sábado, 28 de fevereiro de 2026

David Moscrop: O problema do aprendiz de feiticeiro na era da IA

As discussões sobre a revolução da inteligência artificial tendem a ignorar os trabalhadores, a menos que se trate de um alerta de que as novas tecnologias irão desempoderar e substituir a mão de obra humana. Que os alarmes devam soar cada vez mais alto é óbvio — mas são do tipo que levam a um encolher de ombros coletivo. Afinal, o que se pode fazer? É o grande curso da tecnologia, da história, do progresso. A história dará um jeito. Sempre dá.

A história, de fato, resolve isso. Mas nunca da maneira prometida. As revoluções tecnológicas do passado não eliminaram o trabalho, mas o transformaram profundamente. Esse processo de transformação gera novos empregos — como os defensores da tecnologia costumam afirmar —, mas são empregos mais fragmentados, mais vigiados e mais alienados. A mecanização inicial desqualificou os artesãos, concentrando o controle sobre a produção mesmo com a expansão do emprego. É claro que, da automação administrativa à logística de plataformas, a inovação tecnológica cria “novos empregos”, mas a autonomia do trabalhador sofre golpe após golpe à medida que o trabalho é reorganizado em torno de sistemas cada vez mais rigidamente controlados.

O fatalismo em torno da IA contribui para uma cumplicidade compartilhada no potencial colapso social, político e econômico que ameaça acompanhar o desemprego em massa provocado pela adoção da IA. No entanto, existe uma outra dimensão na dinâmica trabalho-tecnologia que é ignorada ou minimizada nas avaliações desses grandes avanços: o papel que os trabalhadores desempenham no treinamento e na viabilização dessas novas tecnologias.

Não se trata simplesmente da substituição do trabalho manual por máquinas, mas sim da reorganização do trabalho pelo capital. Trata-se da ameaça de que habilidades e conhecimentos sejam extraídos e formalizados por novas tecnologias e sistemas produtivos projetados para funcionar sem os trabalhadores que os tornaram possíveis.

<><> Treinando as ferramentas para enterrar empregos antigos

Poderíamos chamar isso de cavar a própria cova, embora a realidade seja mais complexa. Um novo curta-metragem, Their Eyes [Os Olhos Deles], de Nicolas Gourault, documenta o trabalho de operários estrangeiros que treinam carros autônomos analisando e rotulando as imagens que os veículos utilizam para aprender a navegar pelas estradas. Gourault afirma que espera que seu trabalho “ilumine uma parte da realidade extrativista da qual muitos dos nossos sistemas de IA atuais dependem”. E ele consegue.

Se os trabalhadores estão, de certa forma, cavando suas próprias sepulturas ao habilitar tecnologias de IA que eventualmente os tornarão obsoletos e impotentes, eles fazem isso sob a mira de uma arma. Empresas de tecnologia buscam mão de obra mal remunerada para treinar suas máquinas, e os trabalhadores que aceitam esses empregos têm menos espaço para se preocupar com os efeitos a longo prazo de seu trabalho do que, digamos, com o sustento e a sobrevivência no presente. Eles não estão exatamente no controle da situação.

“Esse processo de transformação gera novos trabalhos — como os defensores da tecnologia costumam afirmar —, mas são trabalhos mais fragmentados, mais vigiados e mais alienados.”

É uma dinâmica familiar, tanto historicamente quanto no atual contexto da IA. No outono de 2020, relatos sobre robôs trabalhadores chamaram a atenção do público quando uma máquina apareceu reabastecendo prateleiras em uma loja japonesa. Na realidade, ela era operada remotamente por um funcionário próximo através de uma câmera de vídeo. Na época, o trabalho remoto, tanto literal quanto figurativamente, não era apenas atraente, mas necessário — uma questão de vida ou morte. No verão de 2025, um novo robô, Neo, entre outros, foi apresentado como o futuro do trabalho doméstico.

Um robô com inteligência artificial poderia dobrar suas roupas, regar suas plantas, encher a lava-louças e realizar outras tarefas rotineiras que, por décadas, nos prometeram que um dia seriam domínio da tecnologia automatizada. Mas, como se vê, o Neo e a maioria de seus similares são controlados por humanos com câmeras — pelo menos por enquanto. Portanto, os robôs automatizados não são apenas uma ilusão (novamente, pelo menos por enquanto), mas também uma janela para sua casa, permitindo que seus operadores vejam o que o robô “vê”. Custando US$ 20.000, é uma janela cara para o seu espaço privado, mas os custos reais são muito maiores do que o preço.

•        Os assistentes humanos de Hal

Como afirmam Alex Hanna e Emily M. Bender, “a maioria das ferramentas de IA exige uma enorme quantidade de trabalho invisível para funcionar”. Esse trabalho cria, analisa e classifica dados para as máquinas; em alguns casos, também as opera, empregando a destreza e o discernimento que são naturais e fáceis para os humanos, mas extremamente difíceis para os robôs.

Em algum momento, sem dúvida, o plano é reduzir a dependência do trabalho humano e aumentar a participação da IA e do controle robótico. Se esse ponto de inflexão ocorrerá em cinco ou vinte anos, é incerto. O que não resta dúvida é que o grande capital está investindo pesado nisso, com trilhões em ativos e mais investimentos a cada ano.

No curto prazo, os trabalhadores são indispensáveis para o desenvolvimento e funcionamento da IA. No longo prazo, porém, seu trabalho corre o risco de se tornar não apenas precário, mas completamente redundante. A mesma mão de obra que gera enorme valor para investidores e acionistas do setor de tecnologia pode deixar os próprios trabalhadores à margem. Mas eles não estarão sozinhos: milhões de empregos em todo o mundo estão ameaçados pela IA.

“Se as empresas podem usar os trabalhadores para tornar esses mesmos trabalhadores impotentes e obsoletos em tempo real, então elas podem fazer praticamente qualquer coisa que quiserem.”

Alguns acreditam que a bolha da IA vai estourar. Mas mesmo que isso aconteça, não impedirá e nem eliminará as mudanças tecnológicas e econômicas de longo prazo que acompanharão o desenvolvimento da IA. Algumas tecnologias de IA vieram para ficar e serão permanentemente incorporadas aos fluxos de trabalho e sistemas, tanto operacionais quanto administrativos, remodelando categorias de emprego e tornando redundantes grandes contingentes de trabalhadores. O trabalho de transcrição, por exemplo, é particularmente vulnerável. É difícil imaginar um retorno aos bancos de dados de transcrição — e seus custos associados — quando serviços baratos podem fornecer textos utilizáveis rapidamente e com precisão razoável. Carros autônomos e robôs domésticos podem ser uma aposta mais arriscada, mas isso não impedirá o Vale do Silício de tentar.

<><> Os trabalhadores devem administrar as lojas

Neste momento, a melhor estratégia do movimento sindical é escolher suas batalhas com muita cautela e se organizar estrategicamente em setores-chave, estando preparado para lutar até o fim para proteger empregos e trabalhadores nesses setores em larga escala — por exemplo, na indústria manufatureira e na indústria automobilística. Mas o movimento sindical organizado, sozinho, só pode ir até certo ponto.

O controle operário sobre as empresas, a autoridade nos locais de trabalho e na produção devem ser inegociáveis. Consolidar o poder dos trabalhadores dentro da própria indústria, nas fábricas e nos escritórios, confere-lhes um controle direto que não pode ser alcançado, por exemplo, apenas por meio de negociação coletiva ou greve.

A propriedade e o controle da indústria pelos trabalhadores não são fáceis de alcançar. Os modelos variam e nenhuma abordagem única serve para todos os setores. Os interesses divergem entre e até mesmo dentro dos setores, e a solidariedade além das fronteiras geográficas, nacionais e internacionais, pode ser difícil de manter. Mas estamos num momento em que todos precisam se unir.

A dependência em larga escala do desenvolvimento de IA perante os trabalhadores, tanto nacionais quanto estrangeiros, expõe o poder que as empresas de tecnologia exercem sobre a classe trabalhadora e seu futuro. Se as empresas podem usar os trabalhadores para torná-los impotentes e obsoletos em tempo real, com pleno conhecimento dos efeitos individuais e coletivos de longo prazo de sua estratégia, então elas podem fazer praticamente o que quiserem.

Provar o contrário exige mais do que reconhecer o papel crucial que o trabalho desempenha no desenvolvimento e na implementação da IA. A tecnologia não é simplesmente uma força externa impactando a sociedade. É uma relação social, moldada pela propriedade, pelo controle e por aqueles cujos interesses ela serve. Não há dúvida de que a IA transformará o trabalho — a questão é até que ponto os trabalhadores terão voz ativa em relação a como essa reorganização se desenrolará. Precisamos construir arranjos econômicos e políticos que permitam que a maior parte da população molde as tecnologias e seu uso de uma forma que funcione para todos, não apenas para os executivos de tecnologia e seus investidores.

•        Trabalho: Como evitar que as IAs nos definam. Por Ivan da Costa Marques

A adoção das IAs no mercado de trabalho brasileiro, vista como “ganho de eficiência”, mascara o custo do desemprego e da precarização. Naturalizar essa adoção e encarregar o mercado da solução dos problemas que as IAs ignoram os custos da violência social envolvida. Uma proposta alternativa é a construção de uma regulação capilar e evolutiva, baseada em métricas locais e na articulação de coletivos comunitários para controlar o ritmo de substituição do trabalho e evitar transições catastróficas anunciadas. O texto é um sopro para politizar a introdução das IAs questionando quem ganha e quem perde, onde e quando, defendendo que a tecnologia sirva à sociedade, não o contrário.

<><> Recepcionando as IAs

A inauguração das IAs em larga escala é relativamente recente. Mas elas já demonstraram sua utilidade e consequente atratividade para um amplo espectro de tarefas e ocupações associadas aos padrões cotidianos da vida moderna. É fácil verificar pessoalmente a capacidade das IAs de executar, autônoma ou interativamente e de maneira surpreendentemente satisfatória, tarefas às vezes não tão simples e rotineiras sobre textos, áudios e imagens. Rejeitá-las seria comparável a imaginamos a rejeição do telefone em favor do menino de recados no começo do século XX. Reconhecer isso, no entanto, não nos impede de pensar e agir sobre como recebê-las levando em conta condições vigentes no Brasil.

<><> O mercado de trabalho em meio à diversidade das IAs

A primeira condição para recebermos as IAs com proveito mais amplo é reconhecer que elas são diversas e devem ser tratadas situando-as caso a caso nos coletivos em que se fizerem presentes. Neste breve texto me circunscrevo ao coletivo (de pessoas e coisas) denominado “mercado de trabalho”. Mais especificamente, me circunscrevo ao mercado da oferta e da demanda por trabalho para realizar tarefas simples e quase repetitivas tais como as de atendentes em call centers. O empresariado diz que as IAs surgem aí com vantagem incontornável, uma vez que neste caso muitas vezes já existe a opção “técnica” do trabalho humano ser substituídos por IAs contabilmente mais baratas. Trazendo outro exemplo, não é um devaneio alarmista pensar que no prazo de poucos anos uma IA viabilizará que o trabalho hoje feito por dez escreventes nos tabelionatos e escritórios de advocacia possa ser feito por três deles (retreinados), desempregando sete em cada dez indivíduos nesta categoria de trabalhadores.

<><> Discutamos o que é “eficiência”

Os números que circulam nos meios empresariais apontam o potencial altamente disruptivo das IAs. No caso do trabalho contratado por empresas, o discurso empresarial traduz essa grande “diminuição do trabalho humano” oferecida pelas IAs como um “ganho de eficiência”. Acontece que para que esse “ganho de eficiência” deixe de ser uma abstração econômica misteriosa é preciso situá-lo materialmente no escopo de uma contabilidade, de uma métrica, de uma medida da vida econômica. Mas ao se confiar na contabilidade do empresariado e na pureza de teorias econômicas dominantes como a melhor forma de se analisar o que acontece na vida econômica, não são levados em conta o sofrimento e a violência decorrentes das demissões e da falta de oportunidades de trabalho. Assim, a contabilidade, a métrica e as medidas dos custos deixam de considerar fatores cruciais para que se realize a tradução da “diminuição do trabalho humano” em “ganho de eficiência”. 

Como as teorias econômicas dominantes não discutem quem ganha e quem perde, quando e onde com esse “ganho de eficiência”, a ideia de “progresso” instala com facilidade um poderoso lobby de oposição à regulamentação da utilização das IAs nas empresas, deixando para o “mercado” resolver por si só as situações decorrentes dos avanços da utilização desregulada das IAs nas empresas. A busca do “ganho de eficiência” se configura então como algo naturalmente bom e desejado por todos, sem que se atente para o que pode ser o “ganho de eficiência”.

<><> Onde poderão estar as prometidas novas tarefas

O “mercado” dirá genericamente que pelo menos uma parte do trabalho humano que a IA torna dispensável aparecerá algures como trabalho humano necessário voltado para outras tarefas decorrentes do uso da IA. Para o “mercado” o ritmo de dispensa do trabalho humano na recepção das IAs nas empresas deve ser pautado unicamente pelo ritmo dos avanços técnicos no desenvolvimento das IAs. E toda resistência ao avanço tecnológico é rapidamente rejeitada como obscurantismo e classificada como “ludista”.

Mas estamos no Brasil e cabe olhar cuidadosamente esse argumento do “mercado” que naturaliza o ritmo de introdução das IAs como algo inseparável do ritmo do desenvolvimento tecnológico das IAs. Além disso, admitamos, o ritmo do desenvolvimento tecnológico das IAs é determinado em outros países, como EUA, China e Israel. Não é difícil enxergar que o ritmo de criação de novo trabalho humano para compensar o que se tornou dispensável com as IAs possa variar conforme o país, a região, o estado ou mesmo o município.

<><> Uma utopia chinesa

Por isso também ganha força no Brasil a “conveniência” de delegar a solução da questão do desemprego criado pelas IAs às abstrações do “mercado” ou das teorias da ciência econômica. A “conveniência” está em contornar o desafio de pôr em prática uma regulamentação que deverá ser capilar e evolutiva para minimizar sofrimento e violência conforme os locais, o que soa como uma utopia chinesa aos ouvidos dos estamentos que governam nosso país.

Muito esquematicamente, carente de incontáveis complementos e aperfeiçoamentos, essa utopia envolveria (a) a criação de dispositivos métricos detalhados e evolutivos de acompanhamento e contagem (uma estatística) de demissões e contratações ligadas às IAs no âmbito de coletivos locais, com capilaridade suficiente para detalhar a situação no mercado de trabalho indo pelo menos ao nível municipal; (b) o engajamento de coletivos comunitários, sejam sindicatos, partidos políticos, grupos profissionais, empregados de uma empresa, redes socias etc. interessadas em negociações que evolutivamente lutem por estabelecer uma regulamentação visando pôr em prática um fluxo equilibrado de demissões (trabalhos assumidos pelas IAs) e admissões (novos trabalhos para humanos) medidos por (a) em determinada região, estado ou município; (c) a criação e implantação pelo Estado de um arcabouço legal que estabeleça as condições para que estas negociações entrem em cena com a força dos dispositivos legais. A rede desses elementos entrelaçados definiria propriamente o escopo de uma contabilidade, uma métrica, uma medida para avaliar materialmente o custo e em decorrência o “ganho de eficiência” (“produção” / “custo”) trazido pelas IAs.

Para ser bem-sucedido, uma transformação do tipo sugerido acima na maneira de construir políticas públicas teria que ganhar escala numa formação “de baixo para cima”, com a participação e condução daqueles que são vítimas da violência e encarnam o sofrimento envolvido nas disrupções trazidas pelas IAs. Para quem tem seu trabalho rotineiro substituído pelas IAs, o desaparecimento do trabalho humano nos call centers e escritórios acontecer ao longo de dez, de cinco ou de um ano faz bastante diferença.

Impossível! Já ouço o descarte da proposta de recepção das IAs esboçada acima pelos estamentos que governam o Brasil, alegando desde “ingenuidade” a “radicalismo utópico”, não obstante a crescente admiração pelas realizações chinesas tão aparentes nas últimas décadas.

<><> Da mão invisível para as mãos visíveis

Como ponto de partida sine qua non é preciso reconhecer que o grau de violência e sofrimento pode ser ao menos em parte controlado mediante regulamentação. A ignição daquele “de baixo para cima” pode contar com o engajamento de coletivos mediadores nos diversos âmbitos sociotécnicos pelos brasis afora. São muitos os exemplos de grupos mediadores do sofrimento, formados em associações formais ou informais de mulheres e homens das diversas ocupações e classes sociais. Em torno da questão de como resistir ao catastrófico lembremos que o engajamento em um coletivo mediador faz com que seus participantes se destaquem como praticantes que participam da formulação de problemas e não só como analistas ou usuários.

Em seu livro “Em meio ao catastrófico: resistindo à barbárie que se aproxima”, a filósofa belga Isabelle Stengers descreveu a capacidade de “pensar e agir em conjunto” como a possibilidade de uma “inteligência coletiva” incorporada em “grupos que reivindicam a capacidade de intervir, de complicar as coisas, de se intrometer naquilo que – tanto do ponto de vista do Estado quanto do Empresariado – não lhes diz respeito”. (STENGERS, 2015:77)

<><> Politizar as IAs

Um dos enormes desafios para o nosso país diante das IAs é se preparar a tempo criando dispositivos métricos próprios para discutir ampla e democraticamente este “ganho de eficiência” e intervir escapando da força desenfreada do mercado que, grosso modo, foi no Ocidente elevada à categoria cognitiva de força natural. Lutemos para que nossos coletivos de pensamento tenham a perspectiva de intervenção e vivam a tensão envolvida na escolha das formas de intervir. Com as IAs, caso a caso, quem ganha e quem perde, onde, quando e o quê? E com quais IAs?

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil/Outras Palavras

 

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