sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Afastamento dos EUA fez Europa finalmente reconhecer que China é uma grande potência, diz analista

A política externa agressiva adotada pelos EUA está remodelando a geopolítica global e um dos sintomas mais visíveis dessa tendência é o degelo das relações entre União Europeia (UE) e países asiáticos, principalmente a China.

Em visita recente a Pequim, a primeira de um líder britânico à China em oito anos, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, se reuniu com o presidente chinês, Xi Jinping, para celebrar o recomeço nas relações entre os países com acordos bilaterais e parcerias econômicas. Starmer defendeu a aproximação em prol da estabilidade global "em tempos desafiadores para o mundo".

Paralelamente, Vietnã e UE elevaram as relações para o nível máximo diplomático, durante visita do presidente do Conselho Europeu, António Costa, ao país. A medida veio dois dias após UE e Índia concluírem um abrangente acordo de livre comércio que vinha sendo negociado desde 2007.

A retomada das relações entre UE e países asiáticos ainda conta com arestas a serem aparadas no que diz respeito às relações comerciais. Nesta quarta-feira (4), por exemplo, o Ministério das Relações Exteriores da China instou a UE a "honrar seu compromisso com a abertura de mercado e a concorrência leal" e a "parar de abusar de instrumentos comerciais unilaterais" em sua política externa.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Carolina Pavese, especialista em Europa e doutora em relações internacionais pela London School of Economics, afirma que a aliança transatlântica, que se costurou como a grande parceria do Ocidente após a Segunda Guerra Mundial, se transformou em uma relação de interdependência assimétrica, onde a Europa é a ponta mais fraca.

Diante disso, há a necessidade de diversificação de parcerias não só pelo bem doméstico do continente, mas também para "se resgatar de um declínio que já vem há algum tempo na política internacional."

"As tentativas de reaproximação de parceiros na Ásia, sinaliza uma mudança de estratégia de política externa em que os rivais passam a ser potenciais parceiros na diversificação da política externa e na diversificação de alianças da Europa."

De qualquer forma, avalia a especialista, esse ensaio de uma reaproximação com a Ásia, que começa com uma agenda comercial forte mas não consolidada, dificilmente vai substituir a relação que existe com Washington, que continuam como o principal aliado dos europeus.

Pavese salienta que a segurança permanece como um ponto de tensão nas novas relações que estão se formando. Nesse sentido, o pragmatismo que sustenta a reaproximação com a Ásia vem acompanhado de cautela.

"Não há, pelo menos na configuração desse grande jogo de xadrez, sinalização de que a Europa consiga ou ser independente e autônoma na sua própria segurança, ou diversificar também essa dependência e apostar em parcerias na área militar e de segurança com outros países."

Em sua visão, ainda não houve uma mudança no entendimento europeu de que a China é um grande rival comercial e tecnológico do continente, pelo qual também passam os desafios de acesso a recursos estratégicos.

Por um lado, diz Pavese, a política "unilateral, isolacionista e pouco ortodoxa" da Casa Branca tem acelerado mudanças na ordem internacional, levando países que antes favoreciam o Ocidente agora revejam seu apoio.

Já por outro, a aproximação de líderes europeus de Pequim indica que o continente finalmente percebeu que ganha-se mais estando ao lado da China do que contra ela, seja em termos econômicos, seja em influência nas relações internacionais.

"Esse movimento da Europa sinaliza o reconhecimento de que a China é uma grande potência, e uma grande potência que, em muitas frentes, é melhor tê-la por perto e aproveitar."

¨      Europa se volta ao Sul Global em busca de autonomia por desgaste com EUA, avaliam analistas

A relação entre Estados Unidos e Europa, historicamente considerada um dos pilares centrais da ordem internacional do pós-guerra, atravessa um período de desgaste visível. Embora a parceria transatlântica siga sustentada por interesses comuns, acordos econômicos e cooperação militar, crescem sinais de desconfiança em capitais europeias diante de decisões e discursos vindos de Washington.

Nos últimos anos, a percepção europeia sobre a Casa Branca tem sido influenciada por uma combinação de fatores: disputas comerciais e protecionismo, divergências sobre estratégias de segurança e a cobrança constante para que membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte elevem seus gastos com defesa em meio a períodos de recessão econômica.

Ao mesmo tempo, mudanças abruptas de prioridades em política externa como a invasão à Venezuela e as ameaças de anexação da Groenlândia, alimentam o temor de que a Europa esteja vulnerável devido a sua falta de capacidade de articular uma resposta.

Entre a necessidade de manter a cooperação com Washington e o impulso de construir maior autonomia estratégica, líderes europeus enfrentam um dilema: até que ponto é possível depender dos estadunidenses como fiadores de segurança e parceiro confiável em um cenário internacional cada vez mais competitivo e fragmentado?

No Mundioka de quarta-feira (04), podcast da Sputnik Brasil, vamos analisar se a Europa está caminhando para uma autonomia maior e até que ponto pode fazer isso sem romper sua aliança histórica com os norte-americanos.

Para Clayton Cunha Filho, professor de ciência política da Universidade Federal do Ceará, há uma profunda reestruturação acontecendo na ordem internacional, sob o patrocínio de Washington, e que a antiga ordem dificilmente será restaurada, mesmo com uma mudança de presidência no Salão Oval.

O professor lembra que, após a Segunda Guerra Mundial, a Europa dependeu muito dos EUA para sua proteção – a criação da OTAN como pacto de defesa contra União Soviética – e sua reconstrução – o surgimento do Plano Marshall para o desenvolvimento das economias europeias.

Nesse contexto, os países europeus não precisavam se preocupar tanto com a questão armamentista porque tinham esse "grande escudo" dos Estados Unidos

"O que a gente está vendo hoje, aparentemente, é uma nova estratégia dos EUA muito mais voltada ao poder duro, em vez de poder brando, basicamente se escudando em ela ser a maior potência militar do mundo, que tem as maiores Forças Armadas, maior Força Aérea, maior Força Naval, bases militares espalhadas pelo mundo todo."

Segundo Cunha Filho, a mudança de estratégia norte-americana representa uma volta às políticas de esfera de influência, em que grandes potências, como Washington e Moscou, consolidam hegemonias regionais.

"A gente está nesse período que chamam de 'neblina de guerra', onde tem tanta coisa acontecendo e você não consegue ter exatamente certeza de para onde tudo está indo".

Para Monica Lessa, professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a reconfiguração da aliança entre os EUA e a Europa se explica por dois fatores.

O primeiro é que o atual governo norte-americano se posiciona de forma crítica à globalização e ao multilateralismo, avaliando que esses mecanismos favoreceram a ascensão competitiva da China. O segundo é a percepção, hoje predominante na Casa Branca, de que Washington deveria adotar uma postura mais assertiva no comércio exterior, priorizando ganhos econômicos diretos em vez de concentrar esforços na mediação de conflitos e na manutenção de uma hegemonia geopolítica regionalizada.

Para não ficar à mercê das oscilações de Washington, líderes europeus têm sinalizado a busca por alternativas e por maior autonomia estratégica, diversificando parcerias e ampliando interlocução com outras potências e com o Sul Global, em um movimento que busca retomar a ordem multipolar.

Para Lessa, esse reposicionamento também está ligado a uma preocupação econômica concreta: se a Europa quiser garantir acesso a minérios e matérias-primas essenciais para competir em setores estratégicos, terá de recorrer a importações — e isso impõe o desafio adicional de manter capacidade tecnológica e industrial para transformar esses insumos em vantagem competitiva.

Nesse sentido, Lessa aponta que o renovado impulso europeu para destravar o acordo Mercosul-União Europeia — negociado há cerca de 25 anos — foi interpretado como uma espécie de "tábua de salvação" em debates e jornais europeus. Ainda que o tratado enfrente entraves históricos, como o chamado "nó agrícola" e resistências internas de pequenos proprietários rurais europeus, a professora destaca que o entusiasmo recente por parte dos líderes do continente não era observado com a mesma intensidade em anos anteriores.

"Se o acordo vai ser realmente assinado, a gente não sabe, porque ele vai ter que passar por todo esse processo. Também não sabemos como vão reagir os EUA, porque o discurso da doutrina Monroe significa que a América Latina, que a América do Sul, ela é zona de influência exclusiva dos EUA."

¨      EUA propõem bloco de 'minerais críticos' para competir com China

Washington propôs nesta quarta-feira (4) a criação de um bloco de países aliados para garantir o fornecimento de minerais críticos e reduzir a dependência global da China desses materiais essenciais para a indústria tecnológica e de defesa.

"Queremos que os membros formem um bloco comercial entre aliados e parceiros, que assegure o acesso dos EUA aos recursos necessários para seu poder industrial", afirmou o vice-presidente J.D. Vance durante uma reunião ministerial realizada pelo Departamento de Estado.

O encontro reuniu representantes de 55 países, dentre eles México e Japão, além da União Europeia. Os EUA propõem expandir a produção e diversificar as cadeias de suprimento por meio de novos investimentos e marcos de cooperação.

O secretário de Estado, Marco Rubio, alertou que a concentração do fornecimento desses minerais em um único país representa "um risco geopolítico" e "uma possível ferramenta de pressão".

A Casa Branca adotou medidas agressivas para fomentar a produção doméstica de terras raras, fundamentais para tecnologias como smartphones, veículos elétricos e sistemas de defesa. Segundo o Financial Times, empresas como MP Materials, USA Rare Earth e Lynas viram suas ações mais que dobrarem em valor, refletindo o apoio governamental e o clima de urgência geopolítica.

O movimento também beneficia mineradoras de outros metais críticos, como lítio, cobalto e germânio. Recentemente, os EUA adquiriram participações em empresas canadenses como Lithium Americas e Trilogy Metals, cujas ações dispararam após os anúncios. O plano inclui a criação de uma reserva estratégica e um piso de preço para proteger o mercado da volatilidade.

Para acelerar a produção, o governo flexibilizou regras ambientais e agilizou licenças, promovendo a política "mine, baby, mine" (minere, meu bem, minere) — um trocadilho com a expressão usada por Trump em políticas energéticas para incentivar a exploração de petróleo.

Com isso, a tensão com a China aumentou após novos controles de exportação impostos por Pequim, que agora exige aprovação para exportar ímãs com traços de terras raras.

Minerais como lítio, alumínio e zinco são fundamentais para baterias, semicondutores e tecnologias estratégicas. A China domina globalmente a cadeia de terras raras, cerca de 70% da extração, mais de 90% do refino e 93% da fabricação de ímãs permanentes.

¨      Paz na Ucrânia é possível caso União Europeia deixe de prejudicá-la, afirma político

Uma solução duradoura e de longo prazo para o conflito na Ucrânia só será possível se a União Europeia (UE) parar de prejudicar o processo de paz, declarou à Sputnik o presidente e cofundador do partido italiano Democracia Soberana Popular, Francesco Toscano.

Ao comentar o que chamou de ações destrutivas da UE, o político da oposição italiana disse que nas estruturas do bloco existe uma "força fora de controle", que se alimenta de uma retórica de incitação disfarçada em formulações pseudo-legais.

"A ideia de uma paz duradoura e de longo prazo na Ucrânia só pode surgir quando a União Europeia for colocada em condições que a impeçam de causar danos", afirmou Toscano.

Por perder, em sua avaliação, os fundamentos para existir no mundo moderno e ter se tornado uma organização perigosa, a Europa precisa, segundo ele, retornar ao protagonismo dos Estados individuais, que devem reassumir as rédeas internas da tomada de decisão e deixar de delegar poderes.

"É uma estrutura antiga e ossificada. […] É uma superestrutura perigosa, que perdeu sua razão de existir em um mundo em transformação", declarou o político.

Sobre a liderança da UE, Toscano chamou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e seus colegas de "figuras sem peso político significativo", que, em sua opinião, arriscam a causar sérios prejuízos.

Ao responder sobre a posição de Kiev nas negociações de paz, Toscano avaliou que o lado ucraniano nunca teve "cartas reais" na mão.

"Kiev é o resultado da má-fé da política ocidental, que há muito usa várias alavancas para mudar o poder nos países que fazem fronteira com a Rússia, buscando infligir uma derrota estratégica", destacou.

Esse período, porém, já teria chegado ao fim, segundo Toscano. Agora não seria mais hora de iniciar "revoluções coloridas" e fomentar conflitos que servem apenas para preservar o poder nas mãos de um círculo restrito no Ocidente, concluiu.

Em setembro do ano passado, o porta-voz do presidente russo, Dmitry Peskov, afirmou que a Rússia está pronta para buscar formas pacíficas de resolver o conflito ucraniano, mas que os europeus estariam atrapalhando esse processo.

¨      Rússia insta a comunidade internacional a conter o fluxo de armas da Ucrânia para a África

A Rússia apela à comunidade internacional para que impeça o tráfico de armas e terminais da Starlink da Ucrânia para militantes em países africanos, afirmou nesta quarta-feira (4) o representante permanente da Rússia na Organização das Nações Unidas (ONU), Vasily Nebenzya.

"Apelamos à comunidade internacional para tomar medidas eficazes para impedir que armas e seus componentes caiam nas mãos de terroristas. O fornecimento de armas a militantes não deve ficar impune", disse Nebenzya durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre ameaças à paz e segurança internacionais causadas por atos terroristas.

Nebenzya acrescentou que as armas provenientes da Ucrânia chegam aos militantes em toda a África através do mercado negro e que o seu tráfico está a aumentar.

O diplomata enfatizou a necessidade de impedir que o grupo terrorista Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e em muitos outros países) e seus afiliados adquiram e utilizem terminais comerciais de comunicação via satélite, incluindo o Starlink.

"Esperamos que os Estados sob cuja jurisdição operam as empresas de tecnologia em questão demonstrem prudência e tomem medidas eficazes para impedir que essas tecnologias caiam nas mãos de terroristas", enfatizou o representante russo.

Em novembro de 2024, a mídia francesa noticiou, citando uma fonte militar no Mali, que terroristas da aliança de grupos separatistas armados malianos CSP-DPA viajaram para a Ucrânia para treinamento.

A representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, disse à Sputnik que a Ucrânia estava apoiando grupos terroristas em países africanos aliados a Moscou porque era incapaz de derrotar a Rússia no campo de batalha. Em 2024, o Mali rompeu relações diplomáticas com a Ucrânia.

¨      Expiração do Tratado Novo START pode facilitar diálogo entre Rússia e EUA, diz especialista

O término da vigência do Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Novo START) poderia criar condições para a retomada do diálogo entre Moscou e Washington, avaliou à Sputnik o analista militar italiano Domenico Leggiero.

O presidente da Associação Italiana das Vítimas do Urânio Empobrecido e chefe do centro de pesquisa Observatório Militar afirmou que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos percebem que a era da ordem mundial bipolar ficou no passado, e acrescentou que existe uma probabilidade de retomada do diálogo entre as partes.

"A conclusão do Tratado Novo START poderia ter um efeito positivo no sentido de incentivar as partes a negociar, pelo menos externamente", avaliou o especialista.

Ele ressaltou que a liderança russa demonstra sua prontidão para renovar o diálogo político com os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Leggiero sublinhou que os acordos exclusivos entre Washington e Moscou perdem parcialmente sua importância anterior, uma vez que existem forças tão relevantes como a Índia e a China na emergente ordem mundial multipolar.

Seja como for, a existência do tratado entre as duas potências ajudou a evitar conflitos e a fortalecer a confiança mútua, disse à Sputnik o especialista da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN, na sigla em inglês), Alistair Burnett.

"A existência do Tratado Novo START ajudou a reduzir o risco de conflito, construindo confiança e melhorando o entendimento mútuo entre representantes dos dois países em questões relacionadas a armas nucleares", afirmou.

Nesta quarta-feira, 5 de fevereiro de 2026, expira o acordo russo-americano Novo START, o último instrumento vigente que regulamenta os arsenais nucleares estratégicos da Rússia e dos Estados Unidos.

Com a expiração do tratado, os dois países terão o direito de implantar ogivas nucleares adicionais que estavam anteriormente armazenadas. Segundo estimativas de especialistas, em um cenário extremo, seu número total pode chegar a dobrar.

O presidente russo, Vladimir Putin, anunciou a disposição da Rússia de aderir às restrições do Novo START por um ano após o fim do acordo. Essa iniciativa ainda está "sobre a mesa", mas Moscou ainda não recebeu uma resposta dos Estados Unidos, declarou anteriormente o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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