Maria
Luiza Falcão: O ouro e o crepúsculo da confiança
Há
momentos na história econômica em que um ativo deixa de ser apenas um
instrumento financeiro e passa a funcionar como linguagem — uma forma pela qual
o sistema expressa suas tensões, seus medos e seus deslocamentos de poder. O
ouro é, em 2026, exatamente essa linguagem.
Não
estamos diante apenas de um ciclo de valorização. O que se observa é um
movimento estrutural de busca por proteção, alimentado por incertezas
geopolíticas crescentes, dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal das grandes
economias e, sobretudo, pela erosão gradual da confiança na arquitetura
monetária que organizou o mundo desde o pós-guerra.
Nos
últimos anos, o ouro protagonizou uma das mais expressivas valorizações do
sistema financeiro internacional. Em 2025, os preços dispararam cerca de 65% —
o maior ganho anual desde o fim dos anos 1970 — e continuaram subindo em 2026,
acumulando alta de aproximadamente 15% já nas primeiras semanas do ano. Pela
primeira vez na história, o metal ultrapassou a marca de US$ 5.000 por onça,
enquanto a demanda global atingiu o recorde de 5.002 toneladas. Mais do que um
rali financeiro, esses números sugerem uma transformação na percepção global de
risco e de confiança monetária.
Quando
o ouro sobe de forma persistente, o mercado não está apenas procurando retorno.
Está procurando refúgio.
E
refúgios só se tornam necessários quando a previsibilidade começa a
desaparecer.
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O retorno do ativo-refúgio
O
avanço recente do ouro acompanha uma sucessão de tensões internacionais,
disputas comerciais, guerras localizadas e um ambiente financeiro cada vez mais
sensível ao risco político. Investidores e instituições voltam seus olhos para
o metal não por nostalgia, mas por cálculo racional.
Historicamente,
esse comportamento segue um padrão claro: quando o mundo parece estável, o
capital aceita risco; quando o mundo se torna opaco, o capital procura aquilo
que não depende de promessas. O ouro não depende.
Ele não
pode ser emitido por decisão política, não sofre sanções diretas, não carrega
risco soberano e não está vinculado ao ciclo econômico de um país específico.
Em momentos de incerteza sistêmica, essas características deixam de ser
meramente técnicas — tornam-se estratégicas.
Mais do
que um ativo, o ouro volta a ser percebido como reserva última de valor.
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O que os números revelam — e o que sugerem
O rali
recente não nasceu de um único fator, mas de uma convergência rara: juros em
trajetória incerta, tensões militares recorrentes, mercados financeiros
altamente alavancados e bancos centrais cada vez mais atentos à necessidade de
diversificação.
Essa
combinação aponta para algo maior do que um movimento conjuntural. Ela sugere
uma mudança na percepção global sobre risco.
O dado
mais relevante talvez não seja o tamanho da alta, mas sua persistência.
Mercados podem exagerar — mas dificilmente sustentam uma tendência longa sem
que haja uma transformação mais profunda na leitura do futuro.
E o
futuro, hoje, parece menos previsível do que em qualquer momento desde a crise
de 2008.
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Bancos centrais: o sinal que merece maior atenção
Em
economia internacional, o comportamento dos bancos centrais costuma dizer mais
do que qualquer comentário de mercado.
Autoridades
monetárias não operam guiadas por euforia nem por pânico. Operam por prudência.
Quando
ampliam reservas em ouro, estão implicitamente reduzindo a exposição a ativos
emitidos por terceiros — uma decisão que é simultaneamente técnica e política.
Nas
últimas décadas, especialmente após a crise financeira global, tornou-se
visível um movimento de recomposição das reservas internacionais. Países
emergentes, em particular, passaram a buscar maior autonomia diante de um
sistema financeiro que pode ser atravessado por sanções, bloqueios e pressões
estratégicas.
Não se
trata de abandonar moedas fortes. Trata-se de evitar dependência excessiva.
Essa
nuance é fundamental.
O ouro,
nesse contexto, funciona como uma espécie de seguro sistêmico — não contra uma
crise específica, mas contra a própria incerteza da ordem internacional.
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Ouro e dólar: rivalidade ou transformação silenciosa?
Durante
décadas ensinou-se que ouro e dólar mantinham uma relação inversa. Essa lógica
ainda ajuda a explicar parte dos movimentos — mas já não é suficiente para
compreender o presente.
O
fenômeno atual vai além da mecânica cambial.
O que
cresce no sistema internacional é a percepção de que moedas podem ser
instrumentalizadas geopoliticamente. Quando instrumentos financeiros passam a
integrar estratégias de poder, ativos considerados neutros ganham nova
centralidade.
Não
estamos diante do "fim do dólar". A moeda americana continua sendo o
principal eixo de liquidez global e ainda organiza grande parte das transações
internacionais.
O que
parece estar chegando ao fim é sua incontestabilidade.
Essa
diferença é decisiva — e frequentemente mal compreendida.
Ordens
monetárias raramente colapsam de forma abrupta. Elas se transformam lentamente,
à medida que Estados e instituições passam a construir alternativas.
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A financeirização do medo — e a racionalidade por trás dela
Outro
elemento revelador é a mudança no perfil da demanda. Em períodos de
estabilidade, o ouro tende a ser associado ao consumo — especialmente joias. Já
em momentos de ansiedade macroeconômica, cresce sua dimensão financeira.
Isso
não indica irracionalidade coletiva.
Indica
reprecificação do risco.
Mercados
são, antes de tudo, sistemas de antecipação. Quando grandes volumes migram para
ativos defensivos, o que está em jogo não é apenas o presente, mas a tentativa
de se proteger contra cenários considerados plausíveis — ainda que não
inevitáveis.
Nesse
sentido, o ouro costuma funcionar menos como termômetro do medo e mais como
barômetro da incerteza.
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Uma leitura de economia política
A
pergunta central não é por que o ouro sobe.
A
pergunta relevante é: confiança em quê está diminuindo?
Pelo
menos três fraturas parecem atravessar o momento atual.
A
primeira é a fragilidade crescente da governança internacional. A sucessão de
crises — financeiras, sanitárias, energéticas e militares — corroeu a crença
numa ordem previsível.
A
segunda é o nível de endividamento das grandes economias, que reacende temores
recorrentes de inflação futura, repressão financeira ou instabilidade cambial.
A
terceira — talvez a mais profunda — é a politização da moeda. Quando o sistema
financeiro passa a operar também como instrumento de disputa estratégica,
possuir reservas fora dele deixa de ser excentricidade e passa a ser prudência.
O ouro
emerge exatamente nesse ponto de interseção entre economia e poder.
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O metal como sintoma de um mundo em transição
A
expansão da demanda por ouro coincide com um cenário de redistribuição do poder
econômico global. Em várias regiões, acordos comerciais começam a incorporar
moedas nacionais, sistemas de compensação alternativos e mecanismos destinados
a reduzir vulnerabilidades externas.
Não se
trata de uma ruptura dramática — e sim de um processo gradual de adaptação.
O mundo
parece caminhar para uma estrutura mais plural, na qual diferentes polos buscam
ampliar margens de autonomia financeira.
Nesse
ambiente, o ouro funciona quase como uma moeda silenciosa da transição.
Ele não
substitui sistemas monetários. Mas revela que os Estados já não se sentem
confortáveis dependendo exclusivamente de um único centro.
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Quando o ouro fala, a história costuma estar mudando
Grandes
ciclos de valorização do metal frequentemente acompanharam momentos de
reorganização do capitalismo internacional — do fim de Bretton Woods às
turbulências do início do século XXI.
Não por
acaso.
O ouro
tende a subir quando a narrativa de estabilidade perde credibilidade.
Interpretar
esse movimento como simples reação emocional é um erro recorrente. Na maioria
das vezes, o metal apenas torna visível uma transformação que ainda não
encontrou linguagem política clara.
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O crepúsculo das certezas
O que
se delineia no horizonte não é necessariamente o colapso da ordem monetária
internacional, mas sua transformação gradual — um processo silencioso, porém
estrutural. A hegemonia do dólar persiste, mas já não opera sozinha nem de
forma incontestada. Em diferentes regiões do mundo, acordos comerciais passam a
incorporar moedas locais, mecanismos alternativos de compensação financeira e
arranjos destinados a reduzir a dependência de uma única referência monetária.
Não se
trata de ruptura imediata; trata-se de um deslocamento histórico.
Nesse
ambiente de transição, a valorização persistente do ouro deixa de ser apenas um
movimento defensivo de portfólio e passa a refletir uma reconfiguração mais
profunda da economia política internacional: a busca por ativos que não estejam
subordinados às decisões de um Estado específico e que preservem valor em um
sistema cada vez menos previsível.
O ouro,
portanto, não anuncia um colapso — mas sinaliza o esgotamento silencioso da
pretensão de universalidade que marcou a arquitetura monetária do pós-guerra. A
confiança, que durante décadas funcionou como pressuposto, tornou-se variável.
E
quando a confiança se torna variável, a história econômica já começou a mudar.
• Commodities em janeiro: metais disparam,
agro e energia aliviam o cenário inflacionário. Por Paulo Gala
O Banco
Central divulga mensalmente o Índice de Commodities Brasil (IC-Br), um
indicador que mede a evolução dos preços das principais commodities relevantes
para a inflação doméstica, tanto em reais quanto em dólares. Trata-se de um
indicador especialmente útil para acompanhar a dinâmica inflacionária, já que,
no fim do dia, altas ou quedas nos preços das commodities tendem a se traduzir
em pressões ou alívios sobre os preços ao consumidor.
Em
janeiro, o IC-Br medido em reais registrou alta de 1,95% em relação a dezembro,
mas esse movimento foi inteiramente puxado pelas commodities metálicas, que
subiram 14,65% no mês. Esse desempenho está associado ao rali observado em
ativos como ouro e prata, em um contexto de busca por alternativas ao dólar e
maior incerteza financeira global. O ouro chegou a patamares historicamente
elevados — próximo de cinco mil dólares a onça — e a prata também apresentou
forte valorização, embora parte desse movimento tenha começado a ser revertida
no fim do mês, com quedas expressivas na última sexta-feira, superiores a 10%
em alguns casos.
Esse
comportamento exige cautela. O ouro foi, sem dúvida, um dos melhores ativos da
última década e segue sendo uma alternativa relevante como reserva de valor. Já
a prata levanta mais dúvidas, e os criptoativos, em especial o Bitcoin,
apresentam um quadro ainda mais frágil. O Bitcoin recuou para a casa dos 67 mil
dólares, acumulando perdas importantes desde a eleição de Donald Trump, em meio
a preocupações com uma possível postura mais rigorosa da política monetária
americana — não necessariamente via alta de juros, mas por meio da redução do
balanço do Federal Reserve. Esse ajuste atingiu não apenas o Bitcoin, mas
praticamente todo o mercado de criptoativos, resultando em uma destruição de
valor significativa.
É
importante notar que o IC-Br de janeiro ainda captura o rali de ouro e prata
ocorrido ao longo do mês, algo que provavelmente não se repetirá em fevereiro,
quando a tendência já aponta para correções. Em contraste, o comportamento das
commodities energéticas e agropecuárias trouxe uma notícia bastante positiva.
Em reais, as commodities energéticas recuaram 4,02%, enquanto as agropecuárias
caíram 0,79% no mês.
Esse
movimento foi reforçado pela forte apreciação do real em janeiro, que reduziu
os preços das commodities em moeda local e atenuou o impacto da alta dos metais
preciosos. Vale lembrar que o IC-Br é fortemente concentrado em commodities
agropecuárias — como milho, trigo, soja e café — que representam cerca de 67%
do índice. Assim, a queda desses preços contribui diretamente para o alívio da
inflação de alimentos. As commodities energéticas respondem por aproximadamente
17% do índice, enquanto os metais têm peso próximo de 16%.
Quando
observado em dólares, o IC-Br subiu 4,10% em janeiro, indicando que a queda
relativa em reais se deveu, sobretudo, à valorização do câmbio. Em dólares, as
commodities metálicas avançaram 17,18%, as agropecuárias subiram 1,28%,
enquanto as energéticas recuaram 1,99%, com destaque para a queda do petróleo.
No
acumulado de 12 meses, o IC-Br em reais apresenta queda de 8,77%, um fator que
foi crucial para o controle da inflação ao longo do último ano. As commodities
energéticas caíram cerca de 23%, e as agropecuárias, quase 17%, refletindo
sobretudo condições do mercado internacional, clima e questões de oferta global
— e não uma ação direta da política monetária doméstica. As commodities
metálicas, por outro lado, ainda acumulam alta de cerca de 42% em 12 meses,
puxadas principalmente por ouro e prata.
Olhando
à frente, há sinais de possível exagero ou formação de bolha em alguns desses
ativos, especialmente no mercado de criptoativos e, em menor grau, na prata. O
ouro segue como uma classe de ativo defensiva relevante, mas o comportamento
futuro das commodities agropecuárias e energéticas será determinante para
avaliar se esse vetor continuará ajudando — ou não — os bancos centrais no
combate à inflação ao longo de 2026.
Fonte:
Brasil 247

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