir hierarquias e forçar renegociações contínuas, mantendo todos os parceiros em estado de incerteza calculada.

Para o Brasil, o momento é de oportunidade cautelosa. A redução tarifária melhora competitividade relativa, mas o horizonte permanece volátil. O regime é temporário (150 dias) e sujeito a novas reconfigurações legislativas ou judiciais.

No tabuleiro global, o que se vê não é o fim da guerra comercial, mas sua metamorfose: menos baseada em decretos emergenciais amplos e mais estruturada em instrumentos legais fragmentados, porém igualmente eficazes como mecanismos de pressão.

O comércio internacional, sob Trump, deixa de ser arena de previsibilidade normativa e transforma-se em instrumento permanente de negociação estratégica. O jogo não terminou - apenas começou de novo.

¨      Trump diz que EUA buscam domínio no Hemisfério Ocidental

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (24) que Washington pretende consolidar uma posição de predominância no Hemisfério Ocidental. A declaração foi feita durante o discurso anual sobre o Estado da União, realizado no Capitólio, diante de membros da Câmara dos Representantes e do Senado.

De acordo com a agência russa TASS, que divulgou trechos do pronunciamento com base em informações da assessoria de imprensa da Casa Branca, Trump destacou que a estratégia do governo envolve reforço da segurança e defesa dos interesses nacionais norte-americanos na região.

Em sua fala, o presidente declarou: "Estamos também restaurando a segurança e a dominância americana no Hemisfério Ocidental, agindo para garantir nossos interesses nacionais e defender nosso país da violência, das drogas, do terrorismo e da interferência estrangeira. Durante anos, grandes extensões de território em nossa região, incluindo grandes partes do México, estiveram sob o controle de cartéis de drogas assassinos".

O discurso foi proferido no tradicional pronunciamento anual ao Congresso, momento em que o chefe da Casa Branca apresenta diretrizes e prioridades da administração federal. A ênfase na atuação regional e no combate ao crime organizado marcou parte central da fala, com menção direta à atuação de cartéis de drogas em países vizinhos.

Ao associar segurança interna à política externa no entorno geográfico dos Estados Unidos, Trump reiterou a intenção de fortalecer a presença e a influência norte-americana no Hemisfério Ocidental, apontando o enfrentamento ao narcotráfico e à interferência estrangeira como pilares de sua estratégia.

¨      Financial Times vê estado mental de Trump como risco global

A atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representa um fator de risco para a estabilidade internacional, na avaliação do jornal britânico Financial Times. Em análise publicada nesta terça-feira (24), o veículo sustenta que o comportamento e as decisões do mandatário ampliam incertezas geopolíticas e podem gerar impactos que ultrapassam as fronteiras norte-americanas.

O Financial Times argumenta que, embora psiquiatras norte-americanos evitem comentar publicamente a saúde mental de figuras públicas desde a chamada “regra Goldwater”, criada nos anos 1970, a conduta de Trump levanta questionamentos entre observadores. O jornal afirma que, enquanto o presidente prepara uma mobilização militar dos Estados Unidos no Oriente Médio sem detalhar claramente seus objetivos, uma avaliação honesta dos riscos globais deveria considerar sua psicologia como elemento central.

Segundo a publicação, mentiras frequentes não configuram, por si só, prova de irracionalidade. No entanto, o problema se agrava quando auxiliares e aliados passam a reforçar essas versões, criando um ambiente no qual o presidente pode acreditar nas próprias afirmações. O texto destaca que líderes estrangeiros têm recorrido à exaltação pessoal como forma de influência. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, descreveu Trump como um “papai” que estaria tomando atitudes firmes para proteger a família — gesto interpretado pelo jornal como tentativa de alimentar sua vaidade para direcionar decisões.

No plano interno, o artigo aponta que integrantes do governo competem em elogios públicos. A procuradora-geral Pam Bondi declarou que Trump é “o maior presidente da história dos Estados Unidos”. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, afirmou que ele inaugurou “uma era de ouro americana”. Já o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ao comentar uma operação na Venezuela, classificou a ação como “a operação militar mais poderosa, eu diria, da história mundial”. Para o Financial Times, declarações desse tipo substituem avaliações técnicas realistas por demonstrações de lealdade.

O jornal também destaca reveses institucionais enfrentados pelo presidente. Na sexta-feira (data não informada no texto original), a Suprema Corte decidiu por seis votos a três invalidar a maior parte das tarifas impostas pelo governo. Em reação, Trump chamou dois ministros indicados por ele próprio, Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett, de “desleais” e “antipatrióticos”, além de insinuar influência estrangeira sobre ambos.

Outro foco de tensão envolve o Federal Reserve. No mês passado (data não especificada), o presidente do banco central, Jerome Powell, fez um pronunciamento público em defesa da independência da instituição após o Departamento de Justiça ameaçá-lo com acusação criminal relacionada a custos de reforma da sede da entidade. O Financial Times avalia que, mesmo com a possível substituição de Powell por Kevin Warsh, não há garantia de alinhamento automático com a Casa Branca, especialmente diante da pressão inflacionária.

A política migratória também enfrenta resistência crescente. Agentes do serviço de imigração (ICE) têm sido alvo de desconfiança pública, enquanto tribunais e organizações civis impõem obstáculos aos planos de deportação. A Suprema Corte deverá analisar, nas próximas semanas, a contestação do governo ao direito à cidadania por nascimento.

Ao mencionar a chamada “regra Taco” — sigla em inglês para a ideia de que “Trump sempre recua” — o jornal reconhece que o presidente tende a retroceder quando enfrenta forças institucionais robustas. Ainda assim, conclui que a combinação entre vaidade, estímulo constante por parte de aliados e decisões de alto impacto estratégico configura um risco que, segundo a análise, não se limita aos Estados Unidos, mas alcança a ordem internacional.

 

 

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