quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Jean Marc von der Weid: Como fica Lula no rescaldo do Momo?

Estamos em campanha eleitoral? A julgar pelo debate sobre o desfile da Acadêmicos de Niterói, o tema parece ser da maior importância política e isto mostra como está pobre o nosso debate. Se Lula não tivesse se exibido no camarote do prefeito do Rio de Janeiro, a lei eleitoral estaria respeitada? O presidente pediu votos? O desfile foi parte de uma estratégia do PT para as eleições? Advogados e políticos, pró e contra, discutem minúcias legais, mas o mais importante não aparece. Afinal de contas, o que constitui política eleitoral antecipada?

Querem exemplos de política eleitoral antecipada mais importantes? Que tal a decisão de Bolsonaro de aumentar o valor do Bolsa Família e a expansão do número de beneficiários para 21 milhões, no começo de 2022? Mais ainda, sem prover fundos para o pagamento do benefício no orçamento de 2023?

Exemplos não faltam para mostrar que as campanhas eleitorais começam no dia da apuração da eleição anterior. Como não há debate sobre programas de governo nas nossas eleições, tudo se passa como se o único objeto das ações do executivo não fosse mais do que buscar formas de agradar o eleitorado para assegurar a manutenção dos incumbentes no poder. Em outras palavras, qualquer decisão voltada para enfrentar os problemas estruturais do país fica fora de foco. Em um próximo artigo, vou retomar uma análise exposta logo após a eleição de 2022 intitulado “Tudo o que não discutimos nestas eleições, mas que o governo vai ter que enfrentar nos próximos quatro anos”. Desde logo adianto: não enfrentou.

Neste artigo, me rendo ao debate tacanho da pequena política: qual o impacto provável do desfile em homenagem ao Lula?

Fui até a Marques do Sapucaí pela primeira vez em 20 anos, pelo menos. Apesar da beleza do espetáculo, me cansei da mesmice dos desfiles e do samba acelerado. Fui para ver a reação do público ao enredo da Acadêmicos de Niterói e até me armei de um celular baratinho para filmar eventuais agressões de bolsonaristas a simpatizantes do presidente. O desfile tinha um a priori favorável pela beleza do samba e a bela forma de colocar o foco na história memorável de Lula, independentemente das minhas avaliações sobre os limites do papel do nosso maior líder popular.

Não tinha uma expectativa muito grande sobre a capacidade de uma escola pequena e sem tradição na Sapucaí de fazer bonito, a diferença de meios materiais e de experiência em desfiles desta grandeza era difícil de ser superada. Mas queria ver como as alegorias iriam retratar o conteúdo do samba.

A primeira surpresa foi a gigantesca adesão do público, cantando a letra do início ao fim do desfile e fazendo o L com os braços incansavelmente no alto. Isto sabendo que o público da Sapucaí é composto hoje em dia por gente de classe média e, sobretudo, por turistas, com forte participação de gringos. Não se espera encontrar esquerdistas ou lulistas nesta festa. Não vi bolsonaristas, pelo menos ativos, no espaço em que me encontrava, um camarote de beira de pista. É provável que toda a militância pró Lula do Rio de Janeiro tenha se mobilizado para cantar Lulá, Lulá.

Já o desfile foi outra coisa. Apesar do entusiasmo dos participantes, os niteroienses se apresentaram, em comparação com as outras escolas, quase como um grupo de amadores. As fantasias eram fracas, as alegorias pouco claras ou canhestras, a evolução desencontrada. Vai cair, pensei logo. E caiu. Pena, o samba e a homenagem mereciam um desfile mais qualificado.

Confesso que saí animado pela reação “popular” das arquibancadas e dos camarotes. Parecia um bom presságio para a campanha eleitoral, para mim já em curso há tempos. Ledo engano. Ao rever o desfile na televisão, que deixei gravando, fui ficando mais frio.

Para começar, fiquei aliviado com o gesto de bom senso (de Lula? ou da própria Janja?), deixando fora da avenida a sua cara metade, que tinha participado do desfile preparatório e estava pronta para se apresentar, acompanhada de ministros, no último carro alegórico. O próprio Lula fez uma rápida passagem pela grade na saída da escola, não resistindo à tentação de se exibir na apoteose. Mas se a passagem discreta era para evitar a discussão sobre a lei eleitoral, o efeito foi nulo. As redes sociais são capazes de trazer os gestos mais discretos para um público de milhões e expor da pior forma possível os seus autores.

Me incomodaram no desfile alguns toques políticos e o principal foi a ala das “famílias conservadoras enlatadas”. A alegoria, ao passar na minha frente, ficou incompreendida (não li o libreto desta ópera), mas vendo na TV e ouvindo as explicações, ficou clara a alusão aos evangélicos (entre outros). Foi incompreensível em um primeiro momento, mas com a divulgação nas redes e mídia, o efeito foi o de ofender este largo eleitorado naquilo que é o cerne da sua cultura, a defesa da família e de seus valores. Tremendo tiro no pé de Lula, que está fazendo das tripas coração para se aproximar ou pelo menos neutralizar este setor. A direita e a pastoralha não demoraram a explorar a burrada. Quero crer que Lula não tinha ideia do que ia aparecer nesta ala ou talvez não aumentasse o desgaste com a sua presença.

O rescaldo do desfile deixa duas sensações: a primeira é que uma apoteose na avenida é algo muito pouco relevante frente à exploração do desfile pelos meios de comunicação. Lula não ganhou votos com o desfile e pode ter perdido um bocado, pelo menos entre os evangélicos. E ainda correu o risco de não ter tido uma apoteose, que seria amplamente explorada pela direita, como está sendo a queda da escola de Niterói de volta para o grupo de acesso.

A segunda é a constatação de que o efeito apoteótico para a militância pode, no máximo, servir de estímulo para maior combatividade na campanha, mas não atrai novos votos. Fiquei lembrando de um dos maiores exemplos da diferença entre militância e voto que conheci na minha longa experiência de vida (acabo de comemorar oitenta anos!). Foi no ano de 1968 e aconteceu no Uruguai. Nas eleições presidenciais daquele ano, a frente de esquerda e centro esquerda (chamava-se Frente Amplio, se bem me lembro) levou um milhão de pessoas para o último comício em Montevideo, o maior da história do país, até hoje. Este número representava quase 50% do eleitorado e todo mundo acreditou que a vitória nas urnas era uma barbada. Ledo engano. Três dias depois o Frente Amplio foi derrotado na eleição, por uma pequena margem. Ao que tudo indica, todos os votos da Frente compareceram ao comício e a (pequena) maioria silenciosa os derrotou.

Na nossa história eleitoral recente, lembro que Lula levou milhões de pessoas para seus comícios eleitorais, sobretudo no Nordeste, enquanto Bolsonaro fazia manifestações muito menores e até, no caso do Nordeste, abdicava de aparecer. E com todo o enorme desgaste do energúmeno pelos seus quatro anos catastróficos de governo, ele perdeu no fotochart para o Lula, inclusive com mais votos no segundo do que no primeiro turno na região Nordeste.

A rua é importante em qualquer campanha, mas não é tudo. A direita tem hoje uma militância aguerrida nas redes, mas também, pelo menos entre os evangélicos, na disputa voto a voto, quer nos púlpitos, quer no corpo a corpo dos “obreiros”. No passado, quem fazia corpo a corpo era a esquerda, que também tinha entidades organizando campanhas (sindicatos, movimentos sociais). Hoje, o Lula depende mais das ações de governo, passadas, presentes e futuras (no decorrer da campanha) do que da militância e das entidades dos movimentos sociais, que perderam muito espaço e capacidade de convocatória.

E como fica a campanha de Lula depois deste rescaldo carnavalesco? O foco dos partidos de apoio ao presidente está sendo compor palanques mais amplos em todos os Estados, tentando atrair o MDB, o União Brasil e o PSD ou, pelo menos, pedaços destes partidos do centrão para sua campanha. Pode até dar certo, embora seja bem difícil, mas o efeito colateral vai ser a diluição da identidade dos partidos de “esquerda” na busca de votos para deputado e senador. Esta situação favorece a estratégia atual do centrão de focar no aumento de suas bancadas para exercer um controle ainda maior do próximo governante, seja ele Lula ou o filhote do Bolsonaro.

Este processo de busca de atração da direita e centro direita no congresso permeou a ação do governo em todo o mandato, com uma permanente conciliação que foi eliminando uma identidade de esquerda, ao ponto do público não perceber mais as diferenças entre os partidos. A cada conchavo para aprovar propostas inicialmente com muito alcance popular, os projetos foram sendo castrados pela direita e a esquerda acabou os aprovando na sua forma muitas vezes irreconhecível, para evitar um “mal maior”.

O resultado é o que vemos, um processo eleitoral onde as questões mais urgentes para o país e para o povo ficam na sombra e tudo gira entorno de arregos locais e regionais para somar apoios que, muitas vezes, ficam da boca para fora.

Mais uma vez estaremos diante de escolhas primárias: salvar o país de uma nova rodada de bolsonarismo no poder, sem esperança de poder ver emergir um governo com legitimidade para fazer o que tem que ser feito frente às dramáticas urgências em múltiplas direções que nos afligem.

•        Carnaval: Elogio de um desfile corajoso. Por Leandro Rezende

Esta foi a pergunta feita pela escola de samba Acadêmicos de Niterói em uma postagem em seu Instagram após o resultado da apuração do desfile das escolas de samba do Grupo especial do carnaval do Rio de Janeiro de 2026, resultado que rebaixou a Acadêmicos de Niterói.

Com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola conta a história da vida de Luís Inácio Lula da Silva, sua trajetória desde retirante nordestino que emigra para São Paulo enquanto “terra prometida”, onde torna-se operário, sindicalista e uma das principais vozes contra a ditadura empresarial-militar, até sua chegada à presidência da república. Uma história que escapa à romantização habitual, de caráter meritocrático, devido às contradições que envolveram a história política de Lula, principalmente a partir de um processo de Lawfare conhecido como “Operação Lava-jato”, que impediu Lula de concorrer às eleições de 2018 através da decretação de sua prisão. Impedimento que contribuiu para a eleição de um projeto de extrema-direita, cujo verniz neofascista vinculou-se a uma pauta de costumes neoconservadora e a uma pauta econômica neoliberal.

O enredo trazido pela escola de samba relaciona a ascensão, a queda e a redenção de Lula a Mulungu, entidade que na simbologia das religiões afro-brasileiras representa uma memória de dor e resistência que se relaciona dialeticamente com o renascimento, a redenção: com a esperança, a esperança da classe trabalhadora brasileira de uma vida mais digna. Este ponto é enfático, pois nele situa-se também a trajetória da escola Acadêmicos de Niterói desde a escolha, a construção e a publicização do enredo, ao desfile e sua apuração na Sapucaí.

Em nota oficial da escola de samba em seu Instagram, a Acadêmicos de Niterói denunciou as investidas contra a realização de seu desfile, relatando as dificuldades enfrentadas pela escola de samba em todo seu processo carnavalesco. Investidas políticas e jurídicas que foram desferidas publicamente por figuras da direita e extrema-direita assim como por seus apoiadores em redes sociais. Segundo a retórica trazida pela direita e extrema-direita, o desfile da escola de samba seria “político”, sendo interpretado como uma propaganda política do presidente Lula para as eleições presidenciais de 2026.

Por mais que a arte, por “essência”, seja política, na maneira como, em seu conteúdo e forma, denuncia, confronta, contradiz a realidade e expõe suas mazelas sociais, suas desigualdades, suas injustiças – Theodor W. Adorno, em sua Teoria Estética, define a obra de arte como “antítese da realidade social” –, a obra de arte prescinde à politização, pois, sua pretensão, por princípio, não é política ou politizadora. A politização ocorre no contato do sujeito observador com a obra, na maneira como o conjunto de representações fornecidos pela obra suscita um posicionamento do indivíduo diante daquilo que é denunciado e confrontado pela obra. Ou seja, a politização fornecida pela obra de arte é a posteriori. Uma obra que traz consigo, de forma a priori, uma pretensão política, a partir de seu artífice, o sujeito produtor, sabota seu principal fim: ser arte, tornando-se facilmente (mais) uma mercadoria, podendo até servir ao oposto daquilo que propõe sua mensagem, para a despolitização.

É neste sentido que os desfiles das escolas de samba, como manifestações artístico-estéticas são alegóricos e não políticos. Qualquer pretensão política invalida o conteúdo artístico da obra. A alegoria é uma narrativa que fornece um conjunto de imagens para contar uma história. As formas de representação fornecidas pela alegoria são pantomimas. As imagens fornecidas na alegoria não pretendem representar uma verdade ou imprimir uma verdade, mas podem suscitar ou desvelar uma verdade no/do sujeito observador. Por isso a arte é política, dado que não é a presença de um conteúdo de cunho político que irá fazer com que uma obra seja política, assim como a história de um personagem que teve ou tem uma vida política não faz com que a representação artística de sua história seja política.

Se, como explicamos acima, o enredo da Acadêmicos de Niterói não foi político, o enredo de toda a trajetória do processo carnavalesco da escola foi politizado por panteões e personagens da direita e extrema-direita brasileiras em suas investidas policialescas e farsescas – sem qualquer conotação artística, aliás. A única cena política que compôs o desfile da escola na Sapucaí foi a contradição entre as vaias nos camarotes, cujo preço da entrada variou entre R$1.600,00 – quase um salário mínimo! – e R$17 mil, e os aplausos das arquibancadas, que contou com ingressos de R$10,00 a R$230,00. Uma contradição que não se resume à ojeriza de um grupo e à apreciação do outro, mas que revela uma verdade indelével sobre a sociedade brasileira, em suas históricas contradições sociais e sua desigualdade estrutural. Qualquer relação com a casa-grande e a senzala não é mera coincidência: um enredo existente desde o período colonial, associado ao racismo estrutural entre brancos que vaiam e negros que aplaudem uma história de um ex-retirante e ex-operário que representa a esperança de milhões de pobres trabalhadores.

Contudo, a principal cena política de todo o enredo que marcou a história da Acadêmicos de Niterói no carnaval do desfile das escolas de samba do Grupo especial do Rio de Janeiro em 2026 foi o resultado de seu rebaixamento. Por mais que o corpo de jurados tenha utilizado dos critérios técnicos da apuração para julgar a escola e seu desfile, o resultado negativo que culminou no rebaixamento da Acadêmicos de Niterói foi político na maneira como uma expressão artística expôs as contradições da sociedade não apenas nas representações das alegorias de seu desfile, mas na verdade desvelada pelo conjunto da obra desde a publicização do enredo em homenagem à Lula ao desfile: a oligarquia política e econômica brasileira tem ojeriza a qualquer história de ascensão social, mesmo que tímida, entre a classe pobre trabalhadora. Essa oligarquia tem repulsa a qualquer pessoa ou personagem que represente esperança e uma vida digna para a população pobre trabalhadora.

O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói não é simplesmente um acontecimento como consequência do resultado da apuração, mas o ato final de um enredo sobre como a oligarquia política e econômica brasileira e sua visão de mundo excludente e aporofóbica quer destruir toda história que represente a classe pobre trabalhadora – algo reafirmado pela comemoração dos panteões e personagens da direita e extrema-direita em relação ao rebaixamento da escola.

A Acadêmicos de Niterói não caiu, não está derrotada: encarnou Mulungu, fazendo jus ao seu enredo, à sua história. Parafraseando a sabedoria ancestral e popular trazidas e desfiladas pela escola, “a arte não é para os covardes”.

 

Fonte: Outras Palavras

 

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