Ricardo
Alexino: Distopias catarinenses
Sempre
que escrevo um artigo, inicio pelo título e penso a trilha sonora que o
acompanha. No caso deste texto, a trilha sonora que me veio à mente foi a
música de Chico César, Deus me proteja. Parte da letra diz: “Deus me proteja de
mim. E da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim…”. Portanto, esta é a
trilha sonora deste artigo.
O
Estado de Santa Catarina é hoje o “estado-maior do bolsonarismo”. No segundo
turno de 2022, Jair Bolsonaro obteve cerca de 69,67% dos votos válidos no
Estado. Também é um estado onde proliferam células neonazistas, cujos valores
são manifestados sem o menor pudor em várias instâncias públicas (prefeituras,
câmaras de vereadores, assembleia legislativa e governo do Estado), nas
instituições de ensino e nas relações sociais e pessoais.
Originalmente
terra dos indígenas Carijós, Santa Catarina foi invadida pelos europeus em
1526, por Sebastião Caboto. Os indígenas foram escravizados, dizimados e quase
exterminados – os que sobraram são alvo de racismo e nenhum respeito à sua
cidadania. Estão nestas situações os também indígenas Kaingang, Xokleng e
Guarani.
Nos
anos de 1920 e 1930, o estado flertou com o nazismo, quando foi considerado uma
das maiores adesões ao Partido Nazista fora da Alemanha. A primeira célula do
Partido Nazista fora da Alemanha foi criada em Timbó, Santa Catarina, em 1928,
espalhando-se rapidamente para cidades como Blumenau. Na época, Santa Catarina
filiou 528 membros ao partido nazista, ocupando a segunda posição no Brasil em
números absolutos. Na educação, as escolas teuto-brasileiras difundiam a
ideologia nazista em seus materiais didáticos.
O
imaginário da exclusão, que encontrou terreno fértil em Santa Catarina no
passado, parece resistir ao tempo, reaparecendo sob novas formas. Avançando
para os dias atuais, em novembro de 2025, Topazio Neto (PSD), prefeito de
Florianópolis, criou posto de controle de entrada de pessoas na capital.
Segundo ele, seria uma forma de impedir que pessoas não desejáveis adentrassem
o município, decidindo que elas fossem devolvidas às suas cidades de origem. É
como se Florianópolis criasse um posto de fronteira, desrespeitando o direito
de ir e vir que a Constituição brasileira garante. O prefeito acredita que está
protegendo a cidade contra “indivíduos indesejáveis”, pertencentes a grupos
étnicos bem definidos. Florianópolis já mandou de volta às suas cidades de origem
mais de 500 “pessoas indesejáveis”.
Dentre
tantos outros atos higienistas e racistas, que vemos nas notícias relacionadas
ao estado, o governador Jorginho Mello sancionou lei que proíbe cotas raciais
em universidades estaduais catarinenses. Segundo ele, as punições previstas
para quem descumprir a nova legislação são multa de R$ 100 mil por edital e
corte de repasses públicos. A explicação para isso é que “Santa Catarina tem
mais brancos do que negros”.
Em
fevereiro de 2025, o vereador negro Teodoro Adão (MDB), da cidade de São João
Batista, no Vale do Rio Tijucas, em Santa Catarina, denunciou que crianças
brancas e negras estavam sendo separadas em salas de aula distintas em uma
creche. As denúncias foram feitas por familiares, levando o vereador a visitar
o local e afirmar ter encontrado aproximadamente 24 crianças separadas em dois
grupos em salas diferentes, divididas pela cor da pele.
Outro
caso que denota xenofobia e racismo é do vereador Mateus Batista (União
Brasil), de Joinville. Ele subiu na tribuna da Câmara do município, em agosto
de 2025, para defender o projeto que propõe controlar a migração de pessoas,
com foco específico em moradores do Norte e Nordeste, para Santa Catarina.
O
vereador defendeu a criação de um “Centro de Apoio e Controle Migratório”, que
exigiria comprovação de residência em até 14 dias para quem chegasse à cidade,
sugerindo que aqueles sem comprovação fossem “mandados embora”. Mateus Batista
alegou que o fluxo migratório de estados do Norte e Nordeste poderia
transformar Santa Catarina em um “grande favelão”. Ele também chamou o estado
do Pará de “lixo”, em um discurso na Câmara. Vergonhosamente, nada sofreu pelo
ato cometido.
Até o
momento, este artigo tem me revirado os intestinos. Os casos de racismos
estruturais e institucionais são infindáveis. Basta fazer uma pesquisa nos
sites de busca da internet. Sim, Chico César diz muito com a letra de sua
música: “Deus me proteja de mim. E da maldade de gente boa. Da bondade da
pessoa ruim…”.
Uma
sociedade tão doente tem legitimidade para contestar a morte de um cão? Uma
sociedade que naturaliza o racismo e a higienização não é hipócrita ao lamentar
o assassinato de um animal? O assassinato do cão Orelha, em 4 de janeiro de
2026, na Praia Brava, em Florianópolis, e as manifestações de comoção parecem
uma ironia, um ultraje às pessoas negras, indígenas, nordestinas e nortistas
que são diariamente violentadas por este tipo perverso de estado.
As
comoções pelo assassinato de Orelha são uma máscara de falsidade fantasiada de
preocupação com a vida. Um ambiente racista é capaz de tudo, inclusive de matar
barbaramente animais e exterminar a natureza. Não adiantam passeatas para
expressar a revolta do assassinato canino, se o racismo impera livremente em
órgãos públicos e nas relações intrapessoais.
O
silêncio dos “inocentes” também é preocupante, considerando que assistem
impassíveis a pessoas negras, indígenas, nordestinas e nortistas sendo atacadas
em sua dignidade e cidadania sem um único gesto de contestação e comoção.
“Deus
me proteja de mim. E da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim…”.
Fonte:
A Terra é Redonda

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