Olímpio
Cruz Neto: O fim da ordem e o custo da ambiguidade
Robert
Kagan acaba de escrever o obituário da ordem liberal. Seu artigo na The
Atlantic, edição de março, não é um exercício teórico. É uma declaração de
ruptura. Quando um dos arquitetos intelectuais da hegemonia americana afirma
que os Estados Unidos decidiram, por vontade política, abandonar o papel de
garantidores da ordem liberal, o mundo não entra em “ajuste”. Estamos diante de
uma transição de regime internacional.
Na
última semana, Kagan repetiu o vaticínio em uma entrevista à revista alemã Der
Spiegel. Ele é duro ao anunciar o fim da ordem transatlântica, que sustenta a
estabilidade ocidental nos últimos 80 anos. Afirma que a Guerra Fria poderá
parecer, em retrospecto, um período menos arriscado do que o que agora se
desenha. O mundo caminha para a fase mais perigosa desde 1945.
Para o
Brasil, o risco não é a multipolaridade em si. É a ilusão de que ainda podemos
operá-la com as ferramentas, a linguagem e o conforto estratégico da década de
1990 — uma prática que marcou a diplomacia brasileira no período pós-Guerra
Fria.
Kagan
desmonta a fantasia de que o vácuo americano será preenchido por um “concerto”
harmonioso entre grandes potências. Ordens multipolares tendem a ser mais
transacionais, mais instáveis e mais propensas à competição aberta. Quando o
centro deixa de oferecer previsibilidade, alianças deixam de ser arranjos
cooperativos e passam a ser instrumentos contingentes de poder. Países
intermediários deixam de ser parceiros e tornam-se variáveis de ajuste.
Nesse
cenário, a neutralidade brasileira — que já funcionou como ativo diplomático —
corre o risco de converter-se em vulnerabilidade estratégica. Sem o
guarda-chuva de uma ordem relativamente estável baseada em regras, prevalece a
competição por capacidade produtiva, controle tecnológico e acesso a mercados.
Se o
mundo retorna à lógica do balanço de poder, a resposta brasileira não pode ser
nostalgia nem alinhamento automático a um novo polo. A alternativa é a
Geopolítica da Reciprocidade.
Reciprocidade
não é um princípio moral. É um método de organização de poder. Parte do
reconhecimento de que o Brasil dispõe de ativos centrais para o século 21 —
segurança alimentar, matriz energética competitiva, minerais críticos,
biodiversidade estratégica, território logístico e um mercado consumidor de
escala — e que esses ativos não podem continuar sendo ofertados a preço de
commodity enquanto importamos inteligência, tecnologia e valor agregado.
A nova
regra de engajamento precisa ser explícita, verificável e contratual. Acesso a
recursos deve implicar processamento local e adensamento produtivo. Acesso ao
mercado deve exigir investimento, P&D doméstico e transferência tecnológica
auditável. Cooperação em dados e defesa deve estar condicionada a simetria
regulatória, soberania digital e regras claras de armazenamento e segurança.
O
mérito do diagnóstico de Kagan é encerrar a zona de conforto. Se a potência que
sustentava a previsibilidade do sistema decidiu reposicionar seu papel, a
ambiguidade estratégica passa a ter custo crescente.
O
Brasil tem duas opções. Pode continuar operando como exportador de base
material e importador de comando tecnológico, adaptando-se passivamente à
redistribuição de poder global. Ou pode arbitrar seu lugar por soberania
funcional — utilizando política industrial, financiamento e desenho regulatório
para transformar seus ativos estruturais em capacidade efetiva.
Multipolaridade
não é promessa de autonomia automática. É ambiente de pressão permanente.
Reciprocidade é o instrumento para não sermos absorvidos pela lógica dos
outros. Países intermediários não são protegidos por retórica. São protegidos
por capacidade. E capacidade não nasce de ambiguidade. Nasce de desenho.
• Entre o combate aos privilégios e o
risco do arbítrio. Por Florestan Fernandes Jr
Em um
post publicado no Instagram e no Facebook, o deputado federal gaúcho e
ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social, Paulo Pimenta, apresentou uma
proposta altamente polêmica que, segundo ele, teria como objetivo pôr fim aos
privilégios de agentes públicos. Trata-se do Projeto de Lei nº 6.618/2025, que,
na visão do parlamentar, serviria para acabar com benefícios indevidos
associados ao exercício de cargos públicos.
Ao
final do vídeo, Pimenta pede que os internautas assinem um abaixo-assinado em
apoio à proposta.
Tenho
pelo deputado Paulo Pimenta grande consideração intelectual e política.
Trata-se de um parlamentar combativo, experiente e bem-preparado. À frente da
Secretaria de Comunicação Social, desempenhou um papel relevante na
reorganização da comunicação do governo nos primeiros anos do terceiro mandato
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda assim, neste caso específico,
tenho discordâncias profundas em relação às propostas apresentadas por ele no
post.
Em
linhas gerais, a ideia central do projeto seria a criação de uma lei que
determinasse a cassação automática do mandato de políticos condenados, sem a
necessidade de votação no plenário do Congresso Nacional. No campo do
Judiciário, a proposta prevê que juízes envolvidos com o crime organizado ou
com corrupção, percam automaticamente seus cargos. O mesmo se aplicaria aos
militares, que, além de expulsos das Forças Armadas, perderiam benefícios
adicionais, como o direito à pensão integral para suas famílias.
A
proposta levanta, no entanto, questões complexas que exigem um debate profundo
e responsável. A magistratura, por exemplo, possui garantias de matriz
constitucional justamente para protegê-la de pressões políticas e decisões
arbitrárias.
No caso
dos mandatos eletivos, a ideia de perda automática também suscita sérias
dúvidas: mandato é expressão direta da soberania popular. Cassar um mandato
significa, em última instância, anular a decisão do eleitor. Isso só faria
sentido em situações excepcionais já previstas em Lei e na forma já prevista
É
preciso extremo cuidado com soluções aparentemente simples para problemas
estruturais. Como diz o ditado popular, “pau que dá em Chico, também dá em
Francisco”. Em um Congresso cada vez mais inclinado à extrema-direita,
combinado com uma magistratura igualmente conservadora, quem seriam os alvos
preferenciais de mecanismos tão amplos e automáticos? A resposta parece
evidente: parlamentares, juízes e servidores identificados com posições
progressistas ou minoritárias.
Leis
criadas sob o clamor público, sem a maturação e o debate necessários, costumam
produzir efeitos perversos quando o pêndulo do poder muda de lado, e ele sempre
muda. Instrumentos de exceção raramente permanecem nas mãos de quem os
idealizou. No fim das contas, quem costuma pagar o preço mais alto são
justamente aqueles que não contam com a proteção das maiorias circunstanciais:
nós.
• Nota sobre as pesquisas em relações
internacionais. Por Jiang Shixue
Enquanto
disciplina acadêmica, as relações internacionais estão se tornando mais fáceis
ou mais difíceis? Para responder a essa questão, é necessário decompor o campo
em três dimensões analíticas:
(i) a análise da conjuntura internacional;
(ii) a formulação de prognósticos; e
(iii) a proposição de alternativas ou
recomendações.
A
análise da situação internacional não apresenta grande dificuldade e tende,
inclusive, a tornar-se cada vez mais acessível. Isso se deve ao fato de que
praticamente todos podem acompanhar acontecimentos internacionais por meio das
redes sociais e de fluxos informacionais em tempo real. Não surpreende,
portanto, que se diga que até motoristas de táxi ou comerciantes de mercados
populares demonstrem familiaridade com temas internacionais. Um reconhecido
acadêmico chinês chegou a caracterizar os estudos internacionais como uma
“terra baixa” do campo acadêmico, aludindo ao reduzido “limiar de entrada” da
área — isto é, à possibilidade de qualquer indivíduo nela se engajar.
Todavia,
os estudos internacionais não se limitam à análise da conjuntura global;
abrangem também a previsão de desdobramentos e a formulação de alternativas
políticas. Sob esse prisma, o campo não está se tornando mais fácil, mas
progressivamente mais complexo.
No
passado, pesquisadores de relações internacionais eram frequentemente
questionados: por que não previram o colapso da União Soviética ou a queda do
Muro de Berlim? Hoje, novas indagações se impõem: por que não se antecipou a
“operação militar especial” da Rússia contra a Ucrânia? Por que não se previu
uma possível intervenção dos Estados Unidos na Venezuela? Pode-se antecipar o
que ocorrerá com Cuba diante do recrudescimento das sanções norte-americanas? É
possível estimar se e quando os Estados Unidos recorrerão ao uso da força
contra o Irã? Como evoluirão as relações transatlânticas? Quem triunfará nas
próximas eleições presidenciais no Brasil?
De
fato, a formulação de prognósticos é extraordinariamente difícil. A previsão
acurada exige acesso a informações suficientes e confiáveis. Na ausência dessas
condições, mesmo um acerto eventual não passará de mero acaso – comparável a um
golpe de sorte.
No
final do ano passado, participei de um programa televisivo sobre as relações
entre Estados Unidos e Venezuela. O apresentador perguntou se haveria uma
invasão norte-americana. Respondi indagando o que se entendia por “invasão”: se
significasse o envio de tropas terrestres, tal cenário me parecia improvável.
Contudo, poucos poderiam imaginar a hipótese de uma operação aérea com o
objetivo de capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Segundo relatos,
apenas Donald Trump e um círculo restrito de assessores tinham conhecimento
dessa operação. Nem mesmo membros do Congresso estavam informados.
Evidentemente, acadêmicos tampouco antecipariam tal possibilidade.
No que
concerne às recomendações substantivas, o grau de dificuldade é ainda maior.
Diante de violações flagrantes do direito internacional e da Carta das Nações
Unidas, quais respostas são viáveis? Frente ao tratamento dispensado à
Venezuela e a Cuba, que alternativas existem? Se o Panamá, instigado por
Washington, adota práticas controversas em portos vinculados ao Canal, como
reagir? Diante de uma eventual aplicação de uma “Doutrina Donroe” na América
Latina, que estratégias podem ser concebidas? Se os Estados Unidos buscarem
controlar a Groenlândia, quais seriam as respostas possíveis? Caso recorram ao
uso da força contra o Irã, que opções restariam? Se estruturarem um bloco
preferencial de comércio de minerais críticos, que medidas poderiam ser adotadas?
Elaborar respostas realistas e eficazes para tais questões revela-se, sem
dúvida, extremamente desafiador.
Por que
a previsão e a formulação de recomendações são tão complexas nos estudos
internacionais? Em primeiro lugar, porque acadêmicos frequentemente carecem de
acesso a informações suficientes ou de especialização aprofundada em
determinados domínios. Em segundo lugar, porque os Estados Unidos vêm se
comportando de forma cada vez mais irresponsável e imprevisível, dificultando
análises baseadas em parâmetros convencionais.
Se a
incerteza constitui a única constante, estudiosos da área devem considerar
algumas orientações caso pretendam formular prognósticos e propor respostas
estratégicas.
Primeiro,
é imperativo renovar métodos de pesquisa e reduzir a dependência de paradigmas
tradicionais. Os Estados Unidos apresentam tendências cada vez mais
hegemonistas ou erráticas no sistema internacional. O próprio Donald Trump
afirmou, em entrevista ao New York Times, que apenas sua própria moralidade
poderia contê-lo. Tal declaração sugere que, no tocante às futuras ações
norte-americanas, praticamente nenhum cenário pode ser descartado. Torna-se,
portanto, necessário ajustar perspectivas analíticas e preparar-se inclusive
para cenários adversos.
Segundo,
é preciso valorizar pesquisas empíricas e aplicadas, sem, contudo,
desconsiderar o papel da teoria. A negação absoluta da reflexão teórica seria
equivocada. Entretanto, parte da produção acadêmica privilegia formulações
excessivamente herméticas, retoricamente elaboradas, porém substantivamente
frágeis, repletas de jargões e terminologias opacas. Acadêmicos e revistas da
área deveriam recordar a advertência de Theodore Roosevelt: manter os olhos nas
estrelas, mas os pés no chão. Em outras palavras, a elaboração teórica é
legítima, desde que permaneça ancorada na realidade empírica.
Terceiro,
é fundamental incentivar intercâmbios e cooperação acadêmica em escala global.
Em uma era na qual uma única potência pode agir de forma imprevisível, nenhuma
perspectiva nacional isolada é capaz de apreender a totalidade do quadro. O
diálogo genuíno com estudiosos de diferentes regiões – especialmente do Sul
Global – permite integrar evidências, confrontar pressupostos e qualificar
julgamentos. Um pesquisador em Pequim pode identificar aspectos ignorados por
um colega em Brasília; um acadêmico em São Paulo pode perceber fenômenos
invisíveis a um pesquisador em Xangai. Tais interações contribuem para superar
vieses e provincialismos, substituindo “câmaras de eco” por processos de
revisão crítica em escala global. Se o comportamento de um único país se
converte na principal fonte de incerteza, então a inteligência coletiva das
nações constitui a melhor esperança para navegar em meio à ambiguidade.
Em
síntese, as ferramentas para a produção do conhecimento sobre as relações
internacionais devem ser transformadas, de modo a se adaptarem às mudanças no
comportamento dos Estados Unidos.
• Prospectando o cenário eleitoral para
presidente. Por Oliveiros Marques
A
polarização, como demonstram as pesquisas recentes e os debates que se
intensificam na sociedade, não apenas permanece como tende a se aprofundar à
medida que o calendário eleitoral avança. Não há sinais de arrefecimento; ao
contrário, o ambiente político indica consolidação de identidades e redução do
espaço para deslocamentos bruscos entre campos ideológicos.
Esse
cenário aponta para uma eleição presidencial fortemente marcada pela chamada
“rejeição projetada”. Em outras palavras, parcela relevante do eleitorado
deverá votar menos por entusiasmo e mais por prevenção. O voto tende a ser, em
muitos casos, uma escolha defensiva: afasta-se aquilo que se percebe como
ameaça antes de se abraçar integralmente um projeto.
Medo,
incerteza e dúvidas em relação ao futuro devem orientar a decisão da pequena
fração de eleitores que ainda não foi plenamente capturada pela lógica binária.
Essa parcela, hoje, dificilmente ultrapassa 20% do eleitorado. Isso significa
que as campanhas disputarão, de forma efetiva, cerca de 1 em cada 5
brasileiros. Os demais já se encontram relativamente consolidados em seus
campos, onde a comunicação serve mais para reafirmar do que para converter.
É nesse
segmento que reside a chave da disputa. Para esses eleitores, a variável
central não é ideológica, mas pragmática. O que pesa é a percepção de
estabilidade. A pergunta que orienta o voto não é “qual projeto me
entusiasma?”, mas “qual cenário oferece menos risco à minha vida e da minha
família?”.
Nesse
contexto, a candidatura governista de Lula parte com vantagem competitiva
relativa. Não se trata de entusiasmo generalizado, mas de comparação concreta.
Ao contrário do que parte da análise sugere, as entregas do governo não são
irrelevantes. Elas podem não produzir euforia, mas funcionam como parâmetro
objetivo. Mesmo críticos reconhecem indicadores como geração de emprego,
previsibilidade econômica e retomada de políticas públicas. Entre os não
ideologizados, a decisão tende a ser racional: evitar a instabilidade percebida
em um eventual retorno de Bolsonaro.
Isso
não significa que a campanha deva se apoiar apenas em uma vitrine de
realizações. A disputa não se dará em formato de checklist administrativo. As
entregas operam como lastro narrativo - um colchão de credibilidade sobre o
qual se constrói o argumento central: estabilidade versus imprevisibilidade.
O
movimento predominante entre os não polarizados pode ser sintetizado como a
busca por um “futuro seguro”. Mesmo com críticas ao atual governo, a percepção
tende a privilegiar previsibilidade institucional em detrimento de cenários
associados a conflito permanente ou tensão política.
Isso
torna a eleição simples para Lula? De forma alguma. A vantagem existente hoje
não parece estruturalmente superior a cinco pontos percentuais. Em um ambiente
polarizado e altamente mobilizado, pequenas variações podem alterar o ritmo da
disputa.
A
possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno existe. Porém dependerá da
ausência de uma candidatura de centro capaz de ganhar musculatura ao longo da
campanha. Caso o campo oposicionista permaneça fragmentado, o primeiro turno
torna-se plausível. Contudo, a emergência de um nome competitivo pode empurrar
a eleição para a segunda etapa. Entre os atores colocados, é possível que algum
deles apresente potencial para tensionar essa dinâmica no campo de
centro-direita. Poderia, em tese, forçar o segundo turno. Ainda assim, mesmo
nesse cenário, não necessariamente alteraria o desfecho final - apenas
modificaria o percurso até ele.
Em
síntese, a eleição presidencial se desenha menos como disputa de promessas e
mais como comparação de riscos. Em tempos de incerteza, o eleitor tende a
escolher aquilo que julga mais previsível. E é nessa fronteira estreita que se
decidirá o futuro político do país.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário