sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Sócrates foi nosso melhor exemplo de como politizar o esporte

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nunca ganhou uma Copa do Mundo. Nunca chegou a uma final, nunca ergueu o troféu mais prestigioso do futebol, nunca conquistou a imortalidade que geralmente define a grandeza na mitologia oficial do esporte. Mesmo assim, depois de décadas, a lenda do futebol brasileiro permanece uma das figuras mais importantes da história das Copas.

Centenas de jogadores já venceram o torneio, mas só existiu um Sócrates. Seu legado perdura não por causa de prêmios ou mesmo por sua habilidade inesgotável, mas porque ele compreendeu algo que as instituições do futebol preferem esquecer: que jogar futebol é, em si, um ato político. Os atletas, quer queiram quer não, ocupam um palco com enorme poder social.

<><> O anti-atleta

Alto, barbudo e cerebral, frequentemente comparado a Che Guevara, Sócrates tinha uma presença inconfundível em campo. Era um mestre do espaço e do tempo, um jogador que previa os passes antes mesmo de existirem, lançando bolas longas com precisão cirúrgica e desmontando defesas com seus característicos passes de calcanhar sem olhar.

“Alto, barbudo e cerebral, frequentemente comparado a Che Guevara, Sócrates tinha uma presença inconfundível em campo.”

Mas mesmo no auge de sua carreira como jogador, ele resistiu à ideia de que o futebol deveria consumi-lo completamente. Médico formado — o que lhe rendeu o apelido de “Doutor Sócrates” — ele personificava a contradição que perturba as expectativas restritas do esporte: um atleta de elite que lia vorazmente, se posicionava politicamente e recusava a disciplina puritana exigida pelo esporte profissional. “Sou um anti-atleta”, disse ele certa vez. “Vocês têm que me aceitar como eu sou.”

O craque nascido em Belém não acreditava que os jogadores de futebol existissem fora da sociedade, nem que sua única responsabilidade fosse entreter. “Enquanto eu era jogador de futebol, minhas pernas amplificavam minha voz”, refletiu ele, desfazendo o mito liberal sobre o esporte ser apolítico. Ele usou essa voz amplificada para se manifestar contra a injustiça não só no Brasil, mas também internacionalmente, mais notavelmente ao usar faixas na cabeça com mensagens políticas na Copa do Mundo de 1986, no México.

Essas mensagens incluíam “O povo precisa de justiça”, “Não à violência” e “Sim ao amor, não ao terror” — esta última uma crítica direta ao bombardeio estadunidense da Líbia pouco mais de um mês antes. Esses gestos não eram meras declarações performáticas ou vagos apelos à união. Eram explícitos, afrontosos e internacionalistas, desafiando o imperialismo em termos inequívocos.

<><> Democracia no futebol

Sócrates não nasceu radical. No início de sua carreira, ele ecoava o senso comum reacionário de seu meio, elogiando o regime militar brasileiro e rejeitando a ideia de que esporte deveria se misturar com política. O que o transformou foi a educação e o contato com a realidade.

Em 1978, quando começou a jogar pelo Corinthians, o clube histórico onde Sócrates passou a maior parte de sua monumental carreira, ele se deparou com a violência e a repressão de uma ditadura apoiada pelos EUA que governava o Brasil desde a derrubada do presidente democraticamente eleito em 1964. Ele começou a questionar e a ler mais.

“Sócrates tornou-se uma figura central na Democracia Corinthiana — uma experiência extraordinária de autogoverno coletivo dentro de um dos maiores clubes de futebol do Brasil.”

Quando compreendeu o que realmente estava acontecendo — os desaparecimentos, a censura, a repressão ao movimento sindical — ele mudou de posição publicamente. Essa disposição para desaprender, para romper com crenças anteriores, é fundamental para seu legado político e serve como um importante lembrete a todas as pessoas com consciência: jamais desistam de questionar os sistemas de opressão que nos cercam.

Foi no Corinthians que suas convicções políticas encontraram a expressão mais clara. No início da década de 1980, em meio a um clima despótico cada vez mais rígido, Sócrates tornou-se figura central na Democracia Corinthiana — um experimento extraordinário de autogoverno coletivo dentro de um dos maiores clubes de futebol do Brasil. Sob sua liderança, as decisões eram tomadas democraticamente, com jogadores, comissão técnica, fisioterapeutas, roupeiros e funcionários tendo direito a voto igual.

Tudo, incluindo os horários de treino, as regras da equipe e até mesmo se o ônibus deveria parar para uma pausa para ir ao banheiro, era decidido coletivamente. Em um país onde o direito à participação democrática havia sido violentamente retirado da população, um clube de futebol tornou-se um espaço de controle operário e imaginação política, o que eventualmente se expandiu, tornando-se extremamente importante na luta contra a ditadura.

A Democracia Corinthiana posicionou-se diretamente contra o regime militar, alinhando-se ao movimento mais amplo “Diretas Já”, que exigia a restauração das eleições democráticas. Sócrates utilizou sua plataforma explicitamente em um momento em que a dissidência acarretava riscos reais; ele não se escondeu atrás de eufemismos ou neutralidade. O futebol, ele compreendia, era um dos poucos espaços onde a atenção das massas não se extinguia facilmente.

Sócrates morreu aos 57 anos, em 4 de dezembro de 2011, no mesmo dia em que o Corinthians conquistou o título do Campeonato Brasileiro — um final poético para um homem cuja vida foi inseparável do clube e de seus torcedores. Naquela época, ele já havia se aposentado do futebol há muito tempo, mas não da política. Exerceu a medicina, escreveu, deu palestras, atuou como comentarista esportivo e permaneceu comprometido com a mudança radical, apoiando abertamente Luiz Inácio Lula da Silva e a esquerda brasileira. Seu ativismo não terminou quando saiu dos holofotes.

<><> A política do silêncio

Hoje, enquanto os Estados Unidos aceleram rumo ao fascismo e intensificam seus crimes imperialistas contra a América Latina e outras regiões, e enquanto a Federação Internacional de Futebol (FIFA) se curva completamente a Donald Trump, precisamos que os jogadores canalizem esse espírito de Sócrates — quando os EUA se preparam para sediar uma Copa do Mundo que fará com que os torneios manchados da Rússia e do Catar pareçam quase pitorescos em comparação.

Tudo o que Sócrates representava ia contra a reconfortante ficção liberal de que a política entra no esporte apenas quando um atleta “escolhe” se manifestar. O esporte não se torna político repentinamente quando os jogadores usam uma braçadeira, se ajoelham, cobrem a boca ou fazem uma declaração. Também há política na omissão. Tudo no futebol é político porque o próprio jogo está intrinsecamente ligado ao poder: no nacionalismo e no capital, no espetáculo imperial, nas estruturas criadas para o lucro e o prestígio.

O esporte moderno trabalha incansavelmente para obscurecer essa realidade, e é por isso que os jogadores são incentivados a “se concentrarem no jogo”, a permanecerem neutros e a entenderem a política como algo externo, disruptivo e perigoso — uma ameaça à harmonia, em vez de uma resposta à injustiça, a menos, é claro, que a “política” em questão seja nacionalista ou militarista.

“Tudo no futebol é político porque o próprio jogo está intrinsecamente ligado ao poder.”

Quando os atletas desafiam o poder, são recompensados ​​apenas na medida em que suas intervenções são vagas, simbólicas e facilmente absorvidas pela linguagem comercial dos valores. Qualquer coisa mais incisiva é tratada como quebra de contrato. Portanto, o silêncio não é a ausência de política, mas sua forma mais submissa.

Sócrates reconheceu isso muito antes de as redes sociais reduzirem a expressão política à mera promoção pessoal. Seu ativismo não era uma questão apenas de consciência individual; era coletivo, estrutural e abertamente antagônico ao poder.

A Democracia Corinthiana não se tratava de visibilidade, mas de redistribuir o poder de decisão e promover mudanças institucionais e, ao fazê-lo, expor a relação do futebol com as lutas mais amplas pelos trabalhadores e pela democracia. É isso que distingue a ação política radical dos gestos vazios que hoje dominam a elite do esporte.

<><> Esportes e espetáculo

Essa distinção é importante, especialmente hoje, porque a linguagem de “manifestar-se” causou profundos danos políticos. Ela sugere que a injustiça pode ser combatida apenas por meio da expressão, em vez de por meio da organização, da solidariedade e do confronto. Reduz a política a uma mera performance e a dissidência a um produto comercial.

“A linguagem de ‘manifestar-se’ sugere que a injustiça pode ser combatida apenas por meio da expressão, e não por meio da organização, da solidariedade e do confronto.”

No futebol, isso gerou uma geração de jogadores cujas imagens públicas são meticulosamente controladas. Suas opiniões são filtradas por patrocinadores e agentes, e seus raros momentos de consciência são rapidamente relegados ao espetáculo.

As consequências disso são visíveis também fora do futebol. No críquete, um dos esportes mais populares do mundo, reina o silêncio sobre a ocupação da Caxemira pela Índia, sobre os pogroms anti-muçulmanos e sobre a consolidação do poder autoritário sob Narendra Modi.

As autoridades do críquete indiano, dominadas por aliados de Modi, proibiram agora os jogadores de críquete de Bangladesh de participarem da maior liga do esporte, depois de já terem excluído seus colegas paquistaneses. O Conselho Internacional de Críquete se apresenta como neutro, enquanto opera em perfeita sintonia com o poder estatal e os interesses corporativos.

Do Paquistão à Austrália, os jogadores são avisados, implícita e explicitamente, de que o engajamento político ameaça suas carreiras. Claro que isso não se aplica quando se trata de interesses capitalistas — como a Austrália se recusar a jogar contra a seleção afegã de críquete “em solidariedade” às mulheres afegãs, mesmo quando isso é comercialmente inviável, mas não em grandes torneios.

<><> Recusando a mentira

Nesse contexto, figuras como Sócrates, ou mesmo a lenda argentina Diego Maradona, destacam-se por rejeitarem a mentira da neutralidade. O apoio declarado de Maradona à Revolução Cubana, sua solidariedade com a Palestina e sua hostilidade ao imperialismo estadunidense o colocaram firmemente fora dos limites aceitáveis da política entre celebridades. Assim como Sócrates, Maradona personificava a ideia de que os jogadores de futebol não são meros artistas, mas trabalhadores cujo trabalho gera riqueza e cuja visibilidade lhes confere peso político.

Hoje, o contraste é gritante. Cristiano Ronaldo posa pateticamente com Donald Trump, enquanto Neymar demonstra seu apoio a Jair Bolsonaro. Quando os jogadores mais influentes do mundo se alinham abertamente com políticas reacionárias, enfrentam poucas críticas, mesmo que as instituições insistam que o futebol deve permanecer acima da política. Essa contradição revela que o esporte não é despolitizado, mas sim seletivamente politizado; ávido por se adequar ao poder, mas alérgico à resistência. O silêncio é exigido apenas daqueles que possam perturbar a ordem vigente.

“O esporte não é despolitizado, mas sim seletivamente politizado; ávido por se adequar ao poder, mas alérgico à resistência.”

Até mesmo os gestos tão elogiados dos últimos anos agora parecem frágeis. Na Copa do Mundo do Catar, algumas seleções europeias, principalmente a Alemanha, encenaram demonstrações cuidadosamente coreografadas de protesto “baseadas em valores”, que foram simbólicas, contidas e, no fim das contas, inócuas. Mas até mesmo esses gestos foram cerceados pela FIFA sem qualquer resistência.

O espírito do México ‘86 — do futebol como um espaço de dissidência política declarada — parece incrivelmente distante quarenta anos depois, mesmo com treze dos 104 jogos programados para acontecer em território mexicano. No entanto, é justamente esse espírito que a próxima Copa do Mundo exige. Se a FIFA insiste em realizar a maior parte de seu principal torneio no coração de um império em colapso, em meio à crescente repressão, fronteiras militarizadas e guerra permanente, então a neutralidade não é mais uma posição aceitável, se é que algum dia foi.

<><> Lutando pelo jogo

Enquanto os EUA aceleram rumo ao autoritarismo em seu próprio território e financiam a violência em massa no exterior, o esporte mais assistido do mundo se prepara para seguir o mesmo caminho. Esse silêncio é produto de uma cultura e economia esportivas projetadas para suprimir a resistência antes que ela possa se consolidar, com jogadores incentivados a se enxergarem como marcas em vez de trabalhadores, enquanto as seleções nacionais se tornam veículos de soft power.

Não precisa ser assim. Os jogadores de futebol não são indivíduos impotentes presos em um sistema imutável. Seu trabalho sustenta uma indústria global, sua visibilidade atrai a atenção das massas e sua ação coletiva poderia impactar significativamente o status quo. Quando ajudou a construir a Democracia Corinthiana, Sócrates demonstrou que, mesmo sob uma ditadura, o futebol poderia ser reorganizado segundo princípios democráticos.

“Enquanto os EUA aceleram rumo ao autoritarismo internamente e financiam a violência em massa no exterior, o esporte mais assistido do mundo se prepara para seguir o mesmo caminho.”

Fundamentalmente, essa responsabilidade não recai apenas sobre os jogadores. Os torcedores também são atores políticos. Grupos de torcedores, sindicatos, jornalistas e movimentos populares têm um papel a desempenhar na resistência à maquiagem do império por meio do esporte. Boicotes, protestos coordenados e pressão constante podem forçar perguntas incômodas a entrar em espaços criados para excluí-las.

O persistente movimento para excluir Israel de competições internacionais pode ainda não ter levado a mudanças, mas sem dúvida ampliou os limites do que é considerado possível. A decisão do clube alemão Fortuna Düsseldorf de voltar atrás na contratação do jogador israelense Shon Weissman, em resposta à pressão constante dos torcedores devido ao seu apoio aos crimes de guerra do exército israelense, é um exemplo disso. Não há razão para que campanhas coordenadas e coletivas semelhantes não possam ser travadas contra os Estados Unidos.

Ainda há lampejos de solidariedade. Figuras como Gary LinekerPep Guardiola e Anwar El Ghazi mostraram que é possível enfrentar o silenciamento. Mas a coragem isolada não basta. O que tornou Sócrates tão amado não foi apenas seu ativismo, mas seu compromisso com a luta coletiva.

Invocar o legado de Sócrates hoje não é mitificar o passado, mas sim lançar um desafio ao presente. Se o futebol pôde ser politizado contra uma ditadura militar apoiada pelos EUA no Brasil da década de 1980, então a afirmação de que a resistência é impossível hoje soa vazia.

A próxima Copa do Mundo será vendida como um festival, um espetáculo, uma distração. Se ela se tornará algo mais — um palco de confronto e solidariedade — dependerá de se aqueles que realmente amam o futebol estiverem dispostos a lutar por ele.

 

Fonte: Por Hamza Shehryar - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

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