sábado, 28 de fevereiro de 2026


 

Milagre econômico na Ditadura: crescimento, propaganda e repressão

chamado “milagre econômico” da ditadura militar brasileira sempre foi envolto em muita propaganda, slogans ufanistas e uma aura de excepcionalidade. Durante décadas, a ideia de que o Brasil “crescia como nunca” foi repetida como prova de eficiência do regime autoritário. Mas qual é a verdade por trás desse discurso? O que, de fato, aconteceu com a economia, o emprego, a inflação e a qualidade de vida da população? Para entender esse período, é preciso olhar além dos números do PIB e analisar o contexto político, social e humano em que esse crescimento ocorreu.

A ditadura militar teve início em 1964, com o golpe que derrubou o governo de João Goulart, e se estendeu até 1985. O regime se consolidou progressivamente, mas atingiu seu momento mais duro a partir de 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que suspendeu direitos civis, fechou o Congresso, institucionalizou a censura e abriu caminho para a repressão sistemática.

Foi nesse ambiente de autoritarismo que se deu o chamado milagre econômico, sobretudo durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969–1974), período que coincidiu com os chamados “anos de chumbo” — a fase mais violenta da ditadura.

<><> O que foi o milagre econômico

Entre 1968 e 1973, o Brasil apresentou taxas de crescimento do PIB impressionantes, chegando ao pico de 14% em 1973, uma das maiores do mundo naquele momento. Esse crescimento foi impulsionado por um conjunto de fatores: reformas institucionais herdadas do PAEG, forte entrada de capital estrangeiro, expansão do crédito, investimentos estatais em infraestrutura e uma conjuntura internacional favorável, marcada por abundância de liquidez.

O governo apostou no crescimento acelerado da indústria, especialmente nos setores automobilístico, de bens de consumo duráveis e construção civil. Grandes obras de infraestrutura — rodovias, hidrelétricas e projetos de integração nacional — tornaram-se símbolos desse período, com destaque para a Rodovia Transamazônica, apresentada como prova da modernização do país.

<><> A verdade sobre a economia durante a ditadura

Apesar do crescimento expressivo da produção, o milagre econômico se sustentou sobre bases frágeis e profundamente desiguais. O modelo adotado priorizava o capital e sacrificava o trabalho. A política de arrocho salarial reduziu o poder de compra dos trabalhadores ao manipular os reajustes salariais abaixo da inflação real. A lógica era clara: conter salários para aumentar lucros e reinvesti-los na expansão produtiva.

O resultado foi uma explosão da desigualdade social. Enquanto o PIB crescia, cerca de 80% da população vivia com até dois salários mínimos. A concentração de renda aumentou significativamente, como mostram os dados do Coeficiente de Gini, que subiu ao longo do período militar. O famoso argumento de “fazer o bolo crescer para depois dividir” nunca se concretizou.

Durante o auge do milagre, o desemprego urbano manteve-se relativamente baixo, sobretudo nas regiões industrializadas, graças à expansão da indústria e da construção civil. No entanto, esse dado esconde uma realidade mais dura: empregos precários, jornadas extensas, uso intensivo de horas extras e crescimento do trabalho informal e infantil.

A inflação, embora controlada no início do período em comparação aos anos anteriores, nunca desapareceu. Após 1973, com o choque do petróleo e a elevação dos juros internacionais, ela voltou a disparar, corroendo rapidamente os salários. A qualidade de vida da maioria da população não acompanhou o crescimento econômico: faltavam saneamento básico, saúde pública adequada e moradia digna, especialmente nas periferias urbanas que cresciam de forma desordenada.

<><> Propaganda, repressão e silenciamento

O sucesso aparente do milagre foi sustentado por uma poderosa máquina de propaganda estatal. Slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Este é um país que vai pra frente” ajudaram a criar uma narrativa oficial de prosperidade e união nacional. O tricampeonato da seleção brasileira na Copa de 1970 foi explorado politicamente como símbolo da grandeza do regime.

Ao mesmo tempo, greves eram proibidas, sindicatos controlados e qualquer crítica reprimida. A tortura, os desaparecimentos forçados e a censura garantiam o silêncio necessário para que o modelo econômico funcionasse sem contestação. Até crises sanitárias graves, como a epidemia de meningite no início dos anos 1970, foram censuradas para não “manchar” a imagem do país.

<><> O fim da ditadura e da ilusão do milagre

O milagre econômico começou a ruir em 1973, com o choque do petróleo e o aumento brutal da dívida externa. Para tentar manter o crescimento, os governos seguintes recorreram a ainda mais empréstimos, adiando o colapso. O resultado foi a crise da dívida, a estagnação econômica e a hiperinflação que marcaram os anos 1980, a chamada “década perdida”.

O fim da ditadura, em 1985, revelou o tamanho do passivo social e econômico deixado pelo regime: um país mais industrializado, porém extremamente desigual, endividado e com graves déficits em educação, saúde e bem-estar social.

O milagre econômico brasileiro não foi um milagre, mas uma construção política baseada em crescimento concentrador, endividamento externo e repressão interna. Os números grandiosos do PIB esconderam o aumento da desigualdade, a deterioração da qualidade de vida da maioria da população e a supressão das liberdades democráticas.

 

Fonte: Fórum


Nenhum comentário: