Câncer
no Brasil expõe país dividido entre prevenção e diagnóstico tardio; veja tipos
mais letais por região
O
Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026
e 2028, segundo a nova estimativa divulgada pelo Instituto Nacional de Câncer
(Inca).
🔴 Mais do que indicar o avanço da
doença, o levantamento revela um país profundamente desigual: enquanto parte da
população convive com cânceres que estão associados ao envelhecimento e ao
estilo de vida urbano, outra ainda enfrenta tumores amplamente preveníveis,
diagnosticados tardiamente e concentrados nas regiões mais pobres.
O
retrato traçado pelo Inca mostra que o câncer já se consolidou como um dos
principais desafios de saúde pública do país. De acordo com o instituto, é
possível que em um futuro próximo essa seja a principal causa de morte no
Brasil, superando doenças historicamente mais comuns como problemas cardíacos.
Os
dados devem servir para o desenvolvimento de políticas públicas que possam
ampliar o atendimento onde há desigualdade e melhorar o rastreio onde pessoas
ainda morrem por doenças tratáveis. Nesta manhã, durante a apresentação dos
dados, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reconheceu que essa precisa ser
uma prioridade.
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Um país, dois padrões de câncer
Os
dados da Estimativa 2026 mostram que o perfil do câncer no Brasil varia de
forma significativa entre as regiões —reflexo direto de desigualdades no acesso
aos serviços de saúde, às ações de prevenção e às condições de vida da
população.
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NORTE E NORDESTE
Nas
regiões, seguem em destaque tumores historicamente associados a falhas
estruturais de saúde pública.
➡️ O câncer do colo do útero aparece como a
segunda neoplasia mais incidente entre mulheres nessas regiões, apesar de ser
amplamente prevenível por vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) e
rastreamento adequado.
A
vacina está disponível no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos e também
para quem faz uso da PrEP.
Já o
câncer de estômago ocupa posições de destaque entre os homens, cenário
relacionado a fatores socioeconômicos, infecções e diagnóstico tardio.
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SUL E SUDESTE
Nessas
regiões, por outro lado, predominam cânceres associados ao envelhecimento
populacional e ao estilo de vida urbano.
Tumores
de mama, próstata, cólon e reto concentram a maior parte dos casos, padrão
semelhante ao observado em países de renda alta.
➡️ Ainda assim, mesmo nessas regiões, o avanço
do câncer colorretal preocupa pela combinação de alta incidência e mortalidade
ainda elevada, reflexo da ausência de um programa nacional estruturado de
rastreamento.
As
diferenças regionais aparecem também nas taxas. Confira os dados sobre o câncer
de mama:
• Norte: cerca de 33 casos de câncer de
mama/100 mil
• Sudeste: cerca de 88 casos/100 mil
• Sul: cerca de 77 casos/100 mil
Oncologista
do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, Stephen Stefani afirma
que esse contraste reforça a necessidade de um olhar regionalizado.
“Quase
todos os tumores chamam atenção pelas taxas de incidência, com diferenças
relevantes entre as regiões do país. O câncer de mama é um bom exemplo: no
Norte, a taxa gira em torno de 33 casos por 100 mil mulheres, enquanto chega a
cerca de 88 no Sudeste e 77 no Sul.”
Segundo
ele, o próprio relatório alerta que essas variações não têm uma única
explicação.
“Essas
diferenças são multifatoriais. Envolvem desde melhora na captação de
informações e registros mais confiáveis até padrões de diagnóstico mais ágeis e
possíveis diferenças genéticas.” — Stephen Stefani, oncologista do grupo
Oncoclínicas e da Americas Health Foundation
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Mama lidera, mas colo do útero segue como alerta grave
Entre
as mulheres, o câncer de mama permanece como o mais incidente no país, com
números próximos de 80 mil novos casos por ano —tendência semelhante à
observada em países desenvolvidos.
Para o
oncologista Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or e titular da Sociedade
Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), esse movimento já está consolidado.
“O
aumento dos casos de câncer de mama segue uma tendência já vista em muitos
países e hoje aparece de forma consolidada, com números próximos de 80 mil
novos casos.”
O
cenário muda radicalmente quando o foco é o câncer do colo do útero. Apesar de
ser uma doença amplamente prevenível, ele segue entre os tumores mais
incidentes em mulheres de algumas regiões do país e mantém uma mortalidade
elevada.
“Trata-se
de uma neoplasia que ainda é a mais frequente entre mulheres em algumas regiões
do país, com quase 20 mil novos casos por ano. Mais grave: mais de 7 mil
brasileiras morrem anualmente por essa doença”, afirma Amorim. "É um
número assustador, sobretudo porque o câncer do colo do útero está praticamente
desaparecendo em vários países.”
🔴 Mesmo com a existência de vacina
contra o HPV, capaz de prevenir a maioria desses tumores, o país segue
convivendo com mortes consideradas evitáveis.
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Câncer de intestino cresce e expõe falha no rastreamento
Outro
ponto de destaque na estimativa é o crescimento do câncer de cólon e reto, hoje
entre os mais incidentes em homens e mulheres no Brasil. Esse é o tipo de
câncer que matou a cantora Preta Gil.
Em
algumas regiões, ele já aparece como o tumor mais frequente entre os homens.
Amorim explica que o avanço reflete mudanças no estilo de vida da população.
“Esse
crescimento reflete hábitos pouco saudáveis, como sedentarismo e alimentação de
baixa qualidade, rica em gorduras e produtos ultraprocessados. É a conta desse
estilo de vida chegando, de forma cada vez mais pesada, para a sociedade.”
Além da
incidência elevada, especialistas alertam para a mortalidade ainda alta, em
grande parte associada à ausência de um programa nacional estruturado de
rastreamento, o que faz com que o diagnóstico ocorra, muitas vezes, em fases
avançadas da doença.
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Pulmão ainda lidera mortes por câncer no Brasil
Embora
a Estimativa 2026 trate principalmente dos casos novos, o relatório também
traz, ao final da análise de cada tipo de tumor, dados de mortalidade usados
para contextualizar o impacto da doença no país. Esses números ajudam a
dimensionar o impacto real da doença —e mostram que os cânceres mais frequentes
nem sempre são os que mais matam.
Com
base nos dados de mortalidade de 2023, os cânceres de traqueia, brônquio e
pulmão seguem como a principal causa de morte por câncer no Brasil,
considerando homens e mulheres, apesar da queda gradual observada nos últimos
anos.
Os
dados reforçam um contraste central do cenário oncológico brasileiro: tumores
como mama e próstata lideram em incidência, mas não em mortalidade, enquanto
cânceres como pulmão e intestino seguem altamente letais, em grande parte por
serem diagnosticados em fases avançadas.
“A
mortalidade por câncer de pulmão vem caindo, é verdade, mas ainda permanece
alta. E, como já se observa em outros países, tanto a incidência quanto a
mortalidade por câncer de intestino têm aumentado”, afirma Amorim.
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Desigualdade social pesa no risco de morrer
Oncologista
e cofundador do Instituto Vencer o Câncer, Fernando Maluf atribui o crescimento
do câncer no Brasil a uma combinação de envelhecimento populacional e aumento
de fatores de risco.
“Quanto
maior a expectativa de vida, maior a vulnerabilidade às doenças crônicas, como
o câncer. Mas o que preocupa é que muitos fatores de risco, em vez de
diminuírem, estão aumentando: obesidade, sedentarismo, piora da alimentação,
consumo de álcool e tabagismo.”
Maluf
também chama atenção para o papel das infecções e da baixa cobertura vacinal.
“O
Brasil está entre os países com altas incidências de tumores relacionados ao
HPV, como os de colo do útero, pênis, vulva, canal anal e cabeça e pescoço. A
baixa vacinação contra o HPV e contra a hepatite B ajuda a explicar a
relevância desses cânceres.”
Segundo
ele, as desigualdades sociais agravam ainda mais o cenário.
“Populações
mais pobres recebem o diagnóstico em estágios mais avançados, o que é, por si
só, um fator de pior prognóstico. A mortalidade entre grupos menos favorecidos
é de duas a três vezes maior do que em países desenvolvidos.”
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Um retrato conhecido, mas cada vez mais urgente
Médica
sanitarista e CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue, Catherine Moura
reforça que os dados da nova estimativa não trazem surpresas absolutas, mas
reforçam a urgência de agir.
“As
desigualdades regionais e a distribuição por tipo de câncer não mostram nada
desconhecido. No entanto, as estimativas relacionadas ao câncer de colo do
útero escancaram a prioridade urgente de intervenção de saúde pública para a
erradicação de um câncer evitável.”
Ela
também destaca a relevância crescente do câncer colorretal.
“A
importância crescente do câncer de cólon e reto no panorama nacional reforça a
necessidade de atuação na prevenção e, sobretudo, no rastreamento e diagnóstico
precoce.”
Mais do
que números, a Estimativa 2026 do Inca revela, segundo os especialistas ouvidos
pela reportagem, um retrato claro: o câncer no Brasil avança em ritmo desigual,
e a distância entre prevenção eficaz e diagnóstico tardio segue determinando
quem adoece —e quem morre.
Fonte:
g1

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