Candidato
socialista vence direita radical e é eleito presidente de Portugal
Em uma
campanha em que apelou ao voto moderado, o socialista António José Seguro foi
eleito presidente de Portugal neste
domingo (8/2), segundo a Comissão Nacional de Eleições.
Ex-secretário-geral
do Partido Socialista (PS), de centro-esquerda, Seguro tinha 66,8% dos votos,
com 99,20% das urnas apuras.
Assim,
Seguro venceu confortavelmente o candidato André
Ventura, líder do Chega, da direita radical, que concorreu com um
forte discurso anti-imigração.
Ele tinha 33,18% dos votos.
Ao
falar com jornalistas antes de comemorar com seus apoiadores, Seguro declarou
que "o povo português é o melhor povo do mundo", com
"responsabilidade cívica enorme".
Depois,
em discurso, Seguro afirmou que "os vencedores dessa noite são os
portugueses e a democracia".
Segundo
o jornal Público, Seguro teve o maior número de votos absolutos da história em
uma eleição presidencial em Portugal.
Também
logo após o anúncio das projeções, Ventura reconheceu a derrota. "Ele
venceu. Desejo-lhe um excelente mandato", disse ao sair de uma missa.
O líder
parlamentar do Chega, Pedro Pinto, também assumiu a vitória da esquerda, mas
disse que seu partido é "o grande vencedor da direita".
"Provamos que vínhamos para ser diferentes" e contra o sistema
"que se uniu contra nós".
Seguro
é visto como uma figura centrista e moderada e vai ter que atuar em momento
polarizado na política portuguesa.
Portugal
tem um regime semipresidencialista de matriz parlamentar. Isso quer dizer que,
embora o presidente seja eleito por voto direto, o poder executivo é exercido
pelo primeiro-ministro, indicado após eleições legislativas e que depende de
apoio mínimo no Parlamento.
Desde
2024, o primeiro-ministro de Portugal é Luís Montenegro, da coligação de
centro-direita liderada pelo Partido Social Democrata (PSD).
O papel
do presidente, porém, está longe de ser protocolar, já que exerce um poder
moderador crucial.
O
presidente pode vetar leis, devolvendo-as ao Parlamento, e tem a prerrogativa
de dar posse ao primeiro-ministro. Em casos extremos, também pode dissolver o
Parlamento e convocar eleições antecipadas — medida conhecida como "bomba
atômica".
Seguro,
então, pode ser decisivo para garantir a estabilidade do governo minoritário de
centro-direita liderado pelo PSD.
O novo
presidente foi eleito com o apoio de várias figuras políticas portuguesas
moderadas, entre eles Aníbal Cavaco Silva, presidente entre 2006 e 2016 e
primeiro-ministro entre 1985 e 1995.
Também
o apoiaram os prefeitos de Lisboa, Carlos Moedas, e do Porto, Pedro Duarte,
ambos do PSD. Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo PSD no primeiro
turno, afirmou que votaria em Seguro por seu alinhamento com a "defesa da
democracia" e a "moderação política".
A
votação deste domingo ocorreu com o país em estado de "calamidade
pública", em meio a uma onda de fortes tempestades.
Ventura chegou a pedir o adiamento da eleição, mas autoridades eleitorais
afastaram essa possibilidade, admitindo apenas adiamentos pontuais em alguns
municípios.
Segundo
os primeiros resultados, o comparecimento no segundo turno foi semelhante ao do
primeiro turno.
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O resultado para o Chega
Mesmo
muito atrás na contagem dos votos, a ida do Chega ao 2º turno em Portugal foi
considerado como um "trunfo da
direita radical".
O
fortalecimento da direita radical tem sido um dos fenômenos de maior impacto na
política portuguesa nos últimos anos. O avanço do Chega no país foi
surpreendentemente rápido, saltando de 1,3% dos votos em 2019 para 22,8% nas
legislativas de 2025.
Essas
eleições, portanto, registraram o melhor resultado do partido.
Entre
analistas, se Ventura conquistasse entre 30% e 35% dos votos, isso mostraria
que ele alcançou o eleitorado da direita e centro-direita.
Como
ele conseguiu cerca de 33% dos votos, a agenda do Chega pode ganhar peso também
entre as classes políticas, consolidando a ideia de que o partido é "um
movimento em ascensão".
"Ele
terá base para afirmar que agora é a principal força da direita em
Portugal", disse, antes da eleição, António Costa Pinto, da Universidade
Lusófona de Lisboa.
Em
declaração à imprensa após os primeiros resultados anunciados neste domingo,
Ventura lembrou que estas "são eleições presidenciais" (não as
legislativas) e considerou que o país o escolheu para "disputar o espaço
não socialista".
Fundado
em 2019 por Ventura, o Chega é hoje a segunda maior força no Parlamento
português, com 60 cadeiras.
O
partido cresceu com um discurso focado na rejeição à corrupção das
"elites" políticas tradicionais, na defesa de políticas mais rígidas
de segurança e no combate ao que classifica como imigração
"descontrolada", além de ataques a algumas minorias.
¨
3 desafios do novo presidente português — e como os
brasileiros podem ser afetados
Eleito
neste domingo, o novo
presidente de Portugal, António José Seguro, ex-secretário-geral do
Partido Socialista (PS), assume o cargo em um contexto de forte instabilidade
política interna e de crescentes tensões sociais, impulsionadas pelo avanço do
partido de direita radical Chega e por sua retórica hostil à
imigração.
Seguro
venceu o segundo turno da eleição presidencial de Portugal com
66,8% dos votos, contra 33,2% de André
Ventura, líder do Chega, cuja campanha foi marcada por ataques a
grupos minoritários — como a comunidade cigana — e às elites políticas
tradicionais, além de uma agenda anti-imigração.
Considerado
uma figura centrista da esquerda portuguesa, Seguro recebeu o apoio formal do
PS apenas quando a campanha já estava avançada. No segundo turno, contou também
com o apoio de nomes proeminentes da direita e da centro-direita portuguesas,
que se uniram à centro-esquerda numa tentativa de conter um avanço maior do
Chega.
O
ex-líder do PS derrotou Ventura com um apelo ao voto moderado e à defesa de
princípios democráticos, mas assumirá a Presidência, em março, diante de um
Chega fortalecido.
A
porcentagem de votos obtida pelo candidato da direita radical superou os 31,2%
conquistados pela coligação governista de centro-direita Aliança Democrática
(AD) nas eleições legislativas de 2025 — ainda que Ventura não tenha conseguido
ultrapassar a AD em número absoluto de votos (respectivamente, 1,73 milhão para
Ventura no domingo contra 1,97 milhão para a AD em 2025).
Também
houve crescimento em relação à votação do Chega nas eleições legislativas:
22,8% dos votos, ou o apoio de 1,44 milhão de eleitores. "Este partido
teve o seu melhor resultado de sempre," disse Ventura, após reconhecer a
derrota. "Lideramos a direita em Portugal e vamos em breve governar este
país."
Ao
mesmo tempo, Seguro conseguiu duplicar sua votação no segundo turno, alcançando
3,48 milhões de votos — a maior votação já registrada por um presidente em
Portugal.
"E
isso, para as comunidades imigrantes, é uma notícia positiva ao apontar para a
preferência dos portugueses pela moderação e a tolerância", diz a
brasileira Joana Ricarte, pesquisadora da Universidade de Coimbra e
coordenadora do curso de Relações Internacionais no Instituto Piaget, em Viseu,
que também lidera o braço português de um projeto financiado pela Comissão
Europeia para estudar narrativas extremistas.
Ao
assumir o cargo, em março, Seguro enfrentará ao menos três grandes desafios
institucionais, com impacto relevante na vida dos mais de meio milhão de
brasileiros que vivem em Portugal.
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1. Governabilidade e estabilidade política
O
primeiro desafio de Seguro será lidar com um sistema político fragmentado e
instável.
No
regime semipresidencialista português, quem governa é o primeiro-ministro. O
presidente, porém, dá posse ao chefe de governo e pode vetar leis — atrasando
sua aprovação ao obrigar o Parlamento a reavaliá-las. Em situações extremas,
também pode dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas, instrumento
conhecido entre analistas como a "bomba atômica".
Essas
prerrogativas conferem ao presidente um papel-chave na prevenção de crises de
governabilidade.
"O
presidente é visto como uma válvula de segurança ou um poder moderador que
ajuda a equilibrar o sistema político e garantir a sua estabilidade", diz
Carlos Jalali, professor e diretor do mestrado em ciência política da
Universidade de Aveiro.
Há dez
anos, o sistema político português girava essencialmente em torno de dois
partidos, o PS e o PSD. Nas eleições legislativas de 2025, o Chega, criado em
2019, tornou-se a segunda maior força no Parlamento, com 60 deputados. Outras
agremiações políticas também surgiram nos últimos anos, aumentando a
fragmentação do sistema, e uma queda da confiança nas instituições políticas
ajudou a criar um cenário de instabilidade.
Desde
2022, Portugal teve três eleições legislativas, duas delas antecipadas. O atual
governo, liderado pelo PSD, não tem maioria parlamentar e depende do apoio — ou
ao menos da abstenção — da direita radical ou da centro-esquerda para aprovar
seus projetos.
Em
novembro, por exemplo, o Orçamento foi aprovado graças à abstenção do PS, que
tem evitado uma oposição direta em momentos críticos para não provocar a queda
do Executivo.
Sentindo-se
fortalecido com o resultado eleitoral, o Chega pode intensificar a pressão pelo
fim do governo — por exemplo, por meio da apresentação de moções de censura.
"Mas,
para que uma moção seja aprovada, são necessários pelo menos 116 votos num
Parlamento de 230 deputados", observa Jalali. "O Chega tem 60
deputados e o PS, 58; juntos, somam 118. Não existe nenhuma outra combinação
possível que permita atingir essa maioria."
Nesse
contexto, segundo o cientista político Marco Lisi, da Universidade Nova de
Lisboa, Seguro poderia pressionar o PS a manter uma postura de abstenção
estratégica, permitindo a sobrevivência do governo minoritário.
Em uma
eventual queda do governo, também caberia ao presidente escolher entre nomear
um novo primeiro-ministro — com aprovação parlamentar — ou dissolver o
Parlamento e convocar novas eleições.
Em
geral, os presidentes têm optado pela convocação de eleições.
"Mas
Seguro já afirmou que considera a dissolução do Parlamento 'o último
recurso'", diz Jalali. "Na prática, é difícil prever o que
aconteceria, porque a decisão do presidente sempre depende do contexto — a
Constituição comporta isso."
Em
entrevista à TVI no final da campanha, Seguro afirmou que, se em algum momento
tivesse de dar posse a Ventura como primeiro-ministro — um cenário que gera
bastante preocupação entre a comunidade brasileira — faria
"exigências" quanto à composição do governo e exigiria garantias de
respeito à Constituição. "Teria de haver uma conversa séria sobre o
programa de governo que ele [Ventura] iria apresentar", disse Seguro.
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2. Direitos das minorias e leis de imigração e nacionalidade
Uma
segunda área em que a atuação de Seguro pode ter peso relevante diz respeito
aos direitos das minorias e à política migratória — dois temas centrais para a
comunidade brasileira.
O
debate sobre imigração cresceu rapidamente nos últimos anos, impulsionado pelo
aumento da população estrangeira em Portugal — de 592 mil pessoas em 2019 para
mais de 1,5 milhão atualmente — e pela exploração política do tema pelo Chega.
Ventura
fez do combate ao que chama de imigração "descontrolada" uma das
principais bandeiras do partido. No ano passado, o Chega e a Aliança
Democrática (AD), coalizão governista de centro-direita liderada pelo PSD, se
uniram para aprovar mudanças na Lei de Estrangeiros.
Entre
outras medidas, a nova lei restringiu o visto de trabalho a profissionais
qualificados, eliminou a possibilidade de imigrantes solicitarem residência
após entrarem no país como turistas e endureceu as regras de reagrupamento
familiar.
O
Parlamento também aprovou uma nova Lei da Nacionalidade, ampliando de cinco
para sete anos o tempo mínimo de residência exigido de brasileiros para o
pedido de nacionalidade. O presidente Rebelo de Sousa, porém, devolveu o texto
dessa lei ao Legislativo após o Tribunal Constitucional identificar indícios de
inconstitucionalidade em algumas de suas disposições.
Voltando
fortalecido ao Parlamento português, Ventura deve continuar pressionando por um
aperto da regulação migratória.
Uma das
principais propostas defendidas ao longo de sua campanha presidencial era dar
prioridade a portugueses no acesso a serviços públicos como hospitais e escolas
— ideia sintetizada no slogan "Os portugueses primeiro" e que poderia
prejudicar brasileiros residentes no país.
Em
julho, Ventura chegou a ler no Parlamento uma lista com nomes de crianças
imigrantes que estariam, segundo ele, ocupando vagas de estudantes portugueses
em escolas públicas.
"Em
linhas gerais, a proposta do Chega é uma redução significativa não apenas da
imigração, mas também dos direitos sociais dos imigrantes em Portugal, o que é
anticonstitucional", afirma António Costa Pinto, cientista político da
Universidade Lusófona de Lisboa.
Para
Jalali, é razoável esperar que Seguro atue como poder moderador no tema da
redução dos direitos de minorias, caso avalie haver risco de violação de
princípios constitucionais em eventuais leis aprovadas pelo Parlamento — à
semelhança do que fez Rebelo de Sousa no caso da Lei da Nacionalidade.
"Além
disso, os presidentes têm um poder importante de definição da agenda
pública", diz ele. "No geral, são figuras de grande popularidade, que
conseguem influenciar o debate público e a posição de outros agentes políticos,
tanto do governo quanto da oposição."
Segundo
Jalali, Seguro reconhece a necessidade de "disciplinar" ou
"organizar" a imigração para preservar a "coesão social" em
Portugal, mas também defende que "leis de grande sensibilidade social,
como a da nacionalidade, devem nascer de consensos amplos, e não de maiorias
circunstanciais ou impulsos ideológicos momentâneos".
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3. Política internacional e de defesa em um cenário global instável
Em
Portugal, o presidente é simultaneamente Chefe de Estado e Comandante Supremo
das Forças Armadas. Ele não define a política de defesa nem a política externa
— esse papel cabe ao governo — mas acompanha esses temas de perto e pode
aconselhar e exercer influência política sobre as decisões.
Assim
como ocorre com as leis, o presidente também pode atrasar a ratificação de
tratados internacionais caso considere que há problemas de constitucionalidade,
solicitando fiscalização ao Tribunal Constitucional.
Além
disso, representa o Estado português no exterior, recebe embaixadores e é o
responsável por declarar guerra (quando solicitado pelo governo e autorizado
pelo Parlamento).
A
vitória de Seguro sobre Ventura garante que Portugal continuará a ser uma voz
moderada na Europa, em um cenário regional e global cada vez mais instável.
Próximo
a líderes radicais de direita, como o húngaro Viktor Orbán, Ventura também
esteve na posse do presidente dos EUA, Donald Trump, e já elogiou em diversas
ocasiões a política migratória do americano — embora tenha admitido que
criticaria Trump no caso de uma invasão da Groenlândia.
"A
eleição de Seguro funciona como um travão a uma eventual virada na política
externa portuguesa, assegurando a continuidade das alianças europeias e
internacionais das últimas décadas", diz Lisi.
Isso
ocorre em um momento político delicado para a Europa, marcado pela guerra na
Ucrânia, pela reconfiguração das alianças internacionais da União Europeia e
pelos debates sobre a autonomia europeia na área de defesa — o que torna o
papel do presidente ainda mais relevante.
Nas
relações com o Brasil, a expectativa também é que um presidente moderado e
pragmático favoreça as boas relações bilaterais, enquanto o cenário com Ventura
seria de conflito e instabilidade.
Simpatizante
do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o líder do Chega já liderou
protestos no Parlamento português contra o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, a quem chamou de "bandido".
"O
cenário para a relação com o Brasil tende a permanecer favorável. Seguro
certamente manterá um bom diálogo com Lula, embora não seja ele quem define a
política externa, e pode atuar no estreitamento de laços, inclusive no contexto
do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que interessa para
Portugal," diz Ricarte, da Universidade de Coimbra. "Seguro pode
desempenhar um papel relevante na aproximação de delegações econômicas e em
questões comerciais."
Fonte:
BBC News Mundo

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