Fernando
Horta: A lógica da frente ampla
O
segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 30 de outubro de 2022
produziu um resultado que, à primeira vista, parecia confirmar a eficácia das
coalizões de largo espectro. Lula da Silva derrotou Jair Bolsonaro por uma
margem de 1,8 ponto percentual – a mais estreita da história democrática do
país –, sustentado por uma aliança que reunia desde o Partido dos Trabalhadores
(PT), o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e o União Brasil até segmentos
expressivos do chamado centrão, setores do empresariado e, de forma
emblemática, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso.
A
amplitude da coalizão foi, no discurso dominante, celebrada como condição
necessária para a vitória. O que raramente se problematizou, no entanto, foi o
preço estrutural dessa amplitude – um preço que Mancur Olson havia descrito com
precisão cirúrgica quase sessenta anos antes.
Ao
longo de 2023 e 2024, o governo Lula 3 acumulou derrotas no Congresso Nacional
em pautas consideradas prioritárias, assistiu ao desmanche silencioso de
compromissos assumidos durante a campanha e viu-se progressivamente reféns de
uma base aliada cujos integrantes operavam segundo lógicas individuais
incompatíveis com qualquer projeto coletivo coerente.
A
narrativa mais difundida para explicar este fenômeno recorre à composição do
Congresso eleito – de maioria conservadora – e à necessidade de um
“presidencialismo de coalizão” custoso e fragmentador. Esta explicação, embora
não equivocada, é insuficiente. Ela trata como dado exógeno aquilo que Mancur
Olson permite reconhecer como endógeno à própria lógica da coalizão vitoriosa.
Este
artigo propõe uma leitura olsoniana sistemática da trajetória da Frente Ampla
de 2022 ao governo Lula 3, demonstrando que os cinco argumentos centrais de The
Logic of Collective Action não apenas descrevem o que ocorreu, mas possuem
poder preditivo: o comportamento observado era, sob as premissas de Mancur
Olson, o único comportamento racionalmente esperável.
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Mancur Olson aplicado – os cinco argumentos e a Frente Ampla
O
primeiro e mais fundamental argumento de Mancur Olson estabelece que, em grupos
grandes cuja finalidade é produzir bens coletivos – e uma eleição presidencial
é exatamente isso –, o indivíduo racional tende a se abster de contribuir
efetivamente, calculando que seu esforço individual é marginal em relação ao
resultado final.
O bem
coletivo em questão era a derrota de Jair Bolsonaro: não-excludente
(beneficiaria democratas independentemente de sua contribuição ativa) e
não-rival (a vitória de Lula não se tornava menor por haver sido conquistada
sem o esforço de determinado partido ou liderança).
O
resultado foi exatamente o previsto por Mancur Olson: uma quantidade
substantiva de partidos e lideranças que integraram a Frente Ampla contribuiu o
mínimo necessário para não serem excluídos dos dividendos da vitória. O MDB de
Michel Temer – o mesmo que havia presidido o impeachment de Dilma Rousseff em
2016 – integrou a coalizão sem ofertar nenhum custo político significativo.
O
Partido Progressista, sigla que conduziu Paulo Maluf por décadas, somou-se sem
qualquer ruptura programática. O União Brasil, herdeiro do DEM e do PSL,
negociou adesão sem abandonar posições conservadoras em matéria de costumes e
de economia. Todos usufruíram do bem coletivo – a vitória eleitoral e o acesso
ao governo – sem ter arcado com os custos de uma militância transformadora.
Há
ainda uma dimensão mais sutil e analiticamente mais rica do free rider na
Frente Ampla: o comportamento diferenciado entre lideranças e militâncias.
Enquanto as direções partidárias calculavam o custo-benefício de cada adesão em
termos de cargos, emendas parlamentares e controle de estatais, as bases
militantes do PT e dos movimentos sociais aliados arcavam com o custo real da
campanha – horas de trabalho voluntário, exposição pública a contextos hostis,
desgaste emocional em uma sociedade profundamente polarizada.
A
liderança “carona” no esforço da militância. Esta assimetria, invisível nas
análises convencionais, é central para compreender por que o governo resultante
não se sentiu obrigado a honrar a agenda que mobilizou as bases.
O
segundo argumento olsoniano estabelece que, ao contrário da intuição
pluralista, grupos pequenos e homogêneos organizam-se e agem de forma mais
eficaz do que grandes coalizões. Em grupos reduzidos, cada membro percebe que
sua contribuição é decisiva, o benefício individual do resultado coletivo é
significativo e o custo reputacional da deserção é alto. Nenhuma dessas
condições se aplica em grandes coalizões.
No
contexto do governo Lula 3, o centrão operou precisamente segundo esta lógica
de grupo pequeno. O chamado “Centrão” – tipicamente composto pelo PP, PL,
Republicanos, União Brasil e MDB em suas alas mais conservadoras – não somava
mais do que algumas dezenas de lideranças verdadeiramente influentes. Cada uma
delas tinha interesses precisos, mensuráveis e de curto prazo: emendas
impositivas, presidências de comissões, ministérios com orçamento operacional
relevante, controle de agências reguladoras.
O custo
de não negociar era imediato e concreto; o benefício de negociar, igualmente
claro. O Congresso eleito em 2022 ofereceu ao centrão uma posição de poder de
veto que Mancur Olson teria reconhecido como estruturalmente inevitável: grupos
pequenos e coesos derrubam programas de grupos grandes e fragmentados.
A
aprovação do arcabouço fiscal em 2023, as concessões na regulação do mercado de
trabalho, a derrota nas pautas ambientais e a Proposta de Emenda Constitucional
do “estouro do teto de gastos” – todos esses episódios refletem não a fraqueza
pessoal do presidente ou de sua equipe econômica, mas a vitória estrutural de
grupos pequenos e coesos sobre uma coalizão ampla e internamente contraditória.
O governo Lula não perdeu por falta de maioria numérica; perdeu porque sua
“maioria” era, no sentido olsoniano, uma ficção – um agregado de grupos
heterogêneos sem incentivos comuns para agir coletivamente.
Mancur
Olson demonstra que grandes grupos só conseguem superar o problema do carona
quando dispõem de “incentivos seletivos” – benefícios exclusivos para quem
contribui ou punições efetivas para quem deserda. Sindicatos com contribuição
compulsória, partidos com controle de listas eleitorais fechadas, movimentos
com capacidade real de excluir dissidentes – esses mecanismos permitem manter a
coesão apesar da lógica individual contrária à ação coletiva.
A
Frente Ampla de 2022 e o governo Lula 3 revelaram-se incapazes de construir
incentivos seletivos eficazes. A distribuição de cargos e ministérios – o
principal instrumento de coesão do presidencialismo de coalizão brasileiro –
funcionou, paradoxalmente, como incentivo seletivo apenas na dimensão de
recompensar a adesão, mas nunca na dimensão de punir a deserção.
Um
partido que havia recebido dois ministérios e votado contra o governo em três
pautas importantes não perdeu nenhum deles. A ausência de custos por deserção
transformou os incentivos seletivos em transferências unilaterais, sem
contrapartida de disciplina programática.
Há aqui
uma tensão adicional que o quadro olsoniano permite iluminar com precisão: o
mecanismo que poderia funcionar como incentivo seletivo para a militância – a
ideia de que um governo Lula honraria as pautas históricas da esquerda
brasileira – foi sistematicamente erodido pelas concessões ao centrão. Cada vez
que o governo recuava em pauta ambiental, em reforma tributária progressiva ou
em direitos trabalhistas, destruía o incentivo seletivo que mantinha as bases
mobilizadas.
A
militância do PT, dos movimentos sociais e das organizações populares que tinha
na agenda transformadora sua recompensa exclusiva pela participação foi
progressivamente destituída desse incentivo – sem que as lideranças, protegidas
por seus cálculos individuais de curto prazo, o percebessem ou se importassem.
O
quarto argumento de Mancur Olson é, simultaneamente, o mais contraintuitivo e o
mais politicamente relevante para a análise aqui desenvolvida. A falácia da
composição coletiva estabelece que decisões individualmente racionais para cada
ator podem produzir resultados coletivamente irracionais – e que a soma de
racionalidades individuais não produz racionalidade coletiva.
Este
princípio oferece uma chave de leitura poderosa para a tensão estrutural entre
lideranças e militâncias na Frente Ampla. As lideranças partidárias que
compuseram a coalizão são organizações com objetivos claramente definidos:
maximizar votos, conquistar cargos, acumular capital político.
Cada
decisão individual de uma liderança – aderir à Frente sem exigir programa
comum, negociar ministérios sem estabelecer contrapartidas programáticas, votar
com o governo apenas quando o custo de votar contra fosse insuportável – era
racionalmente fundada nos interesses organizacionais de seu partido.
As
militâncias, por sua vez, operam segundo uma lógica diferente: sua
“racionalidade” é coletiva por definição. Um militante do MST não calcula
quanto sua participação individual no governo Lula 3 lhe renderá pessoalmente;
ele calcula quanto a política agrária do governo renderá ao movimento. Uma
liderança feminista não negocia por um cargo específico; negocia por uma
agenda.
A
militância é, por natureza, portadora de interesses coletivos – e é exatamente
por isso que é sistematicamente derrotada pelas lideranças, que portam
interesses individualizados e têm, portanto, capacidade de ação estratégica
superior no curto prazo.
O
resultado da composição dessas racionalidades heterogêneas foi precisamente o
que Mancur Olson preveria: cada liderança tomou a decisão individualmente
ótima, e o governo resultante tornou-se coletivamente sub ótimo para todos os
que o compuseram. O PT obteve a presidência, mas à custa de um programa
radicalmente diluído. O MDB obteve ministérios, mas à custa de associar-se a um
projeto de centro-esquerda que sua base não respaldava.
O PDT,
que ficou de fora, manteve sua coerência, mas perdeu a influência. O PSOL, que
entrou, ampliou a exposição de suas lideranças, mas enfraqueceu sua identidade
oposicionista. Cada ator maximizou uma variável; o conjunto maximizou o vazio
programático.
O
quinto argumento de Mancur Olson estabelece que, mesmo quando a ação coletiva
ocorre, ela produz o bem coletivo em quantidade e qualidade abaixo do ótimo
social. Em grandes organizações que perduram, esse fenômeno se aprofunda na
forma de “esclerose organizacional”: acumulação de interesses cristalizados,
burocracia defensora de privilégios adquiridos e perda de dinamismo adaptativo.
Organizações
antigas tendem a se tornar instrumentos de redistribuição de rendas para seus
membros em vez de produtoras de bens coletivos para a sociedade. Esse argumento
pode, também, explicar a posição da população brasileira frente à economia que
melhora, mas não o suficiente para atender à expectativa coletiva formada.
O
governo Lula 3 herdou simultaneamente duas formas de esclerose. A primeira é a
esclerose do próprio PT após décadas de construção organizacional: um partido
com estruturas de interesse consolidadas – burocracias sindicais, fundações,
think tanks, redes de fidelidade interna – que precisavam ser preservadas
independentemente da agenda governamental. A segunda é a esclerose do
presidencialismo de coalizão brasileiro, um sistema que, como notou Sérgio
Abranches ao analisá-lo, produz sistematicamente governos reféns de suas
próprias coalizões.
A
subotimização manifesta-se de forma mais visível na política econômica: o
resultado observado – juros elevados, ajuste fiscal que comprime investimentos
sociais, ausência de reforma tributária redistributiva – não reflete a
preferência de nenhum dos grupos que compuseram a Frente Ampla em sua pureza. É
um produto de compromissos mútuos que cada grupo individualmente rejeitaria,
mas que nenhum tem incentivo suficiente para romper unilateralmente. É, em
suma, o ótimo de ninguém – o resultado típico da subotimização olsoniana em
coalizões heterogêneas de grande porte.
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Além do Congresso – a explicação estrutural que falta
A
narrativa convencional atribui as dificuldades do governo Lula 3 à composição
conservadora do Congresso Nacional eleito em 2022. Esta explicação tem mérito
factual, mas padece de um déficit analítico: trata a composição do Congresso
como causa exógena, quando ela é em parte produto endógeno da mesma lógica que
organiza a Frente Ampla.
Um
Congresso conservador não é um dado da natureza; é resultado de décadas de
subinvestimento organizativo da esquerda nas bases eleitorais que sustentam
seus candidatos congressistas — um subinvestimento que a análise olsoniana
permite compreender como estruturalmente incentivado.
Mais
importante, a explicação parlamentar não dá conta do fenômeno que ocorre dentro
da própria coalizão governista. Ministérios do governo Lula 3 em mãos de
partidos aliados produziram políticas que contrariavam a agenda que motivou a
aliança eleitoral. Não por malícia, mas por lógica: cada ministério operava
segundo os interesses de seu partido-gestor, não segundo a agenda coletiva da
Frente. A “falta de força no Congresso” descreve uma sintomatologia; a análise
olsoniana alcança a etiologia.
Há,
também, uma dimensão temporal que Mancur Olson ilumina de forma singular. A
coalizão de 2022 foi construída para vencer uma eleição – uma ação coletiva
episódica, com horizonte temporal definido e resultado binário. Uma vez
atingido o objetivo (a vitória eleitoral), os incentivos para manter a coesão
coletiva desapareceram. O bem coletivo havia sido produzido; o free rider havia
triunfado. O que restou foi o governo – não como expressão de um projeto comum,
mas como arena de disputa de interesses individuais entre os mesmos atores que
haviam se unido para produzi-lo.
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Considerações finais
A
aplicação do quadro analítico de Mancur Olson ao caso do governo Lula 3 não tem
pretensão normativa imediata – não se trata de afirmar que a Frente Ampla foi
um erro, nem que coalizões amplas sejam necessariamente indesejáveis. Trata-se,
antes, de oferecer uma ferramenta que permita ir além das explicações
conjunturais e identificar os mecanismos estruturais que condicionam o
comportamento dos atores políticos.
O
diagnóstico olsoniano sugere que a esquerda brasileira – e, por extensão, as
esquerdas no mundo – enfrenta um dilema estrutural que não se resolve por apelo
à consciência política, à lealdade programática ou ao voluntarismo militante.
Enquanto
as condições institucionais privilegiarem os cálculos individuais de lideranças
sobre os cálculos coletivos das bases; enquanto não existirem incentivos
seletivos que vinculem a participação na coalizão ao cumprimento de
compromissos programáticos; e enquanto a lógica do free rider permitir que
partidos usufruam do bem coletivo sem arcar com seus custos, o resultado tende
a ser o observado: governos eleitos por maiorias sociais que governam segundo
as preferências de minorias organizadas.
A saída
teórica de Mancur Olson, que inspira trabalhos posteriores como os de Elinor
Ostrom sobre a governança dos comuns, passa por duas condições: a existência de
grupos suficientemente pequenos para que cada membro perceba sua contribuição
como decisiva, ou a construção de mecanismos robustos de incentivos seletivos
que tornem custosa a deserção.
Nenhuma
das duas condições é facilmente criável em democracias representativas de
grande escala. Mas reconhecê-las como condições necessárias é, pelo menos, mais
produtivo do que lamentar a ingratidão dos aliados – que, conforme demonstra
Mancur Olson, simplesmente estavam sendo racionais.
O mesmo
argumento que forjou a Frente Ampla (de que era preciso vencer o
fascismo/bolsonarismo) foi responsável pela disfuncionalidade interna do
governo. Ele dissolveu maximizou o problema do “carona” dissolvendo a lógica
dos incentivos coletivos, ele privilegiou os cálculos individuais por sobre os
interesses coletivos nas lideranças (tanto do governo quanto do Centrão), ele
colocou a militância no espaço do “não engajamento olsoniano” por
reconhecerem-se marginalizados e, quando houve formação de ação coletiva, os
resultados foram sempre sub-ótimos fazendo com que mesmo os evidentes ganhos
que o governo proporcionou precisem ser explicados por esforço de convencimento
comunicativo externo. Este pode ser um bom aviso para um possível Lula 4.
Fonte:
A Terra é Redonda

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