quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Frei Betto: Eleições 2026 e o contraste entre discursos - explorar o medo ou propor futuros?

As recentes campanhas eleitorais tornaram-se arenas sofisticadas de disputas simbólicas, emocionais e programáticas. Diferentes projetos políticos buscam legitimação junto ao eleitorado. Nesse contexto, observa-se uma diferença recorrente entre o modo como os partidos de direita e os progressistas estruturam suas mensagens e mobilizam o eleitorado.

Embora essa distinção não seja absoluta nem válida para todos os países ou períodos históricos, ajuda a compreender padrões frequentes de comunicação política e sobretudo as reações emocionais e racionais dos eleitores diante das diversas estratégias.

Partidos de direita, especialmente em momentos de crise econômica, social ou institucional, tendem a estruturar suas campanhas a partir da exacerbação do medo. O discurso costuma enfatizar ameaças reais ou imaginárias, como aumento da criminalidade, imigração descontrolada, perda de valores tradicionais (Deus, pátria e família), instabilidade econômica, corrupção sistêmica. A mensagem central sugere que algo precioso está em perigo, a ordem social encontra-se em risco e mudanças culturais, políticas, institucionais, podem desestruturar o modo de vida do eleitor. Portanto, apenas uma liderança forte, firme e, muitas vezes, autoritária será capaz de restaurar a ordem e a segurança.

O medo provoca uma emoção com elevado potencial mobilizador. Ao ativar sentimentos de insegurança, campanhas desse tipo tendem a reduzir a disposição do eleitor ao pensamento crítico e à avaliação de alternativas possíveis. Do ponto de vista psicológico, também à tolerância e à pluralidade. Intensifica a busca por soluções simplistas e rápidas, como aumentar o efetivo policial e o número de prisões.

A direita frequentemente recorre a lideranças personalizadas e a discursos de autoridade, apresentando-se como força capaz de restaurar a ordem e garantir a estabilidade social e o crescimento econômico. Suas campanhas utilizam exaustivamente esse recurso ao oferecer narrativas claras, com antagonismos bem definidos: “nós” contra “eles”. “Eles” podem ser minorias sociais, elites políticas, instituições internacionais, movimentos progressistas ou veículos da mídia. Ao personalizar ou simplificar os problemas, o discurso torna-se facilmente assimilável e emocionalmente mobilizador, sobretudo em ambientes digitais marcados pela circulação acelerada de informações e desinformação (fake news).

Campanhas baseadas no medo costumam usar slogans curtos e linguagem direta, com imagens aterrorizantes nos meios de comunicação de massa e nas redes digitais. Mensagens alarmistas tendem a se espalhar com maior rapidez. A repetição constante de cenários negativos cria um ambiente de insegurança e urgência, no qual o voto passa a ser visto como arma de defesa, quase instintiva, contra a ameaça iminente.

Em contraste, partidos progressistas, em geral, estruturam suas campanhas a partir da apresentação de propostas programáticas e projetos administrativos e/ou de transformação social. O foco recai sobre políticas públicas, ampliação de direitos, redução das desigualdades, inclusão social, sustentabilidade ambiental e fortalecimento das instituições democráticas. A narrativa progressista costuma estar centrada no futuro de bem-estar ao propor mudanças graduais ou estruturais que exigem planejamento, participação coletiva e confiança na ação do Estado.

Essa abordagem privilegia a dimensão racional do comportamento eleitoral e aposta na capacidade do eleitor de avaliar diagnósticos, comparar programas e considerar impactos coletivos das políticas propostas. Apela mais à racionalidade do cidadão do que às suas emoções primárias. Programas de governo detalhados e possíveis soluções de médio e longo prazos para os problemas atuais são marcas frequentes dessas campanhas.

O discurso progressista reconhece a complexidade dos problemas sociais e econômicos, e evita respostas simplistas, o que pode ser uma virtude do ponto de vista ético e técnico. Mas constitui um risco em contextos de alta polarização e desinformação.

A reação dos eleitores a essas duas estratégias revela tensões profundas entre medo e esperança, emoção e razão. Eleitores expostos a campanhas baseadas no medo podem sentir-se protegidos e representados, especialmente quando percebem que sua posição social, econômica ou cultural está ameaçada.

Já as campanhas progressistas têm como fundamento propostas, tendem a mobilizar eleitores mais predispostos ao debate público e à participação política. Contudo, em contextos de insegurança material ou simbólica, alguns projetos podem parecer distantes da realidade imediata do eleitor, reduzindo seu impacto emocional e eleitoral. Para um candidato à reeleição, é muito importante ativar a memória do eleitorado, ressaltar a conjuntura encontrada quando tomou posse e como soube transformar o negativo em positivo, o sonho em realidade, a aspiração em conquista.

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Importante destacar que os eleitores não reagem de forma homogênea. Fatores como acesso à informação, experiências pessoais e identidade social influenciam profundamente a forma como cada indivíduo interpreta as mensagens de campanha.

Partidos de direita também podem apresentar propostas concretas, assim como partidos progressistas recorrer ao medo, especialmente quando alertam para riscos autoritários ou retrocessos democráticos.

Em termos normativos, campanhas que têm como fundamento o medo tendem a intensificar a polarização política, fragilizar a confiança social e desqualificar o debate democrático.

Em um cenário marcado por crises recorrentes e comunicação acelerada, o desafio para os partidos progressistas é traduzir propostas complexas em narrativas emocionalmente mobilizadoras. Para a direita, evitar que a exploração contínua do medo corroa a confiança social e democrática que sustenta o próprio sistema político.

A consolidação da democracia depende da capacidade de articular emoção e razão de maneira equilibrada, e promover campanhas eleitorais atrativas, pedagógicas, sem desconsiderar as dimensões afetivas que estruturam o comportamento político.

Compreender como os eleitores reagem entre o medo e as propostas é, portanto, essencial para pensar campanhas mais responsáveis e uma democracia mais sólida.

•        "Podem derrubar os governos, mas não vencer um povo", diz Frei Betto

Se os amigos se encontram no momento da necessidade, o profundo laço que une o escritor brasileiro e teólogo da libertação Frei Betto ao povo cubano passou por todos os testes. O autor do famoso livro Fidel e a religião, fruto de uma longa entrevista com Fidel Castro sobre cristianismo e revolução, frequenta a ilha caribenha há mais de quarenta anos – visitou-a seis vezes só em 2025 – e colabora com o governo desde 2019. Sua participação no Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional (Plano San), apoiado pela FAO, teve origem em sua experiência no Brasil com o programa "Fome Zero" do primeiro governo Lula. Convencido de que, como já escreveu no passado, se o socialismo fracassar em Cuba, "será o fim de toda a esperança histórica da humanidade", o frade dominicano prontamente concordou em conversar conosco sobre o momento dramático atravessado pelo país.

<><> Eis a entrevista.

•        A assinatura, por Trump, de uma ordem executiva que ameaça com sanções a qualquer um que venda petróleo para Cuba é apenas o ato mais recente em um ataque incessante à ilha. Haverá um fim para tamanha intransigência?

A inclusão de Cuba na lista de países que promovem o terrorismo pelos governos Trump 1, Biden e Trump 2 já impactou severamente a economia da ilha. Basta dizer que turistas da Europa Ocidental que visitam o país serão considerados potenciais terroristas pela Casa Branca.

No entanto, Cuba é historicamente conhecida por sua luta contra o terrorismo. Nesse contexto, a maioria dos canais bancários para transações financeiras está bloqueada, prejudicando gravemente as importações — Cuba importa 80% dos alimentos que consome — e as exportações: níquel, tabaco, mel, rum, serviços médicos e educacionais. Toda a matriz energética de Cuba é baseada no petróleo, fornecido por três países que atualmente enfrentam dificuldades: Rússia, Irã e Venezuela. O México, é verdade, forneceu uma quantidade considerável de petróleo, totalizando 84.900 barris em janeiro passado. Mas, após a ordem executiva de Trump, tudo corre o risco de piorar. Embora Cuba consiga produzir pelo menos 30.000 barris de petróleo por dia, necessita de pelo menos 100.000. Assim, a escassez de energia causa frequentes apagões em todo o país, que impactam severamente a agricultura, os transportes, a indústria e o turismo. Certamente, neste momento histórico, a solidariedade com Cuba assume uma importância fundamental.

•        Qual é a situação atual do povo cubano?

Há um declínio nas condições de vida da população. Devido às dificuldades econômicas, o êxodo, especialmente de jovens, é intenso. Os salários se deterioraram. Há alimentos disponíveis nos mercados, mas a inflação está alta. As desigualdades entre a população estão aumentando: aqueles que recebem dólares ou euros do exterior, de familiares que emigraram, possuem poder aquisitivo que a maioria não tem. Apesar de tudo, o governo está adotando diversas medidas para lidar com a situação, e o povo demonstra uma heroica resiliência diante da crise. Com o Plano de Soberania Alimentar, estamos tentando substituir produtos importados, por exemplo, trocando o pão de trigo por pão de mandioca ou de milho, que o país produz. Nesse contexto, criamos os SALs (Sistemas Alimentares Locais), com pessoal capacitado para promover a produção agrícola em sentido agroecológico. Além disso, a China tem cooperado de forma exemplar com usinas de energias renováveis para a agricultura.

•        Frequentemente ouvimos falar de uma crescente repressão à discordância. Estaria em curso uma involução democrática?

Sob essa perspectiva, acredito que, ao contrário, houve uma evolução. O presidente Díaz-Canel criou um governo itinerante. Mensalmente, visita duas ou três províncias com seus ministros, dialogando com a população e buscando soluções locais para os diversos desafios. Há um apelo cada vez maior à participação popular.

•        Até onde pode ir a resiliência do povo cubano?

Cuba é um exemplo de resiliência e dignidade. Durante esses 67 anos de revolução, as dificuldades foram constantes, basta pensar na invasão da Baía dos Porcos em 1961, na crise dos mísseis em 1962, na guerra em Angola entre 1975 e 1991, no Período Especial entre 1991 e 1995 e, finalmente, no embargo imposto pelos EUA. Os cubanos se orgulham de sua independência e soberania. Eles não querem que o futuro do país seja o presente de Honduras ou Guatemala. São um povo educado e culto, com um notável talento artístico, especialmente no balé, nas artes plásticas e na literatura. Cuba foi o berço do mambo, da rumba, do chá-chá-chá, do danzón, da timba e da salsa. É inegável que muitos cubanos estão cansados das atuais dificuldades econômicas, mas todos sabem que uma Cuba capitalista inevitavelmente voltaria a ser o "bordel do Caribe", um foco de pobreza, drogas e criminalidade. As políticas governamentais beneficiam toda a população, não uma classe ou setor privilegiado. Os três direitos humanos fundamentais — alimentação, saúde e educação — são estruturalmente garantidos a todo o povo. O sistema de saúde é gratuito, assim como a educação, até o nível universitário. E toda família recebe uma cesta básica mensal, embora sua qualidade esteja comprometida pela crise que o país atravessa.

•        Trump declarou que Cuba "não sobreviverá". Existe esse perigo?

Haveria perigo se os Estados Unidos invadissem Cuba. No entanto, a Casa Branca aprendeu com a história que seu poderio militar é capaz de derrubar governos, não de derrotar um povo. E intervir em Cuba significa desafiar um povo. Acredito, sim, que o governo Trump intensificará suas ações terroristas, mas minha esperança é que o povo estadunidense se pronuncie contra o presidente nas eleições de meio de mandato, forçando-o a retroceder, e a certeza de que o multilateralismo acabará por prevalecer. Guardemos o pessimismo para dias melhores!

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Il Manifesto

 

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