Frei
Betto: Eleições 2026 e o contraste entre discursos - explorar o medo ou propor
futuros?
As
recentes campanhas eleitorais tornaram-se arenas sofisticadas de disputas
simbólicas, emocionais e programáticas. Diferentes projetos políticos buscam
legitimação junto ao eleitorado. Nesse contexto, observa-se uma diferença
recorrente entre o modo como os partidos de direita e os progressistas
estruturam suas mensagens e mobilizam o eleitorado.
Embora
essa distinção não seja absoluta nem válida para todos os países ou períodos
históricos, ajuda a compreender padrões frequentes de comunicação política e
sobretudo as reações emocionais e racionais dos eleitores diante das diversas
estratégias.
Partidos
de direita, especialmente em momentos de crise econômica, social ou
institucional, tendem a estruturar suas campanhas a partir da exacerbação do
medo. O discurso costuma enfatizar ameaças reais ou imaginárias, como aumento
da criminalidade, imigração descontrolada, perda de valores tradicionais (Deus,
pátria e família), instabilidade econômica, corrupção sistêmica. A mensagem
central sugere que algo precioso está em perigo, a ordem social encontra-se em
risco e mudanças culturais, políticas, institucionais, podem desestruturar o
modo de vida do eleitor. Portanto, apenas uma liderança forte, firme e, muitas
vezes, autoritária será capaz de restaurar a ordem e a segurança.
O medo
provoca uma emoção com elevado potencial mobilizador. Ao ativar sentimentos de
insegurança, campanhas desse tipo tendem a reduzir a disposição do eleitor ao
pensamento crítico e à avaliação de alternativas possíveis. Do ponto de vista
psicológico, também à tolerância e à pluralidade. Intensifica a busca por
soluções simplistas e rápidas, como aumentar o efetivo policial e o número de
prisões.
A
direita frequentemente recorre a lideranças personalizadas e a discursos de
autoridade, apresentando-se como força capaz de restaurar a ordem e garantir a
estabilidade social e o crescimento econômico. Suas campanhas utilizam
exaustivamente esse recurso ao oferecer narrativas claras, com antagonismos bem
definidos: “nós” contra “eles”. “Eles” podem ser minorias sociais, elites
políticas, instituições internacionais, movimentos progressistas ou veículos da
mídia. Ao personalizar ou simplificar os problemas, o discurso torna-se
facilmente assimilável e emocionalmente mobilizador, sobretudo em ambientes
digitais marcados pela circulação acelerada de informações e desinformação
(fake news).
Campanhas
baseadas no medo costumam usar slogans curtos e linguagem direta, com imagens
aterrorizantes nos meios de comunicação de massa e nas redes digitais.
Mensagens alarmistas tendem a se espalhar com maior rapidez. A repetição
constante de cenários negativos cria um ambiente de insegurança e urgência, no
qual o voto passa a ser visto como arma de defesa, quase instintiva, contra a
ameaça iminente.
Em
contraste, partidos progressistas, em geral, estruturam suas campanhas a partir
da apresentação de propostas programáticas e projetos administrativos e/ou de
transformação social. O foco recai sobre políticas públicas, ampliação de
direitos, redução das desigualdades, inclusão social, sustentabilidade
ambiental e fortalecimento das instituições democráticas. A narrativa
progressista costuma estar centrada no futuro de bem-estar ao propor mudanças
graduais ou estruturais que exigem planejamento, participação coletiva e
confiança na ação do Estado.
Essa
abordagem privilegia a dimensão racional do comportamento eleitoral e aposta na
capacidade do eleitor de avaliar diagnósticos, comparar programas e considerar
impactos coletivos das políticas propostas. Apela mais à racionalidade do
cidadão do que às suas emoções primárias. Programas de governo detalhados e
possíveis soluções de médio e longo prazos para os problemas atuais são marcas
frequentes dessas campanhas.
O
discurso progressista reconhece a complexidade dos problemas sociais e
econômicos, e evita respostas simplistas, o que pode ser uma virtude do ponto
de vista ético e técnico. Mas constitui um risco em contextos de alta
polarização e desinformação.
A
reação dos eleitores a essas duas estratégias revela tensões profundas entre
medo e esperança, emoção e razão. Eleitores expostos a campanhas baseadas no
medo podem sentir-se protegidos e representados, especialmente quando percebem
que sua posição social, econômica ou cultural está ameaçada.
Já as
campanhas progressistas têm como fundamento propostas, tendem a mobilizar
eleitores mais predispostos ao debate público e à participação política.
Contudo, em contextos de insegurança material ou simbólica, alguns projetos
podem parecer distantes da realidade imediata do eleitor, reduzindo seu impacto
emocional e eleitoral. Para um candidato à reeleição, é muito importante ativar
a memória do eleitorado, ressaltar a conjuntura encontrada quando tomou posse e
como soube transformar o negativo em positivo, o sonho em realidade, a
aspiração em conquista.
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Importante
destacar que os eleitores não reagem de forma homogênea. Fatores como acesso à
informação, experiências pessoais e identidade social influenciam profundamente
a forma como cada indivíduo interpreta as mensagens de campanha.
Partidos
de direita também podem apresentar propostas concretas, assim como partidos
progressistas recorrer ao medo, especialmente quando alertam para riscos
autoritários ou retrocessos democráticos.
Em
termos normativos, campanhas que têm como fundamento o medo tendem a
intensificar a polarização política, fragilizar a confiança social e
desqualificar o debate democrático.
Em um
cenário marcado por crises recorrentes e comunicação acelerada, o desafio para
os partidos progressistas é traduzir propostas complexas em narrativas
emocionalmente mobilizadoras. Para a direita, evitar que a exploração contínua
do medo corroa a confiança social e democrática que sustenta o próprio sistema
político.
A
consolidação da democracia depende da capacidade de articular emoção e razão de
maneira equilibrada, e promover campanhas eleitorais atrativas, pedagógicas,
sem desconsiderar as dimensões afetivas que estruturam o comportamento
político.
Compreender
como os eleitores reagem entre o medo e as propostas é, portanto, essencial
para pensar campanhas mais responsáveis e uma democracia mais sólida.
• "Podem derrubar os governos, mas
não vencer um povo", diz Frei Betto
Se os
amigos se encontram no momento da necessidade, o profundo laço que une o
escritor brasileiro e teólogo da libertação Frei Betto ao povo cubano passou
por todos os testes. O autor do famoso livro Fidel e a religião, fruto de uma
longa entrevista com Fidel Castro sobre cristianismo e revolução, frequenta a
ilha caribenha há mais de quarenta anos – visitou-a seis vezes só em 2025 – e
colabora com o governo desde 2019. Sua participação no Plano de Soberania
Alimentar e Educação Nutricional (Plano San), apoiado pela FAO, teve origem em
sua experiência no Brasil com o programa "Fome Zero" do primeiro
governo Lula. Convencido de que, como já escreveu no passado, se o socialismo
fracassar em Cuba, "será o fim de toda a esperança histórica da humanidade",
o frade dominicano prontamente concordou em conversar conosco sobre o momento
dramático atravessado pelo país.
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Eis a entrevista.
• A assinatura, por Trump, de uma ordem
executiva que ameaça com sanções a qualquer um que venda petróleo para Cuba é
apenas o ato mais recente em um ataque incessante à ilha. Haverá um fim para
tamanha intransigência?
A
inclusão de Cuba na lista de países que promovem o terrorismo pelos governos
Trump 1, Biden e Trump 2 já impactou severamente a economia da ilha. Basta
dizer que turistas da Europa Ocidental que visitam o país serão considerados
potenciais terroristas pela Casa Branca.
No
entanto, Cuba é historicamente conhecida por sua luta contra o terrorismo.
Nesse contexto, a maioria dos canais bancários para transações financeiras está
bloqueada, prejudicando gravemente as importações — Cuba importa 80% dos
alimentos que consome — e as exportações: níquel, tabaco, mel, rum, serviços
médicos e educacionais. Toda a matriz energética de Cuba é baseada no petróleo,
fornecido por três países que atualmente enfrentam dificuldades: Rússia, Irã e
Venezuela. O México, é verdade, forneceu uma quantidade considerável de
petróleo, totalizando 84.900 barris em janeiro passado. Mas, após a ordem
executiva de Trump, tudo corre o risco de piorar. Embora Cuba consiga produzir
pelo menos 30.000 barris de petróleo por dia, necessita de pelo menos 100.000.
Assim, a escassez de energia causa frequentes apagões em todo o país, que
impactam severamente a agricultura, os transportes, a indústria e o turismo.
Certamente, neste momento histórico, a solidariedade com Cuba assume uma
importância fundamental.
• Qual é a situação atual do povo cubano?
Há um
declínio nas condições de vida da população. Devido às dificuldades econômicas,
o êxodo, especialmente de jovens, é intenso. Os salários se deterioraram. Há
alimentos disponíveis nos mercados, mas a inflação está alta. As desigualdades
entre a população estão aumentando: aqueles que recebem dólares ou euros do
exterior, de familiares que emigraram, possuem poder aquisitivo que a maioria
não tem. Apesar de tudo, o governo está adotando diversas medidas para lidar
com a situação, e o povo demonstra uma heroica resiliência diante da crise. Com
o Plano de Soberania Alimentar, estamos tentando substituir produtos
importados, por exemplo, trocando o pão de trigo por pão de mandioca ou de
milho, que o país produz. Nesse contexto, criamos os SALs (Sistemas Alimentares
Locais), com pessoal capacitado para promover a produção agrícola em sentido
agroecológico. Além disso, a China tem cooperado de forma exemplar com usinas
de energias renováveis para a agricultura.
• Frequentemente ouvimos falar de uma
crescente repressão à discordância. Estaria em curso uma involução democrática?
Sob
essa perspectiva, acredito que, ao contrário, houve uma evolução. O presidente
Díaz-Canel criou um governo itinerante. Mensalmente, visita duas ou três
províncias com seus ministros, dialogando com a população e buscando soluções
locais para os diversos desafios. Há um apelo cada vez maior à participação
popular.
• Até onde pode ir a resiliência do povo
cubano?
Cuba é
um exemplo de resiliência e dignidade. Durante esses 67 anos de revolução, as
dificuldades foram constantes, basta pensar na invasão da Baía dos Porcos em
1961, na crise dos mísseis em 1962, na guerra em Angola entre 1975 e 1991, no
Período Especial entre 1991 e 1995 e, finalmente, no embargo imposto pelos EUA.
Os cubanos se orgulham de sua independência e soberania. Eles não querem que o
futuro do país seja o presente de Honduras ou Guatemala. São um povo educado e
culto, com um notável talento artístico, especialmente no balé, nas artes
plásticas e na literatura. Cuba foi o berço do mambo, da rumba, do chá-chá-chá,
do danzón, da timba e da salsa. É inegável que muitos cubanos estão cansados
das atuais dificuldades econômicas, mas todos sabem que uma Cuba capitalista
inevitavelmente voltaria a ser o "bordel do Caribe", um foco de
pobreza, drogas e criminalidade. As políticas governamentais beneficiam toda a
população, não uma classe ou setor privilegiado. Os três direitos humanos
fundamentais — alimentação, saúde e educação — são estruturalmente garantidos a
todo o povo. O sistema de saúde é gratuito, assim como a educação, até o nível
universitário. E toda família recebe uma cesta básica mensal, embora sua
qualidade esteja comprometida pela crise que o país atravessa.
• Trump declarou que Cuba "não
sobreviverá". Existe esse perigo?
Haveria
perigo se os Estados Unidos invadissem Cuba. No entanto, a Casa Branca aprendeu
com a história que seu poderio militar é capaz de derrubar governos, não de
derrotar um povo. E intervir em Cuba significa desafiar um povo. Acredito, sim,
que o governo Trump intensificará suas ações terroristas, mas minha esperança é
que o povo estadunidense se pronuncie contra o presidente nas eleições de meio
de mandato, forçando-o a retroceder, e a certeza de que o multilateralismo
acabará por prevalecer. Guardemos o pessimismo para dias melhores!
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Il Manifesto

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