Milagre
econômico na Ditadura: crescimento, propaganda e repressão
chamado
“milagre econômico” da ditadura militar brasileira sempre foi envolto em muita
propaganda, slogans ufanistas e uma aura de excepcionalidade. Durante décadas,
a ideia de que o Brasil “crescia como nunca” foi repetida como prova de
eficiência do regime autoritário. Mas qual é a verdade por trás desse discurso?
O que, de fato, aconteceu com a economia, o emprego, a inflação e a qualidade
de vida da população? Para entender esse período, é preciso olhar além dos
números do PIB e analisar o contexto político, social e humano em que esse
crescimento ocorreu.
A
ditadura militar teve início em 1964, com o golpe que derrubou o governo de
João Goulart, e se estendeu até 1985. O regime se consolidou progressivamente,
mas atingiu seu momento mais duro a partir de 1968, com a edição do Ato
Institucional nº 5 (AI-5), que suspendeu direitos civis, fechou o Congresso,
institucionalizou a censura e abriu caminho para a repressão sistemática.
Foi
nesse ambiente de autoritarismo que se deu o chamado milagre econômico,
sobretudo durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969–1974),
período que coincidiu com os chamados “anos de chumbo” — a fase mais violenta
da ditadura.
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O que foi o milagre econômico
Entre
1968 e 1973, o Brasil apresentou taxas de crescimento do PIB impressionantes,
chegando ao pico de 14% em 1973, uma das maiores do mundo naquele momento. Esse
crescimento foi impulsionado por um conjunto de fatores: reformas
institucionais herdadas do PAEG, forte entrada de capital estrangeiro, expansão
do crédito, investimentos estatais em infraestrutura e uma conjuntura
internacional favorável, marcada por abundância de liquidez.
O
governo apostou no crescimento acelerado da indústria, especialmente nos
setores automobilístico, de bens de consumo duráveis e construção civil.
Grandes obras de infraestrutura — rodovias, hidrelétricas e projetos de
integração nacional — tornaram-se símbolos desse período, com destaque para a
Rodovia Transamazônica, apresentada como prova da modernização do país.
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A verdade sobre a economia durante a ditadura
Apesar
do crescimento expressivo da produção, o milagre econômico se sustentou sobre
bases frágeis e profundamente desiguais. O modelo adotado priorizava o capital
e sacrificava o trabalho. A política de arrocho salarial reduziu o poder de
compra dos trabalhadores ao manipular os reajustes salariais abaixo da inflação
real. A lógica era clara: conter salários para aumentar lucros e reinvesti-los
na expansão produtiva.
O
resultado foi uma explosão da desigualdade social. Enquanto o PIB crescia,
cerca de 80% da população vivia com até dois salários mínimos. A concentração
de renda aumentou significativamente, como mostram os dados do Coeficiente de
Gini, que subiu ao longo do período militar. O famoso argumento de “fazer o
bolo crescer para depois dividir” nunca se concretizou.
Durante
o auge do milagre, o desemprego urbano manteve-se relativamente baixo,
sobretudo nas regiões industrializadas, graças à expansão da indústria e da
construção civil. No entanto, esse dado esconde uma realidade mais dura:
empregos precários, jornadas extensas, uso intensivo de horas extras e
crescimento do trabalho informal e infantil.
A
inflação, embora controlada no início do período em comparação aos anos
anteriores, nunca desapareceu. Após 1973, com o choque do petróleo e a elevação
dos juros internacionais, ela voltou a disparar, corroendo rapidamente os
salários. A qualidade de vida da maioria da população não acompanhou o
crescimento econômico: faltavam saneamento básico, saúde pública adequada e
moradia digna, especialmente nas periferias urbanas que cresciam de forma
desordenada.
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Propaganda, repressão e silenciamento
O
sucesso aparente do milagre foi sustentado por uma poderosa máquina de
propaganda estatal. Slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Este é um país
que vai pra frente” ajudaram a criar uma narrativa oficial de prosperidade e
união nacional. O tricampeonato da seleção brasileira na Copa de 1970 foi
explorado politicamente como símbolo da grandeza do regime.
Ao
mesmo tempo, greves eram proibidas, sindicatos controlados e qualquer crítica
reprimida. A tortura, os desaparecimentos forçados e a censura garantiam o
silêncio necessário para que o modelo econômico funcionasse sem contestação.
Até crises sanitárias graves, como a epidemia de meningite no início dos anos
1970, foram censuradas para não “manchar” a imagem do país.
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O fim da ditadura e da ilusão do milagre
O
milagre econômico começou a ruir em 1973, com o choque do petróleo e o aumento
brutal da dívida externa. Para tentar manter o crescimento, os governos
seguintes recorreram a ainda mais empréstimos, adiando o colapso. O resultado
foi a crise da dívida, a estagnação econômica e a hiperinflação que marcaram os
anos 1980, a chamada “década perdida”.
O fim
da ditadura, em 1985, revelou o tamanho do passivo social e econômico deixado
pelo regime: um país mais industrializado, porém extremamente desigual,
endividado e com graves déficits em educação, saúde e bem-estar social.
O
milagre econômico brasileiro não foi um milagre, mas uma construção política
baseada em crescimento concentrador, endividamento externo e repressão interna.
Os números grandiosos do PIB esconderam o aumento da desigualdade, a
deterioração da qualidade de vida da maioria da população e a supressão das
liberdades democráticas.
Fonte:
Fórum

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