Dyepeson
Martins: Fim da escala 6x1 - pós-carnaval tem indústria aberta à proposta de
deputado petista
Após o
fim do carnaval, tumulto e barulho devem deixar as ruas e dominar a Câmara dos
Deputados com os debates sobre o fim da escala de trabalho 6×1. A Proposta de
Emenda à Constituição (PEC), que tramita na Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ), é uma junção de outras duas PECs: da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e
do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG).
Representantes
da Indústria e do Comércio são contra a mudança, mas, diante da falta de
alternativas, preferem se alinhar ao texto do petista por conta da
flexibilidade nas negociações, segundo fontes ouvidas pela Agência Pública no período de pré-carnaval. As duas propostas
tratam da redução na jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais. Porém, a
de Erika Hilton prevê o modelo 4×3 (4 dias seguidos de trabalho e 3 de
descanso), enquanto Reginaldo Lopes propõe a modalidade 5×2 (5 dias de trabalho
e 2 de descanso). O petista, que foi relator da reforma tributária, passou a
defender também uma redução mais amena nos bastidores: para 40 horas semanais.
Isso ajudou na proximidade com representantes do setor empresarial, além de ter
estreitado os laços com parlamentares do centro e direita, com quem se reúne
regularmente.
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Freio da indústria e do comércio enfrenta o corre-corre eleitoral
A
Confederação Nacional da Indústria (CNI) buscou maior interlocução com o
Congresso Nacional diante da pressa do parlamento em aprovar a PEC antes das
eleições. A redução na jornada de trabalho virou bandeira de campanha na
corrida do presidente Lula à reeleição, sobretudo após a matéria ganhar amplo
apoio popular, tanto online como nas ruas.
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Por que isso importa?
• Pesquisa de fevereiro deste ano aponta
que 73% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala de trabalho 6×1.
• Já entidades ligadas à indústria apontam
que uma jornada de 36 horas aumentaria os gastos com empregados formais na
economia com um todo em 20,7%.
Um
seminário sobre a agenda legislativa da indústria em 2026 reuniu empresários em
Brasília no último dia 3. Foram convidados para o evento parlamentares como a
senadora Tereza Cristina (PP-MS), a deputada Luísa Canziani (PSD-PR) e o
deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que foi um dos palestrantes. “Me chamaram e,
quando abriram para perguntas, todas eram sobre [a escala de trabalho] 6×1. E
defendi que eles são vanguarda, que nação tem que ter indústria, e que eles
deveriam puxar a redução para 5×2”, ressaltou Lopes. O deputado acrescentou
que, para acalmar os ânimos, pretende propor, entre outras questões, cursos
para pequenas empresas se adequarem às possíveis novas regras trabalhistas.
Há
conversas até mesmo com nomes da extrema-direita, a exemplo da deputada Júlia
Zanatta (PL-SC). Ela disse que ainda vai se aprofundar no texto, mas se mostrou
aberta a debater o tema se, de fato, a proposta final estabelecer 40 horas
semanais. “Do jeito que está não vou não [votar numa redução para 36 horas]”,
disse.
Na
terça-feira (11), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) declarou
ter a expectativa de votar a PEC até maio – mês simbólico por conta do Dia do
Trabalhador, comemorado no dia 1º. Um dia antes do recesso de Carnaval, os
poucos deputados que ainda não estavam em viagem para aproveitar o feriado
afirmavam que o texto seria aprovado de forma definitiva, ainda no primeiro
semestre deste ano. Vários deles, porém, concordavam nos bastidores que o lobby
empresarial estará mais presente no parlamento com o avanço da matéria. Mesmo com o apoio do presidente da Câmara ao
texto, o campo empresarial não vai aceitar com tanta facilidade a mudança na
legislação. Numa cartilha de mais de 30 páginas, a CNI defende a manutenção do
modelo 6×1 e a abertura para negociações entre empregados e empregadores, sem
regra fixa pré-estabelecida. “Em relação à economia, a PEC teria altíssimo
custo, na casa das centenas de bilhões para o Brasil, e poderia gerar
desemprego e baixa competitividade do país. Neste sentido, a estimativa da CNI
aponta um impacto de aumento de gastos com empregados formais na economia
brasileira de 20,7%”, diz um trecho do documento.
O
argumento deve embasar os discursos da oposição ao governo. Em contraponto às
PECs apresentadas pela base governista, deputados da direita e centro propõem
uma nova alternativa: a “PEC da Liberdade da Jornada”, protocolada por Maurício
Marcon (Podemos-RS). Ela estabelece uma flexibilização das relações
trabalhistas ao conceder ao trabalhador a oportunidade de negociar a quantidade
de horas trabalhadas com o patrão. “É
impossível que as pessoas trabalhem menos e ganhem mais sem ter consequência
nenhuma. No mundo real, se você pega o Brasil, metade da força de trabalho é
celetista [é regida pela CLT e tem carteira de trabalho assinada] e metade não.
Digamos que a gente proíba a pessoa de trabalhar na escala 6×1. Se ela quiser
trabalhar, o que ela vai fazer? Vai para o informal”, disse o deputado Gilson
Marques (NOVO- SC) em apoio à proposta da oposição.
As
propostas defendem que o trabalhador reduza o número de horas trabalhadas por
semana e continue com o mesmo salário e direitos trabalhistas previstos em lei.
• Consumidor rejeitará fim da escala 6x1
quando entender que vai pagar a conta, diz presidente da Abrasel
Um
governo oportunista, um Congresso refém de eleições e um empresariado omisso —
resultando em uma sociedade desinformada. As duras críticas são do empresário
Paulo Solmucci para a forma como vem sendo conduzido no Brasil o debate sobre o
fim da escala 6x1 — em que o funcionário trabalha seis dias na semana e tem
apenas um dia de descanso.
Solmucci
é presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e
empreendeu por mais de duas décadas com o grupo Solmucci, que administra
grandes bares, restaurantes e casas noturnas em Belo Horizonte. E — segundo ele
próprio — um dos poucos empresários que está disposto a "dar a cara à
tapa" em um debate que ganhou grande impulso nas redes sociais, virou uma
petição com quase 3 milhões de assinaturas e este ano pode resultar em mudanças
diretas na vida dos trabalhadores.
O
presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), já avisou que
o tema será uma das prioridades do Congresso neste ano. O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) disse no começo do mês que "nosso próximo
desafio é o fim da escala 6x1 de trabalho, sem redução de salário".
"O tempo é um dos bens mais preciosos para o ser humano. Não é justo que
uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o
corpo e a mente e curtir a família", disse Lula em mensagem ao Congresso.
Atualmente
dois Projetos de Emenda à Constituição estão avançando no Congresso. Apesar de
algumas diferenças, ambos propõem a redução da jornada de trabalho de 44 para
36 horas semanais sem redução salarial. Uma das propostas proíbe a escala 6x1 e
fixa como regra uma escala 4x3 — com três dias de descanso para cada quatro
trabalhados. Quem é a favor das mudanças diz que elas trariam bem-estar e
qualidade de vida a uma mão de obra hoje exausta, além de impactos econômicos
positivos e alinhamento a tendências mundiais.
Mas
Solmucci acredita que a sociedade ainda não está ciente dos custos econômicos
que uma mudança dessas traria. O principal problema das duas propostas, segundo
ele, é a redução da jornada dos trabalhadores com manutenção da mesma
remuneração. "Esse meu aumento de custo [do trabalho] de 20% implica em
repasse de preços de 7% a 8% para o consumidor final. A pergunta que fica para
o consumidor: ele está ciente disso? Ele concordaria com a redução da jornada
para pagar mais [pelo serviço ou produto]?", questiona. O empresário diz
não se posicionar contra o fim da escala 6x1, mas acredita que quando a
sociedade e pessoas responsáveis ("há muitas pessoas sérias no governo e
no Congresso") fizerem o debate com mais informações, elas não aprovarão
as mudanças trabalhistas na forma como elas estão propostas hoje.
Ele
acredita que as relações de trabalho podem ser melhoradas no Brasil com o
trabalho intermitente — modalidade criada na Reforma Trabalhista de 2017 que
permite que o empregado seja convocado apenas quando o empregador precisar, com
antecedência. Para Solmucci, a popularidade que o assunto ganhou nas redes faz
com que parlamentares e integrantes do governo não queiram se indispor com a
população em um ano de eleição nesse assunto.
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Confira abaixo trechos da entrevista à BBC News Brasil.
• Se houver uma mudança da escala 6x1 na
legislação nos moldes do que está sendo discutido no Congresso, como isso
afetaria o setor de bares e restaurantes?
Paulo
Solmucci - O mais importante é avaliar o que mudaria para o consumidor e para o
brasileiro em geral. O que falta no debate de hoje é isso. Ninguém, em tese,
seria contra trabalhar menos e ganhar a mesma coisa. Isso faz todo o sentido
sob o ponto de vista da proposta isolada. Mas, como tudo na vida, existe um
custo. Em um debate recente com o Ricardo Patah, presidente da UGT, a segunda
maior central sindical do Brasil, ele disse: "O empresário não tem que
reclamar, porque quem vai pagar essa conta é o cidadão". Concordo
plenamente com ele, ainda que o custo também seja do empresário, especialmente
do pequeno. Quem precisa conhecer melhor o custo é a sociedade. O que tenho
buscado levar ao debate é esta questão para o cidadão brasileiro — se ele conhece
o custo e se ele topa. Quando você olha para um restaurante, vamos supor que eu
pague R$ 1 mil por semana para um funcionário que trabalha seis dias. Vou
passar a pagar esses mesmos R$ 1 mil para essa mesma pessoa agora trabalhar
cinco dias. Para continuar ofertando o mesmo serviço todos os dias da semana,
vou precisar repor esta mão de obra, certamente por uma pessoa que ganhe pelo
menos igual ao outro — então, nós estamos falando em um custo de R$ 200. Esse
meu aumento de custo [do trabalho] de 20% implica em repasse de preços de 7% a
8% para o consumidor final. A pergunta que fica para o consumidor: ele está
ciente disso? Ele concordaria com a redução da jornada para pagar mais [pelo
serviço ou produto]?
Hoje, o
Brasil tem 5% de desemprego, uma situação de pleno emprego. O setor de bares e
restaurantes tem 500 mil vagas abertas. Os supermercados dizem ter 480 mil
vagas abertas. Na indústria, há dificuldades de se contratar. Com a mudança, eu
vou precisar de 20% a mais de mão de obra. Onde essa mão de obra está
disponível?
Como
não há mão de obra disponível e nem ganho de produtividade possível em
curtíssimo prazo, quem tiver dinheiro vai buscar essa mão de obra em algum
lugar. Os restaurantes, as farmácias, os hospitais nas regiões ricas vão buscar
nas regiões mais pobres, onde o poder aquisitivo é menor. O rico tem condições
de absorver melhor o preço. Vamos ter um colapso e uma queda abrupta na
qualidade de serviço das regiões mais pobres e dos pequenos negócios. O
consumidor dessas regiões está ciente disso? Quer isso? Você tem um potencial
de quebradeira de pequenas empresas, o que não é positivo. E acho que a
sociedade também não refletiu sobre isso. O país não tem como absorver um
aumento de custo deste tipo em um curto prazo, mesmo que seja dez anos.
• O senhor falou que o consumidor e os
empresários vão acabar pagando mais. Mas hoje, pela lei atual, não são os
trabalhadores que estão pagando o maior custo? Muitos trabalham em uma escala
6x1, ganham um salário mínimo, descansam apenas um dia por semana e passam
grande parte do dia se deslocando para o trabalho. Isso não deveria mudar?
Solmucci
- Pagar mais significa enriquecer. E você só enriquece com ganho de
produtividade. Nenhuma nação foi capaz de enriquecer e pagar melhor sem antes
promover ganhos de produtividade relevantes. A discussão que deveríamos estar
pautando como obsessão nacional é como ganhar produtividade para pagar mais,
melhor, e trabalhar menos. Não dá para fugir desta premissa, que é básica no
mundo inteiro. Outra questão importante é que hoje, no Brasil, 39% da mão de
obra é informal. Esse número vem crescendo nos últimos anos. No meu setor, é
41%. Se fosse possível "canetar" para resolver problemas, não
teríamos informalidade. Teríamos esses quase 40% dos brasileiros protegidos por
legislações, férias, décimo-terceiro e salários maiores. Mas o que vemos são
pessoas com dupla ou tripla jornada, trabalhando cinco dias em uma empresa por
oito horas e pegando serviço à noite e no final de semana. Temos que observar o
que precedeu o enriquecimento no mundo e o que acompanhou a redução da jornada
no mundo — foi sempre ganho de produtividade. Este assunto não é mencionado. O
Brasil não discute produtividade.
• Mas, nesse momento, o debate no
Congresso não é sobre a produtividade. É sobre jornada de trabalho — se deve
ser de 44, 40 ou 36 horas — e sobre as escalas — 6x1, 5x2 ou até mesmo 4x3. Na
sua visão, o que deveria ser feito em termos de legislação? Se o senhor pudesse
mudar a legislação, mudaria alguma coisa ou deixaria como está?
Solmucci
- Gosto do que disse o presidente Lula em dezembro e que parece que esqueceram
agora, dois meses depois. A eleição vai se aproximando, e a memória vai ficando
curta. Lula falou que esse não é um assunto para se resolver da noite para o
dia. Esse é um assunto para muito debate — para se conversar entre sindicatos
empresariais e patronais. Em janeiro, o Luiz Marinho [ministro do Trabalho]
disse frase semelhante. Na semana passada, o ministro Fernando Haddad [da
Fazenda] disse que não foi feita nenhuma conta ainda no governo e nem
levantadas as consequências de uma possível mudança desse tipo. Mas, na semana
passada o ministro Guilherme Boulos [da Secretaria-Geral da Presidência] disse
que é preciso tratar o assunto com urgência constitucional. Aí nós vemos um
problema muito grave. Ou o governo não está se entendendo ou ele mudou seu foco
de dezembro para cá. Nós tivemos uma conquista que foi afastar a urgência
constitucional do debate da proposta e caminhar na linha do que propôs Lula.
Acho que foi muito positivo. O presidente da Câmara, Hugo Motta, levou o
assunto à CCJ [Comissão de Constituição e Justiça], o que vai dar um tempo de
debate. Ele fala em acreditar que pode ser aprovada até em maio. No mínimo,
maio é muito melhor do que queria o Boulos, que falou em urgência
constitucional — com 45 dias na Câmara e 45 dias no Senado. É uma
irresponsabilidade tratar de um tema desse em dois turnos de 45 dias, sem um
amplo debate.
• Mas qual que é posição de vocês nesse
debate? Vocês já conhecem os termos que estão sendo propostos — reduzir jornada
de trabalho e alterar a escala. Na mesa de negociação, o que propõem?
Solmucci
- Gostaria que isso não fosse um debate acelerado — precipitado por questões de
eleição. Acompanhei a Reforma Trabalhista muito de perto, e contribuímos muito
para ela. Inclusive, passamos nela uma questão muito importante, o trabalho
intermitente, que tem potencial para ajudar na redução da jornada, porque ele
permite a contratação por hora. O que eu defendo é que a gente converse
bastante. E, se a gente eventualmente chegar à conclusão que temos condições de
fazer [a redução da jornada sem perda salarial], que façamos uma transição
cautelosa, lenta, como estamos fazendo na Reforma Tributária. Uma eventual
solução para a questão do custo seria, por exemplo, desonerar a folha, que é
uma defesa que Abrasel tem feito. O governo, há dois anos, fazia essa defesa de
desonerar a folha do valor equivalente ao primeiro salário mínimo. Isso poderia
equacionar a questão do custo. Mas, ainda assim, íamos enfrentar a questão da
disponibilidade da mão de obra.
• Hoje, vemos de um lado os empresários
reclamando da falta de mão de obra no mercado. Do outro, trabalhadores
reclamando das condições que estas vagas estão sendo oferecidas. Sabemos que
muita gente, principalmente os mais jovens, rejeita trabalhos pela CLT. Uma
legislação trabalhista como está se propondo, com o fim da escala 6x1 e com
mais direitos aos trabalhadores, não ajudaria a aumentar a atratividade dessas
vagas?
Solmucci
- O trabalho intermitente já permite trabalhar quantos dias você quiser e que
horas você quiser. No nosso setor, nos Estados Unidos, 53% da mão de obra
trabalha os dias e as horas que quiser. Já temos trabalho intermitente no
Brasil. Esse jovem, se ele quiser trabalhar um dia por semana ou cinco horas
por semana, já pode. Há oferta deste tipo de contratação no Brasil. O que não
há é mão de obra disponível. Não temos uma legislação que impeça o 5x2. Não
temos uma legislação que impeça 20 horas, 30 horas de trabalho. Talvez ainda
não tenhamos tido tempo de amadurecer e dar escala a este tipo de contratação
no Brasil, porque estava sub judice até dezembro de 2024.
[Nota
da redação: O trabalho intermitente foi aprovado na Reforma Trabalhista de
2017, mas foi discutido no Supremo Tribunal Federal (STF) até 2024. A
remuneração é feita apenas pelas horas efetivamente trabalhadas, sem
recebimento de salário-base durante os períodos em que não é realizado nenhum
trabalho. Os trabalhadores continuam com direitos como décimo-terceiro, férias
e FGTS proporcionais, além de outros benefícios. Três sindicatos trabalhistas
entraram com ações no STF contra o trabalho intermitente, dizendo que essa
modalidade precariza as relações de trabalho, criando instabilidade e
imprevisibilidade de renda para o trabalhador.
Em
dezembro de 2024, por maioria, o Plenário decidiu que ele é constitucional,
acatando o entendimento do relator Kassio Nunes Marques de que a modalidade
"não suprime direitos trabalhistas, nem fragiliza as relações de
emprego".]
O
McDonald's já está usando isso como piloto em várias lojas e tem metade da mão
de obra usando o trabalho intermitente, com a pessoa trabalhando quantos dias
quiser. Não temos problema de legislação. Temos problema de oferta de mão de
obra. Às vezes, esse jovem está trabalhando de motoqueiro 12 horas por dia. E
aí ele vai e deixa de trabalhar num restaurante 8 horas por dia. Hoje, a maior
disputa de mercado nossa [por mão de obra] é com os aplicativos, em que as
pessoas trabalham em 10, 12, 13 horas por dia.
• Mas, se o trabalho intermitente já está
começando a funcionar, a proibição da escala 6x1 teria algum impacto?
Solmucci
- Ninguém está conversando ainda sobre isso, porque é muito recente. Tem só um
ano que está pacificado. Você tem a Magalu usando bastante e o McDonald's
embarcando agora. Nesse ano de 2026, crescerá bastante o uso do trabalho
intermitente. E ele tem muito mais vantagem do que qualquer escala, porque você
pode escolher a escala que você quiser. É por isso que eu creio que o ministro
Marinho e o presidente Lula falaram que esse é um assunto para negociação. O
trabalho intermitente torna o 6x1 desnecessário. Ninguém é obrigado a pegar uma
jornada de 6x1. Se eu for hoje no restaurante falar que quero trabalhar de
forma intermitente três dias por semana, o restaurante prefere. Porque, se a
escala é grande, você está com muita gente em um dia que você não precisa e sem
gente em um dia que você precisa.
• Então, se houver essa mudança para
trabalho intermitente, o empresariado não teria nem que se preocupar com essa
mudança de escala de 6x1.
Solmucci
— Tem sim. Está se falando em implementar a escala 5x2 mantendo o valor que se
paga hoje. Você tem um aumento de custo de 20%.
• Tentamos conversar com empresários de
outros setores sobre a escala 6x1, e muitos não quiseram se posicionar. O
empresário brasileiro está com medo de combater o fim da escala 6x1— dada a
enorme popularidade do assunto?
Solmucci
— O empresário brasileiro sempre foi omisso. Em momento algum, o empresário
brasileiro pôs a cara para debate. Em todos os grandes debates brasileiros, o
empresário brasileiro gosta de debater em uma salinha fechada. Sou muito
crítico da posição do empresário brasileiro. O brasileiro não tem o hábito de
debater. Somos muito bons, ainda mais agora nas redes sociais, em expressar as
nossas ideias de maneira unilateral. Para você ter uma ideia, no debate que
tive com o Ricardo [Patah, da UGT], sabe que horas que fui convidado? O debate
era ao vivo às 21h30, recebi o convite às 19h. Por que você acha que fui
convidado só às 19h? Porque as outras pessoas pularam fora. É uma crítica dura
a uma categoria que a gente representa, mas é muito raro no Brasil você ter
empresário disposto a debater pauta deste tipo, porque também o radicalismo
está enorme. Falando agora do Congresso. No meio do ano passado, uma pesquisa
da Quest mostrou que o Congresso era majoritariamente contra. Agora, ele só
está contra por uma pequena margem. Por quê? Porque o parlamentar tem medo de
falar publicamente. Na minha opinião, e pelo meu sentimento, a maioria dos
congressistas não está confortável em fazer essa mudança. Mas tenho para mim
que, passado um mês ou dois de debate com maior transparência do custo, a
opinião do brasileiro também vai mudar. O apoio ainda pode continuar
majoritário, mas, na minha opinião, ele cairá de maneira relevante a partir do
momento que as pessoas se informarem melhor do custo que essa medida tem. Não estou
dizendo que é ruim nem que é bom, mas que o custo existe. E ele não está na
mesa para o cidadão debater e avaliar.
• Como o senhor avalia a condução do
debate, tanto pelo Congresso quanto pelo governo, na sua opinião?
Solmucci
— Oportunista.
• Governo e Congresso?
Solmucci
- O governo, oportunista. E o Congresso, refém da eleição. Em 2015 havia um
projeto do [Paulo] Paim [senador do PT]. Depois vieram projetos do Reginaldo
Lopes e da Erika Hilton [deputados federais pelo PT e PSOL respectivamente].
Nenhum esforço foi feito para pautar esse assunto de 2015 para cá, salvo neste
momento de eleição, em que a popularidade do assunto está grande. No caso do
governo, três autoridades do governo [Lula, Marinho e Haddad] disseram de
dezembro para cá que isso não é assunto para ser tratado da forma como está
sendo tratado. Agora, subitamente, a eleição vai chegando, e Lula falou que é
"guerra". A eleição transforma as pessoas. Que parlamentar vai ter
coragem, com pesquisas apontando que 70% dos brasileiros são a favor, de entrar
num debate desses? Não é fácil achar gente — nem político. Será que político
tem coragem de falar?
• O senhor disse que o governo está sendo
oportunista, o Congresso está refém das eleições e os empresários estão
omissos. Dentro desse cenário, seu lado pode acabar sendo derrotado nesse
debate?
Solmucci
- O meu lado não tem jeito de perder. O meu lado é o da informação ao cidadão.
• Mas o prognóstico hoje é de que é mais
provável que sejam aprovadas as mudanças na legislação.
Solmucci
- Na minha opinião, não. O que eu defendo é zerar a assimetria de informação
que tem hoje. A imprensa é fundamental neste momento, porque o que aconteceu
até agora foi a venda do benefício sem o custo. O que defendo — e estou
trabalhando intensamente — é que quem tem que tomar essa decisão de maneira
soberana, por meio da influência aos seus parlamentares, é o cidadão
brasileiro. E ele não pode tomar essa decisão com o nível de informação que ele
tem hoje. Teve uma rede de farmácias muito alardeada, porque resolveu fazer por
conta própria, no interior de São Paulo, uma redução de jornada para 5x2. Sabe
o que aconteceu? Metade das lojas fechou aos domingos, que antes abria, e a
outra metade reduziu o horário de atendimento. A minha pergunta é: cliente
gostou disso? E só para corrigir uma frase sua: não tem a menor chance de eu
sair perdedor neste momento, porque minha causa não é pela decisão. É pela
elucidação, pela clareza do cidadão brasileiro, da decisão e suas
consequências.
• Mas dado o ano eleitoral, a popularidade
do assunto entre eleitores e o posicionamento atual de todos — o governo, o
Congresso, os empresários — o senhor acredita que quando o debate for feito com
todas as informações, a medida não vai passar?
Solmucci
- Do jeito que está, na minha opinião, não passa. Apesar de tudo, há muita
gente séria e bem intencionada, tanto no governo quanto no parlamento, e sabe
que o Brasil não tem como absorver um choque de custo de salário. O Haddad é um
cara extremamente sério. O Lula é um cara extremamente sério. Agora, eu acho
que isso tudo tende a ser discurso de eleição. É preciso haver ajustes para se
enfrentar essas questões, como reduzir o impacto dos custos, deixar alguns
setores de fora ou criar um prazo de transição mais longo. O governo vai ter
dificuldade de lidar, por exemplo, com esse potencial risco de prestação de
serviços nas áreas mais pobres acabar. Na hora que a gente colocar tudo isso na
mesa e a sociedade tiver clareza dos custos, eu tenho para mim que este
discurso vai ser usado só até a eleição. O Parlamento e o próprio governo vão
ter juízo de não implementar isso do jeito que está.
Fonte:
Agencia Pública/BBC News Brasil

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