quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Eleições 2026: analistas preveem campanhas ainda mais voltadas para viralizar nas redes; entenda efeitos

A eleição de outubro já movimenta os políticos de todo o país, e ações recentes — como eventos, gestos simbólicos e vídeos nas redes — indicam o tom da campanha de 2026: mais performática e pensada para viralizar, avaliam analistas ouvidos pelo g1.

“A política se torna o campo do espetáculo”, afirma a cientista política e pesquisadora da UnB, Isabela Rocha. "Os discursos feitos em plenário têm trechos ensaiados para saírem nas redes, e as ações são pensadas com base na repercussão prevista. A tendência é que essa estratégia se intensifique", explicou.

Para viralizar, é preciso capturar a atenção do público em meio a um ambiente saturado de conteúdo. Isso incentiva políticos a apostar em atos cada vez mais chamativos, com forte apelo simbólico e potencial de mobilização.

Isabela Rocha lembra a caminhada interestadual do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que saiu de Minas a Brasília em protesto contra a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos demais condenados por golpe de Estado.

O parlamentar percorreu os mais de 240 km que separam a cidade de Paracatu (MG) de Brasília (DF) a pé. Todos os seis dias de trajeto foram transmitidos pelas redes sociais dele.

“Eventualmente, você não sabe nada do Nikolas Ferreira até ele ir para a rua, até ele fazer isso. Aí ele passa 15 dias na rua, só se fala nisso, isso chega em outras pessoas”, analisa o cientista político da Universidade de São Paulo (USP), Glauco Peres.

A peregrinação de Nikolas foi ganhando espaço nas redes à medida em que ele avançava. Isso teve efeito na "vida real". O último dia do ato, em Brasília, contou com cerca de 18 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios.

“Os políticos que são eleitos usando as redes sociais, como o Nikolas Ferreira, ou que depois passam a se apoiar muito nelas — embora tenham uma atuação fora delas, mas sistemática, como vários políticos da esquerda — passam a cultivar um exercício de performance”, explica o professor da USP.

Do outro lado do espectro político, o deputado da esquerda Glauber Braga (PSOL-RJ) fez uma greve de fome de oito dias na Câmara no ano passado para protestar contra um processo no Conselho de Ética, que poderia terminar com sua cassação.

Foi também uma forma de usar o esforço físico como ato de protesto. Durante esse tempo, o parlamentar ingeriu apenas água, soro e isotônico. O fim do que ele classificou de greve de fome foi anunciado em uma coletiva e se deu graças ao acordo feito com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

"Essas ações atingem o público de uma forma mais emocional que racional", pontua Isabela Rocha.

Ela defende que “a performance é a nova forma de fazer política” e que “o eleitor é muito emocionado”, por isso esses conteúdos ganham tanta visibilidade.

<><> O que acontece com as propostas?

Estratégias para ganhar o olhar do público sempre fizeram parte da política. A viralização, no entanto, intensifica o desequilíbrio entre performance e propostas, segundo especialistas.

Políticos passaram a publicar com frequência vídeos que pouco ou nada têm relação direta com projetos ou pautas legislativas, como conteúdos sobre rotina pessoal, prática de esportes ou atividades na academia. O objetivo, segundo analistas, é manter presença constante nas redes e preservar o engajamento do público.

“Esses políticos estão tentando produzir mais material, mais conteúdo. Quem consome isso, na maior parte, é a própria base. Ele está falando com o próprio eleitor para manter esse público cativado, para mantê-lo mobilizado e continuar sendo lembrado”, explica o cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP), Glauco Peres.

O prefeito do Recife, João Campos (PSB) posta com frequência vídeos praticando atividades físicas, como futebol e corrida. São conteúdos sem nenhum teor político, mas que ajudam a engajar o público e favorecer a performance nas redes.

Esse tipo de estratégia tende a ampliar a visibilidade, mas não necessariamente amplia a discussão política. “O tempo todo elas vão estar preocupadas em produzir. E aí o material, sempre que vai ali, nunca é um debate completo”, reforça o especialista.

<><> A lógica das redes

Ainda segundo a especialista, os materiais consumidos e compartilhados nas redes pelos usuários seguem a lógica da confirmação. As pessoas querem reforçar as próprias crenças e usam o espaço digital para isso. O que os políticos exploram “é um conteúdo muito emocional”, que toca o eleitor nesse ponto de reafirmação, acredita ela.

Um dos problemas é que isso limita o debate eleitoral. As pessoas não consomem conteúdos contrários às suas opiniões e os políticos tão pouco produzem conteúdos que geram uma visão completa do cenário político.

“Você nunca tem o debate inteiro, você nunca vê tudo do que está sendo dito. Então sempre tem a fala que vai ser criticada, o político critica, aquilo acaba. Você não vê a réplica”, ressalta o professor da USP, Glauco Peres.

<><> Diferenças entre direita e esquerda

Embora a lógica das redes sociais influencie atores de diferentes espectros ideológicos, especialistas apontam que direita e esquerda costumam adotar estratégias distintas quando recorrem a ações performáticas.

Na direita, esses gestos tendem a estar associados a narrativas de enfrentamento ou denúncia contra instituições, com forte apelo emocional e linguagem direta. Caminhadas simbólicas, protestos individuais e discursos gravados em tom de alerta costumam ser usados para reforçar a identidade política e mobilizar apoiadores já engajados.

O vídeo viral sobre o PIX feito pelo deputado Nikolas Ferreira é um exemplo disso. Ele alcançou mais de 300 milhões de visualizações nas redes sociais ao atacar uma medida do governo. O vídeo é feito em tom de alerta e usa elementos que atingem o emocional dos espectadores.

Já na esquerda, as performances políticas aparecem com mais frequência vinculadas a ações coletivas e causas sociais, como greves, atos públicos e mobilizações organizadas. Nessas situações, o foco costuma recair sobre pautas estruturais e denúncias de desigualdades.

Recentemente o governo publicou nas redes sociais oficiais, por exemplo, um vídeo que divulga o fim do pagamento do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil com uma roupagem que visa a performance nas redes. No post, o assunto é explicado por meio de vídeos engraçados de gatinhos e uma metáfora de leões e gatinhos para explicar a atuação do Imposto de Renda.

A impressão que fica para Isabela Rocha, no entanto, é que essas pautas não tem a mesma repercussão dos conteúdos de direita. “Essa parte do que eu observo como uma dificuldade da esquerda política, de conseguir engajar, de conseguir realmente trazer bastante participação, engajamento nas plataformas, é algo que a direita já faz muito bem desde 2018”, opinou.

De toda forma, os dois lados convergem ao menos em um ponto: os políticos utilizam as redes para fazer uma “campanha” contínua, segundo Glauco Peres. Os mandatos não ficam mais restritos em Brasília, eles alimentam conteúdos para redes “o tempo todo”, acrescenta ele.

•        Gustavo Tapioca: O STF na mira e a eleição de 2026 sob risco

A crise de imagem que atingiu o Supremo Tribunal Federal nas últimas semanas deixou de ser um episódio interno do Judiciário para se tornar peça central do tabuleiro eleitoral de 2026. Reportagem de Daniela Lima, no UOL, mostra que publicitários e estrategistas já tratam o desgaste do tribunal como ativo político com potencial para impulsionar a oposição e alimentar narrativas antissistema.

Não se trata de mera percepção. Trata-se de método.

A mesma engrenagem que operou entre 2016 e 2018 — quando a erosão da confiança nas instituições abriu caminho para a prisão de Lula, sua exclusão da disputa e a vitória de Jair Bolsonaro — volta a girar. Em ano eleitoral, com pesquisas indicando disputa apertada e vantagem estreita de Lula sobre o segundo colocado, Flávio Bolsonaro, o ataque organizado ao STF ganha peso estratégico.

O tribunal que julgou e condenou a tentativa de golpe passa novamente a ser alvo de campanha de deslegitimação em larga escala. A crise atual não surge no vazio: ela é instrumentalizada e amplificada com precisão política.

Estamos diante de uma Lava Jato 2.

O caso Master e a captura eleitoral da crise

A reportagem de Daniela Lima aponta três elementos decisivos:

1.       O desgaste do STF entrou no debate eleitoral e tende a fortalecer a oposição a Lula.

2.       A investigação expôs Dias Toffoli e atingiu também Alexandre de Moraes, alimentando narrativas de conflito de interesses.

3.       Marqueteiros avaliam que a sensação de “desequilíbrio institucional” pode se tornar tema dominante, superando inclusive segurança pública.

Tradução política:

a crise institucional virou combustível eleitoral.

Isso não significa que ministros não devam explicações — devem, e com máxima transparência. O problema está em outro ponto: a transformação de questionamentos específicos em narrativa de colapso institucional total. Quando episódios são convertidos em prova de que “o sistema inteiro está corrompido”, o objetivo deixa de ser fiscalização e passa a ser deslegitimação.

<><> O manual da ultradireita: cinco pontos de um método global

O que ocorre no Brasil segue roteiro testado internacionalmente. A extrema-direita opera com método e etapas claras.

>>> 1. Produção de escândalos com foco institucional

O alvo não é apenas o governo.

São as instituições que mediam a democracia:

Supremo, tribunais eleitorais, imprensa, agências reguladoras.

Desgastar essas estruturas é pré-condição para qualquer ruptura.

>>> 2. Deslegitimação sistemática

Ataques permanentes ao Judiciário e ao sistema eleitoral.

Narrativa de que “tudo está aparelhado”.

Amplificação em redes e canais de desinformação.

Objetivo:

minar confiança pública e preparar terreno para contestar derrotas ou justificar intervenções.

Este é o ponto central do método.

>>> 3. Personalização e moralização

A instituição é atacada por meio de indivíduos.

Casos específicos são ampliados até parecerem prova de corrupção estrutural generalizada.

O foco deixa de ser o fato concreto e passa a ser a ideia de que nada funciona.

>>> 4. Conversão em ativo eleitoral

A crise vira narrativa de campanha.

O discurso antissistema unifica direita tradicional e extrema-direita.

Candidaturas locais e nacionais passam a explorar a ideia de “colapso institucional”.

>>> 5. Preparação para contestação eleitoral

O objetivo final não é apenas desgaste reputacional.

É estrutural:

•        enfraquecer o tribunal que julgou o golpe;

•        questionar decisões futuras;

•        criar ambiente de instabilidade;

•        legitimar eventual contestação de resultados.

<><> Lava Jato 1 e Lava Jato 2

Em 2018, Lula liderava as pesquisas.

Foi preso.

Permaneceu 580 dias encarcerado.

Foi impedido de disputar, de dar entrevista, sequer de dizer quem era seu candidato.

Hoje, Lula volta a liderar — com vantagem estreita.

O segundo colocado é o herdeiro político do bolsonarismo.

E o tribunal que condenou a tentativa de golpe volta a ser colocado sob suspeita generalizada.

A coincidência não é casual.

A Lava Jato 1 operou via sistema judicial e mídia.

A Lava Jato 2 também opera via desgaste institucional contínuo, campanhas digitais e amplificação política.

O mecanismo é o mesmo:

criar clima de desconfiança estrutural para interferir no processo eleitoral.

<><> Toffoli e a porteira escancarada

É impossível ignorar o papel de decisões passadas que contribuíram para o atual cenário.

Toffoli escancarou a porteira em momentos críticos, permitindo que a boiada passasse sob o berrante do caos.

Isso não absolve campanhas de desinformação.

Mas mostra como erros institucionais são capturados e transformados em arma política.

Ministros precisam se defender de acusações?

Sem dúvida.

Mas a instituição precisa ser protegida de campanhas que visam sua desmoralização total.

<><> O risco eleitoral real

O ponto central é este:

o ataque organizado às instituições pode ser decisivo na eleição de 2026.

Se a narrativa de colapso institucional se consolidar, três efeitos podem ocorrer:

1.       fortalecimento do discurso antissistema;

2.       questionamento prévio do resultado eleitoral;

3.       deslocamento do debate para terreno de instabilidade permanente.

A eleição deixa de ser disputa de projetos e passa a ser disputa de legitimidade.

<><> O problema do campo progressista

Há um erro estratégico recorrente:

reagir apenas defensivamente.

A extrema-direita opera com método e coordenação.

O campo progressista responde de forma fragmentada.

Subestima a guerra informacional.

Demora a construir narrativa unificada.

Esse déficit vem desde a Lava Jato 1 e permanece na Lava Jato 2.

Sem enfrentamento direto da campanha de deslegitimação, o terreno fica livre para a erosão institucional contínua.

<><> O tribunal que julgou o golpe volta à mira

O STF precisa responder a questionamentos com transparência e rigor.

Isso é obrigação.

Mas é igualmente necessário reconhecer que está em curso uma ofensiva política estruturada para deslegitimar o tribunal que julgou e condenou a tentativa de golpe.

A eleição de 2026 começa sob esse signo.

Com disputa apertada.

Com ataques coordenados.

E com o risco de repetição de um roteiro já conhecido.

A história recente mostra o que acontece quando campanhas de deslegitimação institucional não são enfrentadas a tempo.

O método está em operação.

A pergunta é se haverá resposta à altura antes que seus efeitos se consolidem no processo eleitoral. 

 

Fonte: g1¹Brasil 247

 

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