O
verdadeiro “Mimimi”: os identitários que nunca se nomeiam
O
debate sobre defesa da identidade costuma ser mobilizado como uma acusação
dirigida quase sempre aos mesmos corpos e experiências: “esse mimimi do
identitarismo”. Pessoas negras, pessoas LGBT, mulheres e outros grupos
socialmente minorizados são frequentemente interpelados como se estivessem
reduzindo a política à defesa de suas identidades particulares. Essa crítica
parte de um pressuposto silencioso e raramente nomeado: a ideia de que existe
uma identidade que não é identidade, um lugar neutro, universal e não marcado a
partir do qual o mundo poderia ser pensado sem conflito. Esse lugar,
historicamente, tem classe, cor, gênero, sexualidade, território, origem
geográfica, capacidades e religião, ainda que se apresente como se não tivesse
nada disso.
A
branquitude, a heterossexualidade, a masculinidade, a religião cristã e a
herança europeia foram naturalizadas como padrão de humanidade. Tudo o que
escapa desse modelo passa a ser visto como desvio, dissidência, exceção ou
fragmentação. É nesse movimento que a identidade dos grupos dominantes se
transforma em norma, enquanto as identidades dos grupos subalternizados são
nomeadas, rotuladas e acusadas de promover uma defesa excessiva de si. O que se
critica como defesa da identidade, portanto, não é o excesso de identidade de
alguns, mas a recusa em reconhecer a identidade de outros como igualmente
legítima e estruturante da vida social.
Cida
Bento, na obra O pacto da branquitude ajuda a compreender esse mecanismo ao
analisar o lugar forjado pelo branco, uma insígnia racial, uma identidade, como
um lugar de poder que opera menos pela conspiração explícita e mais pela
naturalização. Ela afirma que pessoas brancas não se reúnem à noite para
planejar o racismo, mas se beneficiam dele cotidianamente por meio da omissão,
da negação e da defesa da normalidade. É justamente essa neutralidade aparente
que sustenta privilégios raciais, garantindo acesso desigual a direitos,
oportunidades e reconhecimento. Defender a inexistência de políticas
afirmativas, nesse sentido, não é um gesto inocente, mas uma forma sofisticada
de proteger o status quo.
Quando
grupos racializados denunciam desigualdades ou reivindicam políticas de
reparação, o discurso dominante reage acusando os movimentos de fragmentar ou
dividir a sociedade. No entanto, essa divisão já está dada, profundamente
inscrita na história da colonização, da escravização e da formação do nosso
país. O que incomoda não é a identidade em si, mas o fato de que ela deixe de
ser silenciosa e passe a questionar quem sempre pôde pensar como universal. A
acusação de defesa da identidade funciona, assim, como uma tecnologia de
silenciamento político.
Douglas
Barros contribui para esse debate ao pensar a identidade não como essência
fixa, mas como relação histórica e material. Para ele, identidades não surgem
do nada nem se organizam apenas no plano simbólico. Elas são produzidas em
contextos concretos de poder, exploração e hierarquização social. Nesse
sentido, toda política parte de identidades situadas, atravessadas por
condições sociais específicas. O que varia não é a existência da identidade,
mas quem tem o privilégio de não precisar nomeá la.
Se
olharmos por esse prisma, torna-se evidente que grupos dominantes também
realizam uma defesa ativa de suas identidades, ainda que o façam de forma menos
declarada. Homens defendem a masculinidade como posição de autoridade e
controle, especialmente quando resistem à redistribuição do trabalho do cuidado
ou minimizam a violência de gênero. Pessoas brancas defendem sua identidade ao
se oporem a políticas antirracistas, cotas ou revisões críticas da história.
Povos europeus e seus herdeiros coloniais defendem sua identidade ao insistirem
em narrativas civilizatórias que apagam genocídios e expropriações.
Hoje,
essa defesa da identidade dominante raramente se apresenta de forma aberta, mas
se reorganiza em discursos sobre mérito, tradição, família, ordem e
neutralidade. Uma adaptação histórica que preserva hierarquias longínquas com
uma linguagem aparentemente moderna. A identidade do dominador permanece, mas
se disfarça de bom senso, universalidade ou defesa da cultura. Neste sentido,
Santa Catarina é um território emblemático para observar a materialização dessa
defesa da identidade branca, heterossexual, europeia e cristã. O estado
construiu uma autoimagem fortemente associada à imigração europeia, à
branquitude, um pioneirismo europeu branco e a um ideal civilizatório que
exclui sistematicamente populações negras, indígenas e dissidentes de gênero e
sexualidade.
O
conservadorismo em Santa Catarina não é um acidente histórico nem um fenômeno
recente. Ele se estrutura a partir de uma formação social muito específica,
moldada por uma migração europeia tardia, majoritariamente branca, e por um
modelo econômico assentado na colonização, na expansão territorial e na
disciplina rígida do trabalho. Esse processo produziu mais do que uma
organização econômica: consolidou uma ética social fundada na ordem, no
controle, na produtividade e na homogeneidade branca, convertida ao longo do
tempo em valor moral. A colonização europeia foi transformada em mito fundador,
celebrada como sinônimo de civilização, mérito e progresso, enquanto os
conflitos, os genocídios indígenas e a exploração de corpos negros foram
sistematicamente apagados da narrativa oficial.
Essa
construção histórica produziu também um ressentimento profundo, alimentado pelo
medo constante de que as fronteiras simbólicas fincadas no estado deixem de ser
intransponíveis. Fronteiras raciais, culturais, religiosas e morais que sempre
garantiram centralidade a homens brancos, católicos e conservadores, muitos dos
quais ainda se afirmam europeus, mesmo séculos depois.
O
incômodo surge quando o Estado passa a reconhecer outros sujeitos, outros
corpos e outras histórias. Quando políticas públicas começam a enxergar pessoas
negras, indígenas, mulheres, LGBT e trabalhadores como destinatários legítimos
de direitos, o privilégio deixa de ser invisível e passa a ser percebido como
perda. Esse ressentimento transforma igualdade em ameaça e diversidade em
perigo. O que se defende, então, não é tradição nem cultura, mas o monopólio
histórico do reconhecimento, do poder e da cidadania, sob a forma de uma defesa
da identidade dominante que reage com violência sempre que o mundo deixa de
girar apenas em torno dela. Essa narrativa não é apenas simbólica. Ela se
traduz em políticas públicas, práticas institucionais e na tolerância social a
discursos e grupos que defendem explicitamente a supremacia branca.
Nesse
contexto, as fronteiras raciais, de gênero e coloniais são constantemente
vigiadas e protegidas. Quando alguém as atravessa, seja por meio da política,
da arte, da ocupação de espaços de poder ou da simples existência, a reação é
imediata. A acusação de defesa da identidade aparece então como juízo moral,
enquanto a defesa da identidade dominante segue operando como regra silenciosa.
Nunca foi sobre identidade. Sempre foi sobre quem é autorizado a existir como
norma e quem é violentado, simbólica ou materialmente, por ousar escapar dela.
A
análise de Santa Catarina como caso emblemático da defesa do identitarismo
branco, conservador, cristão e colonial, nos ajuda a tornar visível aquilo que
muitas vezes permanece encoberto pelo discurso da neutralidade. O estado
apresenta forte resistência às pautas de gênero, ao mesmo tempo em que registra
índices elevados de violência contra mulheres. Essa contradição não é
acidental. Ela revela a convivência entre a negação do problema e a manutenção
de uma estrutura social que naturaliza a desigualdade de gênero como se fosse
parte da ordem social.
Essa
resistência aparece de forma explícita em atos políticos carregados de
simbolismo. Quando um deputado estadual se reúne publicamente com o ex-marido
de Maria da Penha, figura que dá nome à principal lei de enfrentamento à
violência doméstica no país, o gesto ultrapassa o campo da opinião individual.
É uma sinalização política clara de ressentimento diante dos avanços legais e
institucionais conquistados pelas mulheres. É uma forma de afirmar que esses
avanços ameaçam a garantia da normalidade em que os homens ocupam posições
privilegiadas na hierarquia social.
Nesse
sentido, o que está em jogo não é apenas uma discordância sobre políticas
públicas, mas a defesa de uma identidade masculina que se sente autorizada a
reagir quando seus privilégios são questionados. A crítica à Lei Maria da
Penha, às políticas de gênero e à ampliação de direitos não é neutra. Ela
expressa a tentativa de preservar uma ordem em que a violência, o controle e a
exploração do trabalho do cuidado exercidos sobre os corpos das mulheres
permanecem como práticas toleradas ou invisibilizadas.
Paulo
Freire já alertava para o risco da internalização do discurso do opressor
quando problematiza o sonho do oprimido
tornar-se opressor. Em Santa Catarina, esse fenômeno se manifesta quando
deputadas mulheres organizam eventos antifeministas dentro da própria
Assembleia Legislativa. O antifeminismo, longe de ser uma posição abstrata,
atua objetivamente para sustentar uma sociedade que está entre as mais
violentas para mulheres no mundo. Defender o antifeminismo no Brasil é,
portanto, defender a continuidade de uma estrutura que produz, tragicamente,
muita morte, silenciamento e exploração de mulheres.
Esse
ambiente de violência tem um combustível central e reiterado: o ressentimento
masculino. Nos últimos anos, esse ressentimento ganhou linguagem, comunidade e
pedagogia própria em espaços como a machosfera, os discursos redpill e as
páginas masculinistas que transformam direitos das mulheres em supostas
agressões aos homens. O enredo é sempre o mesmo: homens teriam perdido espaço,
autoridade e controle, e a culpa recairia sobre o feminismo, sobre políticas de
igualdade e sobre qualquer questionamento à masculinidade tradicional. A isso
deram o nome de “oposição à ideologia de gênero”. Uma mistura tóxica de
frustração econômica, nostalgia autoritária e pânico moral, que converte
mulheres em inimigas e normaliza a misoginia como reação legítima.
No
estado catarinense, historicamente marcado por conservadorismo social, esse
discurso encontra terreno fértil. Ele aparece em campanhas eleitorais, em
púlpitos religiosos, em redes sociais de influenciadores locais e no senso
comum cotidiano. O resultado não é simbólico nem abstrato. Esses discursos
moldam comportamentos, legitimam agressões e empurram homens inseguros para
ideologias que de fato existem, e ensinam controle, humilhação e violência de
gênero como resposta política.
Nada
expõe essa contradição de forma tão brutal quanto Blumenau, a cidade que
concentra os elevados índices de violência de gênero em Santa Catarina. Ao
mesmo tempo em que lidera rankings de violência doméstica, é também uma das
cidades que proibiram a educação de gênero nas escolas, desmontando exatamente
as políticas preventivas que pesquisas, organismos internacionais e
especialistas indicam como fundamentais para reduzir a violência. O mesmo
padrão se repete, em diferentes intensidades, em municípios como Joinville,
Itajaí, Chapecó e Florianópolis. Sob o discurso da defesa da família, e combate
a ideologia de gênero, o que se protege é o privilégio masculino e a hierarquia
de gênero.
A
dimensão racial dessa defesa da identidade dominante também se expressa de
maneira contundente. Santa Catarina figura entre os estados com maior número de
denúncias de injúria racial no país, ao mesmo tempo em que sua Assembleia
Legislativa derruba políticas de cotas nas universidades públicas
posteriormente sancionada pelo governador do estado. Ao fazer isso, o poder
público atua diretamente na defesa dos privilégios de quem historicamente
ocupou os espaços de poder. A pergunta que se impõe é simples e incômoda: quem
está, de fato, defendendo sua identidade quando se rejeitam políticas que
buscam corrigir desigualdades estruturais produzidas ao longo de séculos?
A
prisão de uma ativista em Florianópolis por se manifestar contra a medida
aprovada pela Assembleia Legislativa revelou mais um episódio do que se passa
em Santa Catarina e escancarou o verdadeiro identitarismo em operação no
Estado: o identitarismo branco que se disfarça de neutralidade, ordem e
legalidade. Quando uma mulher negra é encaminhada à delegacia por denunciar
parlamentares que atacam políticas reparatórias, o Estado, por meio de seus
agentes, deixa evidente que protege uma identidade dominante que não admite ser
nomeada nem contestada. A acusação de “excesso identitário” aparece, mais uma
vez, como tecnologia de silenciamento, enquanto a identidade branca segue
operando como norma intocável. Não é sobre liberdade de expressão ou
legalidade. É sobre quem pode falar, quem pode protestar e quem deve ser punido
quando ousa romper o pacto colonial que organiza o poder no estado.
O
ataque às políticas de redistribuição de renda revela esse mesmo mecanismo.
Quando influenciadores locais de Pomerode, a cidade que se denomina a mais
“alemã do Brasil”, mobilizam suas
plataformas para atacar programas sociais, associando os benefícios a regiões
racializadas do país, o incômodo não está na política em si, mas no fato de que
ela passou a alcançar populações historicamente marginalizadas. Evidencia,
assim, uma lógica de oportunidades que se entende como natural para uns e
ilegítima para outros.
Há
ainda outro fato recente que expõe o identitarismo dominante: a proibição da
Marcha dos Excluídos em Blumenau; que
atravessa todo esse debate. Ao tentar impedir que movimentos sociais se
manifestem no 7 de setembro, o poder público não está defendendo “ordem”
ou “neutralidade”, está escolhendo quem pode ocupar o espaço público e quem
deve ser silenciado. A Marcha dos Excluídos sempre foi um espaço histórico, que
acontece em todo o país, de denúncia das desigualdades produzidas pelo próprio
projeto de nação celebrado nos desfiles cívicos. Ao tentar silenciar esse
movimento, o que se faz é tentar impedir que pessoas negras, indígenas, LGBT,
mulheres, camponeses e trabalhadores nomeiem suas lutas, suas mortes e suas
exclusões. Não se trata de evitar conflito, mas de proteger uma narrativa única
de Santa Catarina, branca, cristã, ordeira e conservadora, na qual não há lugar
para quem questiona o pacto colonial, patriarcal e racista. A tentativa do
poder público de silenciar a Marcha dos Excluídos é a defesa explícita de uma
identidade que só se sustenta apagando as outras e transformando o direito à
luta em ameaça à ordem.
Por
tudo isso, o que repetidamente acontece em Santa Catarina permite compreender
com nitidez o funcionamento de uma defesa da identidade que insiste em não se
nomear. Uma defesa da identidade branca, cristã, masculina e colonial que opera
por meio da negação, da normalização e da violência simbólica e material. Ao
acusar grupos minorizados de defenderem suas identidades, esse discurso apenas
projeta para fora aquilo que sempre foi sua própria base.
Discutir
defesa da identidade, portanto, exige inverter o olhar. Não se trata de
perguntar por que grupos minorizados falam de si, mas por que a identidade dos
grupos dominantes foi naturalizada a ponto de se afirmar constantemente
universal. Nomear essa defesa da identidade dominante não é criar divisão, mas
revelar a estrutura real das desigualdades e abrir caminho para um projeto de
sociedade em que nenhuma identidade precise se esconder atrás da falsa promessa
de neutralidade.
Fonte:
Por Marlon Amorim, no Le Monde

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