Flávio
Dino e o dever de cumprir e fazer cumprir a Lei
Diz-se
que o STF é um arquipélago formado por onze ilhas. Neste arquipélago, a tão
evocada colegialidade é definida mais pela existência do teto comum do Palácio
que alberga os ministros e a ministra da Corte do que pela prática cotidiana de
decisões colegiadas.
A
ilha-gabinete do ministro Flávio Dino, por exemplo, tem se destacado pela
produção seriada de iniciativas de crucial relevância democrática e republicana
para o Brasil.
Com
substância jurídica inteligível, recato político exemplar e apreciável
bom-humor, Dino tem oferecido para o debate público o enfrentamento a questões
essenciais que estão corrosivamente incrustradas na realidade brasileira.
São os
casos, por exemplo, do esquema corrupto e inconstitucional das emendas
impositivas, e do sistema de castas do funcionalismo público que se
auto-concedem rendas astronômicas por meios engenhosos que burlam o teto
salarial do funcionalismo público.
As
emendas parlamentares significam uma aberração não verificável nem mesmo em
modelos parlamentaristas maduros.
É uma
exclusividade genuinamente brasileira, nascida como arma política para derrubar
a presidente Dilma, e que se hipertrofiou no governo fascista-militar com
Bolsonaro numa lógica de assalto ao butim e de inviabilização de governos
eleitos.
As
emendas parlamentares, mesmo aquelas não classificadas como do orçamento
secreto, são executadas sem transparência e com absoluta opacidade para
dificultar o monitoramento e a fiscalização dos órgãos de controle e facilitar
a corrupção em escala industrial e o clientelismo paroquial.
Além de
comprometer a unicidade das políticas de Estado, o esquema das emendas
representa uma grave distorção da democracia, uma vez que concede a deputados e
senadores cerca de 60 milhões de reais por ano de vantagem sobre competidores
eleitorais sem mandato.
Mesmo
sendo comedido nas medidas disciplinares sobre as emendas –como a exigência de
observância de normas comezinhas de moralidade e transparência na execução de
despesa pública–, Dino tem sido bombardeado por políticos viciados e
dependentes deste esquema corrupto e opaco.
Não tem
sido diferente, também, a reação contra a decisão do ministro Dino por
integrantes das castas do serviço público [nas três esferas de governo] que se
apropriam do orçamento público via supersalários.
O
Congresso brasileiro é o mais oneroso do mundo na proporção do PIB. Os custos
de R$ 15 bilhões em 2025 são, proporcionalmente, muitos superiores a todos os
países ricos do G20 e da OCDE.
No
Brasil os gastos com o Congresso consomem o equivalente a 0,12% do Produto
Interno, muito acima de Portugal [2º colocado], do México, França, EUA, Espanha
e Índia, que consomem, respectivamente, 0,08%, 0,05%, 0,03%, 0,02%, 0,01% e
0,004%.
O Poder
Judiciário brasileiro também é campeão no ranking da justiça mais cara do
mundo.
Os 90
bilhões de reais de dinheiro público para bancar o Judiciário em 2025, que
incluem a justiça federal, TCU, MPF e Defensoria Pública, representaram cerca
de 0,7% do PIB nacional, mais que o dobro da média internacional, ao redor de
0,3% PIB dos países.
As
despesas com salários, privilégios e regalias conformam o gasto principal do
Legislativo e do Judiciário, cerca de 85%, o que permite se inferir que os
supersalários e penduricalhos adicionais são o fator central da distorção do
Brasil em comparação com o mundo.
No
Poder Executivo as carreiras jurídicas e fazendárias são aquelas que acumulam
condições equiparáveis ao legislativo e judiciário em matéria de privilégios.
Esta situação não é observada, porém, na maioria das demais carreiras públicas,
como as de professores, enfermeiros, médicos, dentistas, psicólogos,
jornalistas, técnicos, operários etc.
Estudo
da Transparência Brasil mostrou, por exemplo, que entre 2020 e 2025 integrantes
das carreiras da AGU receberam R$ 4,5 bilhões acima do teto constitucional
referentes a honorários de sucumbência, ou seja, por cumprirem exatamente as
funções para as quais prestaram concurso público.
Tal
prática está disseminada nas carreiras de procuradores da Fazenda Nacional, da
PGR, do Banco Central e em outras sinecuras do serviço público.
Mecanismos
“criativos” chamados de penduricalhos são inventados para embolsar recursos
públicos, muitos deles indecorosos, como auxílio-panetone, auxílio-peru,
auxílio-Iphone, auxílio-paletó etc.
Na
decisão para acabar com “o Império dos Penduricalhos”, o ministro Dino
estabeleceu um prazo de 60 dias para os chefes dos três Poderes da República
revisarem os pagamentos acima do teto constitucional e definirem em Lei as
verbas que poderão ser somadas aos salários observando o limite da
Constituição.
Dessa
maneira, Dino cumpriu o mandamento básico do Estado de Direito, de cumprir e
fazer cumprir a Lei.
A
eleição deste ano será uma oportunidade para a população repudiar políticos que
defendem a manutenção das emendas impositivas e os supersalários de castas do
funcionalismo público.
• Dino manda à PF relatório sobre
irregularidades na Associação Moriá
O
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino encaminhou à Polícia
Federal (PF) o relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) que confirma a
existência de fraudes nas parcerias firmadas entre o Poder Público e a
Associação Moriá.
Em
despacho publicado nesta segunda-feira (9/2), Dino afirmou que o documento deve
ser encaminhado à Diretoria-Geral da Polícia Federal, a fim de que “sejam
tomadas as providências devidas no âmbito de sua competência, fazendo-se a
juntada em inquéritos já existentes ou instaurando novos”.
A
organização da sociedade civil (OSC) foi alvo da PF em uma operação que apura o
desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares destinadas à
realização de eventos de esportes digitais.
De
acordo com o relatório da CGU, foram localizados 15 instrumentos firmados com a
Associação Moriá nos anos de 2022 a 2024, totalizando R$ 74 milhões oriundos de
emendas parlamentares. Desses, segundo o documento, R$ 18 milhões já foram
pagos à entidade.
Os
instrumentos firmados com a Associação Moriá foram assinados pelo Ministério do
Esporte, Ministério da Saúde, Ministério da Cultura e Ministério das Mulheres.
Das
emendas destinadas à OSC, R$ 53 milhões eram de políticos do Distrito Federal,
e a maioria dos recursos foi destinada a um projeto gamer.
O
documento da CGU ainda destacou que a associação “não comprovou possuir
estrutura material própria ou quadro de pessoal compatível para executar com
segurança o vulto dos repasses que recebe”. A coluna Grande Angular, do
Metrópoles, revelou que a Moriá é gerida por laranjas: os diretores são
motorista, esteticista e ex-cabo do Exército.
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Fiscalização de emendas
Dino é
o relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) que
trata da transparência e da rastreabilidade das emendas parlamentares.
Além de
determinar o envio do relatório para a PF, o ministro ainda homologou a
proposta metodológica elaborada pela CGU que define mecanismos de priorização
de análise de relatórios de gestão vinculados a transferências especiais
efetuadas no período de 2020 a 2024.
ENTENDA
O CASO
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CGU confirma fraude de ONG que recebeu emendas de R$ 53 milhões de deputados
Em
relatório entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), a Controladoria-Geral da
União (CGU) apontou que a Associação Moriá “não detém capacidade técnica e
operacional necessárias para a execução do volume de recursos federais que
recebeu”.
A
organização da sociedade civil (OSC) foi indicada para receber R$ 74 milhões
por meio de emendas parlamentares entre 2023 e 2024. Dessas, R$ 53 milhões eram
provenientes de políticos do Distrito Federal, e a maioria dos recursos foi
destinada a um projeto gamer.
O
documento destacou que a associação “não comprovou possuir estrutura material
própria ou quadro de pessoal compatível para executar com segurança o vulto dos
repasses que recebe”. A coluna Grande Angular, do Metrópoles, revelou que a
Moriá é gerida por laranjas: os diretores são motorista, esteticista e ex-cabo
do Exército.
A
auditoria revelou que os contratos de parceria fechados com órgãos públicos
“apresentam orçamentos genéricos que favorecem o sobrepreço”.
No
Ministério dos Esportes, houve evidência de superfaturamento de R$ 1,73 milhão
por locações diárias de TI [tecnologia da informação]. Na Secretaria-Geral da
Presidência, houve “inexecução total da fase pedagógica do projeto Enem” e, no
Ministério da Cultura, houve rompimento da rastreabilidade financeira, segundo
a CGU.
Após
receber o relatório da CGU, o ministro Flávio Dino — que é o relator da
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) que trata da
transparência e da rastreabilidade das emendas parlamentares — determinou que o
documento fosse encaminhado à Polícia Federal.
“Encaminhe-se
o 10º Relatório Técnico da CGU à Diretoria-Geral da Polícia Federal, a fim de
que sejam tomadas as providências devidas no âmbito de sua competência,
fazendo-se a juntada em Inquéritos já existentes ou instaurando novos”,
escreveu.
Em
julho de 2025, a PF e a CGU deflagraram a Operação Korban, que investiga as
irregularidades na Associação Moriá. À época, os órgãos cumpriram 16 mandados
de busca e apreensão, expedidos pelo STF, nas seguintes unidades da Federação:
Acre, Paraná, Goiás e Distrito Federal.
Emendas
do DF
No ano
passado, o Metrópoles revelou que parlamentares do Distrito Federal destinaram
R$ 53,3 milhões, em dois anos, para a Associação Moriá.
A maior
fatia do valor milionário, de R$ 46 milhões, foi enviada a um programa para
crianças e adolescentes aprenderem a jogar os games Free Fire, Valorant, LoL,
Teamfight Tactics e eFootball.
Os
parlamentares que mais enviaram dinheiro para o projeto de jogos on-line foram
o deputado federal Fred Linhares (Republicanos), que indicou R$ 27,6 milhões, e
o senador Izalci Lucas (PL), responsável por R$ 15,5 milhões.
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Veja quem enviou emenda para o projeto gamer no DF, entre 2023 e 2024:
• deputado federal Fred Linhares
(Republicanos): R$ 27,6 milhões;
• senador Izalci Lucas (PL): R$ 15,5
milhões;
• deputada federal Bia Kicis (PL): R$ 1,5
milhão;
• deputado federal Julio Cesar
(Republicanos): R$ 800 mil; e
• deputada distrital Paula Belmonte
(Cidadania): R$ 500 mil.
Após a
divulgação do caso, os parlamentares suspenderam os repasses que ainda não
tinham sido pagos.
Fonte:
Por Jeferson Miola, em seu blog/Metrópoles

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