Limite
de idade nas redes sociais divide governo alemão
O apoio
do chanceler federal alemão, Friedrich Merz, aos crescentes apelos europeus por
controles sobre o acesso de crianças às redes sociais abriu uma rara disputa
interna no governo entre a União Democrata Cristã (CDU), de Merz, e seu partido
irmão, a União Social Cristã (CSU).
Neste
sábado, a CDU aprovou uma resolução em que defende a proibição de acesso a
plataformas como o Instagram e o TikTok para menores de 14 anos. Na ocasião,
Merz afirmou ser cauteloso com proibições, mas disse estar convencido da
necessidade devido ao dano causado pela disseminação de desinformação e outras
formas de manipulação online.
"Queremos
permitir que notícias falsas geradas artificialmente, fake news, vídeos
manipulados e distorções sejam difundidos pelas redes sociais?", disse ele
em um discurso antes do congresso. "Queremos permitir que nossa sociedade
seja minada dessa forma, interna e externamente, e que nossos jovens e crianças
sejam colocados em risco dessa maneira?", completou. Ele lembrou que
adolescentes de 14 anos passam, em média, cinco horas e meia por dia online.
Um
número crescente de países europeus, incluindo Espanha, Grécia, França e Reino
Unido, está analisando proibições ou restrições semelhantes, seguindo o exemplo
da Austrália, que no ano passado se tornou o primeiro país do mundo a obrigar
plataformas a cortar o acesso de crianças.
"Dois
anos atrás, eu provavelmente teria dito algo diferente sobre esse tema, mas
subestimei completamente, como provavelmente todos nós, a importância dos
algoritmos, da inteligência artificial e da influência direcionada e
controlada. Internamente, e também, e especialmente, externamente",
afirmou o chanceler federal.
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Debate cresce na Alemanha
O apoio
de Merz torna cada vez mais provável que o governo federal avance com propostas
de restrição, proposta apoiada pela maioria dos alemães. No entanto, pelo
sistema federal alemão, a regulação da mídia é responsabilidade dos estados,
que precisam negociar entre si para estabelecer regras uniformes em todo o
país.
O
debate sobre os potenciais efeitos negativos das redes sociais sobre crianças
tem crescido na Alemanha, e o governo nomeou no ano passado uma comissão
especial para estudar formas de proteger jovens de danos online. O relatório
dessa comissão deve ser apresentado ainda este ano.
A
medida é apoiada também pelo Partido Social-Democrata (SPD), que compõe a
coalizão governista e apresentou um documento com propostas para o
estabelecimento de "limites de idade claros e mecanismos de proteção
eficazes". A sigla defende a proibição imediata para menores de 14 anos.
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CSU rejeita proibição
No
entanto, a CSU, sediada na Baviera, posicionou-se contra a criação de um limite
mínimo de idade para o uso de plataformas. "Esse debate sobre proibições
está desconectado da realidade", afirmou neste domingo o deputado da CSU
Alexander Hoffmann.
Em
entrevista ao jornal Augsburger Allgemeine, Hoffmann disse que proibições não
ensinam crianças e adolescentes a usarem redes sociais de forma adequada.
Segundo ele, é essencial fortalecer a educação midiática em paralelo com uma
proteção mais eficaz contra conteúdos prejudiciais aos jovens.
Para
isso, afirmou Hoffmann, os políticos deveriam responsabilizar as plataformas,
em vez de privar crianças e adolescentes da oportunidade de desenvolver
habilidades digitais por meio de proibições generalizadas.
Merz,
porém, rejeita os argumentos de que, em vez de controles, os jovens deveriam
ser introduzidos às redes sociais de forma gradual, dizendo que isso
equivaleria a defender que crianças de seis anos deveriam ser ensinadas a beber
álcool.
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Europa avança com medidas
Embora
nenhum país europeu tenha implementado plenamente uma proibição de redes
sociais para menores, a intenção que cresce no continente é clara. Em muitos
lugares, o processo já está em andamento. Noruega, Grécia, Reino Unido,
Dinamarca, Itália, Portugal, Espanha e Holanda estão entre os países que
discutem algum tipo de restrição.
A
presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também expressou apoio a
um limite de idade em toda a União Europeia (UE), nos moldes de uma nova lei
australiana que estabeleceu a idade mínima de 16 anos para o uso de redes
sociais.
Muitos
governos observam a experiência da Austrália, que, em dezembro de 2025,
introduziu a primeira proibição mundial de redes sociais para menores de 16
anos. Sites como Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok, X, YouTube e Reddit
agora estão sujeitos a restrições de idade.
A
comissária de Segurança Eletrônica da Austrália, Julie Inman Grant, informou
que as empresas de redes sociais "removeram o acesso a cerca de 4,7
milhões de contas identificadas como pertencentes a menores de 16 anos na
primeira metade de dezembro".
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O modelo australiano pode funcionar na Europa?
Stephan
Dreyer, do Instituto Leibniz de Pesquisa em Mídia, em Hamburgo, considera que a
Alemanha e a Europa não precisam desse tipo de proibição.
Para
Dreyer, a Lei de Serviços Digitais da UE, aprovada há um ano, já aborda muitas
preocupações de segurança e, pela forma como o direito europeu funciona,
obrigar as plataformas a aplicar uma proibição em países individuais seria
complicado. Embora existam mecanismos distintos para alcançar objetivos
semelhantes na Europa, ele considera que as evidências ainda não são
conclusivas.
"A
lição para a Europa é de cautela. A Austrália ilustra a distância entre o apelo
político de uma proibição contundente e as complexidades técnicas e jurídicas
envolvidas em sua implementação. Verificar a idade em larga escala exige uma
infraestrutura de controle abrangente ou sistemas probabilísticos de
perfilamento e ambos representam interferências profundas nos direitos de todos
os usuários. A Europa, com marcos mais robustos de direitos fundamentais e o
Regulamento Geral de Proteção de Dados, enfrentaria essas tensões de forma
ainda mais aguda. Devemos aprender com as dificuldades australianas e não nos
apressar em replicá-las", conclui.
Por
outro lado, estudos mostram que as várias horas que os jovens passam navegando
por conteúdo prejudicial alteram o desenvolvimento cognitivo das crianças, além
de causar ansiedade e outros problemas de saúde, dizem especialistas. Fatos
como esses levaram alguns governos europeus a agir.
"O
foco específico em menores de idade se deve ao risco aumentado de danos a longo
prazo, já que eles ainda estão em desenvolvimento cognitivo", disse Paul
O. Richter, pesquisador do think tank Bruegel, com sede em Bruxelas, à DW.
"Há muitas pesquisas que mostram fortes correlações entre o uso de redes
sociais e problemas de saúde mental."
Fonte:
Reuters

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