sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Henrique Cortez: A extrema-direita odeia universidades e conhecimento científico

O ataque às universidades não é casual nem espontâneo. Faz parte de um projeto político deliberado da extrema-direita internacional, que identifica nas instituições acadêmicas um obstáculo aos seus projetos autoritários.

Universidades produzem conhecimento baseado em evidências, formam pensadores críticos e servem como espaços de debate plural – tudo isso incompatível com o discurso populista e autoritário que caracteriza esses movimentos.

Na Hungria, Orbán fechou a Universidade Centro Europeia e restringiu drasticamente os estudos de gênero. Nos Estados Unidos, governadores republicanos de extrema-direita têm promovido leis que proíbem discussões sobre diversidade racial nas universidades públicas.

No Brasil, durante o governo Bolsonaro, vimos cortes brutais no orçamento das universidades federais, ataques diretos à autonomia universitária e a perseguição sistemática a pesquisadores.

<><> O cerco financeiro como arma política

Os cortes orçamentários promovidos por governos de extrema-direita não são medidas de austeridade, mas instrumentos de controle político.

O congelamento de recursos e a ameaça constante de cortes são utilizados para forçar universidades a adequarem suas práticas a agendas políticas específicas.

Quando a extrema-direita condiciona o financiamento da pesquisa científica ao alinhamento ideológico, está atacando a essência da produção acadêmica independente.

<><> A demonização do conhecimento científico

Partidos de extrema-direita promovem sistematicamente a desconfiança na ciência e na expertise acadêmica. Seja negando as mudanças climáticas, questionando a eficácia de vacinas ou atacando pesquisas sobre desigualdades sociais, esses movimentos constroem uma narrativa anti-intelectual que visa deslegitimar qualquer conhecimento que contradiga suas pautas políticas.

No Brasil, vimos isso claramente durante a pandemia, quando a extrema-direita atacou sistematicamente as universidades que produziam pesquisas sobre a Covid-19, os institutos que defendiam medidas sanitárias e os cientistas que contradiziam o negacionismo oficial.

<><> O controle curricular e a censura acadêmica

A extrema-direita mundial tem promovido tentativas sistemáticas de controlar o que se ensina nas universidades. Nos Estados Unidos, legisladores republicanos têm aprovado leis que proíbem discussões sobre racismo estrutural. Na Polônia, o governo de extrema-direita restringiu os estudos de gênero.

No Brasil, projetos como o “Escola sem Partido” visavam censurar debates sobre diversidade e direitos humanos.

Essa interferência direta no currículo acadêmico representa uma violação fundamental da autonomia universitária e um ataque direto à liberdade de cátedra.

<><> A narrativa do “marxismo cultural”

Políticos de extrema-direita em todo o mundo utilizam o mesmo discurso para atacar as universidades: a teoria conspiratória do “marxismo cultural” ou “doutrinação esquerdista”.

Essa narrativa, que retrata as universidades como centros de propaganda ideológica, serve para justificar ataques à autonomia acadêmica e à liberdade de pesquisa.

No Brasil, essa retórica foi amplamente utilizada durante o governo Bolsonaro, que chegou a propor a filmagem de aulas universitárias para “combater a doutrinação”.

Trata-se de uma estratégia internacional da extrema-direita para deslegitimar o conhecimento acadêmico independente.

<><> Intimidação e perseguição sistemática

Governos e movimentos de extrema-direita promovem sistematicamente a intimidação de professores, pesquisadores e estudantes.

No Brasil, durante o governo Bolsonaro, docentes foram perseguidos por suas pesquisas, estudantes foram vigiados e denunciados, e o próprio debate acadêmico ficou comprometido pelo clima de medo.

Essa estratégia de intimidação é comum a todos os movimentos de extrema-direita: criar um ambiente de medo que iniba a produção acadêmica crítica e o debate plural.

<><> O utilitarismo autoritário

A extrema-direita promove uma visão estreitamente utilitária da educação superior, defendendo que as universidades devem se concentrar exclusivamente em programas “práticos” voltados aos interesses do mercado.

Essa perspectiva ignora o papel fundamental das universidades na produção de conhecimento básico, na formação de pensadores críticos e na preservação cultural.

Mais importante: essa visão serve aos interesses autoritários, pois universidades focadas apenas na formação técnica são menos propensas a questionar o poder político. E econômico

<><> A resistência democrática

A defesa das universidades é, fundamentalmente, a defesa da democracia. Universidades livres e autônomas são incompatíveis com projetos autoritários, razão pela qual a extrema-direita as ataca sistematicamente.

É fundamental que a sociedade brasileira compreenda que os ataques às universidades não são uma questão setorial, mas parte de um projeto político mais amplo de enfraquecimento das instituições democráticas.

A experiência internacional mostra que países onde a extrema-direita conseguiu subordinar as universidades aos seus interesses políticos experimentaram um rápido processo de deterioração democrática.

<><> Em defesa das universidades e do futuro

O momento exige que todos os setores democráticos da sociedade se mobilizem em defesa das universidades públicas. Não se trata de defender privilégios corporativos, mas de proteger instituições fundamentais para a manutenção da democracia.

A autonomia universitária não é um luxo acadêmico, mas uma necessidade democrática. Quando a extrema-direita ataca as universidades, está atacando a própria capacidade da sociedade de produzir conhecimento independente e formar cidadãos críticos.

•        Crescimento da extrema-direita ameaça o nosso futuro comum, segundo Henrique Cortez

No cenário político atual, é inegável o crescimento rápido e perigoso da extrema-direita em diversas partes do mundo. Esse fenômeno não é apenas uma repetição de padrões históricos, mas também uma reafirmação de uma agenda intolerante e autoritária que remonta à década de 1930, período marcado pelo surgimento de regimes fascistas na Europa.

A extrema-direita, tanto no passado quanto no presente, é uma ideologia fundamentada no ódio, na intolerância e na ausência de empatia para com aqueles que pensam ou são diferentes. Sua agenda é explicitamente preconceituosa, racista, homofóbica, misógina e religiosa, além de promover um nacionalismo isolacionista e um desprezo pela educação, cultura e ciência.

Um dos aspectos mais alarmantes desse movimento é a valorização da ignorância como se fosse uma virtude. A extrema-direita ataca sistematicamente a educação e o pensamento crítico, vendo neles uma ameaça ao seu projeto de poder.

Ao desacreditar a ciência e a cultura, ela busca minar as bases do conhecimento e da razão, substituindo-as por dogmas e narrativas simplistas que alimentam o medo e o ódio. Esse desprezo pelo saber não é apenas uma estratégia política, mas uma característica intrínseca de uma ideologia que se alimenta da desinformação e do obscurantismo.

Outro ponto em comum entre a extrema-direita do passado e a atual é o ódio às instituições democráticas, em especial ao sistema de justiça e à imprensa livre. A violência política, muitas vezes justificada como “ação direta”, é uma tática recorrente para intimidar opositores e consolidar o poder, ecoando uma tática comum em todos os regimes autoritários.

Agora, a agenda de intolerância religiosa remete ao autoritarismo de Salazar, em Portugal, e Franco, na Espanha, que também buscaram subjugar as instituições democráticas e impor uma visão de mundo baseada em dogmas religiosos e ideológicos.

Hoje, vemos a extrema-direita atacando o estado laico e defendendo a imposição de políticas públicas alinhadas a uma visão religiosa dominante, o que representa um retrocesso civilizatório e uma ameaça à liberdade individual.

O capitalismo selvagem, por sua vez, sempre encontrou aliados nos governos autoritários da extrema-direita. No entanto, o que vemos hoje é um cenário ainda mais preocupante: um pequeno grupo de bilionários não apenas apoia os retrocessos propostos por esses movimentos, mas também impõe uma agenda de desregulação e eliminação de limites éticos e legais à ação corporativa.

A maximização dos lucros, sem qualquer consideração pelos direitos humanos ou pela proteção ambiental, tornou-se o objetivo central. Recursos naturais são explorados de forma predatória, sem respeito aos direitos territoriais ou aos princípios básicos de sustentabilidade. A ameaça de guerras de conquista para a apropriação de recursos é uma realidade cada vez mais presente, colocando em risco a paz global e a sobrevivência do planeta.

No entanto, apesar do crescimento alarmante da extrema-direita, é importante ressaltar que esse fenômeno não é um destino inevitável.

A história nos mostra que movimentos autoritários podem ser combatidos e derrotados quando há união em torno de valores democráticos e humanistas.

A defesa intransigente da democracia, dos direitos humanos, da justiça social e da diversidade (racial, étnica, cultural, religiosa, sexual e gênero, …) é essencial para enfrentar essa onda de intolerância. Além disso, é fundamental basear nossas ações em evidências científicas, promovendo a proteção ambiental e a saúde coletiva.

A luta contra a extrema-direita não é apenas uma batalha política, mas também uma defesa da humanidade e do planeta.

Enfrentar essa ameaça exige coragem, resistência e um compromisso inabalável com os princípios que garantem a dignidade e a liberdade de todos.

O futuro não está escrito, e cabe a nós decidir se seremos espectadores passivos do desastre que se aproxima ou atores determinados na construção de um mundo mais justo, igualitário e sustentável.

•        Cardeais, jornalistas e prelados: a rede ultraconservadora que conspirava contra Bergoglio

Bem antes de Donald Trump conquistar seu primeiro mandato e ser chamado à Casa Branca, em 2014, Steve Bannon expôs sua visão de mundo – o “conflito sangrento” necessário para preservar o Ocidente judaico-cristão, uma mistura de desconfiança e admiração pela "cleptocracia" de Putin, a sintonia com os movimentos de direita europeus — tudo isso em uma longa videoconferência com o Vaticano. A ocasião era um encontro promovido pelo Instituto Dignitatis Humanae, um think tank católico ultraconservador com conexões no Estado pontifício, e marcava a aurora de uma atenção quase obsessiva no mundo trumpiano pelo Palácio Apostólico.

Pois uma bênção papal teria consagrado o projeto dos soberanismo estadunidense, mas a presença de Francisco no trono de Pedro, na época, e de Leão XIV, hoje, representa um obstáculo incontornável. E assim, ao longo dos anos, Bannon e comparsas se empenharam em dirigir a Roma zombarias, críticas e ameaças, que reapareceram inclusive do turbilhão dos arquivos Epstein.

Durante o primeiro mandato de Trump, Bannon podia contar com três homens na Itália. Havia Thomas Williams, correspondente em Roma na época do Breitbart News, o site de notícias estadunidense de extrema-direita que serviu de trampolim para a entrada de Bannon na política. Havia também o Cardeal Raymond Leo Burke, líder da oposição curial a Francisco, que mais tarde rompeu com Bannon quando este começou a considerar a produção, com a ajuda de Epstein, de um filme sobre "Sodoma", o livro investigativo do escritor francês Frédéric Martel sobre a generalizada homossexualidade encoberta existente no Vaticano (Burke aparecia nas páginas do livro).

O próprio Martel explicou recentemente ao Religion News Service que nunca aceitou a proposta de Bannon e que não teve nenhum contato com Epstein. Por fim, em Roma, havia Benjamin Harnwell que, como chefe do Instituto Dignitatis Humanae, promoveu a tentativa de Bannon de se apoderar da Cartuxa de Trisulti, em Ciociaria, para transformá-la em uma escola para soberanistas. O caso se arrasta até hoje, já que o Ministério do Patrimônio Cultural primeiro concedeu o mosteiro a Harnwell, mas depois revogou a concessão por supostas declarações fraudulentas. Contudo, o homem de Bannon, nesse ínterim, foi absolvido dessas acusações e agora voltou novamente à com tudo recorrendo ao Tribunal Administrativo Regional do Lácio.

Steve Bannon certamente tinha como alvo o Papa Francisco, seus apelos em defesa dos migrantes e suas aberturas ao Islã e à China. Foi naqueles anos — conforme relatado pelo site source-material.org — que ele aconselhou Matteo Salvini a "atacar" Francisco como uma tática infalível para vencer as eleições. Para ilustrar a alta tensão entre os Estados Unidos e o Vaticano, durante aqueles mesmos anos, o então núncio apostólico nos Estados Unidos, D. Carlo Maria Viganò, acusou Bergoglio de ter acobertado as denúncias de abusos sexuais de menores realizados pelo Cardeal Theodore McCarrick, acusações posteriormente desmentidas por um detalhado relatório publicado pelo Vaticano em 2020. Agora que Francisco não está mais entre nós, a atenção de Bannon pelo Vaticano não diminuiu. Enquanto outros membros da galaxia trumpiana, a começar por JD Vance e Marco Rubio, tentam entretecer relações cordiais com o Pontífice nascido em Chicago, Bannon definiu Leão XIV como "papa anti-Trump", a "pior escolha para os católicos MAGA", o Pontífice que "Bergoglio e sua camarilha queriam". Prevost, por sua vez, já deixou claro que este ano, contrariamente às expectativas, não visitará os Estados Unidos.

•        O que muda nas nossas análises com a extrema-direita? Por Jung Mo Sung

Com o segundo mandato de Trump e esse avanço da extrema-direita em várias partes do mundo, vale a pena pensarmos o uso desse conceito “extrema-direita”. Após a derrocada do bloco comunista, muitos ideólogos do bloco ocidental pensaram que com a vitória, para uns a vitória final do capitalismo, não faria mais sentido usar o conceito de “esquerda e direita”. Afinal, não haveria mais alternativa.

Entretanto, Norberto Bobbio, um pensador liberal, publicou um texto que se tornou clássico, Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política (Ed. Unesp, 1995). Após afirmar que “não houve apenas esquerda comunista, houve também, e há ainda, uma esquerda no interior do horizonte capitalista” (p. 10), ele disse que ser esquerda é ser uma pessoa ou movimento “cujo empenho político seja movido por um profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniquidades das sociedades contemporâneas” (p. 24). E, para ele, a direita é aquele setor da sociedade que “considera que as desigualdades entre os homens são não apenas inelináveis (ou são elimináveis apenas com o sufocamento da liberdade) como são também úteis, na medida em que promovem a incessante luta pelo melhoramento da sociedade" (p. 20).

É nessa diferenciação ético-filosófico-política que Bobbio recuperou essa diferenciação entre a esquerda e a direita. Esta diferença trabalha com uma metáfora de linha em que teríamos um centro, a esquerda e a direita; razão pela qual se fala também de centro-esquerda e o centro-direita; e, por fim, a extrema-esquerda e a extrema-direita.

Uma alternativa a essa estrutura de classificação de esquerda e direita poderia ser, como foi muito usado também no passado, a diferença entre os progressistas e conservadores. Para uns, a noção de progresso (sem separar o progresso tecnológico e as mudanças sociais) seria um caminho do melhoramento da sociedade e civilização; enquanto que conservadores, reconhecendo a importância da evolução tecnológica, defendem valores sociais e morais tradicionais. O problema da defesa da noção de “progresso” e dos progressistas é que há progressos tecnológicos e mudanças sociais modernas que desumanizam e ferem os direitos dos que não conseguem acompanhar o ritmo do progresso. Isto é, não temos claro que classificação é o mais apropriado para o nosso tempo.

Assim, mantendo a questão da justiça social como o critério de discernimento, voltemos ao tema da esquerda/direita e extrema-direita. A pergunta é: a diferença entre a direita e a extrema-direita é só uma questão “quantitativa”, isto é, um movimento à direção da ponta extrema dentro da mesma linha, ou se há uma mudança “qualitativa” que mostra que a extrema-direita está fora desta linha esquerda/direita, que vem do mundo moderno.

Como disse Bobbio, a “tradicional direita” defendia os seus valores e suas propostas políticas afirmando que eles promovem melhor “a incessante luta pelo melhoramento da sociedade”. Nessa noção de melhoramento da sociedade todos seres humanos eram reconhecidos como iguais, pelos menos diante da lei. Com a declaração da ONU sobre os direitos humanos universais e o aumento do consenso internacional em torno dessa declaração, ocorreu um deslocamento dessa linha no campo político: não somente os cidadãos de um determinado país seriam iguais frente às leis desse país, mas os direitos humanos passaram a ser direitos de todas pessoas. Por exemplo, mesmo que a legislação de um determinado país não reconhecesse os direitos de pessoas homossexuais de formarem uma família, muitos movimentos sociais defenderam e até exigiram mudanças legais em nome dos direitos humanos. Ou então, defender o direito de viver dos pobres, os que não são consumidores e, portanto, sem direito de comprar os bens no mercado, de viver e, por isso, pedir/exigir programas sociais.

Essa nova e forte aliança entre

a) os neoliberais, que defendem o mercado livre (livre de intervenções do Estado com seus programas sociais),

b) os “conservadores” (os que, em nome da religião ou da tradição moral, são contra mudanças que geram igualdade de todos seres humanos) e

c) autoritários ou neofascistas (que são contra a democracia, isto é, igualdade de todos no campo social e político) mudou ou está mudando o tabuleiro onde se jogam as relações de poder no mundo. E o “manual” de como jogar nesse tabuleiro não pode ser o antigo, seja o da teoria de classes, seja o de identidade (gênero, raça, sexualidade, etnia...) que foi sendo gestado nos últimos decênios.

A extrema-direita não admite a existência dos direitos humanos, nega civilidade nos debates políticos ou nas redes sociais, assim como inverte os ensinamentos fundamentais nos livros sagrados (por ex., Bíblia ou Sutra de Buda). Assim, eu penso que devemos reconhecer que, com a extrema-direita, o jogo mudou, pois há uma diferença fundamental entre a direita tradicional e a extrema-direita. Isso complexifica as nossas análises e lutas.

 

Fonte: EcoDebate/La Repubblica

 

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