sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Milhares de documentos de Epstein são derrubados após identificação de vítimas

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ, na sigla em inglês) retirou do seu website milhares de documentos relacionados ao caso Jeffrey Epstein, depois que vítimas declararam que suas identidades ficaram comprometidas.

Os advogados das vítimas atingidas afirmaram que edições mal feitas nos arquivos publicados na sexta-feira (30/1) "viraram de cabeça para baixo" a vida de cerca de 100 sobreviventes.

Os arquivos publicados continham endereços de e-mail e fotos nuas com nomes e rostos de possíveis vítimas, que poderiam ser identificadas.

As sobreviventes emitiram uma declaração, qualificando a publicação de "ultrajante", destacando que elas não deveriam ser "identificadas, analisadas e novamente expostas a traumas".

O DOJ afirma ter retirado todos os arquivos marcados e que os erros se deveram a "falhas técnicas e humanas".

Em carta enviada a um juiz federal na segunda-feira (2/2), o DOJ declarou que "todos os documentos indicados pelas vítimas ou por advogados para remoção até ontem à noite foram retirados para novas edições".

O Departamento afirmou que continua examinando novas solicitações e também verifica se há qualquer outro documento que possa necessitar de revisões adicionais. E acrescentou que uma "quantidade substancial" de documentos independentemente identificados também foi retirada do site.

Sob os termos da publicação, ordenada depois que as duas câmaras do Congresso americano aprovaram uma medida obrigando o DOJ a publicar os documentos, solicitou-se ao governo federal que editasse detalhes que pudessem identificar vítimas.

Na sexta-feira, dois advogados representantes das vítimas pediram a um juiz federal de Nova York que ordenasse ao DOJ a derrubada do website que contém os arquivos. O pedido qualifica a publicação de "o mais grave episódio isolado de violação da privacidade de vítimas em um único dia, na história dos Estados Unidos".

Os advogados Brittany Henderson e Brad Edwards afirmaram que houve uma "emergência reveladora que exige imediata intervenção judicial". Para eles, o DOJ "deixou de editar nomes de vítimas e outras informações de identificação pessoal em milhares de casos".

Diversas vítimas de Epstein acrescentaram comentários à carta. Uma delas descreveu a publicação como "potencialmente fatal" e outra declarou ter recebido ameaças de morte, depois que foram publicados seus dados bancários privados.

Em entrevista à BBC na terça-feira (3/2), Annie Farmer, sobrevivente de Epstein, declarou que "é difícil se concentrar nas informações novas trazidas à luz com tantos danos causados pelo DOJ ao expor sobreviventes desta forma".

Outra das vítimas de Epstein, Lisa Phillips, afirmou que muitas sobreviventes estavam "muito insatisfeitas com o resultado" da publicação.

"O DOJ violou todas as nossas três exigências", declarou ela à BBC na terça-feira.

"Primeiro, muitos documentos ainda não foram publicados. Segundo, a data definida para a publicação já passou há muito tempo. E, terceiro, o DOJ publicou os nomes de muitas das sobreviventes."

"Nosso sentimento é que estão brincando conosco, mas não vamos deixar de lutar", concluiu Phillips.

A advogada dos direitos das mulheres Gloria Allred representou muitas das vítimas de Epstein. Ela declarou anteriormente à BBC que os nomes de diversas vítimas haviam sido revelados na última publicação, incluindo algumas que ainda não haviam sido publicamente identificadas.

"Em alguns casos... há uma linha atravessando os nomes, mas ainda é possível ler", ela conta. "Em outros casos, eles mostraram fotos das vítimas — sobreviventes que nunca deram uma entrevista pública, não divulgaram publicamente seu nome."

Um porta-voz do DOJ declarou à rede CBS, parceira da BBC nos Estados Unidos, que o organismo "leva a proteção das vítimas muito a sério e editou milhares de nomes de vítimas dentre os milhões de páginas publicadas, para proteger inocentes."

O Departamento destacou ainda que está "trabalhando 24 horas por dia para resolver a questão" e "até o momento, 0,1% das páginas publicadas" continham informações não omitidas que poderiam identificar vítimas.

O DOJ publicou milhões de arquivos relativos a Epstein, desde que uma lei obrigou sua publicação no ano passado. Eles incluem três milhões de páginas, 180 mil imagens e 2 mil vídeos, publicados na última sexta-feira.

Esta publicação veio seis semanas depois que o Departamento perdeu o prazo sancionado em lei pelo presidente americano, Donald Trump, sob pressão bipartidária do Congresso, obrigando que todos os documentos relativos a Epstein viessem a público.

Acusado de tráfico sexual, Epstein morreu em uma cela de prisão em Nova York no dia 10 de agosto de 2019, enquanto aguardava julgamento.

¨      Os detalhes do exame post-mortem de Jeffrey Epstein nos últimos arquivos publicados

O governo dos Estados Unidos publicou fotos inéditas mostrando o corpo de Jeffrey Epstein (1953-2019) sobre uma maca, sendo atendido por médicos imediatamente após a sua morte.

Vinte dessas imagens foram divulgadas dentro do relatório do FBI sobre a morte de Epstein em custódia que estava sob sigilo até então. Algumas delas são sensíveis demais para serem publicadas.

Também foi divulgado um exame post-mortem, além de documentos internos da prisão.

Eles fazem parte de milhões de documentos publicados na sexta-feira (30/1), pelo Departamento de Justiça americano, no mais recente lote de arquivos de Epstein.

Jeffrey Epstein foi encontrado morto na sua cela da prisão, no dia 10 de agosto de 2019. Ele estava detido no Centro Correcional Metropolitano de Nova York, nos Estados Unidos, enquanto aguardava julgamento. Epstein foi acusado de conspiração e tráfico sexual.

O relatório do FBI recém-publicado é intitulado "Investigação sobre a morte de Jeffrey Epstein". Aparentemente, é um inquérito sobre sua morte, preparado pelo escritório de campo da agência em Nova York. Ele tem 23 páginas, cada uma delas, agora, com o carimbo "desclassificado".

A BBC Verify (o serviço de verificação de dados e imagens da BBC) observou os documentos. Eles não foram editados e mostram imagens em close do pescoço de Epstein e sinais visíveis de lesões.

Eles também contêm detalhes do exame post-mortem de Epstein e um relatório psicológico sobre sua saúde mental nos dias que antecederam seu suicídio.

Diversas das fotos mostram Epstein deitado sobre uma maca, com os médicos tentando ressuscitá-lo. Elas são datadas de 10 de agosto de 2019, com a indicação horária de 06:49, hora local — cerca de 16 minutos após ter sido encontrado desacordado na sua cela.

O local em que as fotos foram tiradas não está claro, mas Epstein foi transportado às 06h39 para um hospital próximo, onde foi declarado morto. Esta informação indica que as fotos teriam sido tiradas ali.

Três outras fotos têm indicações de terem sido tiradas em um hospital. Elas mostram um close da cabeça de Epstein, com uma lesão visível no pescoço.

Seu nome aparece em todas as fotos, mas seu primeiro nome é grafado erroneamente em algumas das imagens como "Jeffery", em vez de Jeffrey.

A BBC Verify realizou buscas reversas de imagens das fotos recém-publicadas do corpo de Epstein e não encontrou versões anteriores publicadas na internet antes de 30 de janeiro.

Também foram encontrados materiais comprobatórios nos arquivos publicados.

Eles incluem um relatório post-mortem de Epstein, de 89 páginas, escrito pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e pelo Escritório do Examinador Médico-Chefe (OCME, na sigla em inglês) de Nova York, além de e-mails do escritório de campo local do FBI, contendo as mesmas imagens, mas editadas.

Partes do exame post-mortem de Epstein preparado pelo OCME também aparecem no relatório, incluindo imagens de duas fraturas da cartilagem da tireoide de Epstein no seu pescoço.

O relatório do FBI inclui uma linha cronológica de seis páginas, do período em que Epstein ficou detido no Centro Correcional Metropolitano de Nova York. Ela cobre desde sua prisão, em 6 de julho de 2019, acusado de tráfico sexual, até sua morte.

O documento revela que Epstein estava sob vigilância por risco de suicídio, depois de ter tentado se matar em 23 de julho de 2019.

Na época, Epstein acusou seu colega de cela, o ex-policial Nicholas Tartaglione, preso por assassinato, de tentar matá-lo.

Em uma reunião com um psicólogo no dia seguinte, Epstein declarou que "não tinha interesse" em se matar e que tirar a própria vida "seria uma maluquice", segundo o documento.

No dia 25 de julho, ele declarou estar "muito dedicado a lutar pelo meu caso. Tenho uma vida e quero voltar a vivê-la", segundo o relatório do psicólogo.

Outros documentos publicados pelo Departamento de Justiça americano mostram que o guarda da prisão alertou que Epstein não deveria ser mantido sozinho. Ele enfatizou a necessidade de "verificações a cada 30 minutos" na sua cela e a realização de "rondas não anunciadas".

O colega de cela de Epstein foi liberado no dia antes da sua morte.

Na noite de 9 de agosto, guardas também deixaram de realizar as verificações programadas para as 3h e 5h, segundo os documentos da prisão. E o sistema de câmeras da unidade estava desligado.

Seu corpo foi encontrado durante uma verificação matinal realizada pelos funcionários.

Uma segunda versão editada do mesmo relatório do FBI, com apenas 17 páginas, também faz parte dos arquivos de Epstein já publicados. Ela não inclui o relatório do psicólogo, nem o cronograma da sua detenção, e as imagens do arquivo estão editadas.

Não se sabe ao certo por que versões editadas e não editadas do relatório foram incluídas nos arquivos.

A BBC entrou em contato com o Departamento de Justiça, pedindo comentários a respeito. O FBI se recusou a comentar o assunto.

¨      Ex-mulher de Bill Gates reage à implicação do fundador da Microsoft no escândalo Epstein

A bilionária filantropa Melinda French Gates disse que a menção de seu ex-marido, e fundador da Microsoft, Bill Gates, nos arquivos recém-divulgados do criminoso sexual Jeffrey Epstein trouxe de volta "momentos dolorosos do meu casamento".

Em um podcast da NPR, ela disse que sentia uma "tristeza inacreditável" e que "quaisquer perguntas que permaneçam" precisam ser respondidas por aqueles citados nos registros, incluindo seu ex-marido.

"Estou muito feliz por estar longe de toda essa sujeira", disse ela. O casal se divorciou em 2021.

Os documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos incluem uma alegação de Epstein de que Bill Gates contraiu uma doença sexualmente transmissível. O porta-voz de Gates classificou a alegação como "absolutamente absurda".

A BBC entrou em contato com seus representantes para comentar as declarações de sua ex-esposa.

Bill Gates não foi acusado de nenhum crime por nenhuma das vítimas de Epstein, e a inclusão de seu nome nos arquivos não implica em qualquer tipo de atividade criminosa.

O bilionário quebrou o silêncio sobre a divulgação de arquivos em uma entrevista à 9News na Austrália. Ele disse que as interações com Epstein se limitaram a jantares e que não visitou a ilha de Epstein.

"Me arrependo de cada minuto que passei com ele e peço desculpas por isso", acrescentou Gates.

Na entrevista ao podcast Wild Card da NPR, Melinda French Gates disse: "Para mim, é pessoalmente difícil sempre que esses detalhes vêm à tona, sabe? Porque isso traz de volta memórias de momentos muito, muito dolorosos do meu casamento."

E acrescentou: "Quaisquer perguntas que ainda existam sobre o quê - eu nem consigo começar a saber tudo - essas perguntas são para essas pessoas e até mesmo para o meu ex-marido. Eles precisam responder a essas perguntas, não eu."

A mídia americana noticiou que, antes da separação - que ocorreu após 27 anos de casamento - Melinda French Gates estava chateada com a ligação do marido com Epstein. Depois que a separação foi anunciada, Bill Gates admitiu ter tido um caso com uma funcionária da Microsoft em 2019.

As alegações contra Bill Gates foram incluídas em mais de três milhões de documentos divulgados na semana passada pelo Departamento de Justiça dos EUA.

Dois e-mails de 18 de julho de 2013 parecem ter sido redigidos por Epstein, mas não está claro se eles chegaram a ser enviados para Gates.

Ambos foram enviados da conta de e-mail de Epstein e devolvidos para a mesma conta, enquanto nenhuma conta de e-mail associada a Gates é visível e ambos os e-mails não estão assinados.

Um dos e-mails é escrito como uma carta de demissão da Fundação Bill e Melinda Gates e reclama de ter que comprar remédios para Bill "para lidar com as consequências do sexo com garotas russas".

O outro, que começa com "caro Bill", reclama do fim de uma amizade com Bill Gates e faz mais alegações de que Bill Gates tentou encobrir uma infecção sexualmente transmissível, inclusive contraída de sua então esposa, Melinda.

Em sua entrevista à mídia australiana, Bill Gates acrescentou que o e-mail nunca foi enviado e que seu conteúdo era "falso".

Ao longo dos anos, Bill Gates e seus representantes minimizaram sua ligação com Epstein. Ele já afirmou que tiveram apenas "alguns jantares" para discutir um projeto filantrópico que nunca se concretizou.

Após as últimas alegações, um porta-voz de Bill Gates declarou:

"A única coisa que esses documentos demonstram é a frustração de Epstein por não ter um relacionamento contínuo com Gates e os extremos a que ele chegaria para armar uma cilada e difamá-lo."

Eles acrescentaram: "Essas alegações — vindas de um mentiroso comprovadamente ressentido — são absolutamente absurdas e completamente falsas."

Muitos dos documentos, e-mails e fotos incluídos nos milhões de arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça na semana passada lançam luz sobre a vasta rede de Epstein, que incluía celebridades, chefes de empresas e líderes mundiais — contatos que persistiram, em alguns casos, mesmo após sua condenação em 2008 por aliciar uma menina de 14 anos para fins sexuais.

Epstein morreu em uma prisão de Nova York em 2019, enquanto aguardava julgamento em um caso de tráfico sexual.

 

Fonte: BBC News

 

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