sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Luís Nassif: Caso Marielle - o fracasso do sistema de justiça

Depois de anos de investigações, o julgamento do assassino de Marielle se baseia em uma delação premiada de Ronnie Lessa, o vizinho de Jair Bolsonaro.

É um embuste, do qual participaram o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, a Polícia Civil do Rio e a Polícia Federal. É de um primarismo tão eloquente, que suscita a questão que interessa: quem está por trás desse jogo, a ponto de exigir tanta simulação?

A lógica da acusação é precária.

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O assassino apontou os irmãos Brazão como mandantes.

Mas tinha que se providenciar uma relação de causalidade.

Veio a história, então, de que Marielle era contra a aprovação da regulamentação de terrenos que interessavam à família.

Mas a Câmara aprovou. Então qual a razão de terem comandado o assasinato.

Não tem a menor lógica. Era óbvio que a morte de uma vereadora, mulher e combativa, traria os olhos do país e do mundo para o episódio. Não é preciso de nenhum tirocínio agudo para se chegar a essa conclusão. A troco de quê os Brazão iriam transformar uma disputa local em caso nacional?

Vamos aos fatos objetivos:

  1. O porteiro do Vivendas da Barra disse que o motorista que entrou, para pegar Ronnie Lessa, pediu para ligar na casa de Jair Bolsonaro. O Jornal Nacional deu a matéria. Do exterior, Jair gravou um vídeo dizendo que, naquele dia estava em Brasilia.
  2. Mostramos aqui, no GGN, que o sistema de telefonia do condomínio permitia transferência de ligação para telefone celular. Logo, o álibi de Bolsonaro era furado.
  3. Carlos Bolsonaro sistentou que passou todo o dia da morte de Marielle na Câmara de Vereadores. Mostramos, aqui, um vídeo dele, com o sistema de telefonia do condomínio, clicando nas diversas chamadas, para tentar mostrar que não havia nenhuma para a casa do pai. Acabou mostrando uma chamada para a sua casa. “Seu Carlos, é seu Uber”, disse o porteiro. Horas? 17 horas, justamente a hora que terminou a reunião de Ronnie Lessa que, naquele mesmo momento, saiu para executar Marielle.
  4. Mostramos aqui que, logo após o assassinato, o interventor do Rio de Janeiro, general Braga Neto, afirman do que já tinham chegado aos mandantes, mas nada falaria para não atrapalhar as investigações. Depois, nada mais disse.
  5. No final do ano, o general Villas Boas celebrou o pacto entre Braga Neto e Bolsonaro, pelo qual Braga Neto assumiu a chefia da Casa Civil. E ainda afirmou que o país foi salvo por três pessoas: Bolsonaro, Sérgio Moro e Braga Neto.

Em suma, poucas vezes um crime apresentou tal número de evidências. O que ocorreu, então, para essa passada de pano geral?

O Ministério Público Estadual do Rio, ao menos a equipe que investigava o caso, demonstrou desde o começo simpatia pelo bolsonarismo. A ponto de não apenas ignorar o fato de Carlos Bolsonaro ter se apossado de uma prova – o sistema de telefonia do condomínio – como sustentar que foi feita uma perícia, em meio dia, para assegurar que nada foi alterado no equipamento. Perícias nesse tipo de equipamento não duram menos de dois dias.

A PF foi acionada pelo então Ministro Sérgio Moro exclusivamente para intimidar o porteiro do prédio. E nunca mais se ouviu falar dele, mostrando o fracasso do jornalismo carioca. A Polícia Civil do Rio foi acusada, desde o início, de desviar o foco das investigações.

Depois disso, houve a morte de Adriano da Nóbrega, uma autêntica queima de arquivo, de Gustavo Bebianno.

Em suma, o caso Marielle significa a falência de todo o sistema de investigação do país, da Polícia Federal ao MPE do Rio e ao MPF.

¨      Anielle Franco: 'condenação de mandantes é resposta a quem debochou da morte de Marielle'

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, declarou na quarta-feira (25) que a condenação dos irmãos Chiquinho Brazão e Domingos Brazão representa uma resposta direta àqueles que minimizaram ou ironizaram o assassinato da vereadora Marielle Franco. Anielle avaliou que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) também envia um recado à sociedade diante de manifestações que desqualificaram a gravidade do crime. “Isso hoje também é um recado para uma parcela da sociedade que debochou da morte da minha irmã, que tratava como só mais uma ou falava em mimimi sobre Marielle”, afirmou.

A ministra ressaltou que o julgamento simboliza um posicionamento institucional contra a violência política de gênero e raça. “A estrutura que levou minha irmã a ser assassinada precisa ser enfrentada. É urgente”, declarou.

Ela também destacou que a família continuará mobilizada na defesa da memória da parlamentar. “Antes de falarem qualquer coisa sobre a índole ou o caráter de Marielle, vão ter que lidar com os fatos. E os fatos hoje são as condenações”, disse.

A mãe da vereadora, Marinete da Silva, classificou o resultado como histórico. “A gente sai deste dia histórico com mais um dever cumprido. É um alívio. A pergunta que ecoava no mundo era: quem mandou matar Marielle? Hoje temos uma resposta”, afirmou.

Na quarta-feira (25), a Primeira Turma do STF condenou por unanimidade os irmãos Brazão a 76 anos e 3 meses de prisão por planejarem o atentado que matou Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro.

Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, recebeu pena de 76 anos e 3 meses de prisão, além de 200 dias-multa. Chiquinho Brazão, ex-deputado federal, foi condenado à mesma pena e ao mesmo número de dias-multa.

Também foram condenados Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, a 18 anos de prisão e 360 dias-multa; Ronald Paulo Alves Pereira, major da Polícia Militar, a 56 anos de prisão; e Robson Calixto Fonseca, ex-assessor, a 9 anos de prisão e 200 dias-multa.

Os ministros fixaram indenização total de R$ 7 milhões, sendo R$ 1 milhão destinado à assessora Fernanda Chaves, sobrevivente do atentado; R$ 3 milhões aos familiares de Marielle Franco; e R$ 3 milhões à família de Anderson Gomes.

Além das penas privativas de liberdade e das multas, o STF determinou a perda da função pública de Domingos Brazão e a expulsão dos demais condenados de cargos policiais.

¨      Condenações não apagam dor mas aliviam angústia, afirma Mônica Benicio, viúva de Marielle

A vereadora Monica Benicio (Psol-RJ) afirmou nesta quarta-feira (25) que a condenação dos irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão pelo assassinato de Marielle Franco representa um alívio após quase oito anos de espera por Justiça. A declaração ocorreu depois de a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) reconhecer que os dois foram os mandantes do crime ocorrido em março de 2018.

Os magistrados condenaram os irmãos por duplo homicídio qualificado — pelas mortes de Marielle e do motorista Anderson Gomes —, tentativa de homicídio contra a ex-assessora Fernanda Chaves e organização criminosa.

Em nota, Monica Benicio declarou: “as condenações não apagam a nossa dor, mas, de certa forma, aliviam a angústia que sentimos por oito longos anos em que buscamos respostas e a penalização dos criminosos responsáveis por esse horror”.

Marielle e Anderson foram mortos a tiros na noite de 14 de março de 2018. Os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, responsáveis pelos disparos, confessaram participação e firmaram acordos de colaboração premiada na investigação conduzida pela Polícia Federal, contribuindo para a identificação dos mandantes.

Benicio classificou o resultado do julgamento como uma vitória institucional. “A penalização de Domingos e Chiquinho Brazão por serem os mandantes dos assassinatos de Marielle e Anderson, e da tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, ex-assessora de Marielle, é uma vitória. Assim como o é a condenação dos irmãos Brazão por organização criminosa armada. Essa é uma demonstração de que o Tribunal entende a gravidade e a profundidade da infiltração do crime no Estado”, afirmou.

Também foram condenados Robson Calixto Fonseca, ex-policial militar e ex-assessor de Domingos Brazão, a nove anos de prisão por organização criminosa, e o ex-major da Polícia Militar do Rio de Janeiro Ronald Paulo Alves Pereira, que recebeu pena de 56 anos pelos homicídios de Marielle e Anderson e pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves.

O delegado e ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa foi absolvido das acusações de homicídio, mas condenado por obstrução de Justiça e corrupção passiva, com pena fixada em 18 anos de reclusão.

Em outro trecho da nota, a vereadora afirmou: “hoje foi um dia em que o Brasil aprendeu a necessidade de combater organizações criminosas que estão entranhadas no Estado e nas polícias brasileiras. Esse julgamento é um símbolo do combate a um ecossistema que ainda está em funcionamento e que se revela não apenas na violência política, mas também nos casos de letalidade policial nas favelas, periferias e comunidades vulnerabilizadas”.

Ela também relacionou a decisão ao legado de Marielle Franco. “Marielle lutou pelo fim da violência e pela construção de um Brasil melhor. Fazer Justiça por Marielle é seguir com o seu legado, sonhando que é possível construir um país mais justo, igualitário e de paz, para todas as pessoas — independentemente de classe social, cor, gênero, orientação sexual ou religiosidade. Temos que acreditar na nossa unidade, na nossa força e na nossa capacidade de transformação”, declarou.

Apesar de considerar o julgamento um marco, Benicio lamentou a absolvição de Rivaldo Barbosa pelos homicídios e defendeu a continuidade das investigações. “Como bem disse a ministra Cármen Lúcia, não nos falta certeza dos crimes hoje atribuídos aos réus, mas permanece o receio de estarmos deixando passar outros que as provas se demonstraram frágeis. Por isso precisamos manter a pressão pela continuidade das investigações, principalmente em relação à atuação do Delegado do Crime, Rivaldo Barbosa”, afirmou.

Ela acrescentou: “não restam dúvidas sobre a sua relação com a milícia, da sua atuação para atrapalhar o andamento das investigações e os indícios sobre sua participação na elaboração da morte de minha esposa são robustos. A nova denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República por obstrução de justiça e organização criminosa contra Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior, [o delegado] Giniton Lages e [o policial civil] Marco Antonio de Barros Pinto deve ser levada adiante e precisa servir para desmontar, de forma definitiva, essa engrenagem de poder que opera dentro das próprias instituições encarregadas de investigar e responsabilizar crimes”

¨      'Quantas Marielles ainda serão assassinadas?', questiona Cármen Lúcia

A ministra Cármen Lúcia fez um pronunciamento contundente ao votar no julgamento do caso que apura o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, no Supremo Tribunal Federal (STF). Em tom emocionado, ela questionou a permanência da violência e cobrou uma resposta efetiva do Estado diante de crimes que, segundo afirmou, atingem não apenas as vítimas, mas toda a sociedade brasileira.

Ao iniciar seu voto, a ministra lançou uma pergunta direta sobre a repetição de tragédias semelhantes no país: “Eu me pergunto, senhoras e senhores, quantas 'Marielles' o Brasil permitirá sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de Justiça nesta pátria de tantas indignidades”.

Na sequência, Cármen Lúcia ampliou a reflexão ao mencionar também o impacto sobre familiares das vítimas. “Quantos Anderson nós ainda vamos ver chorar quantos vão ficar órfãos pra que o Brasil resolva que isso não pode continuar e que esse estado de direito não é retórica”, prosseguiu.

A ministra revelou ainda o abalo pessoal provocado pelo processo. “Esse processo me faz mal, pela impotência do direito diante da vida dilacerada. Esse processo tem me feito muito mal, até fisicamente, em que leio e releio, vejo vídeos sobre tudo o que passou”, afirmou.

<><> Impacto moral e crítica à desumanização

Durante o voto, Cármen Lúcia destacou o que classificou como dimensão moral do crime e criticou a brutalidade da execução. “Aprendi que se pode arrancar a alma de um ser humano sem lhe rasgar as carnes”, ponderou. Em seguida, reforçou: “Ódio desmedido, descaso humano sem limites. Esse julgamento é testemunho tímido da resposta que o direito pode dar".

Ao recordar a noite do atentado, a ministra ressaltou o alcance simbólico da violência. “Essa rajada de metralhadora riscou a noite, estilhaçou não apenas os corpos dessas pessoas, feriu o Brasil", declarou.

Ela também abordou a vulnerabilidade das mulheres, inclusive em posições de poder. “Nós, mulheres — mesmo eu branca, mesmo eu ministra — somos mais ponto de referência do que sujeito de direito [...]. Matar uma de nós é muito mais fácil. Matar fisicamente, matar moralmente, matar profissionalmente. Continua sendo", afirmou.

No mesmo contexto, mencionou a mãe da vereadora, Marinete Silva. “Dona Marinete, não ache que é só a sua filha. É mais fácil matar uma de nós do que matar um dos outros três aqui, porque se imagina que não vai acontecer nada", disse.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247

 

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