Sócrates
foi nosso melhor exemplo de como politizar o esporte
Sócrates
Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nunca ganhou uma Copa do Mundo.
Nunca chegou a uma final, nunca ergueu o troféu mais prestigioso do futebol,
nunca conquistou a imortalidade que geralmente define a grandeza na mitologia
oficial do esporte. Mesmo assim, depois de décadas, a lenda do futebol
brasileiro permanece uma das figuras mais importantes da história das Copas.
Centenas
de jogadores já venceram o torneio, mas só existiu um Sócrates. Seu legado
perdura não por causa de prêmios ou mesmo por sua habilidade inesgotável, mas
porque ele compreendeu algo que as instituições do futebol preferem esquecer:
que jogar futebol é, em si, um ato político. Os atletas, quer queiram quer não,
ocupam um palco com enorme poder social.
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O anti-atleta
Alto,
barbudo e cerebral, frequentemente comparado a Che Guevara, Sócrates tinha uma
presença inconfundível em campo. Era um mestre do espaço e do tempo, um jogador
que previa os passes antes mesmo de existirem, lançando bolas longas com
precisão cirúrgica e desmontando defesas com seus característicos passes de
calcanhar sem olhar.
“Alto,
barbudo e cerebral, frequentemente comparado a Che Guevara, Sócrates tinha uma
presença inconfundível em campo.”
Mas
mesmo no auge de sua carreira como jogador, ele resistiu à ideia de que o
futebol deveria consumi-lo completamente. Médico formado — o que lhe rendeu o
apelido de “Doutor Sócrates” — ele personificava a contradição que perturba as
expectativas restritas do esporte: um atleta de elite que lia vorazmente, se
posicionava politicamente e recusava a disciplina puritana exigida pelo esporte
profissional. “Sou um anti-atleta”, disse ele certa vez. “Vocês têm que me
aceitar como eu sou.”
O
craque nascido em Belém não acreditava que os jogadores de futebol existissem
fora da sociedade, nem que sua única responsabilidade fosse entreter. “Enquanto
eu era jogador de futebol, minhas pernas amplificavam minha voz”, refletiu ele,
desfazendo o mito liberal sobre o esporte ser apolítico. Ele usou essa voz
amplificada para se manifestar contra a injustiça não só no Brasil, mas também
internacionalmente, mais notavelmente ao usar faixas na cabeça com mensagens
políticas na Copa do Mundo de 1986, no México.
Essas
mensagens incluíam “O povo precisa de justiça”, “Não à violência” e “Sim ao
amor, não ao terror” — esta última uma crítica direta ao bombardeio
estadunidense da Líbia pouco mais de um mês antes. Esses gestos não eram meras
declarações performáticas ou vagos apelos à união. Eram explícitos, afrontosos
e internacionalistas, desafiando o imperialismo em termos inequívocos.
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Democracia no futebol
Sócrates
não nasceu radical. No início de sua carreira, ele ecoava o senso comum
reacionário de seu meio, elogiando o regime militar brasileiro e rejeitando a
ideia de que esporte deveria se misturar com política. O que o transformou foi
a educação e o contato com a realidade.
Em
1978, quando começou a jogar pelo Corinthians, o clube histórico onde Sócrates
passou a maior parte de sua monumental carreira, ele se deparou com a violência
e a repressão de uma ditadura apoiada pelos EUA que governava o Brasil desde a
derrubada do presidente democraticamente eleito em 1964. Ele começou a
questionar e a ler mais.
“Sócrates
tornou-se uma figura central na Democracia Corinthiana — uma experiência
extraordinária de autogoverno coletivo dentro de um dos maiores clubes de
futebol do Brasil.”
Quando
compreendeu o que realmente estava acontecendo — os desaparecimentos, a
censura, a repressão ao movimento sindical — ele mudou de posição publicamente.
Essa disposição para desaprender, para romper com crenças anteriores, é
fundamental para seu legado político e serve como um importante lembrete a
todas as pessoas com consciência: jamais desistam de questionar os sistemas de
opressão que nos cercam.
Foi no
Corinthians que suas convicções políticas encontraram a expressão mais clara.
No início da década de 1980, em meio a um clima despótico cada vez mais rígido,
Sócrates tornou-se figura central na Democracia Corinthiana — um experimento
extraordinário de autogoverno coletivo dentro de um dos maiores clubes de
futebol do Brasil. Sob sua liderança, as decisões eram tomadas
democraticamente, com jogadores, comissão técnica, fisioterapeutas, roupeiros e
funcionários tendo direito a voto igual.
Tudo,
incluindo os horários de treino, as regras da equipe e até mesmo se o ônibus
deveria parar para uma pausa para ir ao banheiro, era decidido coletivamente.
Em um país onde o direito à participação democrática havia sido violentamente
retirado da população, um clube de futebol tornou-se um espaço de controle
operário e imaginação política, o que eventualmente se expandiu, tornando-se
extremamente importante na luta contra a ditadura.
A
Democracia Corinthiana posicionou-se diretamente contra o regime militar,
alinhando-se ao movimento mais amplo “Diretas Já”, que exigia a restauração das
eleições democráticas. Sócrates utilizou sua plataforma explicitamente em um
momento em que a dissidência acarretava riscos reais; ele não se escondeu atrás
de eufemismos ou neutralidade. O futebol, ele compreendia, era um dos poucos
espaços onde a atenção das massas não se extinguia facilmente.
Sócrates
morreu aos 57 anos, em 4 de dezembro de 2011, no mesmo dia em que o Corinthians
conquistou o título do Campeonato Brasileiro — um final poético para um homem
cuja vida foi inseparável do clube e de seus torcedores. Naquela época, ele já
havia se aposentado do futebol há muito tempo, mas não da política. Exerceu a
medicina, escreveu, deu palestras, atuou como comentarista esportivo e
permaneceu comprometido com a mudança radical, apoiando abertamente Luiz Inácio
Lula da Silva e a esquerda brasileira. Seu ativismo não terminou quando saiu
dos holofotes.
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A política do silêncio
Hoje,
enquanto os Estados Unidos aceleram rumo ao fascismo e intensificam seus crimes
imperialistas contra a América Latina e outras regiões, e enquanto a Federação
Internacional de Futebol (FIFA) se curva completamente a
Donald Trump, precisamos que os jogadores canalizem esse espírito de Sócrates —
quando os EUA se preparam para sediar uma Copa do Mundo que fará com que os
torneios manchados da Rússia e do Catar pareçam quase pitorescos em comparação.
Tudo o
que Sócrates representava ia contra a reconfortante ficção liberal de que a
política entra no esporte apenas quando um atleta “escolhe” se manifestar. O
esporte não se torna político repentinamente quando os jogadores usam uma
braçadeira, se ajoelham, cobrem a boca ou fazem uma declaração. Também há
política na omissão. Tudo no futebol é político porque o próprio jogo está
intrinsecamente ligado ao poder: no nacionalismo e no capital, no espetáculo
imperial, nas estruturas criadas para o lucro e o prestígio.
O
esporte moderno trabalha incansavelmente para obscurecer essa realidade, e é
por isso que os jogadores são incentivados a “se concentrarem no jogo”, a
permanecerem neutros e a entenderem a política como algo externo, disruptivo e
perigoso — uma ameaça à harmonia, em vez de uma resposta à injustiça, a menos,
é claro, que a “política” em questão seja nacionalista ou militarista.
“Tudo
no futebol é político porque o próprio jogo está intrinsecamente ligado ao
poder.”
Quando
os atletas desafiam o poder, são recompensados apenas na medida em que suas intervenções
são vagas, simbólicas e facilmente
absorvidas pela linguagem comercial dos “valores”.
Qualquer coisa mais incisiva é tratada como quebra
de contrato. Portanto, o silêncio não
é a ausência de política,
mas sua forma mais submissa.
Sócrates
reconheceu isso muito antes de as redes sociais reduzirem a expressão política
à mera promoção pessoal. Seu ativismo não era uma questão apenas de consciência
individual; era coletivo, estrutural e abertamente antagônico ao poder.
A
Democracia Corinthiana não se tratava de visibilidade, mas de redistribuir o
poder de decisão e promover mudanças institucionais e, ao fazê-lo, expor a
relação do futebol com as lutas mais amplas pelos trabalhadores e pela
democracia. É isso que distingue a ação política radical dos gestos vazios que
hoje dominam a elite do esporte.
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Esportes e espetáculo
Essa
distinção é importante, especialmente hoje, porque a linguagem de
“manifestar-se” causou profundos danos políticos. Ela sugere que a injustiça
pode ser combatida apenas por meio da expressão, em vez de por meio da
organização, da solidariedade e do confronto. Reduz a política a uma mera
performance e a dissidência a um produto comercial.
“A
linguagem de ‘manifestar-se’ sugere que a injustiça pode ser combatida apenas
por meio da expressão, e não por meio da organização, da solidariedade e do
confronto.”
No
futebol, isso gerou uma geração de jogadores cujas imagens públicas são
meticulosamente controladas. Suas opiniões são filtradas por patrocinadores e
agentes, e seus raros momentos de consciência são rapidamente relegados ao
espetáculo.
As
consequências disso são visíveis também fora do futebol. No críquete, um dos
esportes mais populares do mundo, reina o silêncio sobre a ocupação da Caxemira
pela Índia, sobre os pogroms anti-muçulmanos e sobre a consolidação do poder
autoritário sob Narendra Modi.
As
autoridades do críquete indiano, dominadas por aliados de
Modi, proibiram agora os jogadores de
críquete de
Bangladesh de participarem da maior liga do esporte, depois de já terem excluído seus colegas
paquistaneses. O Conselho Internacional de Críquete se apresenta como neutro,
enquanto opera em perfeita sintonia com o poder estatal e os interesses
corporativos.
Do Paquistão à Austrália, os jogadores são
avisados, implícita e explicitamente, de que o engajamento político ameaça suas
carreiras. Claro que isso não se aplica quando se trata de interesses
capitalistas — como a Austrália se recusar a jogar contra a seleção afegã de
críquete “em solidariedade” às mulheres afegãs, mesmo quando isso é
comercialmente inviável, mas não em grandes torneios.
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Recusando a mentira
Nesse
contexto, figuras como Sócrates, ou mesmo a lenda argentina Diego Maradona, destacam-se por
rejeitarem a mentira da neutralidade. O apoio declarado de Maradona à Revolução
Cubana, sua solidariedade com a Palestina e sua hostilidade ao imperialismo
estadunidense o colocaram firmemente fora dos limites aceitáveis da política
entre celebridades. Assim como Sócrates, Maradona personificava a ideia de que
os jogadores de futebol não são meros artistas, mas trabalhadores cujo trabalho
gera riqueza e cuja visibilidade lhes confere peso político.
Hoje, o
contraste é gritante. Cristiano Ronaldo posa pateticamente com Donald Trump,
enquanto Neymar demonstra seu apoio a Jair Bolsonaro. Quando os jogadores mais
influentes do mundo se alinham abertamente com políticas reacionárias,
enfrentam poucas críticas, mesmo que as instituições insistam que o futebol
deve permanecer acima da política. Essa contradição revela que o esporte não é
despolitizado, mas sim seletivamente politizado; ávido por se adequar ao poder,
mas alérgico à resistência. O silêncio é exigido apenas daqueles que possam
perturbar a ordem vigente.
“O
esporte não é despolitizado, mas sim seletivamente politizado; ávido por se
adequar ao poder, mas alérgico à resistência.”
Até
mesmo os gestos tão elogiados dos últimos anos agora parecem frágeis. Na Copa
do Mundo do Catar, algumas seleções europeias, principalmente a Alemanha, encenaram
demonstrações cuidadosamente coreografadas de protesto “baseadas em valores”,
que foram simbólicas, contidas e, no fim das contas, inócuas. Mas até mesmo
esses gestos foram cerceados pela FIFA sem
qualquer resistência.
O
espírito do México ‘86 — do futebol como um espaço de dissidência política
declarada — parece incrivelmente distante quarenta anos depois, mesmo com treze
dos 104 jogos programados para acontecer em território mexicano. No entanto, é
justamente esse espírito que a próxima Copa do Mundo exige. Se a FIFA insiste
em realizar a maior parte de seu principal torneio no coração de um império em
colapso, em meio à crescente repressão, fronteiras militarizadas e guerra
permanente, então a neutralidade não é mais uma posição aceitável, se é que
algum dia foi.
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Lutando pelo jogo
Enquanto
os EUA aceleram rumo ao autoritarismo em seu próprio território e financiam a
violência em massa no exterior, o esporte mais assistido do mundo se prepara
para seguir o mesmo caminho. Esse silêncio é produto de uma cultura e economia
esportivas projetadas para suprimir a resistência antes que ela possa se
consolidar, com jogadores incentivados a se enxergarem como marcas em vez de
trabalhadores, enquanto as seleções nacionais se tornam veículos de soft
power.
Não
precisa ser assim. Os jogadores de futebol não são indivíduos impotentes presos
em um sistema imutável. Seu trabalho sustenta uma indústria global, sua
visibilidade atrai a atenção das massas e sua ação coletiva poderia impactar
significativamente o status quo. Quando ajudou a construir a Democracia
Corinthiana, Sócrates demonstrou que, mesmo sob uma ditadura, o futebol poderia
ser reorganizado segundo princípios democráticos.
“Enquanto
os EUA aceleram rumo ao autoritarismo internamente e financiam a violência em
massa no exterior, o esporte mais assistido do mundo se prepara para seguir o
mesmo caminho.”
Fundamentalmente,
essa responsabilidade não recai apenas sobre os jogadores. Os torcedores também
são atores políticos. Grupos de torcedores, sindicatos, jornalistas e
movimentos populares têm um papel a desempenhar na resistência à maquiagem do
império por meio do esporte. Boicotes, protestos coordenados e pressão
constante podem forçar perguntas incômodas a entrar em espaços criados para
excluí-las.
O
persistente movimento para excluir Israel de competições internacionais pode
ainda não ter levado a mudanças, mas sem dúvida ampliou os limites do que é
considerado possível. A decisão do clube alemão Fortuna Düsseldorf de voltar
atrás na contratação do jogador israelense Shon Weissman, em resposta à pressão constante dos
torcedores devido ao seu apoio aos crimes de guerra do exército israelense, é
um exemplo disso. Não há razão para que campanhas coordenadas e coletivas
semelhantes não possam ser travadas contra os Estados Unidos.
Ainda
há lampejos de solidariedade. Figuras como Gary Lineker, Pep Guardiola e Anwar El Ghazi mostraram que é
possível enfrentar o silenciamento. Mas a coragem isolada não basta. O que
tornou Sócrates tão amado não foi apenas seu ativismo, mas seu compromisso com
a luta coletiva.
Invocar
o legado de Sócrates hoje não é mitificar o passado, mas sim lançar um desafio
ao presente. Se o futebol pôde ser politizado contra uma ditadura militar
apoiada pelos EUA no Brasil da década de 1980, então a afirmação de que a
resistência é impossível hoje soa vazia.
A
próxima Copa do Mundo será vendida como um festival, um espetáculo, uma
distração. Se ela se tornará algo mais — um palco de confronto e solidariedade
— dependerá de se aqueles que realmente amam o futebol estiverem dispostos a
lutar por ele.
Fonte: Por Hamza
Shehryar - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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