EUA
começam a aplicar taxa de 10%, apesar de anúncio de 15%
Os Estados Unidos começarão a
aplicar nesta terça-feira (24/02) uma tarifa global de 10% sobre produtos
estrangeiros, apesar do recente anúncio do presidente Donald Trump de impor uma taxa mundial de 15%, o que
amplia a incerteza e a confusão sobre a política alfandegária americana.
Na
última sexta-feira, após a Suprema Corte dos EUAanular a maior parte da agenda
tarifária de Trump,
o presidente anunciou que implementaria rapidamente uma tarifa fixa de 10% para todos os
seus parceiros comerciais por meio de uma lei diferente.
Posteriormente,
Trump publicou uma mensagem em sua rede social própria, a Truth Social,
indicando que, com efeito imediato, elevaria essa tarifa mundial de 10%
para 15%,
um nível que considerou totalmente legal.
No
entanto, o Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA enviou ontem
um comunicado informando aos importadores que a taxa seria inicialmente de 10%
e que seria aplicada a "todos os países durante um período de 150 dias, a
menos que estejam especificamente isentos".
Desta
forma, confirma-se que a tarifa global começará em 10%, embora a administração
esteja trabalhando para elevá-la a 15% em uma ordem separada que Trump deverá
assinar e para a qual não há data definida, segundo destacou a emissora NBC.
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Duro golpe
A
política comercial do presidente Donald Trump sofreu um duro golpe na
sexta-feira. A Suprema Corte dos EUA decidiu que a base legal usada para muitas
das tarifas impostas a quase todos os parceiros comerciais era injustificada.
Por 6
votos a 3, os magistrados rejeitaram o uso de uma lei de poderes de emergência
para impor as amplas tarifas "recíprocas" de Trump, aplicadas a quase
todo o mundo em abril do ano passado – chegando, em alguns casos, a 50%.
Na
prática, a decisão estabelece limites ao poder do presidente para impor tarifas
sem a aprovação do Congresso, afetando diretamente as sobretaxas adotadas
contra o Brasil.
A
sentença da Suprema Corte, que retirou poderes de Trump para aumentar ou
reduzir tarifas sem a aprovação prévia do Congresso, criou confusão nos
mercados internacionais. A União Europeia (UE) suspendeu, por enquanto, o acordo
comercial assinado
com os Estados Unidos até que a política tarifária, um dos pilares do governo
Trump, seja mais clara.
Outros
países, como Índia, China e Reino Unido, estudam que medidas tomar, dado que os
acordos assinados com os Estados Unidos baseados na Lei de Poderes Econômicos
de Emergência Internacional perderam o efeito, já que a Suprema Corte dos EUA
determinou que Trump a utilizou de forma equivocada.
Governo
Lula celebra com cautela a queda do tarifaço de Trump e turbina aposta na
diplomacia comercial
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou nesta
terça-feira (24/2) sua viagem à Coreia do Sul e à Índia.
As
visitas começaram na semana passada, mas foram atravessadas por um
acontecimento a milhares de quilômetros de Seul ou Nova Déli: a decisão da
Suprema Corte dos Estados Unidos que derrubou o chamado
"tarifaço" imposto
pelo presidente americano Donald Trump às exportações
de diversos países, inclusive o Brasil.
A
derrubada do tarifaço e a reação de Trump, que anunciou novas tarifas de 15% nos últimos
dias, vêm sendo tratadas com cautela pelo governo brasileiro. Membros do
primeiro e segundo escalão evitaram reações efusivas à decisão que, segundo
estudos, teve o Brasil como um dos países mais
beneficiados.
"Tivemos
a decisão da Justiça americana contrariando aquilo que era a tese do presidente
Trump. Obviamente que eu não posso julgar a decisão de uma Suprema Corte de um
país. Não julgo as do meu (país), muito menos de outro país. Mas o que quero
conversar com Trump é a relação entre Brasil e Estados Unidos", disse Lula
durante uma entrevista coletiva na Índia, no domingo (20/2).
Mas a
queda, ainda que parcial, do "tarifaço" de Trump aconteceu em um
momento que sintetizou parte do que tem sido a reação brasileira à política
comercial de Trump.
Lula e
membros do seu primeiro escalão estavam na Ásia dando seguimento à estratégia
de expandir mercados para diminuir o impacto da queda das exportações
brasileiras aos Estados Unidos.
Uma
estratégia que, segundo dados oficiais, parece ter dado algum resultado.
Segundo
o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), apesar
de as exportações para os Estados Unidos terem caído 6,6% entre 2024 e 2025, as
exportações totais do Brasil aumentaram 3%.
A
Índia, primeira parada da viagem de Lula, aumentou em 30% as exportações de
produtos brasileiros no período. Um crescimento puxado pelo aumento expressivo
da exportação de petróleo.
Quase
um ano depois das primeiras tarifas a produtos brasileiros terem sido impostas
e em meio a esse cenário internacional incerto, especialistas já começam a
apontar os principais impactos que o tarifaço americano teve sobre a economia
brasileira.
A BBC
News Brasil analisou estudos divulgados pela Câmara Americana de Comércio para
o Brasil (AMCHAM), dados do governo federal e conversou com especialistas sobre
o assunto.
Os
dados apontam que, nos últimos meses, o tarifaço de Trump aprofundou ainda mais
o déficit comercial entre Brasil e Estados Unidos, aumentando a diferença entre
o que o Brasil exporta e o que ele importa dos americanos e colocando em riscos
empresas e empregos brasileiros.
Por
outro lado, o tarifaço fez com que o governo brasileiro acelerasse os trâmites
de acordos comerciais, tentasse abrir novos mercados e, junto com as empresas
privadas, aumentasse as exportações para outros países.
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Rombo com os EUA sobe 2.500%
Um
estudo divulgado pela AMCHAM em dezembro apontou que, em 2025, sob o tarifaço
de Trump, o déficit do Brasil na balança comercial com os Estados Unidos se
ampliou.
Em
2024, o Brasil teve um saldo negativo entre exportações e importações de US$
300 milhões. Em 2025, com os produtos brasileiros mais caros por conta do
tarifaço, esse saldo negativo aumentou 2.500%, chegando a US$ 7,5 bilhões.
Esse
aumento se deu porque as exportações do Brasil para os EUA caíram 6,6%, saindo
de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões, em 2025.
Por
outro lado, as importações do Brasil de produtos norte-americanos aumentaram
11,3%, saindo de US$ 40,7 bilhões para US$ 45,2 bilhões.
Esse
foi o pior resultado para o Brasil desde 2022, quando o déficit foi de US$ 13,9
bilhões.
Entre
os produtos que tiveram maior redução no volume exportado estão: produtos
semi-acabados de ferro ou aço (-5,1%), equipamentos de engenharia civil
(-5,8%), e celulose (-21,1%).
De
acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e
Serviços (MDIC), em meio à duração do tarifaço, a participação dos Estados
Unidos nas exportações brasileiras caiu 1,3 ponto percentual.
Em
2024, o país comprou 11,9% de tudo o que o Brasil exportou. Em 2025, esse
número caiu para 10,6%. Mesmo assim, os Estados Unidos ainda são o segundo
maior importador de produtos brasileiros, atrás da China e na frente da
Argentina.
O
superintendente de Relações Internacionais da Confederação Nacional da
Indústria (CNI), Frederico Lamego, diz que o tarifaço foi especialmente duro
com alguns setores da economia brasileira.
"O
tarifaço trouxe um impacto grave para alguns setores. O setor de cerâmica, por
exemplo, nos disse que se a situação continuasse como estava, haveria o
fechamento de fábricas ao longo do segundo semestre porque o custo estava muito
alto. Houve várias empresas que tiveram que abrir fábricas nos Estados Unidos.
O mesmo aconteceu com o setor de máquinas e equipamentos", diz Lamego à
BBC News Brasil.
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Brasil tenta ampliar parcerias
Por
outro lado, especialistas e diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil nas últimas
semanas apontam que um dos efeitos positivos do tarifaço para o país foi a
tentativa de empresários e do governo de abrir novos mercados diante das
incertezas em relação aos Estados Unidos.
"As
exportações do Brasil para os Estados Unidos caíram, mas em termos globais,
elas aumentaram. Houve muito mais exportação para a China, para outros países
da Ásia e países como a Argentina", diz o ex-secretário de Comércio
Exterior do governo brasileiro e consultor Welber Barral.
Os
dados do governo corroboram a afirmação de Barral.
Entre
2024 e 2025, as exportações brasileiras saíram de US$ 337 bilhões para US$ 348
bilhões, um crescimento de aproximadamente 3%.
No
período, o principal comprador de produtos brasileiros, a China, aumentou sua
fatia das exportações do país de 28% para 28,7%, comprando um total de US$ 99,9
bilhões.
O
Brasil também viu um aumento expressivo das exportações para outros países como
a Argentina (31,4%), Índia (30%), Reino Unido (30,5%) e Paquistão (132%).
"Os
exportadores viram que tinham que procurar novos mercados", conclui
Barral.
Parte
desse aumento das exportações se deveu à ampliação das vendas de petróleo e
derivados, mas também ao aumento das vendas externas de produtos do agronegócio
e commodities minerais.
A
Índia, por exemplo, aumentou em 59% suas importações de petróleo brasileiro,
mas também aumentou em 31% suas importações de óleo de soja e, em 124% as de
algodão bruto.
Um
outro produto que praticamente não constava da pauta de exportações brasileiras
à Índia em 2024 era o minério de ferro. Naquele ano, o Brasil exportou apenas
US$ 240 do produto, contra US$ 441 milhões no ano seguinte.
Segundo
o governo federal, desde 2023, o Brasil abriu 500 novos mercados para produtos
brasileiros em todo o mundo.
Essa
conta é feita por produto e por país. Cada novo produto autorizado em um
determinado país conta como um novo mercado.
"Foi
um movimento positivo em meio aos problemas do tarifaço. Vimos o Brasil adotar
uma postura pragmática e ir atrás de novos acordos comerciais", diz
Lamego.
Nos
últimos meses, o Brasil, junto com os demais países do Mercosul (Uruguai,
Paraguai e Argentina) finalizaram a etapa de assinatura do acordo comercial com
a União Europeia que vinha sendo negociado há 26 anos.
No
final de 2025, o Mercosul também ficou um acordo de livre-comércio com a EFTA,
grupo de países composto por Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia.
Nos
últimos meses, o governo brasileiro também reativou negociações como o Canadá
para tentar um acordo de livre comércio nos moldes do assinado com a União
Europeia. Nesta semana, durante a passagem de Lula pela Coreia do Sul, o
governo do país asiático também mencionou a possibilidade de acelerar
negociações para um acordo comercial do Mercosul.
Um
diplomata ouvido pela BBC News Brasil há uma semana afirmou que a tentativa de
diversificar parceiros não foi disparada pelo tarifaço de Trump, mas que ela
ganhou mais tração a partir das medidas adotadas pelo presidente
norte-americano.
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Foco em Washington
A
derrubada de parte do tarifaço de Donald Trump ainda é avaliada pela equipe
mais próxima do presidente Lula, mas deverá, como disse um diplomata brasileiro
ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado, ajudar a "limpar" a
pauta da reunião que deverá acontecer entre Lula e Trump em Washington.
Nesta
terça-feira, Lula disse que a reunião deverá acontecer no dia 16 de março,
embora a data ainda não tenha sido confirmada oficialmente.
Se
ocorrer, este deverá ser o terceiro encontro pessoal entre os dois líderes. A
relação entre Trump e Lula começou turbulenta e chegou ao pior ponto em julho
de 2025 quando o norte-americano impôs tarifas
adicionais de 50% sobre
exportações brasileiras como resposta ao processo criminal que levou à condenação do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de
golpe de Estado.
Lula,
por sua vez, disse à época que o Brasil não cederia à pressão dos Estados
Unidos. A relação começou a distensionar em meados de setembro, quando os dois
se encontraram, brevemente, durante a passagem de Lula pela Assembleia Geral da
Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Desde então, os dois tiveram
um novo encontro na Malásia e passaram a trocar telefonemas com alguma
regularidade.
Neste
período, o governo norte-americano retirou sanções que haviam sido impostas ao
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e derrubou tarifas
sobre alguns dos produtos brasileiros exportados para os Estados
Unidos.
Segundo
esse diplomata, um dos objetivos da reunião entre Lula e Trump era
"resolver" a situação dos produtos brasileiros que ainda estavam
afetados pelas tarifas impostas por Trump.
Apesar
de o governo americano ter retirado, gradualmente, as tarifas sobre alguns
produtos brasileiros, principalmente produtos do agronegócio, o setor de
maquinários ainda sofria com a imposição das sobretaxas.
Com a
pauta "limpa" ou menos tensionada por conta do tarifaço, o governo
Lula deverá focar sua reunião com Trump em pautas que foram alçadas à condição
de prioridade da relação com os Estados Unidos: o combate ao crime organizado e
a cooperação em projetos de exploração e beneficiamento de terras raras e
outros minerais críticos.
Fonte:
DW Brasil/BBC News Brasil

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