sábado, 28 de fevereiro de 2026

Brian Mier: Cuba resiste - entrevista com Boris Luis Cabrera

Boris Luis Cabrera, 53 anos, é um jornalista cubano veterano que cobre uma ampla variedade de tópicos e, nos últimos 10 anos, trabalhou como repórter esportivo para a agência de notícias cubana, Prensa Latina. Conheci-o pela primeira vez em fevereiro de 2026, quando cheguei depois de trabalhar para a TeleSur em Caracas, Venezuela, e descobri que mais duas camas tinham sido colocadas no apartamento de jornalistas onde eu estava hospedado. Cabrera estava na cidade para cobrir o campeonato de beisebol da América Latina e do Caribe. Como os outros cubanos que estavam lá, notei que ele mantinha conversas constantes com amigos e familiares em Cuba, para se manter atualizado sobre os efeitos da tentativa criminosa do governo dos EUA de subjugar a ilha, cujo governo tenta depor há 65 anos. Poucos dias depois de ele voltar para casa, entrei em contato para saber como estavam as coisas. A seguinte entrevista é um resultado dessa conversa.

·        Brian Mier: Você pode descrever como é um dia típico em Cuba atualmente?

Boris Luis Cabrera: Um dia comum em Cuba hoje é marcado por tensões materiais concretas: apagões programados devido a déficits energéticos, dificuldades para obter certos alimentos e medicamentos e transporte público limitado devido à escassez de combustível e peças de reposição. Esses problemas não podem ser analisados isoladamente do impacto estrutural do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos, que limita o acesso ao crédito, encarece as importações e penaliza países terceiros que comercializam com a ilha. Não se trata apenas de escassez interna, mas de pressão externa sistemática que molda o cotidiano. No entanto, a educação e a saúde permanecem universais e gratuitas, o que faz uma diferença substancial em comparação com muitos países do Sul Global. Portanto, um dia típico agora gira em torno de dificuldades materiais, redes de apoio comunitário que criamos para superá-las e uma forte cultura de resistência.

·        Mier: O que seus amigos e familiares estão fazendo para lidar com todas as dificuldades?

Cabrera: A resposta coletiva tem sido diversa. Muitos recorrem a estratégias de cooperação familiar: compartilhar alimentos, organizar compras conjuntas, trocar serviços. Outros apostaram em iniciativas produtivas locais, empreendimentos privados ou cooperativos, dentro das margens permitidas pelo modelo econômico atual. Essas respostas não devem ser interpretadas como “adaptação ao mercado”, mas como formas de resiliência popular diante da agressão econômica externa e de um ambiente internacional hostil. Há também um debate interno crescente sobre como aperfeiçoar o modelo socialista, torná-lo mais eficiente e combater distorções como a inflação e o burocratismo excessivo.

·        Mier: Por vários anos após a queda da União Soviética, os cubanos enfrentaram escassez de alimentos e combustível. Esta época é agora lembrada como o “período especial”. Você parece ter idade suficiente para se lembrar desses anos. Como eles se comparam ao período de dificuldades impostas pelos EUA que vocês estão enfrentando agora?

Cabrera: O chamado “Período Especial” começou após o colapso da União Soviética, quando Cuba perdeu seu principal parceiro comercial e fonte de fornecimento de energia. Essa era foi marcada por apagões prolongados, grave escassez de alimentos e uma queda acentuada no PIB. A população enfrentou a crise com uma mistura de austeridade extrema, criatividade e organização social. Houve uso generalizado de bicicletas, agricultura urbana e redes de solidariedade nos bairros e nos locais de trabalho.

Em comparação com hoje, muitos consideram o impacto psicológico do Período Especial mais abrupto e profundo. No entanto, o momento atual criou desafios complexos devido a uma combinação de fatores que incluem o endurecimento do bloqueio, a crise global pós-pandemia e as tensões econômicas internas. A principal diferença é que naquela época havia uma expectativa clara de recuperação apoiada por um ambiente internacional diferente; hoje o cenário geopolítico é mais incerto.

·        Mier: Nas últimas 6 décadas, Cuba desenvolveu a reputação de ser um país que tem demonstrado uma quantidade impressionante de solidariedade com outros povos e nações do Sul Global. Durante a Guerra Fria, também recebeu apoio na sua defesa contra a agressão dos EUA de aliados históricos como a Rússia e a China. Agora que Cuba está num momento de necessidade, por que não há mais países oferecendo alimentos e combustível?

Cabrera: Cuba desenvolveu uma política reconhecida de solidariedade internacional, enviando brigadas médicas e apoio técnico a dezenas de países. A limitada ajuda atual de alguns aliados não é interpretada como abandono, mas como resultado de suas próprias limitações econômicas e pressões geopolíticas. Muitos países enfrentam sanções, crises energéticas ou dependência financeira de instituições multilaterais dominadas por potências ocidentais. Além disso, o caráter extraterritorial das sanções dos EUA desencoraja bancos e empresas de interagir com Cuba, mesmo quando existe vontade política.

·        Mier: O que você acha que vai acontecer agora? Como Cuba vai conseguir sobreviver a esse bloqueio criminoso?

Cabrera: A denúncia internacional do bloqueio como uma violação do direito internacional e do princípio do direito dos povos à autodeterminação continuará. Todos os anos, a Assembleia Geral da ONU vota esmagadoramente contra esta política. Esperamos que uma combinação de pressão diplomática, solidariedade internacional e transformação interna, incluindo maior eficiência econômica, descentralização produtiva e combate à corrupção, permita a Cuba sustentar seu projeto soberano. Mais do que um período de espera passiva até o fim do bloqueio, esta visão enfatiza a necessidade de fortalecer o socialismo cubano a partir de dentro, diversificar alianças e manter a coesão social como o principal capital político do país.

¨      Cuba condena ofensiva imperialista dos Estados Unidos e reafirma soberania na ONU

Cuba voltou a condenar os Estados Unidos por  promover uma escalada de medidas contra o país e reafirmou que defenderá sua soberania diante de pressões externas. A declaração foi feita pelo ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez, durante o Segmento de Alto Nível da 61ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, informa o jornal Granma.

No discurso, Rodríguez apresentou uma crítica abrangente à atual configuração da ordem internacional e às políticas adotadas por Washington.

Logo no início de sua fala, o ministro afirmou que “uma ditadura emergiu no mundo globalizado” e sustentou que a ordem internacional criada após a Segunda Guerra Mundial “para evitar uma terceira está sendo destruída”. Segundo ele, consolida-se uma lógica em que se proclama “como o direito excepcional e supremo dos Estados Unidos da América de conquistar e usar a força como uma forma inerente, natural e cotidiana de ser”.

Para o chanceler, o cenário não afeta apenas governos com determinadas orientações políticas. “Para além das ideologias, todos os Estados-nação estão em perigo, independentemente de seus modelos culturais ou políticos”, declarou. Ele apontou que recursos estratégicos e territórios de relevância geopolítica estariam sob risco em um contexto de disputas globais.

Ao citar a Venezuela, afirmou que o país sul-americano, “maior detentor de reservas de hidrocarbonetos do mundo, foi brutalmente atacada”. Em seguida, questionou: “O que acontecerá com os depósitos de minerais críticos e terras raras, as reservas hídricas, a floresta amazônica, o fundo do mar, o Ártico e a Antártica, a ocupação de enclaves supostamente estratégicos, as passagens interoceânicas, as rotas comerciais e a fragilidade e o oportunismo que alimentam essa conquista?”

Rodríguez também criticou o uso de instrumentos econômicos e jurídicos como mecanismos de pressão internacional. “Como seria a liberdade de comércio e navegação com o uso de tarifas como instrumento de agressão e com a aplicação extraterritorial das leis dos EUA e a jurisdição dos tribunais americanos?” - indagou diante dos representantes dos Estados-membros.

<><> Ordem executiva e bloqueio energético

Parte central do discurso foi dedicada à recente decisão da Casa Branca. De acordo com o chanceler, “a ordem executiva de 29 de janeiro do presidente dos Estados Unidos declara punição coletiva ao povo cubano e propõe a criação de uma catástrofe humanitária por meio do bloqueio energético”.

Ele questionou a legitimidade dessa medida ao perguntar: “Será que uma grande potência pode se dar o luxo de tentar destruir uma pequena nação pacífica, provocar uma tragédia humanitária, despedaçar sua cultura nacional e submeter um povo nobre e compassivo ao genocídio sob o frágil pretexto da segurança nacional?”

Rodríguez afirmou que, diante desse cenário, a resposta de Cuba será baseada na unidade interna e na mobilização nacional. “O povo cubano defenderá com o máximo vigor e coragem, em estreita união e amplo consenso, seu direito à autodeterminação, à independência, à soberania, à integridade territorial e à ordem constitucional”, declarou.

Ele acrescentou que essa resistência contará também com o apoio da diáspora: “Faremos isso com o concurso dos cubanos que residem em outras latitudes”.

<><> Resistência, privações e soluções criativas

O chanceler reconheceu que o país poderá enfrentar dificuldades adicionais, mas assegurou que haverá esforço para evitar um colapso social. “Impediremos uma crise humanitária em Cuba, embora passemos por privações e sofrimentos”, afirmou.

Rodríguez destacou os recursos e capacidades internas da ilha, citando os sistemas de educação, saúde e ciência. “Somos um povo consciente, instruído e valente, com recursos humanos altamente qualificados, potentes e universais sistemas de educação, saúde e ciência”, disse.

Ele também ressaltou ativos econômicos e energéticos: “Temos terras cultiváveis, águas, reservas minerais, infraestrutura, produzimos quase a metade do petróleo que consumimos, dispomos de capacidade de refino e avançamos em um importante e eficiente investimento em energia solar”.

Ao relembrar as mais de seis décadas de sanções norte-americanas, declarou: “Com sofrimentos, três gerações de cubanos vencemos o bloqueio dos Estados Unidos por mais de 60 anos”. E reforçou: “Ainda no pior cenário, persistiremos. Encontraremos soluções criativas. Diante de todas as dificuldades, mitigaremos o dano humanitário. Seremos solidários”.

<><> Disposição ao diálogo e defesa dos direitos humanos

Apesar das críticas, Rodríguez afirmou que Havana mantém abertura para negociações, desde que baseadas no respeito à soberania. “Também teremos disposição para um diálogo com os Estados Unidos baseado na igualdade soberana e no direito internacional, no respeito mútuo, no benefício recíproco, sem pré-condições nem ingerência nos assuntos internos que se proponha alcançar uma relação civilizada dentro de nossas diferenças e inclusive promover a cooperação nas áreas que resulte possível”, declarou.

O ministro reiterou ainda o compromisso do país com os direitos humanos. “Nosso compromisso com a defesa e promoção de todos os direitos humanos para todos os seres humanos se fortalece”, afirmou. Acrescentou que Cuba continuará defendendo “o direito inalienável do povo palestino” e a integridade dos migrantes.

Também mencionou apoio a iniciativas de resistência comunitária nos Estados Unidos, ao afirmar: “Admiramos o povo de Minnesota em sua resistência comunitária”. E concluiu que o país se oporá “aos duplos padrões e à manipulação política”.

Ao encerrar sua intervenção, em referência ao centenário do nascimento de Fidel Castro, declarou que “nossa determinação de defender a nação é total e a decisão de salvaguardar uma sociedade centrada em alcançar a dignidade plena do ser humano e a mais ampla justiça é irrevogável”.

¨      Rússia classifica como genocídio bloqueio energético dos EUA contra Cuba

A Rússia voltou a condenar com dureza o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos contra Cuba, classificando as restrições energéticas como uma forma de genocídio e reafirmando apoio político à ilha caribenha. A declaração foi feita durante reunião no Senado russo com o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, em visita de trabalho a Moscou.

As informações foram publicadas pela agência Prensa Latina, que relatou detalhes do encontro realizado na sede do Conselho da Federação, a câmara alta do Parlamento russo, onde autoridades locais expressaram solidariedade a Cuba e defenderam o fortalecimento da cooperação bilateral.Durante a recepção, a presidenta do Conselho, Valentina Matvienko, destacou a preocupação de Moscou com a situação cubana. “Continuamos acompanhando com preocupação o que está acontecendo em Cuba”, afirmou, ao comentar os impactos das sanções norte-americanas sobre o país.

Na sequência, ela fez críticas diretas às medidas adotadas por Washington e afirmou que não há justificativa para a política de pressão econômica contra Havana. “Nós nos opomos firmemente às ações ilegais dos Estados Unidos. Não há justificativa para a agressão contra Cuba. Tais tentativas de mudar o regime e o poder são ações grosseiras e ilegais que toda pessoa sensata condena”, declarou.O representante russo também citou a mais recente resolução aprovada nas Nações Unidas como respaldo internacional às críticas contra o bloqueio. “Isso é confirmado pela mais recente resolução das Nações Unidas que condena o bloqueio e as sanções”, acrescentou.

Matviyenko defendeu que a maioria mundial deve apoiar Cuba e lembrou que o Conselho da Federação publica anualmente uma declaração pedindo o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro aplicado pelos Estados Unidos há cerca de sete décadas. Ela também manifestou disposição do Parlamento russo em ampliar a cooperação entre os dois países em todas as áreas.

O encontro, de acordo com a dirigente da câmara alta, serviu para reforçar a solidariedade ao povo cubano. “Esta visita é de particular importância e tem um caráter prático”, observou, ressaltando que a reunião com o chanceler cubano abriu espaço para reiterar apoio à soberania e à independência de Cuba.

O chanceler Bruno Rodríguez, que é também membro do Birô Político do Partido Comunista de Cuba, também reafirmou que o país seguirá defendendo o direito internacional e atuando em favor da paz e da cooperação multilateral.

Nesse contexto, o chanceler denunciou o agravamento das restrições energéticas impostas a Cuba, a partir de uma ordem executiva assinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ampliou as medidas coercitivas e busca sufocar economicamente o país. “Os cubanos hoje enfrentam com determinação o bloqueio energético intensificado, provocado pela ordem executiva assinada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que fortalece as medidas coercitivas contra Havana e visa sufocar economicamente o país”, afirmou.Rodríguez também destacou a posição do governo cubano diante da ofensiva econômica estadunidense e reiterou que o país mantém disposição para o diálogo, desde que em condições de igualdade. “Defenderemos nossa soberania e independência e estaremos sempre dispostos a dialogar em pé de igualdade com qualquer Estado”, declarou.

O ministro ainda avaliou como relevantes os encontros realizados ao longo da visita com autoridades políticas, parlamentares e governamentais da Rússia, classificando as reuniões como estratégicas para Cuba em meio às dificuldades impostas pelo bloqueio.

Antes da audiência no Senado, Bruno Rodríguez se reuniu com o presidente do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, que reafirmou o apoio do partido à ilha diante do ataque econômico vindo da Casa Branca.

No encerramento do último dia de compromissos em Moscou, o chanceler cubano também se encontrou com integrantes da missão estatal de Cuba na capital russa. No encontro, foram discutidos o cenário atual do país e os desafios que devem ser enfrentados para contribuir com o desenvolvimento econômico, político e social da nação caribenha.

¨      Eurodeputados pedem que União Europeia reaja ao bloqueio dos EUA contra Cuba

Um grupo de 35 membros do Parlamento Europeu enviou uma carta à Alta Representante da União Europeia para Relações Exteriores, Kaja Kallas, manifestando preocupação com o endurecimento das sanções dos Estados Unidos contra Cuba. No documento, os parlamentares afirmam que as medidas adotadas por Washington violam princípios fundamentais do direito internacional e agravam a situação econômica e social da ilha caribenha.

A informação foi divulgada pela Telesur nesta terça-feira (24). Segundo a emissora, os eurodeputados pertencem a diferentes correntes políticas e pedem que a União Europeia atue em defesa da soberania dos Estados, do livre comércio e do respeito à Carta das Nações Unidas.

Na carta, os parlamentares ressaltam que, diante do cenário internacional atual, é essencial que o bloco europeu adote uma postura ativa para salvaguardar o direito internacional. Eles destacam que as sanções impostas pelos Estados Unidos possuem efeitos extraterritoriais e afetam diretamente operadores econômicos e empresas sediadas nos países-membros da União Europeia.

O documento dá ênfase especial à crise humanitária e social relacionada às dificuldades no fornecimento de combustível a Cuba. De acordo com os eurodeputados, os obstáculos ao abastecimento energético intensificam as dificuldades já enfrentadas pela população cubana, ampliando os impactos econômicos e sociais no país.

Os signatários solicitam que as instituições europeias implementem medidas concretas para proteger os interesses do bloco e fortalecer um modelo de cooperação baseado no respeito mútuo. Para eles, o respeito à soberania nacional é um princípio inegociável nas relações internacionais.

A Embaixada de Cuba na Bélgica e junto à União Europeia manifestou apreço pela iniciativa dos parlamentares. A missão diplomática considerou o posicionamento um gesto de solidariedade em um momento considerado delicado, reiterando a importância da defesa do direito internacional frente a políticas de pressão externa.

A manifestação dos eurodeputados se soma a outras iniciativas internacionais em apoio ao fim do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba. Recentemente, integrantes do Capítulo Mexicano da Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade (REDH) enviaram, em 19 de fevereiro, uma carta a intelectuais, artistas e estudantes universitários nos Estados Unidos solicitando ações concretas de solidariedade diante do bloqueio econômico e do embargo energético imposto por Washington.

No documento, os signatários defendem a autodeterminação dos povos e alertam para o que classificam como pressões externas que buscam desestabilizar a região. O grupo também faz referência à memória histórica da intelectualidade norte-americana ao tratar da necessidade de posicionamento diante das medidas adotadas contra Cuba.

O posicionamento de parlamentares europeus e de setores da sociedade civil internacional reforça o debate em torno dos efeitos do bloqueio e da necessidade de soluções baseadas no direito internacional e no respeito à soberania dos Estados.

 

Fonte: Brasil 247

 

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