Milhares
de documentos de Epstein são derrubados após identificação de vítimas
O
Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ, na sigla em inglês) retirou do
seu website milhares de documentos relacionados ao caso Jeffrey Epstein, depois que vítimas
declararam que suas identidades ficaram comprometidas.
Os
advogados das vítimas atingidas afirmaram que edições mal feitas nos arquivos publicados na sexta-feira (30/1)
"viraram de cabeça para baixo" a vida de cerca de 100 sobreviventes.
Os
arquivos publicados continham endereços de e-mail e fotos nuas com nomes e
rostos de possíveis vítimas, que poderiam ser identificadas.
As
sobreviventes emitiram uma declaração, qualificando a publicação de
"ultrajante", destacando que elas não deveriam ser
"identificadas, analisadas e novamente expostas a traumas".
O DOJ
afirma ter retirado todos os arquivos marcados e que os erros se deveram a
"falhas técnicas e humanas".
Em
carta enviada a um juiz federal na segunda-feira (2/2), o DOJ declarou que
"todos os documentos indicados pelas vítimas ou por advogados para remoção
até ontem à noite foram retirados para novas edições".
O
Departamento afirmou que continua examinando novas solicitações e também
verifica se há qualquer outro documento que possa necessitar de revisões
adicionais. E acrescentou que uma "quantidade substancial" de
documentos independentemente identificados também foi retirada do site.
Sob os
termos da publicação, ordenada depois que as duas câmaras do Congresso
americano aprovaram uma medida obrigando o DOJ a publicar os documentos,
solicitou-se ao governo federal que editasse detalhes que pudessem identificar
vítimas.
Na
sexta-feira, dois advogados representantes das vítimas pediram a um juiz
federal de Nova York que ordenasse ao DOJ a derrubada do website que contém os
arquivos. O pedido qualifica a publicação de "o mais grave episódio
isolado de violação da privacidade de vítimas em um único dia, na história dos
Estados Unidos".
Os
advogados Brittany Henderson e Brad Edwards afirmaram que houve uma
"emergência reveladora que exige imediata intervenção judicial". Para
eles, o DOJ "deixou de editar nomes de vítimas e outras informações de
identificação pessoal em milhares de casos".
Diversas
vítimas de Epstein acrescentaram comentários à carta. Uma delas descreveu a
publicação como "potencialmente fatal" e outra declarou ter recebido
ameaças de morte, depois que foram publicados seus dados bancários privados.
Em
entrevista à BBC na terça-feira (3/2), Annie Farmer, sobrevivente de Epstein,
declarou que "é difícil se concentrar nas informações novas trazidas à luz
com tantos danos causados pelo DOJ ao expor sobreviventes desta forma".
Outra
das vítimas de Epstein, Lisa Phillips, afirmou que muitas sobreviventes estavam
"muito insatisfeitas com o resultado" da publicação.
"O
DOJ violou todas as nossas três exigências", declarou ela à BBC na
terça-feira.
"Primeiro,
muitos documentos ainda não foram publicados. Segundo, a data definida para a
publicação já passou há muito tempo. E, terceiro, o DOJ publicou os nomes de
muitas das sobreviventes."
"Nosso
sentimento é que estão brincando conosco, mas não vamos deixar de lutar",
concluiu Phillips.
A
advogada dos direitos das mulheres Gloria Allred representou muitas das vítimas
de Epstein. Ela declarou anteriormente à BBC que os nomes de diversas vítimas
haviam sido revelados na última publicação, incluindo algumas que ainda não
haviam sido publicamente identificadas.
"Em
alguns casos... há uma linha atravessando os nomes, mas ainda é possível
ler", ela conta. "Em outros casos, eles mostraram fotos das vítimas —
sobreviventes que nunca deram uma entrevista pública, não divulgaram
publicamente seu nome."
Um
porta-voz do DOJ declarou à rede CBS, parceira da BBC nos Estados Unidos, que o
organismo "leva a proteção das vítimas muito a sério e editou milhares de
nomes de vítimas dentre os milhões de páginas publicadas, para proteger
inocentes."
O
Departamento destacou ainda que está "trabalhando 24 horas por dia para
resolver a questão" e "até o momento, 0,1% das páginas
publicadas" continham informações não omitidas que poderiam identificar
vítimas.
O DOJ
publicou milhões de arquivos relativos a Epstein, desde que uma lei obrigou sua publicação no ano passado.
Eles incluem três milhões de páginas, 180 mil imagens e 2 mil vídeos,
publicados na última sexta-feira.
Esta
publicação veio seis semanas depois que o Departamento perdeu o prazo
sancionado em lei pelo presidente americano, Donald Trump, sob pressão
bipartidária do Congresso, obrigando que todos os documentos relativos a
Epstein viessem a público.
Acusado
de tráfico sexual, Epstein morreu em uma cela de prisão em Nova York no dia 10
de agosto de 2019, enquanto aguardava julgamento.
¨
Os detalhes do exame post-mortem de Jeffrey Epstein nos
últimos arquivos publicados
O
governo dos Estados Unidos publicou fotos inéditas mostrando o corpo de Jeffrey Epstein (1953-2019)
sobre uma maca, sendo atendido por médicos imediatamente após a sua morte.
Vinte
dessas imagens foram divulgadas dentro do relatório do FBI sobre a morte de
Epstein em custódia que estava sob sigilo até então. Algumas delas são
sensíveis demais para serem publicadas.
Também
foi divulgado um exame post-mortem, além de documentos internos da prisão.
Eles
fazem parte de milhões de documentos publicados na sexta-feira (30/1), pelo
Departamento de Justiça americano, no mais recente lote de arquivos de Epstein.
Jeffrey
Epstein foi encontrado morto na sua cela da
prisão,
no dia 10 de agosto de 2019. Ele estava detido no Centro Correcional
Metropolitano de Nova York, nos Estados Unidos, enquanto aguardava julgamento.
Epstein foi acusado de conspiração e tráfico sexual.
O
relatório do FBI recém-publicado é intitulado "Investigação sobre a morte
de Jeffrey Epstein". Aparentemente, é um inquérito sobre sua morte,
preparado pelo escritório de campo da agência em Nova York. Ele tem 23 páginas,
cada uma delas, agora, com o carimbo "desclassificado".
A BBC
Verify (o serviço de verificação de dados e imagens da BBC) observou os
documentos. Eles não foram editados e mostram imagens em close do pescoço de
Epstein e sinais visíveis de lesões.
Eles
também contêm detalhes do exame post-mortem de Epstein e um relatório
psicológico sobre sua saúde mental nos dias que antecederam seu suicídio.
Diversas
das fotos mostram Epstein deitado sobre uma maca, com os médicos tentando
ressuscitá-lo. Elas são datadas de 10 de agosto de 2019, com a indicação
horária de 06:49, hora local — cerca de 16 minutos após ter sido encontrado
desacordado na sua cela.
O local
em que as fotos foram tiradas não está claro, mas Epstein foi transportado às
06h39 para um hospital próximo, onde foi declarado morto. Esta informação
indica que as fotos teriam sido tiradas ali.
Três
outras fotos têm indicações de terem sido tiradas em um hospital. Elas mostram
um close da cabeça de Epstein, com uma lesão visível no pescoço.
Seu
nome aparece em todas as fotos, mas seu primeiro nome é grafado erroneamente em
algumas das imagens como "Jeffery", em vez de Jeffrey.
A BBC
Verify realizou buscas reversas de imagens das fotos recém-publicadas do corpo
de Epstein e não encontrou versões anteriores publicadas na internet antes de
30 de janeiro.
Também
foram encontrados materiais comprobatórios nos arquivos publicados.
Eles
incluem um relatório post-mortem de Epstein, de 89 páginas, escrito pelo
Departamento de Justiça dos Estados Unidos e pelo Escritório do Examinador
Médico-Chefe (OCME, na sigla em inglês) de Nova York, além de e-mails do
escritório de campo local do FBI, contendo as mesmas imagens, mas editadas.
Partes
do exame post-mortem de Epstein preparado pelo OCME também aparecem no
relatório, incluindo imagens de duas fraturas da cartilagem da tireoide de
Epstein no seu pescoço.
O
relatório do FBI inclui uma linha cronológica de seis páginas, do período em
que Epstein ficou detido no Centro Correcional Metropolitano de Nova York. Ela
cobre desde sua prisão, em 6 de julho de 2019, acusado de tráfico sexual, até
sua morte.
O
documento revela que Epstein estava sob vigilância por risco de suicídio,
depois de ter tentado se matar em 23 de julho de 2019.
Na
época, Epstein acusou seu colega de cela, o ex-policial Nicholas Tartaglione,
preso por assassinato, de tentar matá-lo.
Em uma
reunião com um psicólogo no dia seguinte, Epstein declarou que "não tinha
interesse" em se matar e que tirar a própria vida "seria uma
maluquice", segundo o documento.
No dia
25 de julho, ele declarou estar "muito dedicado a lutar pelo meu caso.
Tenho uma vida e quero voltar a vivê-la", segundo o relatório do
psicólogo.
Outros
documentos publicados pelo Departamento de Justiça americano mostram que o
guarda da prisão alertou que Epstein não deveria ser mantido sozinho. Ele
enfatizou a necessidade de "verificações a cada 30 minutos" na sua
cela e a realização de "rondas não anunciadas".
O
colega de cela de Epstein foi liberado no dia antes da sua morte.
Na
noite de 9 de agosto, guardas também deixaram de realizar as verificações
programadas para as 3h e 5h, segundo os documentos da prisão. E o sistema de
câmeras da unidade estava desligado.
Seu
corpo foi encontrado durante uma verificação matinal realizada pelos
funcionários.
Uma
segunda versão editada do mesmo relatório do FBI, com apenas 17 páginas, também
faz parte dos arquivos de Epstein já publicados. Ela não inclui o relatório do
psicólogo, nem o cronograma da sua detenção, e as imagens do arquivo estão
editadas.
Não se
sabe ao certo por que versões editadas e não editadas do relatório foram
incluídas nos arquivos.
A BBC
entrou em contato com o Departamento de Justiça, pedindo comentários a
respeito. O FBI se recusou a comentar o assunto.
¨
Ex-mulher de Bill Gates reage à implicação do fundador da
Microsoft no escândalo Epstein
A
bilionária filantropa Melinda French Gates disse que a menção de seu ex-marido,
e fundador da Microsoft, Bill Gates, nos arquivos recém-divulgados do
criminoso sexual Jeffrey Epstein trouxe de volta "momentos
dolorosos do meu casamento".
Em um
podcast da NPR, ela disse que sentia uma "tristeza inacreditável" e
que "quaisquer perguntas que permaneçam" precisam ser respondidas por
aqueles citados nos registros, incluindo seu ex-marido.
"Estou
muito feliz por estar longe de toda essa sujeira", disse ela. O casal se
divorciou em 2021.
Os
documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos incluem uma
alegação de Epstein de que Bill Gates contraiu uma doença sexualmente
transmissível. O porta-voz de Gates classificou a alegação como
"absolutamente absurda".
A BBC
entrou em contato com seus representantes para comentar as declarações de sua
ex-esposa.
Bill
Gates não foi acusado de nenhum crime por nenhuma das vítimas de Epstein, e a
inclusão de seu nome nos arquivos não implica em qualquer tipo de atividade
criminosa.
O
bilionário quebrou o silêncio sobre a divulgação de arquivos em uma entrevista
à 9News na Austrália. Ele disse que as interações com Epstein se limitaram a
jantares e que não visitou a ilha de Epstein.
"Me
arrependo de cada minuto que passei com ele e peço desculpas por isso",
acrescentou Gates.
Na
entrevista ao podcast Wild Card da NPR, Melinda French Gates
disse: "Para mim, é pessoalmente difícil sempre que esses detalhes vêm à
tona, sabe? Porque isso traz de volta memórias de momentos muito, muito
dolorosos do meu casamento."
E
acrescentou: "Quaisquer perguntas que ainda existam sobre o quê - eu nem
consigo começar a saber tudo - essas perguntas são para essas pessoas e até
mesmo para o meu ex-marido. Eles precisam responder a essas perguntas, não
eu."
A mídia
americana noticiou que, antes da separação - que ocorreu após 27 anos de
casamento - Melinda French Gates estava chateada com a ligação do marido com
Epstein. Depois que a separação foi anunciada, Bill Gates admitiu ter tido um
caso com uma funcionária da Microsoft em 2019.
As
alegações contra Bill Gates foram incluídas em mais de três milhões de
documentos divulgados na semana passada pelo Departamento de Justiça dos EUA.
Dois
e-mails de 18 de julho de 2013 parecem ter sido redigidos por Epstein, mas não
está claro se eles chegaram a ser enviados para Gates.
Ambos
foram enviados da conta de e-mail de Epstein e devolvidos para a mesma conta,
enquanto nenhuma conta de e-mail associada a Gates é visível e ambos os e-mails
não estão assinados.
Um dos
e-mails é escrito como uma carta de demissão da Fundação Bill e Melinda Gates e
reclama de ter que comprar remédios para Bill "para lidar com as
consequências do sexo com garotas russas".
O
outro, que começa com "caro Bill", reclama do fim de uma amizade com
Bill Gates e faz mais alegações de que Bill Gates tentou encobrir uma infecção
sexualmente transmissível, inclusive contraída de sua então esposa, Melinda.
Em sua
entrevista à mídia australiana, Bill Gates acrescentou que o e-mail nunca foi
enviado e que seu conteúdo era "falso".
Ao
longo dos anos, Bill Gates e seus representantes minimizaram sua ligação com
Epstein. Ele já afirmou que tiveram apenas "alguns jantares" para
discutir um projeto filantrópico que nunca se concretizou.
Após as
últimas alegações, um porta-voz de Bill Gates declarou:
"A
única coisa que esses documentos demonstram é a frustração de Epstein por não
ter um relacionamento contínuo com Gates e os extremos a que ele chegaria para
armar uma cilada e difamá-lo."
Eles
acrescentaram: "Essas alegações — vindas de um mentiroso comprovadamente
ressentido — são absolutamente absurdas e completamente falsas."
Muitos
dos documentos, e-mails e fotos incluídos nos milhões de arquivos divulgados
pelo Departamento de Justiça na semana passada lançam luz sobre a vasta rede de
Epstein, que incluía celebridades, chefes de empresas e líderes mundiais —
contatos que persistiram, em alguns casos, mesmo após sua condenação em 2008
por aliciar uma menina de 14 anos para fins sexuais.
Epstein
morreu em uma prisão de Nova York em 2019, enquanto aguardava julgamento em um
caso de tráfico sexual.
Fonte:
BBC News

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