sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O verdadeiro “Mimimi”: os identitários que nunca se nomeiam

O debate sobre defesa da identidade costuma ser mobilizado como uma acusação dirigida quase sempre aos mesmos corpos e experiências: “esse mimimi do identitarismo”. Pessoas negras, pessoas LGBT, mulheres e outros grupos socialmente minorizados são frequentemente interpelados como se estivessem reduzindo a política à defesa de suas identidades particulares. Essa crítica parte de um pressuposto silencioso e raramente nomeado: a ideia de que existe uma identidade que não é identidade, um lugar neutro, universal e não marcado a partir do qual o mundo poderia ser pensado sem conflito. Esse lugar, historicamente, tem classe, cor, gênero, sexualidade, território, origem geográfica, capacidades e religião, ainda que se apresente como se não tivesse nada disso.

A branquitude, a heterossexualidade, a masculinidade, a religião cristã e a herança europeia foram naturalizadas como padrão de humanidade. Tudo o que escapa desse modelo passa a ser visto como desvio, dissidência, exceção ou fragmentação. É nesse movimento que a identidade dos grupos dominantes se transforma em norma, enquanto as identidades dos grupos subalternizados são nomeadas, rotuladas e acusadas de promover uma defesa excessiva de si. O que se critica como defesa da identidade, portanto, não é o excesso de identidade de alguns, mas a recusa em reconhecer a identidade de outros como igualmente legítima e estruturante da vida social.

Cida Bento, na obra O pacto da branquitude ajuda a compreender esse mecanismo ao analisar o lugar forjado pelo branco, uma insígnia racial, uma identidade, como um lugar de poder que opera menos pela conspiração explícita e mais pela naturalização. Ela afirma que pessoas brancas não se reúnem à noite para planejar o racismo, mas se beneficiam dele cotidianamente por meio da omissão, da negação e da defesa da normalidade. É justamente essa neutralidade aparente que sustenta privilégios raciais, garantindo acesso desigual a direitos, oportunidades e reconhecimento. Defender a inexistência de políticas afirmativas, nesse sentido, não é um gesto inocente, mas uma forma sofisticada de proteger o status quo.

Quando grupos racializados denunciam desigualdades ou reivindicam políticas de reparação, o discurso dominante reage acusando os movimentos de fragmentar ou dividir a sociedade. No entanto, essa divisão já está dada, profundamente inscrita na história da colonização, da escravização e da formação do nosso país. O que incomoda não é a identidade em si, mas o fato de que ela deixe de ser silenciosa e passe a questionar quem sempre pôde pensar como universal. A acusação de defesa da identidade funciona, assim, como uma tecnologia de silenciamento político.

Douglas Barros contribui para esse debate ao pensar a identidade não como essência fixa, mas como relação histórica e material. Para ele, identidades não surgem do nada nem se organizam apenas no plano simbólico. Elas são produzidas em contextos concretos de poder, exploração e hierarquização social. Nesse sentido, toda política parte de identidades situadas, atravessadas por condições sociais específicas. O que varia não é a existência da identidade, mas quem tem o privilégio de não precisar nomeá la.

Se olharmos por esse prisma, torna-se evidente que grupos dominantes também realizam uma defesa ativa de suas identidades, ainda que o façam de forma menos declarada. Homens defendem a masculinidade como posição de autoridade e controle, especialmente quando resistem à redistribuição do trabalho do cuidado ou minimizam a violência de gênero. Pessoas brancas defendem sua identidade ao se oporem a políticas antirracistas, cotas ou revisões críticas da história. Povos europeus e seus herdeiros coloniais defendem sua identidade ao insistirem em narrativas civilizatórias que apagam genocídios e expropriações.

Hoje, essa defesa da identidade dominante raramente se apresenta de forma aberta, mas se reorganiza em discursos sobre mérito, tradição, família, ordem e neutralidade. Uma adaptação histórica que preserva hierarquias longínquas com uma linguagem aparentemente moderna. A identidade do dominador permanece, mas se disfarça de bom senso, universalidade ou defesa da cultura. Neste sentido, Santa Catarina é um território emblemático para observar a materialização dessa defesa da identidade branca, heterossexual, europeia e cristã. O estado construiu uma autoimagem fortemente associada à imigração europeia, à branquitude, um pioneirismo europeu branco e a um ideal civilizatório que exclui sistematicamente populações negras, indígenas e dissidentes de gênero e sexualidade.

O conservadorismo em Santa Catarina não é um acidente histórico nem um fenômeno recente. Ele se estrutura a partir de uma formação social muito específica, moldada por uma migração europeia tardia, majoritariamente branca, e por um modelo econômico assentado na colonização, na expansão territorial e na disciplina rígida do trabalho. Esse processo produziu mais do que uma organização econômica: consolidou uma ética social fundada na ordem, no controle, na produtividade e na homogeneidade branca, convertida ao longo do tempo em valor moral. A colonização europeia foi transformada em mito fundador, celebrada como sinônimo de civilização, mérito e progresso, enquanto os conflitos, os genocídios indígenas e a exploração de corpos negros foram sistematicamente apagados da narrativa oficial.

Essa construção histórica produziu também um ressentimento profundo, alimentado pelo medo constante de que as fronteiras simbólicas fincadas no estado deixem de ser intransponíveis. Fronteiras raciais, culturais, religiosas e morais que sempre garantiram centralidade a homens brancos, católicos e conservadores, muitos dos quais ainda se afirmam europeus, mesmo séculos depois.

O incômodo surge quando o Estado passa a reconhecer outros sujeitos, outros corpos e outras histórias. Quando políticas públicas começam a enxergar pessoas negras, indígenas, mulheres, LGBT e trabalhadores como destinatários legítimos de direitos, o privilégio deixa de ser invisível e passa a ser percebido como perda. Esse ressentimento transforma igualdade em ameaça e diversidade em perigo. O que se defende, então, não é tradição nem cultura, mas o monopólio histórico do reconhecimento, do poder e da cidadania, sob a forma de uma defesa da identidade dominante que reage com violência sempre que o mundo deixa de girar apenas em torno dela. Essa narrativa não é apenas simbólica. Ela se traduz em políticas públicas, práticas institucionais e na tolerância social a discursos e grupos que defendem explicitamente a supremacia branca.

Nesse contexto, as fronteiras raciais, de gênero e coloniais são constantemente vigiadas e protegidas. Quando alguém as atravessa, seja por meio da política, da arte, da ocupação de espaços de poder ou da simples existência, a reação é imediata. A acusação de defesa da identidade aparece então como juízo moral, enquanto a defesa da identidade dominante segue operando como regra silenciosa. Nunca foi sobre identidade. Sempre foi sobre quem é autorizado a existir como norma e quem é violentado, simbólica ou materialmente, por ousar escapar dela.

A análise de Santa Catarina como caso emblemático da defesa do identitarismo branco, conservador, cristão e colonial, nos ajuda a tornar visível aquilo que muitas vezes permanece encoberto pelo discurso da neutralidade. O estado apresenta forte resistência às pautas de gênero, ao mesmo tempo em que registra índices elevados de violência contra mulheres. Essa contradição não é acidental. Ela revela a convivência entre a negação do problema e a manutenção de uma estrutura social que naturaliza a desigualdade de gênero como se fosse parte da ordem social.

Essa resistência aparece de forma explícita em atos políticos carregados de simbolismo. Quando um deputado estadual se reúne publicamente com o ex-marido de Maria da Penha, figura que dá nome à principal lei de enfrentamento à violência doméstica no país, o gesto ultrapassa o campo da opinião individual. É uma sinalização política clara de ressentimento diante dos avanços legais e institucionais conquistados pelas mulheres. É uma forma de afirmar que esses avanços ameaçam a garantia da normalidade em que os homens ocupam posições privilegiadas na hierarquia social.

Nesse sentido, o que está em jogo não é apenas uma discordância sobre políticas públicas, mas a defesa de uma identidade masculina que se sente autorizada a reagir quando seus privilégios são questionados. A crítica à Lei Maria da Penha, às políticas de gênero e à ampliação de direitos não é neutra. Ela expressa a tentativa de preservar uma ordem em que a violência, o controle e a exploração do trabalho do cuidado exercidos sobre os corpos das mulheres permanecem como práticas toleradas ou invisibilizadas.

Paulo Freire já alertava para o risco da internalização do discurso do opressor quando problematiza  o sonho do oprimido tornar-se opressor. Em Santa Catarina, esse fenômeno se manifesta quando deputadas mulheres organizam eventos antifeministas dentro da própria Assembleia Legislativa. O antifeminismo, longe de ser uma posição abstrata, atua objetivamente para sustentar uma sociedade que está entre as mais violentas para mulheres no mundo. Defender o antifeminismo no Brasil é, portanto, defender a continuidade de uma estrutura que produz, tragicamente, muita morte, silenciamento e exploração de mulheres.

Esse ambiente de violência tem um combustível central e reiterado: o ressentimento masculino. Nos últimos anos, esse ressentimento ganhou linguagem, comunidade e pedagogia própria em espaços como a machosfera, os discursos redpill e as páginas masculinistas que transformam direitos das mulheres em supostas agressões aos homens. O enredo é sempre o mesmo: homens teriam perdido espaço, autoridade e controle, e a culpa recairia sobre o feminismo, sobre políticas de igualdade e sobre qualquer questionamento à masculinidade tradicional. A isso deram o nome de “oposição à ideologia de gênero”. Uma mistura tóxica de frustração econômica, nostalgia autoritária e pânico moral, que converte mulheres em inimigas e normaliza a misoginia como reação legítima.

No estado catarinense, historicamente marcado por conservadorismo social, esse discurso encontra terreno fértil. Ele aparece em campanhas eleitorais, em púlpitos religiosos, em redes sociais de influenciadores locais e no senso comum cotidiano. O resultado não é simbólico nem abstrato. Esses discursos moldam comportamentos, legitimam agressões e empurram homens inseguros para ideologias que de fato existem, e ensinam controle, humilhação e violência de gênero como resposta política.

Nada expõe essa contradição de forma tão brutal quanto Blumenau, a cidade que concentra os elevados índices de violência de gênero em Santa Catarina. Ao mesmo tempo em que lidera rankings de violência doméstica, é também uma das cidades que proibiram a educação de gênero nas escolas, desmontando exatamente as políticas preventivas que pesquisas, organismos internacionais e especialistas indicam como fundamentais para reduzir a violência. O mesmo padrão se repete, em diferentes intensidades, em municípios como Joinville, Itajaí, Chapecó e Florianópolis. Sob o discurso da defesa da família, e combate a ideologia de gênero, o que se protege é o privilégio masculino e a hierarquia de gênero.

A dimensão racial dessa defesa da identidade dominante também se expressa de maneira contundente. Santa Catarina figura entre os estados com maior número de denúncias de injúria racial no país, ao mesmo tempo em que sua Assembleia Legislativa derruba políticas de cotas nas universidades públicas posteriormente sancionada pelo governador do estado. Ao fazer isso, o poder público atua diretamente na defesa dos privilégios de quem historicamente ocupou os espaços de poder. A pergunta que se impõe é simples e incômoda: quem está, de fato, defendendo sua identidade quando se rejeitam políticas que buscam corrigir desigualdades estruturais produzidas ao longo de séculos?

A prisão de uma ativista em Florianópolis por se manifestar contra a medida aprovada pela Assembleia Legislativa revelou mais um episódio do que se passa em Santa Catarina e escancarou o verdadeiro identitarismo em operação no Estado: o identitarismo branco que se disfarça de neutralidade, ordem e legalidade. Quando uma mulher negra é encaminhada à delegacia por denunciar parlamentares que atacam políticas reparatórias, o Estado, por meio de seus agentes, deixa evidente que protege uma identidade dominante que não admite ser nomeada nem contestada. A acusação de “excesso identitário” aparece, mais uma vez, como tecnologia de silenciamento, enquanto a identidade branca segue operando como norma intocável. Não é sobre liberdade de expressão ou legalidade. É sobre quem pode falar, quem pode protestar e quem deve ser punido quando ousa romper o pacto colonial que organiza o poder no estado.

O ataque às políticas de redistribuição de renda revela esse mesmo mecanismo. Quando influenciadores locais de Pomerode, a cidade que se denomina a mais “alemã do Brasil”,  mobilizam suas plataformas para atacar programas sociais, associando os benefícios a regiões racializadas do país, o incômodo não está na política em si, mas no fato de que ela passou a alcançar populações historicamente marginalizadas. Evidencia, assim, uma lógica de oportunidades que se entende como natural para uns e ilegítima para outros.

Há ainda outro fato recente que expõe o identitarismo dominante: a proibição da Marcha dos Excluídos em Blumenau;  que atravessa todo esse debate. Ao tentar impedir que movimentos sociais se manifestem no 7 de setembro, o poder público não está defendendo ordem” ou “neutralidade”, está escolhendo quem pode ocupar o espaço público e quem deve ser silenciado. A Marcha dos Excluídos sempre foi um espaço histórico, que acontece em todo o país, de denúncia das desigualdades produzidas pelo próprio projeto de nação celebrado nos desfiles cívicos. Ao tentar silenciar esse movimento, o que se faz é tentar impedir que pessoas negras, indígenas, LGBT, mulheres, camponeses e trabalhadores nomeiem suas lutas, suas mortes e suas exclusões. Não se trata de evitar conflito, mas de proteger uma narrativa única de Santa Catarina, branca, cristã, ordeira e conservadora, na qual não há lugar para quem questiona o pacto colonial, patriarcal e racista. A tentativa do poder público de silenciar a Marcha dos Excluídos é a defesa explícita de uma identidade que só se sustenta apagando as outras e transformando o direito à luta em ameaça à ordem.

Por tudo isso, o que repetidamente acontece em Santa Catarina permite compreender com nitidez o funcionamento de uma defesa da identidade que insiste em não se nomear. Uma defesa da identidade branca, cristã, masculina e colonial que opera por meio da negação, da normalização e da violência simbólica e material. Ao acusar grupos minorizados de defenderem suas identidades, esse discurso apenas projeta para fora aquilo que sempre foi sua própria base.

Discutir defesa da identidade, portanto, exige inverter o olhar. Não se trata de perguntar por que grupos minorizados falam de si, mas por que a identidade dos grupos dominantes foi naturalizada a ponto de se afirmar constantemente universal. Nomear essa defesa da identidade dominante não é criar divisão, mas revelar a estrutura real das desigualdades e abrir caminho para um projeto de sociedade em que nenhuma identidade precise se esconder atrás da falsa promessa de neutralidade.

 

Fonte: Por Marlon Amorim, no Le Monde

 

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