sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O que sobrou do programa nuclear do Irã — e ele é uma ameaça como alega Trump?

O programa nuclear do Irã está novamente em destaque. Os Estados Unidos enviaram aeronaves e navios de guerra à região, que parecem prontos para atacar caso Teerã não feche um acordo relacionado às suas atividades nucleares.

O presidente americano Donald Trump disse, na quinta-feira passada (19/02), que "coisas ruins" aconteceriam se um "acordo significativo" não fosse alcançado, reiterando sua posição. "Eles não podem ter uma arma nuclear. É muito simples. Não se pode ter paz no Oriente Médio se eles tiverem uma arma nuclear."

O Irã nega ter uma bomba nuclear, mas muitos países, assim como a agência global de vigilância nuclear, a Agência Internacional de Energia Atômica, não acreditam nisso.

<><> Como se encontra o programa nuclear do Irã?

A situação do programa nuclear iraniano não é clara após o país ter visto instalações nucleares chaves suas serem atacadas durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã que aconteceu em junho do ano passado.

Os EUA entraram brevemente no conflito, atacando três instalações — o maior complexo de pesquisa nuclear do Irã, em Isfahan, além de centros em Natanz e Fordo usados para enriquecer urânio para uso como combustível nuclear.

Trump disse que as instalações haviam sido "destruídas". Uma semana depois, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, disse que os ataques causaram danos graves, embora "não totais", sugerindo que alguma forma de enriquecimento poderia ser retomada dentro de alguns meses.

A agência estima que, quando Israel lançou ataques aéreos em 13 de junho, o Irã tinha um estoque de 440 quilos de urânio enriquecido a até 60% de pureza — um pequeno passo técnico para atingir os 90% necessários para armas nucleares.

Grossi disse em outubro à agência de notícias Associated Press que essa quantidade — se enriquecida ainda mais — seria suficiente para produzir dez bombas nucleares.

Em novembro, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou à revista The Economist que o enriquecimento de urânio tinha sido paralisado.

No mês passado, ele causou controvérsia em outra entrevista, esta ao canal de notícias Fox News. "Sim, vocês destruíram as instalações, as máquinas, mas a tecnologia não pode ser bombardeada, e a determinação também não pode ser bombardeada."

Grossi disse à Reuters em janeiro que conseguiu inspecionar 13 instalações nucleares no Irã que não foram bombardeadas, mas não as três principais que haviam sido. Ele afirmou que já tinham se passado sete meses desde a última verificação do estoque de urânio enriquecido do Irã.

Persistem incertezas sobre questões-chave, particularmente a localização e o estado do estoque, além da condição das instalações de enriquecimento.

<><> Como chegamos a esta situação?

O governo iraniano insiste que suas atividades nucleares são exclusivamente para fins civis. O Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que permite o uso dessa tecnologia para fins civis, como medicina, agricultura e energia, mas proíbe a busca por armas.

No entanto, uma investigação da Agência Internacional de Energia Atômica constatou que o Irã realizou "uma série de atividades relevantes para o desenvolvimento de um dispositivo explosivo nuclear" do final da década de 1980 até 2003.

A agência afirma que havia indicações de que esse programa, conhecido como Projeto Amad, havia sido interrompido. Mas em 2009 agências de inteligência ocidentais identificaram a instalação de Fordo.

Em 2015, a instituição afirmou em um relatório que não tinha "nenhum indício crível de atividades no Irã relevantes para o desenvolvimento de um dispositivo explosivo nuclear após 2009".

Também em 2015, o Irã assinou um acordo com seis potências mundiais, concordando com limites rigorosos em suas atividades nucleares em troca do alívio das sanções impostas ao país.

O acordo limitava o enriquecimento a 3,67% — nível adequado para a produção de energia nuclear — e interrompeu a atividade em Fordo sob monitoramento reforçado.

Mas, em 2018, o presidente Trump retirou-se do acordo, argumentando que ele não impedia o Irã de obter uma bomba atômica, e restabeleceu as sanções.

O Irã respondeu violando os limites do acordo, enriquecendo urânio a 60%, implantando centrífugas avançadas e retomando o enriquecimento em Fordo.

Em 12 de junho de 2025, o Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica declarou formalmente que o Irã havia violado suas obrigações de não proliferação pela primeira vez em duas décadas. No dia seguinte, Israel iniciou ataques aéreos.

<><> O Irã está trabalhando em instalações nucleares?

Imagens de satélite mostram que trabalhos têm sido realizados nas instalações de Natanz e Isfahan nos últimos meses.

Em Isfahan, todas as entradas para o complexo de túneis agora parecem estar seladas com terra, e um novo teto foi construído, conforme revelam imagens de satélite analisadas pelo Instituto para Ciência e Segurança Internacional, um centro de pesquisas com sede nos Estados Unidos.

Um teto também foi construído em Natanz, como mostram as fotos.

As imagens também mostram que o Irã está fortificando um complexo subterrâneo, o Monte Kolang Gaz La. Também conhecido como Montanha da Picareta, o local não foi atingido por ataques de Israel ou dos Estados Unidos e fica a cerca de dois quilômetros ao sul da instalação nuclear de Natanz.

<><> Quanto tempo levaria para o Irã construir uma arma nuclear?

Produzir urânio enriquecido para armas não é o mesmo que construir uma arma nuclear operacional, algo que demanda etapas técnicas adicionais.

Uma avaliação da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos em maio do ano passado — antes dos ataques israelenses e americanos — concluiu que o Irã poderia, na época, produzir urânio enriquecido suficiente para armas em "provavelmente menos de uma semana".

Mas há divergências quanto à tentativa do Irã de transformar urânio enriquecido em armas. A avaliação também afirmou: "É quase certo que o Irã não esteja produzindo armas nucleares, mas tenha realizado atividades nos últimos anos que o posicionam melhor para produzi-las, caso queira."

Entretanto, militares israelenses afirmaram em junho que tinham informações suficientes para concluir que "progressos concretos" foram feitos "nos esforços do regime iraniano para produzir componentes de armas para uma bomba nuclear".

"O Irã havia desenvolvido alguma capacidade para projetar ogivas até 2003, quando aparentemente interrompeu o programa", afirma a Patricia Lewis, especialista independente em controle de armas.

No entanto, Lewis diz que "após o colapso do acordo nuclear de 2015 e o fracasso contínuo das negociações para um novo acordo, é possível que o Irã tenha decidido reiniciar o desenvolvimento de uma capacidade de produção de ogivas nucleares".

Questionado em 18 de fevereiro se a Agência Internacional de Energia Atômica havia observado sinais de desenvolvimento ativo de armas, Grossi disse à emissora francesa TF1: "Não".

Ele acrescentou que via "uma disposição" tanto dos Estados Unidos quanto do Irã "para chegar a um acordo".

<><> Por que uma arma nuclear iraniana seria preocupante?

Líderes ocidentais há muito enfatizam a opinião de que o Irã não deveria ter permissão para ter uma arma nuclear.

"O mundo seria destruído", disse Trump em maio de 2025. Durante a campanha eleitoral de 2024, ele afirmou que isso significaria "um mundo completamente diferente, uma negociação completamente diferente", e que Israel "deixaria de existir".

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse que o Irã com armas nucleares seria "a maior ameaça à estabilidade da região". "Isso aumentaria a tensão regional e complicaria o gerenciamento de crises, particularmente para Israel e os Estados Unidos", afirmou H. A. Hellyer, especialista em Oriente Médio do Royal United Services Institute, um centro de pesquisas com sede no Reino Unido.

Alguns analistas argumentam que a aquisição de uma arma nuclear poderia encorajar o Irã regionalmente, reforçar seus crescentes laços com a China e a Rússia e, potencialmente, desencadear uma corrida armamentista com a Arábia Saudita.

Sabe-se que Israel possui armas nucleares, embora ninguém confirme nem negue isso. Hellyer argumenta que isso significa que o "resultado provável" de o Irã possuir uma arma nuclear "seria a dissuasão mútua em vez de uma escalada imediata".

Ele afirma que a maioria dos atores regionais considera "o poder israelense — e não uma hipotética bomba iraniana — como a preocupação de segurança mais imediata e disruptiva".

Um dos principais riscos de um Irã com armas nucleares seria de "erros de cálculo durante períodos de confronto", diz ele.

¨      Trump diz que prefere 'diplomacia' para lidar com o Irã

Durante seu discurso, Trump criticou a Suprema Corte dos EUA, disse que as tarifas impostas pelo governo americano contra produtos de outros países promoveram uma "reviravolta econômica impressionante" e que elas vão continuar.

Ele também afirmou que prefere resolver as tensões com o Irã por meio da diplomacia, mas voltar a fazer ameaças dizendo que não deixará o país ter uma arma nuclear.

<><> Tensão com Irã

O presidente também dedicou parte do seu discurso para falar do Irã, em meio a atual tensão entre os dois países.

Os dois países voltaram a negociar sobre o programa nuclear iraniano, após repetidas ameaças militares dos EUA contra o Irã.

Na semana passada, Trump deu um ultimato ao país, dizendo que o mundo descobriria "nos próximos provavelmente 10 dias" se eles chegariam a um acordo ou se tomaria medidas militares.

Nesta terça-feira, ele disse que "prefere resolver o problema por meio da diplomacia", mas que não vai permitir que o Irã tenha uma arma nuclear.

Trump ainda acrescentou que o o governo iraniano quer fazer um acordo para evitar novos ataques dos EUA, mas ainda não se comprometeu a nunca produzir uma arma nuclear.

"Minha preferência é resolver esse problema por meio da diplomacia. Mas uma coisa é certa: nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo do mundo — e eles são de longe — tenha uma arma nuclear", afirmou.

¨      EUA ampliam mobilização militar no Oriente Médio e expõem limites do próprio poder aéreo, opina mídia

Os EUA reúnem no Oriente Médio sua maior concentração de poder aéreo desde 2003, mobilizando porta‑aviões, caças, sistemas antimísseis e meios navais para possíveis ataques ao Irã, enquanto cresce o debate interno sobre as limitações da Força Aérea e a necessidade de um poder aéreo mais amplo e persistente.

Desde a invasão do Iraque em 2003 que Washington não mobilizava tanto poder de fogo, nem concentrava tanto poder aéreo no Oriente Médio, em uma preparação para possíveis ataques contra o Irã enquanto mantêm negociações diplomáticas. A mobilização inclui dois grupos de porta‑aviões, caças distribuídos entre bases da Jordânia e do Catar, submarinos e destróieres armados com Tomahawk, além de baterias Patriot e THAAD.

Essa força levou semanas para ser reunida. A operação começou no fim de janeiro e só estará completa em meados de março, evidenciando que, embora aviões se desloquem rapidamente, o grosso do poder aéreo depende de navios e estruturas conjuntas.

Para reforçar a presença, os EUA recorreram a uma combinação de meios navais, terrestres e aéreos, demonstrando que o poder aéreo vai muito além da Força Aérea.

Alguns analistas interpretam o aumento como sinal de que os EUA precisam de uma Força Aérea maior, mas um artigo de opinião do Defense News argumenta que isso é um diagnóstico equivocado. A missão de negação aérea, por exemplo, recai cada vez mais sobre o Exército, enquanto a guerra eletrônica é liderada pela Marinha, e a capacidade de ataque persistente depende de navios e submarinos.

No caso de uma retaliação iraniana, a defesa aérea seria um esforço conjunto. Patriot e THAAD do Exército, apoiados por destróieres da Marinha, seriam responsáveis por neutralizar mísseis e drones, enquanto caças da Força Aérea atuariam como camada intermediária. Isso contrasta com a visão tradicional da Força Aérea, centrada na superioridade aérea ofensiva.

O artigo destaca ainda que a guerra eletrônica reforça essa mudança. A plataforma mais avançada disponível é o EA‑18G Growler da Marinha, essencial para neutralizar radares iranianos. O F‑35 ainda não integra plenamente mísseis antirradiação, o que coloca a Marinha na liderança dessa função — uma área que já foi domínio da Força Aérea.

O texto argumenta que plataformas sofisticadas não garantem persistência, elemento crucial para efeitos estratégicos duradouros. Ataques pontuais, como o realizado por bombardeiros B‑2 no ano anterior, podem causar danos significativos, mas não produzem resultados estratégicos sustentáveis. Para isso, é necessária presença contínua e pressão prolongada.

As lacunas reveladas pela atual mobilização não estão na capacidade ofensiva da Força Aérea, mas na habilidade do Exército de manter negação aérea prolongada, nos estoques de munição e na frota de reabastecimento aéreo. Investir apenas em bombardeiros e caças de altíssimo custo não resolve esses problemas estruturais.

Washington precisa abandonar a ideia de que "poder aéreo" é sinônimo de "Força Aérea". O controle aéreo moderno depende de múltiplos ramos militares e de capacidades distribuídas. Enquanto o orçamento não refletir essa realidade, os EUA continuarão financiando a Força Aérea que desejam — e não o poder aéreo de que realmente precisam, conclui.

¨      Tensão EUA-Irã eleva petróleo e reacende temor de bloqueio no estratégico estreito de Ormuz

A escalada das tensões entre EUA e Irã elevou o petróleo ao maior nível em seis meses e reacendeu temores de interrupções no abastecimento global, diante do risco de ataques militares e de um possível bloqueio iraniano ao estreito de Ormuz, rota vital para as exportações de energia do Oriente Médio.

O medo de que qualquer escalada no Oriente Médio envolvendo um possível ataque dos EUA ao Irã já se reflete no mercado de petróleo, impulsionando seu preço ao nível mais alto em seis meses. Isto se refere à possibilidade de interrupções na produção iraniana ou do bloqueio de rotas estratégicas de exportação por Teerã. Operadores do mercado acompanham de perto cada movimento, atentos ao risco de descontinuidade no fluxo global de energia.

Os EUA mobilizaram amplo poder militar na região, enquanto o presidente Donald Trump avalia um ataque limitado ao Irã para pressionar por um acordo que restrinja o programa nuclear iraniano. Qualquer ofensiva — ou uma eventual tentativa iraniana de restringir o acesso ao estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quarto do petróleo transportado por mar — teria impacto imediato nos mercados globais.

A indústria petrolífera iraniana, embora menos influente do que no passado, ainda desempenha papel relevante. O país responde por cerca de 3% da oferta mundial, com produção em torno de 3,3 milhões de barris por dia. No auge, nos anos 1970, o Irã chegou a fornecer mais de 10% do petróleo global, posição que perdeu após a Revolução de 1979 e a expulsão de empresas estrangeiras.

O setor ensaiou recuperação após a Guerra Irã-Iraque, mas voltou a sofrer com as sanções reimpostas em 2018, quando o governo Trump abandonou o acordo nuclear. Hoje, o Irã é apenas o quarto maior produtor da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), atrás de Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes Unidos, e opera sob forte limitação de investimentos externos.

De acordo com a Bloomberg, com as sanções, a China se tornou praticamente o único grande comprador do petróleo iraniano, absorvendo cerca de 90% das exportações. Em janeiro, esses fluxos chegaram a 1,25 milhão de barris por dia, bem acima do volume registrado no ano anterior.

Uma interrupção significativa na produção iraniana obrigaria refinarias chinesas a buscar fornecedores alternativos, mas o maior risco para o mercado global está no estreito de Ormuz. A passagem, vital para o fluxo de petróleo de países como Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes Unidos, movimenta cerca de 16,5 milhões de barris por dia e já foi alvo de ameaças iranianas em momentos de tensão.

Embora alguns países tenham rotas alternativas — como oleodutos que desviam parte da produção para o mar Vermelho ou o golfo de Omã — um bloqueio total do estreito provocaria forte choque de oferta, especialmente para a Ásia. Episódios recentes de tensão já demonstraram a sensibilidade do mercado, com disparada nas taxas de frete de superpetroleiros, segundo a apuração.

O petróleo continua sendo um pilar da economia iraniana, contribuindo com cerca de dois pontos percentuais para o crescimento do produto interno bruto (PIB) em 2023. Mesmo vendendo com grandes descontos, o país arrecadou cerca de US$ 2,7 bilhões (cerca de R$ 13,09 bilhões) apenas em novembro.

No entanto, essa receita pode ser pressionada caso a campanha de "pressão máxima" dos EUA afaste compradores chineses ou force o Irã a competir com o petróleo russo, também vendido a preços reduzidos.

 

Fonte: BBC News Mundo/Sputnik Brasil

 

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