Gustavo
Tapioca: Santa Catarina, laboratório do bolsonarismo e o assassinato de Orelha
Enquanto
parte do debate público insiste em decretar a morte do bolsonarismo, a
realidade brasileira aponta para um cenário mais inquietante: a extrema direita
não desapareceu — ela mudou de forma. E nenhum estado expressa melhor essa
metamorfose do que Santa Catarina, hoje o território mais bolsonarista do país.
No
Programa 20 Minutos, o analista Breno Altman recebeu a jornalista e professora
Amanda Miranda para discutir uma questão central do momento político: o
bolsonarismo está em colapso ou apenas em recomposição?
Quando
a análise se desloca para Santa Catarina, a resposta se torna incômoda. O
estado aparece não apenas como reduto eleitoral da extrema direita, mas como um
ecossistema ideológico funcional, onde o bolsonarismo deixou de depender
exclusivamente de Jair Bolsonaro para existir.
Ali, a
extrema direita não opera apenas em ciclos eleitorais. Ela organiza valores,
molda comportamentos e estrutura uma visão de mundo autoritária e violenta que
se reproduz no cotidiano.
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Santa Catarina encarna o bolsonarismo
Segundo
Amanda Miranda, Santa Catarina representa um estágio avançado do fenômeno
bolsonarista. O apoio à extrema direita não se limita ao voto: tornou-se
identidade social, marcador de pertencimento e código cultural.
O
bolsonarismo catarinense:
• organiza relações profissionais e
comunitárias;
• circula em escolas, igrejas, associações
empresariais e redes sociais;
• e se apresenta como “normalidade
política”.
Não se
trata de conservadorismo clássico. Trata-se de uma cultura política
autoritária, sustentada por antipetismo radical, rejeição ao Estado social e
naturalização da violência simbólica — e, em certos casos, física — contra
adversários políticos.
Nesse
ambiente, discursos contra o STF, a imprensa, as universidades e os movimentos
sociais não geram constrangimento. Circulam como senso comum.
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Uma base social confiante e legitimada
Diferentemente
de outros estados onde o bolsonarismo entrou em retração após 2022, em Santa
Catarina ele segue confiante, organizado e legitimado socialmente. Sua base
envolve:
• setores expressivos da classe média
urbana;
• pequenos e médios empresários;
• segmentos industriais;
• grupos que associam políticas sociais a
“ameaças” econômicas ou morais.
A
retórica da ordem, do mérito e da força substitui o debate democrático. A
exceção vira regra. O autoritarismo deixa de ser tabu.
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Outros polos do bolsonarismo
Santa
Catarina não está isolada. É o ponto mais avançado de um fenômeno que também se
manifesta, com intensidades distintas, em outras regiões.
No
Centro-Oeste, o bolsonarismo se ancora no agronegócio e no discurso
antiambiental. No interior de São Paulo, mistura conservadorismo empresarial e
antipetismo histórico. No Paraná, sobretudo em áreas urbanas e industriais,
reproduz um padrão semelhante ao catarinense, ainda que menos homogêneo.
A
diferença de Santa Catarina está na densidade cultural: ali, o bolsonarismo não
apenas disputa eleições — ele molda valores e comportamentos.
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Santa Catarina como antecipação do Brasil
O
alerta central da análise é inequívoco: Santa Catarina não é exceção regional;
é antecipação histórica.
O
estado funciona como laboratório onde a extrema direita:
• aprende a sobreviver sem líder
carismático;
• radicaliza o discurso sem perder base
social;
• e testa os limites da democracia sem
isolamento político relevante.
Em
cenários de crise econômica, instabilidade institucional ou intensificação da
guerra cultural, esse modelo pode irradiar para outras regiões.
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2026: menos Bolsonaro, mais bolsonarismo
O
principal risco para 2026 não é apenas Jair Bolsonaro — hoje juridicamente
fragilizado cumprindo pena de 27 anos na Papudinha —, mas a consolidação de um
bolsonarismo pós-Bolsonaro: menos personalista, mais ideológico, mais enraizado
socialmente.
Esse
movimento tende a:
• pressionar permanentemente o governo
Lula;
• tensionar o STF;
• corroer a confiança na imprensa e atacar
ciência;
• e manter viva a lógica de deslegitimação
eleitoral.
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Quando a barbárie vira método
Ao
comentar, no Programa 20 Minutos, o assassinato do cão Orelha — um animal idoso
e dócil espancado até a morte por adolescentes em Santa Catarina — Breno Altman
resumiu o sentimento de quem ainda se recusa a naturalizar o horror: “quanto
mais conheço a humanidade, mais gosto dos cachorros”.
Não era
ironia. Era diagnóstico.
Em
seguida, Breno formulou a pergunta que atravessa este artigo: a tortura e o
assassinato brutal de um ser indefeso não fazem parte do mesmo processo de
brutalização social alimentado pelo discurso extremista?
O crime
comoveu o país e levou pessoas às ruas. Mas tratá-lo como episódio isolado é
recusar-se a enxergar a realidade. Violência extrema não surge do nada. Ela é
ensinada, legitimada e normalizada.
O
bolsonarismo não se limita a atacar instituições. Ele rebaixa o valor da vida,
transforma empatia em fraqueza e converte a crueldade em identidade política.
Quando esse discurso se enraíza, ele transborda para o cotidiano e dissolve
freios morais básicos.
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Espelho incômodo
A morte
de Orelha expõe um limite rompido. Há ambientes onde a barbárie já não choca.
Onde a violência circula. Onde espancar um ser indefeso deixa de ser impensável
e vira apenas mais uma notícia.
Santa
Catarina reaparece, assim, como espelho incômodo. Não por essência regional,
mas porque ali o discurso extremista encontrou ambiente permissivo, socialmente
legitimado. O assassinato do cão não é desvio. É sintoma.
O risco
que o bolsonarismo representa para o Brasil não se resume a eleições. É a
corrosão do tecido moral da sociedade, a normalização da brutalidade e a
aceitação da violência como linguagem política.
Quando
uma sociedade chega a esse ponto, a democracia já está em perigo — não apenas
por golpes, mas porque parte da sociedade deixou de reconhecer limites éticos
elementares.
Santa
Catarina não é um caso distante. É um aviso. Ignorá-lo é aceitar que a barbárie
deixe de ser escândalo — e passe a ser método.
• Tony Garcia conta como foi usado por
Moro para derrubar Dilma e alerta sobre ataques a Lula
Em mais
uma entrevista impactante para o canal TV GGN, no Youtube, o empresário e
ex-deputado Tony Garcia contou bastidores inéditos da Operação Lava Jato. Ao
apresentador Luís Nassif, Garcia detalhou como foi usado por Sergio Moro e
procuradores de Curitiba para monitorar figuras como Eduardo Cunha e minar o
governo Dilma, que acabou sofrendo um impeachment e deixando o cargo em 2016.
A
entrevista exclusiva, veiculada na terça-feira (2), expôs ainda supostas
omissões de provas por parte de servidores da 13ª Vara Federal de Curitiba
durante operação autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal
Federal. Garcia também falou sobre a relação de agências norte-americanas como
CIA e FBI com o ex-juiz Sergio Moro, e das táticas de perseguição política e
midiática que foram usadas na Lava Jato e que, agora, se repetem com Lula na
esteira do escândalo do Banco Master.
Sob a
relatoria de Toffoli, o STF investiga a denúncia de que Moro [hoje senador com
foro privilegiado] e procuradores de Curitiba teriam usado Tony Garcia como
“agente infiltrado” afim de atingir alvos políticos e empresários influentes e
arrastá-los para processos judiciais. Ao GGN, Tony Garcia afirmou que uma de
suas missões foi manter conversas com o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha
– com quem tinha um relacionamento político bem próximo – com o objetivo de
mapear figuras que pudessem virar alvos da Lava Jato e alimentar a tempestade
perfeita criada contra o PT, que levou à queda do governo Dilma Roussef.
“Eles
[força-tarefa da Lava Jato] me usaram para o Eduardo Cunha narrar para mim tudo
o que eles podiam [usar] para irem atrás do PT. O Eduardo Cunha combinou uma
coisa comigo, e eles sabiam. Ele me dava o endereço de um Skype e a gente fazia
um Skype na hora. O Eduardo começava a me passar quem era o operador disso,
quem era aquele, nomes e caminhos, tudo. Eles me davam um calhamaço para eu
fazer perguntas para ele. Naquele momento, a gente fazia aquilo [Skype] para
não ser grampeado. E a cada noite eles me passavam o que queriam, eu falava com
o Eduardo, e o Eduardo me passava. Eles foram minando, inclusive, a Dilma
Rousseff“, relatou Tony Garcia.
Na
visão de Tony Garcia, o mesmo método lavajatista de forjar elos entre o
presidente de turno e escândalos de corrupção em investigação está sendo usado
pela grande mídia novamente, agora para tentar associar Lula ao escândalo do
Banco Master. O objetivo final seria o mesmo: causar instabilidade no governo
Lula e influenciar as eleições 2026.
“Essa
rede, eu conheço o que eles estão fazendo, eu sei como eles funcionam. Está
acontecendo tudo Igual. Eles estão repetindo as coisas de antes da prisão do
Lula e não há reação possível. É o sistema que quer derrubar o governo”,
alertou Garcia. “A rede lavajatista de Moro dentro das instituições é enorme.
Esse ano aqui, eles vão de novo carimbar nos governos do PT a corrupção”,
complementou.
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Obstrução de Justiça
Segundo
Tony Garcia, as gravações de conversas que manteve com outros alvos a mando de
Moro e do procuradores do Paraná foram encontradas na busca e apreensão feita
pela Polícia Federal na 13ª Vara Federal de Curitiba. Ele relatou que soube,
nos bastidores, que servidores da Vara, aliados de Moro, teriam tentado
dificultar a plena realização da diligência.
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“Eu sei o que eles fizeram de desrespeito à Polícia Federal na busca e
apreensão e ao ministro Toffoli. O ministro teve de se pronunciar algumas vezes
para eles entregarem as coisas para a Polícia Federal, que eles não queriam
entregar, porque eles sabem o que está lá. É uma coisa que devasta o TRF-4,
devasta o MPF, devasta o Moro, devasta essa gente toda, e vai trazer à baila
tudo que eles fizeram. (…) Não posso afirmar ainda, mas soube que foi suprimida
alguma coisa. Se isso aconteceu, é obstrução da justiça e isso traz o crime
para agora”, afirmou.
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Sigilo esconde escândalo internacional
O
inquérito que apura as denúncias feitas por Tony Garcia contra Moro e agentes
que atuaram na extinta Operação Lava Jato tramita no STF em segredo de Justiça.
Para Tony, se o ministro Dias Toffoli decidisse derrubar o sigilo, “viraria um
escândalo internacional de uma proporção que você não sabe, porque tem CIA, tem
FBI, tem tudo [envolvido]. (…) Me usaram por 20 anos para falar isso daí
[perseguir o PT]. (…) Está muito mais explosivo que a Lava Jato, porque pega
tudo.”
Fonte:
Jornal GGN

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