O
papel do Brasil no século das terras raras
O
petróleo estruturou guerras, impérios e desigualdades no século XX. No século
que se consolida, a disputa desloca-se para o subsolo mineral. Terras raras,
lítio, nióbio, grafite e outros minerais críticos formam a base material da
transição energética, da revolução digital e da soberania tecnológica.
Diferentemente do petróleo, eles atravessam simultaneamente energia, dados,
defesa e indústria. O país que compreender essa transformação poderá moldar o
futuro. O que ignorá-la corre o risco de repetir o ciclo da dependência, agora
em escala tecnológica e geopolítica.
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O petróleo foi um ensaio geral de poder
O
século do petróleo não foi apenas um período de abundância energética. Foi a
forma histórica que o poder encontrou para se materializar em escala
planetária. Quem controlou o fluxo de hidrocarbonetos controlou o ritmo da
indústria, a logística do comércio, a mobilidade das populações e, sobretudo, a
capacidade de guerra. O petróleo transformou-se em eixo organizador de
alianças, de doutrinas militares, de chantagens econômicas e de hierarquias
internacionais. A energia não ficou no posto. Ela virou soberania para uns e
dependência para outros.
A
promessa do petróleo sempre veio acompanhada de uma fatura política. O recurso
que acelerou a modernização de alguns países também sustentou a arquitetura de
uma ordem global baseada em assimetrias. O mundo aprendeu, à força, que a
disputa por um insumo estratégico não se resolve apenas no mercado. Ela se
resolve na diplomacia, no controle de rotas, na capacidade de impor sanções, na
manipulação de preços, no acesso privilegiado à infraestrutura e, quando
necessário, na coerção aberta. O petróleo ensinou que recursos decisivos
raramente permanecem neutros. Eles atraem poder como gravidade.
A
narrativa liberal de que a riqueza energética se converte automaticamente em
prosperidade social foi desmentida repetidas vezes. Em muitos lugares, a renda
do petróleo consolidou elites, financiou aparelhos repressivos, alimentou
corrupção sistêmica e comprimiu a diversidade produtiva, aprisionando economias
em ciclos de dependência e vulnerabilidade externa. Em outros, fortaleceu
Estados capazes de planejar, industrializar e distribuir parte dos ganhos,
ainda assim sob tensões permanentes entre interesse público e captura privada.
O padrão histórico é claro: quando um recurso se torna estrutural, a pergunta
central deixa de ser “quanto ele vale” e passa a ser “quem manda nele, para quê
e com quais efeitos”.
Esse
legado ajuda a entender por que a transição energética é, ao mesmo tempo, uma
promessa e uma ruptura. O petróleo tende a perder centralidade relativa à
medida que novas matrizes ganham escala, eficiência e competitividade. Essa
mudança altera o mapa do poder, mas não elimina a lógica que o petróleo
consolidou. Apenas desloca o eixo. O mundo não está caminhando para um futuro
sem disputa por recursos. Está caminhando para uma disputa diferente, mais
profunda, porque não gira apenas em torno de combustível. Gira em torno da
infraestrutura que permitirá existir, produzir e decidir no novo ciclo
tecnológico.
O
petróleo, portanto, foi um ensaio geral. Ele mostrou como recursos estratégicos
organizam a política global, como a dependência se transforma em subordinação e
como a riqueza, quando não é capturada por um projeto nacional, é capturada por
interesses que não respondem à sociedade. Essa memória histórica não serve para
nostalgia nem para moralismo. Permite calibrar o olhar. O que vem adiante não
será uma repetição idêntica, mas seguirá a mesma gramática do poder: quem
controla a base material de uma era controla o seu destino.
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A ilusão da desmaterialização
Nas
últimas décadas, consolidou-se a ideia de que o mundo caminha para uma economia
imaterial. Fala-se em nuvem, em inteligência artificial, em plataformas
digitais, em serviços baseados em dados. A aparência é de leveza. A narrativa
sugere que o poder deixou de depender de matéria e passou a depender apenas de
código. Essa percepção é confortável, mas enganosa.
Cada
avanço tecnológico aumentou, e não reduziu, a intensidade material da economia.
Data centers exigem toneladas de cobre para transmissão elétrica e de dados.
Processadores dependem de silício ultrapuro e de uma cadeia química complexa.
Baterias que sustentam a mobilidade elétrica precisam de lítio, níquel, grafite
e outros minerais específicos. Turbinas eólicas e motores de alta eficiência
utilizam ímãs permanentes que incorporam terras raras. A chamada economia
digital está assentada sobre uma base física extensa, sofisticada e
profundamente dependente de insumos minerais estratégicos.
A
transição energética reforça essa tendência. A substituição de combustíveis
fósseis por matrizes renováveis não elimina a materialidade do sistema
produtivo. Ela a reorganiza. Painéis solares, redes inteligentes, sistemas de
armazenamento e infraestrutura de transmissão ampliam a demanda por metais e
minerais críticos em escala inédita. A eletrificação generalizada, da
mobilidade ao setor industrial, desloca o centro da dependência energética para
a dependência mineral.
A
inteligência artificial, frequentemente descrita como fenômeno abstrato, é
talvez o exemplo mais claro dessa intensificação material. Treinar modelos
avançados requer centros de processamento massivos, hardware especializado e
consumo elevado de energia elétrica. Cada camada de inovação adiciona
complexidade técnica e demanda insumos específicos, cuja produção e refino
concentram-se em poucos países. O que parece virtual depende de cadeias
produtivas físicas altamente especializadas.
A ideia
de que a economia se desmaterializa mascara a realidade de que ela se
mineraliza. O valor agregado pode se concentrar em software e serviços, mas a
possibilidade de produzir software e serviços está condicionada ao acesso a
componentes, metais e infraestrutura. O controle do código não substitui o
controle da matéria; ele o pressupõe. Quem não domina a base material
dificilmente dominará as camadas superiores da tecnologia.
Essa
constatação altera a leitura estratégica do presente. Se o século do petróleo
foi marcado pela centralidade de um recurso energético específico, o século que
se consolida é caracterizado pela multiplicidade de minerais críticos que
sustentam simultaneamente energia, computação, defesa e comunicação. A suposta
leveza do mundo digital esconde uma densidade material maior do que nunca. É
nesse deslocamento silencioso que começa a se delinear o poder depois do
petróleo.
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O nascimento do século mineral
Se o
petróleo organizou a era industrial, os minerais críticos organizam a era
tecnológica. Não se trata apenas de um novo insumo estratégico, mas de uma nova
base estrutural sobre a qual se assentam energia, indústria, defesa e sistemas
digitais. O deslocamento é qualitativo. O recurso central deixa de ser um
combustível concentrado e passa a ser um conjunto de elementos cuja função é
sustentar a arquitetura material da civilização contemporânea.
Terras
raras, lítio, nióbio, grafite, cobalto, níquel e outros minerais classificados
como críticos não são intercambiáveis nem facilmente substituíveis. Eles
integram componentes de alto desempenho, sistemas de armazenamento energético,
equipamentos militares de precisão, motores elétricos eficientes, redes de
transmissão e semicondutores avançados. A sua importância não deriva apenas do
volume, mas da função estratégica que exercem dentro das cadeias produtivas.
Ao
contrário do petróleo, cuja centralidade estava associada principalmente à
geração de energia e ao transporte, os minerais críticos atravessam múltiplos
setores simultaneamente. Eles conectam a transição energética à revolução
digital, a indústria civil à indústria de defesa, a infraestrutura de dados à
logística global. Essa transversalidade amplia o seu peso geopolítico. Não se
trata de abastecer motores, mas de garantir a capacidade de produzir
tecnologia, armazenar energia, processar informação e proteger território.
O
caráter estrutural desses minerais se evidencia também na complexidade das
cadeias envolvidas. A extração é apenas a primeira etapa. Refino, separação
química, transformação metalúrgica e incorporação em componentes exigem
conhecimento técnico sofisticado, investimento de longo prazo e coordenação
industrial. Quem domina essas etapas superiores controla o ponto de
estrangulamento da economia tecnológica. O poder deixa de residir apenas na
reserva geológica e passa a residir na capacidade de transformar matéria-prima
em insumo estratégico.
Esse
processo marca o nascimento do que pode ser chamado de século mineral. Não é
uma metáfora retórica. É uma mudança na infraestrutura do poder. A transição
energética depende de minerais críticos. A inteligência artificial depende de
minerais críticos. A indústria militar de alta precisão depende de minerais
críticos. A conectividade global depende de minerais críticos. A nova matriz
produtiva exige uma base material mais diversa e mais especializada do que
aquela que sustentou o ciclo do petróleo.
A
implicação histórica é clara. Enquanto o petróleo foi o eixo de uma era
definida pela energia fóssil e pela indústria pesada, os minerais críticos
sustentam uma era definida por tecnologia avançada, eletrificação ampla e
integração digital. O seu impacto potencial é mais abrangente e, possivelmente,
mais duradouro. O petróleo estruturou um século. O século mineral tende a
estruturar uma etapa mais extensa, porque acompanha qualquer paradigma
tecnológico que venha a emergir.
O poder
depois do petróleo não desaparece. Ele se reconcentra. E se reconcentra
naqueles que compreendem que, antes de controlar mercados ou algoritmos, é
preciso controlar a base mineral que torna esses mercados e algoritmos
possíveis.
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Por que será maior que o século do petróleo
A
afirmação de que o século mineral poderá superar o século do petróleo não é
retórica. Ela se sustenta em três diferenças estruturais que alteram a escala
do poder em jogo: abrangência setorial, profundidade tecnológica e duração
histórica.
Primeiro,
a abrangência. O petróleo concentrou sua influência principalmente na geração
de energia e no transporte, com desdobramentos decisivos na indústria pesada e
na geopolítica militar. Era um eixo energético dominante, mas relativamente
delimitado. Já os minerais críticos não estruturam apenas uma matriz
energética. Eles atravessam energia, computação, defesa, telecomunicações,
mobilidade elétrica, infraestrutura urbana e sistemas industriais
automatizados. O impacto não se distribui por um setor central; ele se espalha
por toda a arquitetura produtiva.
Segundo,
a profundidade tecnológica. O petróleo podia ser extraído, refinado e
comercializado em um circuito relativamente linear. O controle de reservas e
rotas era suficiente para exercer poder significativo. No caso dos minerais
críticos, a extração é apenas o ponto de partida. O verdadeiro poder está nas
etapas posteriores: refino químico de alta complexidade, processamento
metalúrgico, fabricação de componentes e integração em cadeias industriais
avançadas. A dependência deixa de ser apenas energética e passa a ser
tecnológica. Um país pode ter reservas abundantes e, ainda assim, permanecer
subordinado se não dominar as etapas superiores da cadeia.
Terceiro,
a duração histórica. O petróleo está associado a um paradigma energético
específico, o da era fóssil. À medida que a transição energética avança, sua
centralidade relativa tende a diminuir, ainda que continue relevante por
décadas. Os minerais críticos, ao contrário, não estão presos a uma única
matriz. Eles são necessários para qualquer modelo tecnológico que envolva
eletrificação, digitalização e automação. Se novas formas de geração energética
surgirem, continuarão exigindo metais e materiais especializados. Se a
inteligência artificial evoluir, demandará ainda mais infraestrutura física. O
ciclo mineral não substitui um combustível por outro; ele sustenta a própria
condição material da inovação contínua.
Há
também uma diferença na natureza da dependência. O petróleo gerava choques de
oferta e crises de preço que afetavam economias inteiras. Minerais críticos
podem gerar algo mais profundo: interrupções em cadeias produtivas
estratégicas, paralisação de indústrias de alta tecnologia e vulnerabilidade em
setores de defesa. A escassez de um componente específico pode comprometer
sistemas complexos inteiros. A vulnerabilidade não se mede apenas em barris,
mas em capacidade produtiva e soberania tecnológica.
Além
disso, o controle sobre minerais críticos tende a ser mais concentrado nas
etapas de processamento e transformação do que na simples extração. Essa
concentração cria pontos de estrangulamento globais, nos quais decisões
técnicas ou comerciais se convertem rapidamente em instrumentos de poder
geopolítico. A interdependência se torna mais assimétrica, porque envolve
conhecimento, patentes, equipamentos especializados e cadeias logísticas
sofisticadas.
Em
síntese, o petróleo movia motores, exércitos e indústrias. Minerais críticos
movem sistemas completos de produção, comunicação e defesa. O petróleo
estruturou o ritmo do século XX. Os minerais estruturam o ritmo da transição
energética e da revolução tecnológica, com potencial de moldar mais de um
século. É essa combinação de transversalidade, complexidade e duração que
permite afirmar que o impacto do século mineral pode ser maior que o do
petróleo.
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A nova geopolítica silenciosa
A
transição para o século mineral não está sendo anunciada com tanques ou
declarações de guerra. Ela avança por meio de políticas industriais discretas,
acordos comerciais estratégicos e redefinições regulatórias que raramente
ocupam as manchetes. As principais potências já classificam minerais críticos
como questão de segurança nacional. Não é retórica ambiental. É cálculo
geopolítico.
Governos
reorganizam cadeias produtivas para reduzir dependências consideradas
vulneráveis. Criam estoques estratégicos, subsidiam refino doméstico, firmam
parcerias preferenciais com países detentores de reservas e impõem critérios
técnicos que consolidam posições dominantes. A disputa desloca-se do controle
de campos petrolíferos para o controle de capacidades industriais e
tecnológicas associadas à transformação mineral. O poder se exerce menos pela
ocupação territorial direta e mais pelo domínio de etapas decisivas da cadeia.
Esse
movimento tem um componente silencioso porque opera no nível da infraestrutura.
O refino de terras raras, a produção de insumos para baterias, a fabricação de
ímãs permanentes ou semicondutores raramente despertam mobilizações populares
imediatas. No entanto, é nesses segmentos que se define quem terá autonomia
tecnológica e quem dependerá de fornecedores externos para setores sensíveis. A
dependência mineral pode significar dependência em energia renovável, em defesa
aérea, em satélites ou em sistemas de comunicação.
A
reorganização das cadeias globais também reflete uma percepção de
vulnerabilidade. Conflitos comerciais recentes, tensões entre grandes potências
e interrupções logísticas demonstraram que a interdependência pode ser usada
como instrumento de pressão. Nesse contexto, controlar etapas estratégicas da
cadeia mineral torna-se uma forma de blindagem econômica e política. O acesso a
insumos críticos passa a ser negociado com a mesma intensidade com que, no
passado, se negociavam rotas de petróleo.
A nova
geopolítica é menos espetacular, mas potencialmente mais abrangente. Ela
envolve padrões técnicos, acordos de fornecimento de longo prazo,
financiamentos condicionados e influência sobre marcos regulatórios nacionais.
O poder não se afirma apenas pela capacidade de produzir, mas pela capacidade
de definir regras, certificar produtos e estabelecer requisitos tecnológicos
que outros precisam seguir.
O que
está em curso não é uma corrida por volumes brutos de minério, mas por controle
estratégico da cadeia mineral. Essa diferença é decisiva. O país que apenas
extrai participa da margem inferior do sistema. O país que refina, transforma e
integra minerais em tecnologia participa do núcleo do poder. É nessa distinção
que se desenha o novo mapa geoeconômico do século mineral.
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O Brasil na encruzilhada histórica
O
deslocamento do poder para o eixo mineral coloca o Brasil diante de uma decisão
estrutural. O país possui reservas significativas de minerais estratégicos e
ocupa posição relevante no mapa geológico global. Essa condição pode ser
alavanca de autonomia ou ponto de partida para uma nova dependência. O desfecho
não está dado pela natureza, mas pela estratégia.
A
história econômica brasileira é marcada pela exportação de produtos primários
com baixo grau de transformação. Quando a cadeia produtiva se encerra na
extração, o valor agregado e o controle tecnológico se deslocam para fora. No
século mineral, repetir esse padrão significa fornecer insumo barato e importar
tecnologia cara, consolidando uma assimetria que compromete a soberania
industrial e a capacidade de inovação. A dependência não se manifesta apenas na
balança comercial, mas na incapacidade de decidir sobre setores estratégicos.
O risco
não é abstrato. Se a extração mineral avançar sem coordenação nacional robusta,
as etapas de refino, processamento e incorporação tecnológica tenderão a se
concentrar em países que já dominam essas capacidades. Nesse cenário, o Brasil
permanece como elo inicial de uma cadeia cujo comando está em outro lugar. A
abundância geológica não se converte automaticamente em poder político ou
tecnológico.
A
disputa também ocorre no plano institucional. Minerais estratégicos exigem
marco regulatório claro, coordenação federativa e visão de longo prazo.
Fragmentação decisória, competição desordenada entre entes subnacionais ou
flexibilização excessiva sob pressão de interesses imediatos podem comprometer
a capacidade do Estado de orientar a cadeia mineral para fins nacionais.
Recursos críticos não são apenas ativos econômicos; são instrumentos de
política de desenvolvimento.
Há, por
outro lado, uma possibilidade distinta. O Brasil pode tratar minerais críticos
como infraestrutura estratégica, articulando política mineral com política
industrial, energética e tecnológica. Isso implica investir em pesquisa
aplicada, formar quadros técnicos, desenvolver capacidade de refino e estimular
a fabricação de componentes no território nacional. Significa transformar
reserva geológica em base de um projeto produtivo mais sofisticado.
A
encruzilhada não é entre extrair ou não extrair. É entre extrair de forma
subordinada ou integrar a extração a uma estratégia de agregação de valor e
autonomia tecnológica. No século mineral, a diferença entre esses caminhos
define se o país será fornecedor periférico ou participante ativo do núcleo
produtivo global. O poder depois do petróleo passa inevitavelmente pelo subsolo
brasileiro. A questão é quem decidirá o destino dessa base material.
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Cenários futuros
A
consolidação do século mineral não é hipótese distante. Ela já orienta
políticas industriais e estratégias de segurança nas principais economias do
mundo. O que ainda está em aberto é a posição que o Brasil ocupará nesse novo
arranjo. A partir das tendências atuais, três cenários se desenham com nitidez.
No
primeiro, o país mantém a lógica primário-exportadora. A extração se expande,
mas as etapas de refino avançado, processamento químico e fabricação de
componentes permanecem concentradas no exterior. O Brasil amplia receitas de
curto prazo, mas consolida dependência estrutural em setores decisivos como
energia renovável, eletrificação da frota, defesa tecnológica e infraestrutura
digital. A vulnerabilidade não aparece imediatamente, mas se manifesta quando
cadeias globais sofrem interrupções ou quando decisões externas afetam o acesso
a insumos transformados. Nesse cenário, o país participa do ciclo mineral sem
comandá-lo.
No
segundo, ocorre fragmentação institucional. Estados e atores privados negociam
isoladamente, priorizando ganhos imediatos e competição por investimentos, sem
coordenação estratégica nacional. A ausência de diretrizes integradas dificulta
a construção de capacidade tecnológica doméstica. Projetos são estruturados com
foco na exportação de concentrado mineral, enquanto o planejamento de longo
prazo fica subordinado a contratos e demandas externas. O resultado é perda de
coerência industrial e enfraquecimento da capacidade do Estado de orientar a
cadeia mineral para objetivos de desenvolvimento.
No
terceiro cenário, o país reconhece o caráter estrutural dos minerais críticos e
adota estratégia coordenada. Isso envolve marco regulatório específico para
recursos estratégicos, políticas de incentivo ao refino e à transformação
local, integração entre universidades, centros de pesquisa e indústria, e
instrumentos financeiros voltados à verticalização produtiva. Implica também
articulação internacional que privilegie cooperação tecnológica e não apenas
fornecimento de matéria-prima. Nesse quadro, a riqueza mineral deixa de ser
apenas fonte de receita e se converte em alicerce de autonomia produtiva.
A
diferença entre esses caminhos não está apenas na renda gerada, mas na posição
ocupada no sistema internacional. No primeiro e no segundo cenários, o Brasil
permanece na periferia tecnológica. No terceiro, passa a disputar espaço no
núcleo produtivo. O século mineral amplia o leque de possibilidades, mas também
eleva o custo do erro estratégico. Uma vez consolidadas cadeias globais e
padrões tecnológicos, reverter dependências torna-se mais difícil.
A
escolha é política e institucional. Não depende apenas do volume de reservas,
mas da capacidade de planejar, coordenar e sustentar uma estratégia de longo
prazo. O poder depois do petróleo será distribuído conforme a habilidade de
transformar recurso natural em capacidade tecnológica. É nesse ponto que o
futuro brasileiro se decide.
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O que está em jogo
O
debate sobre minerais críticos não é técnico nem setorial. Ele define a posição
do país na próxima etapa da história econômica. O petróleo moldou o século XX
porque controlava a energia que movia a indústria e os exércitos. Os minerais
críticos moldam o século que se consolida porque sustentam simultaneamente
energia, tecnologia, comunicação e defesa. Quem domina essa base material
controla o ritmo da inovação e a margem de decisão estratégica.
O erro
mais grave seria tratar esse processo como mera oportunidade comercial.
Recursos estruturais não podem ser pensados apenas como fonte de exportação.
Eles condicionam políticas industriais, autonomia tecnológica e capacidade de
planejamento estatal. Se a riqueza mineral for dissociada de um projeto
nacional, ela seguirá a trajetória já conhecida: extração intensiva, agregação
de valor no exterior e retorno limitado para a sociedade.
O que
está em jogo é a possibilidade de financiar um ciclo de desenvolvimento
sustentado em ciência, tecnologia e infraestrutura própria. Minerais críticos
podem sustentar cadeias produtivas mais sofisticadas, fortalecer a indústria
nacional e ampliar a capacidade de inovação. Mas isso exige visão estratégica,
coordenação institucional e disposição para enfrentar pressões que privilegiam
ganhos imediatos em detrimento de autonomia a longo prazo.
O
século mineral redefine o poder porque redefine a base material da economia
global. Não é uma transição superficial, mas estrutural. O país que compreender
essa mudança poderá moldar seu próprio futuro tecnológico. O que ignorá-la
poderá assistir à consolidação de uma nova dependência, agora mais profunda,
porque atinge o núcleo da capacidade produtiva.
O poder
depois do petróleo já está sendo reorganizado. A questão não é se os minerais
críticos terão centralidade maior que o petróleo, mas quem transformará essa
centralidade em soberania. A janela histórica é estreita. Decidir como tratar o
subsolo é decidir como ocupar o século.
Fonte:
Por Reynaldo Aragon Gonçalves, em Outras Palavras

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