sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Olímpio Cruz Neto: O fim da ordem e o custo da ambiguidade

Robert Kagan acaba de escrever o obituário da ordem liberal. Seu artigo na The Atlantic, edição de março, não é um exercício teórico. É uma declaração de ruptura. Quando um dos arquitetos intelectuais da hegemonia americana afirma que os Estados Unidos decidiram, por vontade política, abandonar o papel de garantidores da ordem liberal, o mundo não entra em “ajuste”. Estamos diante de uma transição de regime internacional.

Na última semana, Kagan repetiu o vaticínio em uma entrevista à revista alemã Der Spiegel. Ele é duro ao anunciar o fim da ordem transatlântica, que sustenta a estabilidade ocidental nos últimos 80 anos. Afirma que a Guerra Fria poderá parecer, em retrospecto, um período menos arriscado do que o que agora se desenha. O mundo caminha para a fase mais perigosa desde 1945.

Para o Brasil, o risco não é a multipolaridade em si. É a ilusão de que ainda podemos operá-la com as ferramentas, a linguagem e o conforto estratégico da década de 1990 — uma prática que marcou a diplomacia brasileira no período pós-Guerra Fria.

Kagan desmonta a fantasia de que o vácuo americano será preenchido por um “concerto” harmonioso entre grandes potências. Ordens multipolares tendem a ser mais transacionais, mais instáveis e mais propensas à competição aberta. Quando o centro deixa de oferecer previsibilidade, alianças deixam de ser arranjos cooperativos e passam a ser instrumentos contingentes de poder. Países intermediários deixam de ser parceiros e tornam-se variáveis de ajuste.

Nesse cenário, a neutralidade brasileira — que já funcionou como ativo diplomático — corre o risco de converter-se em vulnerabilidade estratégica. Sem o guarda-chuva de uma ordem relativamente estável baseada em regras, prevalece a competição por capacidade produtiva, controle tecnológico e acesso a mercados.

Se o mundo retorna à lógica do balanço de poder, a resposta brasileira não pode ser nostalgia nem alinhamento automático a um novo polo. A alternativa é a Geopolítica da Reciprocidade.

Reciprocidade não é um princípio moral. É um método de organização de poder. Parte do reconhecimento de que o Brasil dispõe de ativos centrais para o século 21 — segurança alimentar, matriz energética competitiva, minerais críticos, biodiversidade estratégica, território logístico e um mercado consumidor de escala — e que esses ativos não podem continuar sendo ofertados a preço de commodity enquanto importamos inteligência, tecnologia e valor agregado.

A nova regra de engajamento precisa ser explícita, verificável e contratual. Acesso a recursos deve implicar processamento local e adensamento produtivo. Acesso ao mercado deve exigir investimento, P&D doméstico e transferência tecnológica auditável. Cooperação em dados e defesa deve estar condicionada a simetria regulatória, soberania digital e regras claras de armazenamento e segurança.

O mérito do diagnóstico de Kagan é encerrar a zona de conforto. Se a potência que sustentava a previsibilidade do sistema decidiu reposicionar seu papel, a ambiguidade estratégica passa a ter custo crescente.

O Brasil tem duas opções. Pode continuar operando como exportador de base material e importador de comando tecnológico, adaptando-se passivamente à redistribuição de poder global. Ou pode arbitrar seu lugar por soberania funcional — utilizando política industrial, financiamento e desenho regulatório para transformar seus ativos estruturais em capacidade efetiva.

Multipolaridade não é promessa de autonomia automática. É ambiente de pressão permanente. Reciprocidade é o instrumento para não sermos absorvidos pela lógica dos outros. Países intermediários não são protegidos por retórica. São protegidos por capacidade. E capacidade não nasce de ambiguidade. Nasce de desenho.

•        Entre o combate aos privilégios e o risco do arbítrio. Por Florestan Fernandes Jr

Em um post publicado no Instagram e no Facebook, o deputado federal gaúcho e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social, Paulo Pimenta, apresentou uma proposta altamente polêmica que, segundo ele, teria como objetivo pôr fim aos privilégios de agentes públicos. Trata-se do Projeto de Lei nº 6.618/2025, que, na visão do parlamentar, serviria para acabar com benefícios indevidos associados ao exercício de cargos públicos.

Ao final do vídeo, Pimenta pede que os internautas assinem um abaixo-assinado em apoio à proposta.

Tenho pelo deputado Paulo Pimenta grande consideração intelectual e política. Trata-se de um parlamentar combativo, experiente e bem-preparado. À frente da Secretaria de Comunicação Social, desempenhou um papel relevante na reorganização da comunicação do governo nos primeiros anos do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda assim, neste caso específico, tenho discordâncias profundas em relação às propostas apresentadas por ele no post.

Em linhas gerais, a ideia central do projeto seria a criação de uma lei que determinasse a cassação automática do mandato de políticos condenados, sem a necessidade de votação no plenário do Congresso Nacional. No campo do Judiciário, a proposta prevê que juízes envolvidos com o crime organizado ou com corrupção, percam automaticamente seus cargos. O mesmo se aplicaria aos militares, que, além de expulsos das Forças Armadas, perderiam benefícios adicionais, como o direito à pensão integral para suas famílias.

A proposta levanta, no entanto, questões complexas que exigem um debate profundo e responsável. A magistratura, por exemplo, possui garantias de matriz constitucional justamente para protegê-la de pressões políticas e decisões arbitrárias.

No caso dos mandatos eletivos, a ideia de perda automática também suscita sérias dúvidas: mandato é expressão direta da soberania popular. Cassar um mandato significa, em última instância, anular a decisão do eleitor. Isso só faria sentido em situações excepcionais já previstas em Lei e na forma já prevista

É preciso extremo cuidado com soluções aparentemente simples para problemas estruturais. Como diz o ditado popular, “pau que dá em Chico, também dá em Francisco”. Em um Congresso cada vez mais inclinado à extrema-direita, combinado com uma magistratura igualmente conservadora, quem seriam os alvos preferenciais de mecanismos tão amplos e automáticos? A resposta parece evidente: parlamentares, juízes e servidores identificados com posições progressistas ou minoritárias.

Leis criadas sob o clamor público, sem a maturação e o debate necessários, costumam produzir efeitos perversos quando o pêndulo do poder muda de lado, e ele sempre muda. Instrumentos de exceção raramente permanecem nas mãos de quem os idealizou. No fim das contas, quem costuma pagar o preço mais alto são justamente aqueles que não contam com a proteção das maiorias circunstanciais: nós.

•        Nota sobre as pesquisas em relações internacionais. Por Jiang Shixue

Enquanto disciplina acadêmica, as relações internacionais estão se tornando mais fáceis ou mais difíceis? Para responder a essa questão, é necessário decompor o campo em três dimensões analíticas:

(i)      a análise da conjuntura internacional;

(ii)      a formulação de prognósticos; e

(iii)     a proposição de alternativas ou recomendações.

A análise da situação internacional não apresenta grande dificuldade e tende, inclusive, a tornar-se cada vez mais acessível. Isso se deve ao fato de que praticamente todos podem acompanhar acontecimentos internacionais por meio das redes sociais e de fluxos informacionais em tempo real. Não surpreende, portanto, que se diga que até motoristas de táxi ou comerciantes de mercados populares demonstrem familiaridade com temas internacionais. Um reconhecido acadêmico chinês chegou a caracterizar os estudos internacionais como uma “terra baixa” do campo acadêmico, aludindo ao reduzido “limiar de entrada” da área — isto é, à possibilidade de qualquer indivíduo nela se engajar.

Todavia, os estudos internacionais não se limitam à análise da conjuntura global; abrangem também a previsão de desdobramentos e a formulação de alternativas políticas. Sob esse prisma, o campo não está se tornando mais fácil, mas progressivamente mais complexo.

No passado, pesquisadores de relações internacionais eram frequentemente questionados: por que não previram o colapso da União Soviética ou a queda do Muro de Berlim? Hoje, novas indagações se impõem: por que não se antecipou a “operação militar especial” da Rússia contra a Ucrânia? Por que não se previu uma possível intervenção dos Estados Unidos na Venezuela? Pode-se antecipar o que ocorrerá com Cuba diante do recrudescimento das sanções norte-americanas? É possível estimar se e quando os Estados Unidos recorrerão ao uso da força contra o Irã? Como evoluirão as relações transatlânticas? Quem triunfará nas próximas eleições presidenciais no Brasil?

De fato, a formulação de prognósticos é extraordinariamente difícil. A previsão acurada exige acesso a informações suficientes e confiáveis. Na ausência dessas condições, mesmo um acerto eventual não passará de mero acaso – comparável a um golpe de sorte.

No final do ano passado, participei de um programa televisivo sobre as relações entre Estados Unidos e Venezuela. O apresentador perguntou se haveria uma invasão norte-americana. Respondi indagando o que se entendia por “invasão”: se significasse o envio de tropas terrestres, tal cenário me parecia improvável. Contudo, poucos poderiam imaginar a hipótese de uma operação aérea com o objetivo de capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Segundo relatos, apenas Donald Trump e um círculo restrito de assessores tinham conhecimento dessa operação. Nem mesmo membros do Congresso estavam informados. Evidentemente, acadêmicos tampouco antecipariam tal possibilidade.

No que concerne às recomendações substantivas, o grau de dificuldade é ainda maior. Diante de violações flagrantes do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, quais respostas são viáveis? Frente ao tratamento dispensado à Venezuela e a Cuba, que alternativas existem? Se o Panamá, instigado por Washington, adota práticas controversas em portos vinculados ao Canal, como reagir? Diante de uma eventual aplicação de uma “Doutrina Donroe” na América Latina, que estratégias podem ser concebidas? Se os Estados Unidos buscarem controlar a Groenlândia, quais seriam as respostas possíveis? Caso recorram ao uso da força contra o Irã, que opções restariam? Se estruturarem um bloco preferencial de comércio de minerais críticos, que medidas poderiam ser adotadas? Elaborar respostas realistas e eficazes para tais questões revela-se, sem dúvida, extremamente desafiador.

Por que a previsão e a formulação de recomendações são tão complexas nos estudos internacionais? Em primeiro lugar, porque acadêmicos frequentemente carecem de acesso a informações suficientes ou de especialização aprofundada em determinados domínios. Em segundo lugar, porque os Estados Unidos vêm se comportando de forma cada vez mais irresponsável e imprevisível, dificultando análises baseadas em parâmetros convencionais.

Se a incerteza constitui a única constante, estudiosos da área devem considerar algumas orientações caso pretendam formular prognósticos e propor respostas estratégicas.

Primeiro, é imperativo renovar métodos de pesquisa e reduzir a dependência de paradigmas tradicionais. Os Estados Unidos apresentam tendências cada vez mais hegemonistas ou erráticas no sistema internacional. O próprio Donald Trump afirmou, em entrevista ao New York Times, que apenas sua própria moralidade poderia contê-lo. Tal declaração sugere que, no tocante às futuras ações norte-americanas, praticamente nenhum cenário pode ser descartado. Torna-se, portanto, necessário ajustar perspectivas analíticas e preparar-se inclusive para cenários adversos.

Segundo, é preciso valorizar pesquisas empíricas e aplicadas, sem, contudo, desconsiderar o papel da teoria. A negação absoluta da reflexão teórica seria equivocada. Entretanto, parte da produção acadêmica privilegia formulações excessivamente herméticas, retoricamente elaboradas, porém substantivamente frágeis, repletas de jargões e terminologias opacas. Acadêmicos e revistas da área deveriam recordar a advertência de Theodore Roosevelt: manter os olhos nas estrelas, mas os pés no chão. Em outras palavras, a elaboração teórica é legítima, desde que permaneça ancorada na realidade empírica.

Terceiro, é fundamental incentivar intercâmbios e cooperação acadêmica em escala global. Em uma era na qual uma única potência pode agir de forma imprevisível, nenhuma perspectiva nacional isolada é capaz de apreender a totalidade do quadro. O diálogo genuíno com estudiosos de diferentes regiões – especialmente do Sul Global – permite integrar evidências, confrontar pressupostos e qualificar julgamentos. Um pesquisador em Pequim pode identificar aspectos ignorados por um colega em Brasília; um acadêmico em São Paulo pode perceber fenômenos invisíveis a um pesquisador em Xangai. Tais interações contribuem para superar vieses e provincialismos, substituindo “câmaras de eco” por processos de revisão crítica em escala global. Se o comportamento de um único país se converte na principal fonte de incerteza, então a inteligência coletiva das nações constitui a melhor esperança para navegar em meio à ambiguidade.

Em síntese, as ferramentas para a produção do conhecimento sobre as relações internacionais devem ser transformadas, de modo a se adaptarem às mudanças no comportamento dos Estados Unidos.

•        Prospectando o cenário eleitoral para presidente. Por Oliveiros Marques

A polarização, como demonstram as pesquisas recentes e os debates que se intensificam na sociedade, não apenas permanece como tende a se aprofundar à medida que o calendário eleitoral avança. Não há sinais de arrefecimento; ao contrário, o ambiente político indica consolidação de identidades e redução do espaço para deslocamentos bruscos entre campos ideológicos.

Esse cenário aponta para uma eleição presidencial fortemente marcada pela chamada “rejeição projetada”. Em outras palavras, parcela relevante do eleitorado deverá votar menos por entusiasmo e mais por prevenção. O voto tende a ser, em muitos casos, uma escolha defensiva: afasta-se aquilo que se percebe como ameaça antes de se abraçar integralmente um projeto.

Medo, incerteza e dúvidas em relação ao futuro devem orientar a decisão da pequena fração de eleitores que ainda não foi plenamente capturada pela lógica binária. Essa parcela, hoje, dificilmente ultrapassa 20% do eleitorado. Isso significa que as campanhas disputarão, de forma efetiva, cerca de 1 em cada 5 brasileiros. Os demais já se encontram relativamente consolidados em seus campos, onde a comunicação serve mais para reafirmar do que para converter.

É nesse segmento que reside a chave da disputa. Para esses eleitores, a variável central não é ideológica, mas pragmática. O que pesa é a percepção de estabilidade. A pergunta que orienta o voto não é “qual projeto me entusiasma?”, mas “qual cenário oferece menos risco à minha vida e da minha família?”.

Nesse contexto, a candidatura governista de Lula parte com vantagem competitiva relativa. Não se trata de entusiasmo generalizado, mas de comparação concreta. Ao contrário do que parte da análise sugere, as entregas do governo não são irrelevantes. Elas podem não produzir euforia, mas funcionam como parâmetro objetivo. Mesmo críticos reconhecem indicadores como geração de emprego, previsibilidade econômica e retomada de políticas públicas. Entre os não ideologizados, a decisão tende a ser racional: evitar a instabilidade percebida em um eventual retorno de Bolsonaro.

Isso não significa que a campanha deva se apoiar apenas em uma vitrine de realizações. A disputa não se dará em formato de checklist administrativo. As entregas operam como lastro narrativo - um colchão de credibilidade sobre o qual se constrói o argumento central: estabilidade versus imprevisibilidade.

O movimento predominante entre os não polarizados pode ser sintetizado como a busca por um “futuro seguro”. Mesmo com críticas ao atual governo, a percepção tende a privilegiar previsibilidade institucional em detrimento de cenários associados a conflito permanente ou tensão política.

Isso torna a eleição simples para Lula? De forma alguma. A vantagem existente hoje não parece estruturalmente superior a cinco pontos percentuais. Em um ambiente polarizado e altamente mobilizado, pequenas variações podem alterar o ritmo da disputa.

A possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno existe. Porém dependerá da ausência de uma candidatura de centro capaz de ganhar musculatura ao longo da campanha. Caso o campo oposicionista permaneça fragmentado, o primeiro turno torna-se plausível. Contudo, a emergência de um nome competitivo pode empurrar a eleição para a segunda etapa. Entre os atores colocados, é possível que algum deles apresente potencial para tensionar essa dinâmica no campo de centro-direita. Poderia, em tese, forçar o segundo turno. Ainda assim, mesmo nesse cenário, não necessariamente alteraria o desfecho final - apenas modificaria o percurso até ele.

Em síntese, a eleição presidencial se desenha menos como disputa de promessas e mais como comparação de riscos. Em tempos de incerteza, o eleitor tende a escolher aquilo que julga mais previsível. E é nessa fronteira estreita que se decidirá o futuro político do país.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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