Pedro
Benedito Maciel Neto: A direita não existe mais e a esquerda não sabe o que
fazer
A
pesquisa publicizada que apresenta o
senador Flávio Bolsonaro como um candidato que pode, num segundo turno, vencer
o presidente Lula, me colocou para pensar.
Lembrei
de um vídeo disponível no YouTube, publicado pelo jornalista Bob Fernandes,
denominado: “Bolsonaro pregou tortura, ditadura, morte, enfim está preso, e a
extrema-direita segue seu rumo”. Todos aqueles que pensam em votar em Flávio
Bolsonaro, que ainda têm alguma simpatia pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e
pelos seus posicionamentos, deveriam ouvir o brilhante jornalista e, se
necessário, ouvir novamente.
Após
ouvir e refletir sobre os fatos narrados, aquele que ainda entender que
Bolsonaro e o bolsonarismo o representam não me serve, pois não me servem os
canalhas.
Minha
geração convive e sempre conviveu respeitosamente com o pessoal da direita
democrática, com os liberais do PSDB e até mesmo com o pessoal do centrão;
contudo, a extrema-direita, repito, não me serve e, pelo andar da carruagem,
não há mais direita.
Vamos
lá, vou tentar resumir o que Bob falou, com enorme felicidade, para sustentar a
minha afirmação de que a direita não existe mais.
Ele
começa lembrando que, no segundo semestre de 1987, a revista Veja trouxe
matéria, nunca desmentida, contando ao leitor que Jair Bolsonaro ameaçou
explodir bombas nos quartéis e na adutora do “Rio Guandu”, no Rio de Janeiro,
como forma de protesto pelos baixos salários pagos aos militares.
Um ano
depois, o Superior Tribunal Militar o puniu por dar entrevistas sem autorização
— não pela ameaça de atentados terroristas com bombas. A pena foi de 15 dias de
prisão e expulsão do Exército. A pena foi abrandada pelo Superior Tribunal
Militar; assim, Jair Bolsonaro foi para a reserva sem ser expulso do Exército.
Em
1964, com a ditadura no Brasil, o poeta Eduardo Alves da Costa, inspirado pela
história do Brasil e da humanidade, escreveu a poesia No caminho com
Maiakovski:
“Na
primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim, e não
dizemos nada.
Na
segunda noite já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão, e não
dizemos nada.
Até que
um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e,
conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já
não podemos dizer nada".
O mau
militar, após a prisão e a “aposentadoria” compulsória, elegeu-se vereador em
1988 e deputado federal em 1990.
Em
1999, Bolsonaro, já deputado, pregou na TV Band do Rio um golpe de Estado e uma
guerra civil para matar “uns 30 mil”, começando por Fernando Henrique Cardoso;
defendeu a tortura e as ditaduras. A comissão de ética da Câmara dos Deputados
não disse nada, nem fez nada; inclusive o Exército não fez nada.
O tempo
passou e o medíocre deputado, num lamentável episódio, afirmou que não
estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela “não mereceria”. Disse também
que usava dinheiro público para “comer gente” e que seus filhos não namorariam
Preta Gil, filha do cantor e compositor Gilberto Gil, por serem “bem educados”.
Declarou também que preferia ter um filho morto a ter um filho homossexual.
Muita
gente achou engraçado; o incivilizado “faturou” politicamente e declarações
repugnantes alavancaram a sua popularidade, e os poderes públicos nada fizeram,
nem a PGR, que deveria zelar pelo antirracismo e pela comunidade LGBTQIA+.
Noutra
celebração à barbárie, da tribuna da Câmara, elogiou o capitão Adriano da
Nóbrega quatro dias após sua condenação por assassinato. Também nada foi feito.
Seu filho, então deputado e hoje pré-candidato à Presidência da República,
senador Flávio Bolsonaro, homenageou Adriano com a Medalha Tiradentes enquanto
este estava preso, e familiares de Adriano e de Fabrício Queiroz — “operador
financeiro” da família Bolsonaro nas rachadinhas — foram empregados em
gabinetes parlamentares da família. O Ministério Público do Rio tentou
investigar, mas não houve conclusão efetiva, graças à decisão do ministro Dias
Toffoli.
Na
noite do impeachment, Bolsonaro elogiou o torturador Brilhante Ustra. A Câmara
e os demais poderes nada fizeram.
Na
eleição de 2018, pregou “fuzilar a petralhada” e ameaçou mandar adversários
para a Ponta da Praia, referência à “Restinga da Marambaia”, local associado à
repressão na ditadura. Nada foi feito.
Ele e
seu núcleo familiar compraram ao menos 51 imóveis, muitos em dinheiro vivo,
segundo denúncias, parte, em tese, vinculada às chamadas “rachadinhas”. Muito
se escreveu sobre isso, mas nada aconteceu; nem sei se houve investigação
séria.
Na
pandemia, fez política com a vida e com a morte, debochou das vítimas, ignorou
ofertas da Pfizer e atrasou a compra de vacinas. Mais de 700 mil morreram;
centenas de milhares poderiam estar vivos. A CPI apontou responsabilidades, mas
nada ocorreu.
Bolsonaro
tentou embolsar joias sauditas e ainda não foi julgado por isso.
Por
anos atacou o STF e ameaçou dar um golpe de Estado; incentivou atos por
intervenção militar e contou com omissão ou apoio de militares. Durante 60 dias
após as eleições, quartéis abrigaram manifestações golpistas.
Em 11
de novembro de 2022, comandantes militares assinaram nota conjunta apoiando
manifestações que continuaram mesmo após o ataque à sede da Polícia Federal no
dia da diplomação de Lula e Alckmin, e mesmo após a tentativa de explodir um
caminhão-tanque próximo ao aeroporto de Brasília na noite de Natal de 2022.
Bolsonaro
apresentou a comandantes minuta de decreto de estado de sítio ou de defesa para
intervir no TSE. Segundo denúncias, militares das forças especiais teriam
tramado assassinatos de Lula, do vice Alckmin e do então presidente do TSE,
Alexandre de Moraes.
Em 8 de
janeiro de 2023, o Brasil assistiu ao ataque e à destruição das sedes dos três
Poderes. Eu estava na Terra do Fogo, arquipélago no extremo sul da América do
Sul, recebendo informações pelo WhatsApp de amigos e amigas assustados com os
fatos.
Tentaram
minimizar os fatos, dizendo que eram “velhinhas inocentes”. Tancredo Neves
qualificaria esses como “Canalhas, canalhas, canalhas!”.
Bolsonaro
e alguns militares foram condenados. Ele tentou arrancar a tornozeleira
eletrônica. Seus filhos chegaram a defender ação militar dos Estados Unidos
contra o Brasil.
Desde
25 de novembro de 2025, Bolsonaro começou a cumprir pena em regime fechado na
sede da Polícia Federal em Brasília; hoje está na conhecida “Papudinha”.
A
direita no Brasil não existe mais; foi absorvida pela extrema-direita e, a meu
juízo, a esquerda não sabe o que fazer, pois perdemos a capacidade
comunicativa.
Há
tanto a ser dito, mas concluo, como Bob Fernandes, retomando Eduardo Alves da
Costa:
“E por
temor eu me calo.
Por
temor aceito a condição de falso democrata
e
rotulo meus gestos com a palavra liberdade,
procurando
num sorriso esconder minha dor diante dos meus superiores.
Dentro
de mim, com a potência de um milhão de vozes,
o
coração grita: mentira".
• A polarização das eleições e a busca
pelos 10% decisivos. Por
Alberto
Cantalice
A
disputa pela faixa presidencial em 2026 será definida pelo atual ocupante do
cargo, Lula e o candidato apoiado pelo bolsonarismo Flávio Bolsonaro. Essa
pedra já foi cantada por inúmeros comentaristas políticos ou coordenadores de
pesquisas de opinião. Apesar do favoritismo de Lula, não existe decisão de
véspera. O embate será duríssimo.
A
largada na disputa se dará nos finais do mês de junho. Até lá, seguem as
articulações para montagem dos palanques estaduais. O crescimento do principal
adversário do candidato do PT foi bafejado, inicialmente, pela transferência de
votos do pai (inelegível e preso) para o filho. Um movimento que só não era
esperado pelas viúvas da terceira via e da candidatura presidencial natimorta
de Tarcísio de Freitas. Só quem não conhece a dinâmica operacional da família
Bolsonaro que se iludiu.
Esse
episódio de coroação do herdeiro na família não é fato novo. Cabe lembrar um
episódio grotesco ocorrido em 2000 nas eleições para vereador, na Cidade do Rio
de Janeiro. Bolsonaro, rompido com sua então esposa, Rogéria Bolsonaro, a quem
tinha apoiado nas eleições de 1996, lançou o próprio filho Carlos Bolsonaro, o
Carlucho (na época com 18 anos), para concorrer e derrotar a própria mãe.
Portanto,
a unção de Flávio pode até ter surpreendido alguém, mas não a nós.
Voltando
ao que verdadeiramente interessa que são as pesquisas que medem o momento da
ainda distante disputa eleitoral, seria ilógico e de certo modo até
amadorístico, que dirigentes políticos entrassem em modo desespero. Basta
lembrarmos uma frase recente dita por Lula: “Ainda não ganhei, mas vou ganhar”.
Experimentado nas disputas políticas, eleito três vezes presidente da
República, ele sabe que ainda falta muita água para rolar debaixo da ponte.
É no
começo da campanha, onde o tempo de TV aberta, rádios e os impulsionamentos nas
redes digitais permitirão “casar” as entregas feitas pelo governo, com o
mandatário. Coisa que muito justamente é proibida pela legislação brasileira,
em períodos não eleitorais.
Entretanto,
é importante destacar que o processo eleitoral será como tudo indica, decidido
por 10% do eleitorado. Já que praticamente um terço está fechado com Lula e
outro terço com o Bolsonarismo. Desse terço restante, 20% tendem a não
comparecer. Média que vem se mantendo ao longo de muitos pleitos eleitorais.
A
manutenção de Geraldo Alckmin na chapa majoritária; o apoio de Simone Tebet; de
Eduardo Paes, no Rio de Janeiro e de Rodrigo Pacheco, em Minas Gerais, são
formas de ampliar o diálogo com os setores que compõem esse segmento e que não
se encontram no espectro da esquerda e da centro-esquerda. Da mesma forma,
precisa-se manter e ampliar as alianças com os setores do PSD e do MDB e até de
partidos do Centrão, que por atração regional precisem estar com Lula.
Não
podemos vender a ilusão de que o presidente Lula e os setores de esquerda e
centro esquerda, sozinhos, podem vencer o pleito presidencial e ainda fazer
maioria no Senado. Não vão. É preciso ampliar o leque.
De
muito valerá nessa campanha a previsibilidade e responsabilidade da equipe
econômica: Haddad e Tebet, que sob o comando de Lula recuperaram as contas
nacionais do descalabro deixado pela dupla Bolsonaro/Guedes.
Vamos à
luta!
• Prospectando o cenário eleitoral para
presidente. Por Oliveiros Marques
A
polarização, como demonstram as pesquisas recentes e os debates que se
intensificam na sociedade, não apenas permanece como tende a se aprofundar à
medida que o calendário eleitoral avança. Não há sinais de arrefecimento; ao
contrário, o ambiente político indica consolidação de identidades e redução do
espaço para deslocamentos bruscos entre campos ideológicos.
Esse
cenário aponta para uma eleição presidencial fortemente marcada pela chamada
“rejeição projetada”. Em outras palavras, parcela relevante do eleitorado
deverá votar menos por entusiasmo e mais por prevenção. O voto tende a ser, em
muitos casos, uma escolha defensiva: afasta-se aquilo que se percebe como
ameaça antes de se abraçar integralmente um projeto.
Medo,
incerteza e dúvidas em relação ao futuro devem orientar a decisão da pequena
fração de eleitores que ainda não foi plenamente capturada pela lógica binária.
Essa parcela, hoje, dificilmente ultrapassa 20% do eleitorado. Isso significa
que as campanhas disputarão, de forma efetiva, cerca de 1 em cada 5
brasileiros. Os demais já se encontram relativamente consolidados em seus
campos, onde a comunicação serve mais para reafirmar do que para converter.
É nesse
segmento que reside a chave da disputa. Para esses eleitores, a variável
central não é ideológica, mas pragmática. O que pesa é a percepção de
estabilidade. A pergunta que orienta o voto não é “qual projeto me
entusiasma?”, mas “qual cenário oferece menos risco à minha vida e da minha
família?”.
Nesse
contexto, a candidatura governista de Lula parte com vantagem competitiva
relativa. Não se trata de entusiasmo generalizado, mas de comparação concreta.
Ao contrário do que parte da análise sugere, as entregas do governo não são
irrelevantes. Elas podem não produzir euforia, mas funcionam como parâmetro
objetivo. Mesmo críticos reconhecem indicadores como geração de emprego,
previsibilidade econômica e retomada de políticas públicas. Entre os não
ideologizados, a decisão tende a ser racional: evitar a instabilidade percebida
em um eventual retorno de Bolsonaro.
Isso
não significa que a campanha deva se apoiar apenas em uma vitrine de
realizações. A disputa não se dará em formato de checklist administrativo. As
entregas operam como lastro narrativo - um colchão de credibilidade sobre o
qual se constrói o argumento central: estabilidade versus imprevisibilidade.
O
movimento predominante entre os não polarizados pode ser sintetizado como a
busca por um “futuro seguro”. Mesmo com críticas ao atual governo, a percepção
tende a privilegiar previsibilidade institucional em detrimento de cenários
associados a conflito permanente ou tensão política.
Isso
torna a eleição simples para Lula? De forma alguma. A vantagem existente hoje
não parece estruturalmente superior a cinco pontos percentuais. Em um ambiente
polarizado e altamente mobilizado, pequenas variações podem alterar o ritmo da
disputa.
A
possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno existe. Porém dependerá da
ausência de uma candidatura de centro capaz de ganhar musculatura ao longo da
campanha. Caso o campo oposicionista permaneça fragmentado, o primeiro turno
torna-se plausível. Contudo, a emergência de um nome competitivo pode empurrar
a eleição para a segunda etapa. Entre os atores colocados, é possível que algum
deles apresente potencial para tensionar essa dinâmica no campo de
centro-direita. Poderia, em tese, forçar o segundo turno. Ainda assim, mesmo
nesse cenário, não necessariamente alteraria o desfecho final - apenas
modificaria o percurso até ele.
Em
síntese, a eleição presidencial se desenha menos como disputa de promessas e
mais como comparação de riscos. Em tempos de incerteza, o eleitor tende a
escolher aquilo que julga mais previsível. E é nessa fronteira estreita que se
decidirá o futuro político do país.
Fonte:
Brasil 247

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