Henrique
Cortez: A extrema-direita odeia universidades e conhecimento científico
O
ataque às universidades não é casual nem espontâneo. Faz parte de um projeto
político deliberado da extrema-direita internacional, que identifica nas
instituições acadêmicas um obstáculo aos seus projetos autoritários.
Universidades
produzem conhecimento baseado em evidências, formam pensadores críticos e
servem como espaços de debate plural – tudo isso incompatível com o discurso
populista e autoritário que caracteriza esses movimentos.
Na
Hungria, Orbán fechou a Universidade Centro Europeia e restringiu drasticamente
os estudos de gênero. Nos Estados Unidos, governadores republicanos de
extrema-direita têm promovido leis que proíbem discussões sobre diversidade
racial nas universidades públicas.
No
Brasil, durante o governo Bolsonaro, vimos cortes brutais no orçamento das
universidades federais, ataques diretos à autonomia universitária e a
perseguição sistemática a pesquisadores.
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O cerco financeiro como arma política
Os
cortes orçamentários promovidos por governos de extrema-direita não são medidas
de austeridade, mas instrumentos de controle político.
O
congelamento de recursos e a ameaça constante de cortes são utilizados para
forçar universidades a adequarem suas práticas a agendas políticas específicas.
Quando
a extrema-direita condiciona o financiamento da pesquisa científica ao
alinhamento ideológico, está atacando a essência da produção acadêmica
independente.
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A demonização do conhecimento científico
Partidos
de extrema-direita promovem sistematicamente a desconfiança na ciência e na
expertise acadêmica. Seja negando as mudanças climáticas, questionando a
eficácia de vacinas ou atacando pesquisas sobre desigualdades sociais, esses
movimentos constroem uma narrativa anti-intelectual que visa deslegitimar
qualquer conhecimento que contradiga suas pautas políticas.
No
Brasil, vimos isso claramente durante a pandemia, quando a extrema-direita
atacou sistematicamente as universidades que produziam pesquisas sobre a
Covid-19, os institutos que defendiam medidas sanitárias e os cientistas que
contradiziam o negacionismo oficial.
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O controle curricular e a censura acadêmica
A
extrema-direita mundial tem promovido tentativas sistemáticas de controlar o
que se ensina nas universidades. Nos Estados Unidos, legisladores republicanos
têm aprovado leis que proíbem discussões sobre racismo estrutural. Na Polônia,
o governo de extrema-direita restringiu os estudos de gênero.
No
Brasil, projetos como o “Escola sem Partido” visavam censurar debates sobre
diversidade e direitos humanos.
Essa
interferência direta no currículo acadêmico representa uma violação fundamental
da autonomia universitária e um ataque direto à liberdade de cátedra.
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A narrativa do “marxismo cultural”
Políticos
de extrema-direita em todo o mundo utilizam o mesmo discurso para atacar as
universidades: a teoria conspiratória do “marxismo cultural” ou “doutrinação
esquerdista”.
Essa
narrativa, que retrata as universidades como centros de propaganda ideológica,
serve para justificar ataques à autonomia acadêmica e à liberdade de pesquisa.
No
Brasil, essa retórica foi amplamente utilizada durante o governo Bolsonaro, que
chegou a propor a filmagem de aulas universitárias para “combater a
doutrinação”.
Trata-se
de uma estratégia internacional da extrema-direita para deslegitimar o
conhecimento acadêmico independente.
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Intimidação e perseguição sistemática
Governos
e movimentos de extrema-direita promovem sistematicamente a intimidação de
professores, pesquisadores e estudantes.
No
Brasil, durante o governo Bolsonaro, docentes foram perseguidos por suas
pesquisas, estudantes foram vigiados e denunciados, e o próprio debate
acadêmico ficou comprometido pelo clima de medo.
Essa
estratégia de intimidação é comum a todos os movimentos de extrema-direita:
criar um ambiente de medo que iniba a produção acadêmica crítica e o debate
plural.
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O utilitarismo autoritário
A
extrema-direita promove uma visão estreitamente utilitária da educação
superior, defendendo que as universidades devem se concentrar exclusivamente em
programas “práticos” voltados aos interesses do mercado.
Essa
perspectiva ignora o papel fundamental das universidades na produção de
conhecimento básico, na formação de pensadores críticos e na preservação
cultural.
Mais
importante: essa visão serve aos interesses autoritários, pois universidades
focadas apenas na formação técnica são menos propensas a questionar o poder
político. E econômico
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A resistência democrática
A
defesa das universidades é, fundamentalmente, a defesa da democracia.
Universidades livres e autônomas são incompatíveis com projetos autoritários,
razão pela qual a extrema-direita as ataca sistematicamente.
É
fundamental que a sociedade brasileira compreenda que os ataques às
universidades não são uma questão setorial, mas parte de um projeto político
mais amplo de enfraquecimento das instituições democráticas.
A
experiência internacional mostra que países onde a extrema-direita conseguiu
subordinar as universidades aos seus interesses políticos experimentaram um
rápido processo de deterioração democrática.
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Em defesa das universidades e do futuro
O
momento exige que todos os setores democráticos da sociedade se mobilizem em
defesa das universidades públicas. Não se trata de defender privilégios
corporativos, mas de proteger instituições fundamentais para a manutenção da
democracia.
A
autonomia universitária não é um luxo acadêmico, mas uma necessidade
democrática. Quando a extrema-direita ataca as universidades, está atacando a
própria capacidade da sociedade de produzir conhecimento independente e formar
cidadãos críticos.
• Crescimento da extrema-direita ameaça o
nosso futuro comum, segundo Henrique Cortez
No
cenário político atual, é inegável o crescimento rápido e perigoso da
extrema-direita em diversas partes do mundo. Esse fenômeno não é apenas uma
repetição de padrões históricos, mas também uma reafirmação de uma agenda
intolerante e autoritária que remonta à década de 1930, período marcado pelo
surgimento de regimes fascistas na Europa.
A
extrema-direita, tanto no passado quanto no presente, é uma ideologia
fundamentada no ódio, na intolerância e na ausência de empatia para com aqueles
que pensam ou são diferentes. Sua agenda é explicitamente preconceituosa,
racista, homofóbica, misógina e religiosa, além de promover um nacionalismo
isolacionista e um desprezo pela educação, cultura e ciência.
Um dos
aspectos mais alarmantes desse movimento é a valorização da ignorância como se
fosse uma virtude. A extrema-direita ataca sistematicamente a educação e o
pensamento crítico, vendo neles uma ameaça ao seu projeto de poder.
Ao
desacreditar a ciência e a cultura, ela busca minar as bases do conhecimento e
da razão, substituindo-as por dogmas e narrativas simplistas que alimentam o
medo e o ódio. Esse desprezo pelo saber não é apenas uma estratégia política,
mas uma característica intrínseca de uma ideologia que se alimenta da
desinformação e do obscurantismo.
Outro
ponto em comum entre a extrema-direita do passado e a atual é o ódio às
instituições democráticas, em especial ao sistema de justiça e à imprensa
livre. A violência política, muitas vezes justificada como “ação direta”, é uma
tática recorrente para intimidar opositores e consolidar o poder, ecoando uma
tática comum em todos os regimes autoritários.
Agora,
a agenda de intolerância religiosa remete ao autoritarismo de Salazar, em
Portugal, e Franco, na Espanha, que também buscaram subjugar as instituições
democráticas e impor uma visão de mundo baseada em dogmas religiosos e
ideológicos.
Hoje,
vemos a extrema-direita atacando o estado laico e defendendo a imposição de
políticas públicas alinhadas a uma visão religiosa dominante, o que representa
um retrocesso civilizatório e uma ameaça à liberdade individual.
O
capitalismo selvagem, por sua vez, sempre encontrou aliados nos governos
autoritários da extrema-direita. No entanto, o que vemos hoje é um cenário
ainda mais preocupante: um pequeno grupo de bilionários não apenas apoia os
retrocessos propostos por esses movimentos, mas também impõe uma agenda de
desregulação e eliminação de limites éticos e legais à ação corporativa.
A
maximização dos lucros, sem qualquer consideração pelos direitos humanos ou
pela proteção ambiental, tornou-se o objetivo central. Recursos naturais são
explorados de forma predatória, sem respeito aos direitos territoriais ou aos
princípios básicos de sustentabilidade. A ameaça de guerras de conquista para a
apropriação de recursos é uma realidade cada vez mais presente, colocando em
risco a paz global e a sobrevivência do planeta.
No
entanto, apesar do crescimento alarmante da extrema-direita, é importante
ressaltar que esse fenômeno não é um destino inevitável.
A
história nos mostra que movimentos autoritários podem ser combatidos e
derrotados quando há união em torno de valores democráticos e humanistas.
A
defesa intransigente da democracia, dos direitos humanos, da justiça social e
da diversidade (racial, étnica, cultural, religiosa, sexual e gênero, …) é
essencial para enfrentar essa onda de intolerância. Além disso, é fundamental
basear nossas ações em evidências científicas, promovendo a proteção ambiental
e a saúde coletiva.
A luta
contra a extrema-direita não é apenas uma batalha política, mas também uma
defesa da humanidade e do planeta.
Enfrentar
essa ameaça exige coragem, resistência e um compromisso inabalável com os
princípios que garantem a dignidade e a liberdade de todos.
O
futuro não está escrito, e cabe a nós decidir se seremos espectadores passivos
do desastre que se aproxima ou atores determinados na construção de um mundo
mais justo, igualitário e sustentável.
• Cardeais, jornalistas e prelados: a rede
ultraconservadora que conspirava contra Bergoglio
Bem
antes de Donald Trump conquistar seu primeiro mandato e ser chamado à Casa
Branca, em 2014, Steve Bannon expôs sua visão de mundo – o “conflito sangrento”
necessário para preservar o Ocidente judaico-cristão, uma mistura de
desconfiança e admiração pela "cleptocracia" de Putin, a sintonia com
os movimentos de direita europeus — tudo isso em uma longa videoconferência com
o Vaticano. A ocasião era um encontro promovido pelo Instituto Dignitatis
Humanae, um think tank católico ultraconservador com conexões no Estado
pontifício, e marcava a aurora de uma atenção quase obsessiva no mundo
trumpiano pelo Palácio Apostólico.
Pois
uma bênção papal teria consagrado o projeto dos soberanismo estadunidense, mas
a presença de Francisco no trono de Pedro, na época, e de Leão XIV, hoje,
representa um obstáculo incontornável. E assim, ao longo dos anos, Bannon e
comparsas se empenharam em dirigir a Roma zombarias, críticas e ameaças, que
reapareceram inclusive do turbilhão dos arquivos Epstein.
Durante
o primeiro mandato de Trump, Bannon podia contar com três homens na Itália.
Havia Thomas Williams, correspondente em Roma na época do Breitbart News, o
site de notícias estadunidense de extrema-direita que serviu de trampolim para
a entrada de Bannon na política. Havia também o Cardeal Raymond Leo Burke,
líder da oposição curial a Francisco, que mais tarde rompeu com Bannon quando
este começou a considerar a produção, com a ajuda de Epstein, de um filme sobre
"Sodoma", o livro investigativo do escritor francês Frédéric Martel
sobre a generalizada homossexualidade encoberta existente no Vaticano (Burke
aparecia nas páginas do livro).
O
próprio Martel explicou recentemente ao Religion News Service que nunca aceitou
a proposta de Bannon e que não teve nenhum contato com Epstein. Por fim, em
Roma, havia Benjamin Harnwell que, como chefe do Instituto Dignitatis Humanae,
promoveu a tentativa de Bannon de se apoderar da Cartuxa de Trisulti, em
Ciociaria, para transformá-la em uma escola para soberanistas. O caso se
arrasta até hoje, já que o Ministério do Patrimônio Cultural primeiro concedeu
o mosteiro a Harnwell, mas depois revogou a concessão por supostas declarações
fraudulentas. Contudo, o homem de Bannon, nesse ínterim, foi absolvido dessas
acusações e agora voltou novamente à com tudo recorrendo ao Tribunal
Administrativo Regional do Lácio.
Steve
Bannon certamente tinha como alvo o Papa Francisco, seus apelos em defesa dos
migrantes e suas aberturas ao Islã e à China. Foi naqueles anos — conforme
relatado pelo site source-material.org — que ele aconselhou Matteo Salvini a
"atacar" Francisco como uma tática infalível para vencer as eleições.
Para ilustrar a alta tensão entre os Estados Unidos e o Vaticano, durante
aqueles mesmos anos, o então núncio apostólico nos Estados Unidos, D. Carlo
Maria Viganò, acusou Bergoglio de ter acobertado as denúncias de abusos sexuais
de menores realizados pelo Cardeal Theodore McCarrick, acusações posteriormente
desmentidas por um detalhado relatório publicado pelo Vaticano em 2020. Agora
que Francisco não está mais entre nós, a atenção de Bannon pelo Vaticano não
diminuiu. Enquanto outros membros da galaxia trumpiana, a começar por JD Vance
e Marco Rubio, tentam entretecer relações cordiais com o Pontífice nascido em
Chicago, Bannon definiu Leão XIV como "papa anti-Trump", a "pior
escolha para os católicos MAGA", o Pontífice que "Bergoglio e sua
camarilha queriam". Prevost, por sua vez, já deixou claro que este ano,
contrariamente às expectativas, não visitará os Estados Unidos.
• O que muda nas nossas análises com a
extrema-direita? Por Jung Mo Sung
Com o
segundo mandato de Trump e esse avanço da extrema-direita em várias partes do
mundo, vale a pena pensarmos o uso desse conceito “extrema-direita”. Após a
derrocada do bloco comunista, muitos ideólogos do bloco ocidental pensaram que
com a vitória, para uns a vitória final do capitalismo, não faria mais sentido
usar o conceito de “esquerda e direita”. Afinal, não haveria mais alternativa.
Entretanto,
Norberto Bobbio, um pensador liberal, publicou um texto que se tornou clássico,
Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política (Ed. Unesp,
1995). Após afirmar que “não houve apenas esquerda comunista, houve também, e
há ainda, uma esquerda no interior do horizonte capitalista” (p. 10), ele disse
que ser esquerda é ser uma pessoa ou movimento “cujo empenho político seja
movido por um profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as
iniquidades das sociedades contemporâneas” (p. 24). E, para ele, a direita é
aquele setor da sociedade que “considera que as desigualdades entre os homens
são não apenas inelináveis (ou são elimináveis apenas com o sufocamento da
liberdade) como são também úteis, na medida em que promovem a incessante luta
pelo melhoramento da sociedade" (p. 20).
É nessa
diferenciação ético-filosófico-política que Bobbio recuperou essa diferenciação
entre a esquerda e a direita. Esta diferença trabalha com uma metáfora de linha
em que teríamos um centro, a esquerda e a direita; razão pela qual se fala
também de centro-esquerda e o centro-direita; e, por fim, a extrema-esquerda e
a extrema-direita.
Uma
alternativa a essa estrutura de classificação de esquerda e direita poderia
ser, como foi muito usado também no passado, a diferença entre os progressistas
e conservadores. Para uns, a noção de progresso (sem separar o progresso
tecnológico e as mudanças sociais) seria um caminho do melhoramento da
sociedade e civilização; enquanto que conservadores, reconhecendo a importância
da evolução tecnológica, defendem valores sociais e morais tradicionais. O
problema da defesa da noção de “progresso” e dos progressistas é que há
progressos tecnológicos e mudanças sociais modernas que desumanizam e ferem os
direitos dos que não conseguem acompanhar o ritmo do progresso. Isto é, não
temos claro que classificação é o mais apropriado para o nosso tempo.
Assim,
mantendo a questão da justiça social como o critério de discernimento, voltemos
ao tema da esquerda/direita e extrema-direita. A pergunta é: a diferença entre
a direita e a extrema-direita é só uma questão “quantitativa”, isto é, um
movimento à direção da ponta extrema dentro da mesma linha, ou se há uma
mudança “qualitativa” que mostra que a extrema-direita está fora desta linha
esquerda/direita, que vem do mundo moderno.
Como
disse Bobbio, a “tradicional direita” defendia os seus valores e suas propostas
políticas afirmando que eles promovem melhor “a incessante luta pelo
melhoramento da sociedade”. Nessa noção de melhoramento da sociedade todos
seres humanos eram reconhecidos como iguais, pelos menos diante da lei. Com a
declaração da ONU sobre os direitos humanos universais e o aumento do consenso
internacional em torno dessa declaração, ocorreu um deslocamento dessa linha no
campo político: não somente os cidadãos de um determinado país seriam iguais
frente às leis desse país, mas os direitos humanos passaram a ser direitos de
todas pessoas. Por exemplo, mesmo que a legislação de um determinado país não
reconhecesse os direitos de pessoas homossexuais de formarem uma família,
muitos movimentos sociais defenderam e até exigiram mudanças legais em nome dos
direitos humanos. Ou então, defender o direito de viver dos pobres, os que não
são consumidores e, portanto, sem direito de comprar os bens no mercado, de
viver e, por isso, pedir/exigir programas sociais.
Essa
nova e forte aliança entre
a) os
neoliberais, que defendem o mercado livre (livre de intervenções do Estado com
seus programas sociais),
b) os
“conservadores” (os que, em nome da religião ou da tradição moral, são contra
mudanças que geram igualdade de todos seres humanos) e
c)
autoritários ou neofascistas (que são contra a democracia, isto é, igualdade de
todos no campo social e político) mudou ou está mudando o tabuleiro onde se
jogam as relações de poder no mundo. E o “manual” de como jogar nesse tabuleiro
não pode ser o antigo, seja o da teoria de classes, seja o de identidade
(gênero, raça, sexualidade, etnia...) que foi sendo gestado nos últimos
decênios.
A
extrema-direita não admite a existência dos direitos humanos, nega civilidade
nos debates políticos ou nas redes sociais, assim como inverte os ensinamentos
fundamentais nos livros sagrados (por ex., Bíblia ou Sutra de Buda). Assim, eu
penso que devemos reconhecer que, com a extrema-direita, o jogo mudou, pois há
uma diferença fundamental entre a direita tradicional e a extrema-direita. Isso
complexifica as nossas análises e lutas.
Fonte:
EcoDebate/La Repubblica

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