Dois
casos que revelam a crise do espaço educacional no Brasil
Dois
episódios recentes, ocorridos em contextos distintos, expõem fragilidades
profundas no sistema educacional brasileiro e revelam os impactos sociais,
culturais e políticos que atravessam as instituições de ensino na atualidade.
Trata-se, de um lado, do assassinato da professora Juliana Santiago dentro de
uma sala de aula, em Porto Velho (RO), e, de outro, da decisão pública do
ex-jogador Túlio Maravilha e de sua esposa de impedir a filha de cursar uma
universidade pública em nome de "valores familiares".
Embora
distintos em natureza, ambos os casos convergem na exposição de um mesmo
fenômeno, o enfraquecimento do papel da educação como espaço de mediação,
diálogo, formação cidadã e construção democrática.
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O assassinato da professora Juliana Santiago
Na
noite de sexta-feira, 6, a professora de Direito Juliana Santiago foi atacada a
facadas por um aluno dentro de uma sala de aula do Centro Universitário
Aparício Carvalho (Fimca), instituição privada localizada em Porto Velho,
capital de Rondônia. Segundo informações confirmadas pela própria faculdade e
por vídeos diversos que circulam nas redes, o suspeito, identificado como João
Junior, era estudante regularmente matriculado.
Imagens
registradas por pessoas presentes no local mostram o momento em que o agressor
é contido por outros indivíduos até a chegada da polícia. Ele foi preso em
flagrante e encaminhado à Central de Polícia. A motivação do crime ainda está
sob investigação. Juliana foi socorrida e levada ao Hospital João Paulo II, mas
não resistiu aos ferimentos. Vídeos divulgados nas redes sociais mostram a
professora ainda com vida, cercada por alunos em estado de choque, o que
intensificou a comoção pública.
O caso
provoca forte repercussão nacional e reacende debates sobre segurança nas
instituições de ensino, saúde mental, relações pedagógicas, precarização do
trabalho docente e ausência de políticas integradas de cuidado no ambiente
universitário.
Especialistas
que passaram pelas nossas mídias pela Tv247 já apontavam que a violência não
pode ser tratada como um evento isolado. Ela está inserida em um contexto de
crescente tensão social, fragilização das mediações institucionais,
intolerância e banalização do conflito. "Deixa pra lá!" ou
"Depois a gente vê!". A escola, nesse cenário, deixa de ser espaço de
elaboração simbólica para tornar-se território vulnerável à ruptura do laço
social - explicarei mais a
diante.
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A recusa da universidade pública em nome de "valores"
Em
outro episódio amplamente repercutido nas redes sociais, o ex-jogador Túlio
Maravilha e sua esposa, Christiane Maravilha, divulgaram um vídeo explicando
por que decidiram impedir a filha, Tulliane, de frequentar universidades
públicas, apesar de sua aprovação em cursos da UFRJ e da UERJ. Segundo o casal,
a decisão foi motivada pela necessidade de preservar os "valores
familiares". Para eles, instituições privadas estariam mais alinhadas a
seus princípios morais e ideológicos.
"Um
dos fatos maiores que a gente não permite nossos filhos irem para a federal é
manter nossos valores familiares", afirmou Christiane no vídeo.
A fala
gera intenso debate nas redes sociais, envolvendo temas como pluralidade,
liberdade acadêmica, papel da universidade pública, conservadorismo moral e
elitização do acesso ao ensino superior. Nos grupos de WhatsApp onde estão
vários nomes da docência nacional, alguns pesquisadores da área da Educação,
afirmam que esse discurso revela um processo crescente de moralização da
formação intelectual, no qual a universidade deixa de ser compreendida como
espaço de diversidade, progressão educacional, pensamento crítico e confronto
de ideias, passando a ser avaliada segundo critérios privados, religiosos ou
ideológicos.
Esse
movimento contribui para a segregação simbólica, o enfraquecimento da função
pública da educação e o fechamento das subjetividades em bolhas de pensamento
homogêneo.
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Elementos comuns entre os dois casos
Apesar
das diferenças evidentes, os dois episódios revelam tendências estruturais
semelhantes:
Ambos
evidenciam a perda da escola e da universidade como lugares protegidos de
elaboração do conflito, da diferença e da convivência democrática, o que revela
a fragilização do espaço educativo
No
primeiro caso, o conflito culmina em violência extrema. No segundo, ele é
evitado por meio do isolamento ideológico, o que mostra que há crise no diálogo
e da mediação
A
ausência de políticas institucionais robustas de cuidado, escuta e
acompanhamento contribui para a intensificação de tensões, o que evidencia a
precarização das relações pedagógicas
Discursos
que opõem "valores" à pluralidade reforçam processos de exclusão e
deslegitimação da diferença, o que apresenta um avanço da moralização e da
intolerância
A
espetacularização dos fatos, a circulação de vídeos e a polarização nas redes
ampliam a dimensão simbólica dos conflitos, e não mais podemos negar os
impactos da cultura digital sobre todos nós.
Os dois
casos colocam em evidência a necessidade urgente de políticas públicas e
institucionais que articulem:
• segurança e cuidado no ambiente escolar;
• formação continuada para mediação de
conflitos;
• políticas de saúde mental;
• fortalecimento da cultura democrática;
• valorização da universidade pública;
• promoção da diversidade e da
convivência.
Mais do
que respostas pontuais, trata-se de repensar o papel social da educação em um
contexto marcado pela radicalização, pelo individualismo e pela fragilização
dos vínculos coletivos. A escola e a universidade não podem ser reduzidas a
espaços de instrução técnica ou reprodução ideológica. Elas são,
fundamentalmente, territórios de construção do laço social, da cidadania e da
responsabilidade coletiva.
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E o que é o laço social?
"O
laço social, na perspectiva psicanalítica e crítica, não se reduz à convivência
entre indivíduos, mas designa o conjunto de mediações simbólicas, discursivas e
institucionais que tornam possível a vida em comum. Para Lacan, "o
discurso é o que faz laço social" (LACAN, 2008, p. 32), indicando que é
pela linguagem, pela circulação da palavra e pelo reconhecimento da alteridade
que os sujeitos se inscrevem no campo do coletivo. Quando esses dispositivos
simbólicos se fragilizam, a violência, o isolamento e a segregação tendem a
ocupar o lugar da mediação. No contexto contemporâneo, marcado pela
plataformização das relações, pela moralização dos afetos e pela precarização
das instituições, observa-se um enfraquecimento progressivo do laço social. A
substituição do diálogo pelo ataque, da escuta pela vigilância e da alteridade
pelo fechamento identitário produz um cenário no qual o outro deixa de ser
interlocutor para tornar-se ameaça ou obstáculo. A recomposição do laço social,
nesse sentido, constitui uma tarefa ética, estética e política fundamental para
a preservação dos espaços educativos como territórios de simbolização, cuidado
e transformação."
O
assassinato de uma professora em sala de aula e a recusa da universidade
pública em nome de "valores" são expressões distintas de uma mesma
crise: a dificuldade crescente de lidar com a alteridade, o dissenso e a
complexidade social. Ambos os episódios revelam que a defesa da educação como
bem público, espaço plural e território de cuidado não é apenas uma pauta
pedagógica, mas uma exigência ética, política e civilizatória.
À
família, aos amigos, colegas e estudantes da professora, expressamos nossos
mais profundos sentimentos de solidariedade e comoção neste momento de dor.
Juliana
Santiago, presente!
Fonte:
Por Sara York, em Brasil 247

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