Miguel
Manso: Luta ideológica na fase terminal do imperialismo monopolista e seu
fascismo
Este
artigo (em 4 partes) analisa o caráter fascista da fase monopolista do
imperialismo do grande capital financeiro e a relação dialética entre a pressão
exercida pelo imperialismo em sua fase monopolista e fascista e os mecanismos
ideológicos de resposta das classes oprimidas. Partindo de conceitos como
ideologia, disposição ideológica, defensiva e ofensiva ideológica, alienação da
realidade e fuga das contradições da luta, o estudo investiga como o fascismo e
o terror de Estado e a violência sistêmica atuam sobre a moral do povo e de sua
vanguarda consciente. Argumenta-se que a manutenção do projeto socialista e de
libertação nacional depende intrinsecamente de uma luta constante, que
fortaleça a disposição ideológica para a resistência e supere as tentações da
alienação e da fuga, realize a práxis organizada da luta e retome a ofensiva
ideológica para conquistar a consciência humana coletiva e a vitória.
O
estágio monopolista do imperialismo, em sua fase decadente e terminal, e a
crise do revisionismo (Parte 1)
Conforme
descrito por Lênin (1917), o estágio terminal do capitalismo imperialista e
monopolista caracteriza-se pela fusão do capital bancário com o industrial,
pela exportação de capitais e pela partilha do mundo entre trustes capitalistas
e potências hegemônicas e pela geração permanente de crises, guerras, além da
ameaça de uma hegemonia fascista para a repartição do mundo em zonas de
influência e controle geopolítico.
Neste
contexto, a tendência à crise estrutural do capitalismo agudiza-se, gerando uma
pressão constante para a superexploração, a opressão violenta de Estados e
governos fascistas.
Como
resposta a suas contradições internas e à ameaça representada pela organização
das classes trabalhadoras, o imperialismo recorre aos métodos fascistas e a um
Terror de Estado sistemático, utilizando a violência como método de intimidação
e controle social (POULANTZAS, 1974).
Na
busca incansável e insaciável pelo lucro máximo e concentração da propriedade
privada dos grandes meios de produção e reservas minerais e naturais
estratégicas, sem lograr superar o caos e a anarquia do desenvolvimento
desigual, e apesar da verticalização crescente dos meios de produção, o
imperialismo é incapaz de superar a falta de planejamento centralizado de toda
a economia.
Sempre
que avança a centralização dos cartéis e dos monopólios privados, em suas
disputas interimperialistas e monopolistas travam, desorganizam e destroem o
desenvolvimento das forças produtivas.
Travam
as forças produtivas, mas são incapazes de impedir plenamente o seu
desenvolvimento, e ao tentar sufocar o mercado e as empresas mais progressistas
em tecnologia e inovação, com práticas monopolistas, de dumping ou controle de
preços artificialmente elevados sobre o mercado, de arrocho sem limites sobre
os trabalhadores, de imposição de suas práticas intermináveis de guerras de
rapina por controle de reservas minerais, de supressão pela força dos seus
concorrentes, acirram a contradição das forças produtivas com as relações de
propriedade privada e monopolista dos meios de produção, e acirram as
contradições com os povos em luta por sua emancipação, na sua tentativa de
submissão das economias e das nações.
A
prática de arrochar salários e retirar direitos, para buscar superar a
concorrência entre os próprios monopólios e contornar a lei da redução
crescente da taxa de lucro, conduz inevitavelmente a que, no plano político,
tratem de golpear a democracia e o regime de direitos sociais, para impor pelo
fascismo um retrocesso ao regime de “escravidão” e miséria para as amplas
massas de trabalhadores no mundo e de neo colonialismo sobre as nações.
O
fascismo não é pois um fenômeno marginal do sistema de dominação imperialista,
é assim decorrência central da incapacidade do capitalismo, em sua fase
imperialista decadente e parasitária, de conviver com a livre concorrência nos
mercados, com a democracia e com a soberania dos povos e nações. É parido nas
suas entranhas, na contradição interimperialista, na crise terminal do
capitalismo monopolista, acelerando sua superação histórica e a inevitável
busca de liberdade e emancipação das nações da violenta opressão a que são
submetidas.
O
fascismo não é provocado pelo surgimento do socialismo ou da luta pela
liberdade dos povos e nações, pelo contrário, é fruto da sua incapacidade de
conviver com o livre mercado, a concorrência, o desenvolvimento permanente das
forças produtivas e do seu desenvolvimento desigual e anárquico.
A
democracia, a liberdade, a soberania e o socialismo são o caminho para a sua
superação, para a libertação da humanidade do regime fascista dos monopólios
imperialistas decadentes, são o caminho para o desenvolvimento pacífico das
forças produtivas e da civilização, para o bem-estar de todos e a
sustentabilidade do planeta.
Como
tem demonstrado o acelerado desenvolvimento da China, o capitalismo de
concorrência pode ser utilizado para cumprir um papel social, desde que sob
hegemonia de um Estado soberano, democrático e popular, que organize o modo e
as relações de produção e o seu desenvolvimento de forma planejada e
centralizada por um projeto nacional e evoluir para uma sociedade socialista,
que coloque freio na ação antissocial dos monopólios privados.
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Preparação para as guerras interimperialistas
A
premissa de que “o fascismo pretende resolver as contradições
inter-imperialistas” é crucial para entender suas consequências sociais. Vamos
desdobrar o que isso significa para as diferentes classes.
A
ideia, desenvolvida por Lenin, Dimitrov e Stalin, é que em períodos de crise
profunda do capitalismo (econômica, social e política), quando a burguesia não
consegue mais governar com os métodos tradicionais da democracia liberal e
quando a classe trabalhadora ainda não conseguiu tomar o poder, setores do
grande capital (os monopólios, o capital financeiro) passam a apoiar e
financiar um movimento fascista. Esse movimento promete:
Esmagar
de forma brutal a organização autônoma da classe trabalhadora (sindicatos,
partidos operários) e seus aliados.
Suprimir
as contradições internas (luta entre as frações de classes da burguesia) em
nome da “unidade nacional para buscar domínio de outras nações e povos para sua
espoliação”.
Mobilizar
a sociedade de forma extremamente reacionária para um projeto de expansão
imperialista externa, que promete resolver as crises de superprodução e falta
de mercados através da conquista e do saque de outros povos.
Consequências
para as classes sociais sob o terror fascista
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1. Para a classe trabalhadora (proletariado):
Terror
aberto e desorganização: É a classe que paga o preço mais imediato e brutal.
Seus partidos, sindicatos, cooperativas e imprensa são ilegalizados e
destruídos. Seus líderes são assassinados, presos ou exilados. O direito de
greve é abolido. A “livre” negociação salarial é substituída por decretos e
leis que beneficiam o grande capital financeiro.
Superexploração:
Em nome de “Deus”, da “pátria” e do “chefe”, os salários são congelados ou
reduzidos, a jornada de trabalho é aumentada e as condições laborais pioram
drasticamente. O “corporativismo” fascista coloca patrões e empregados sob o
controle estatal, mas sempre em benefício do grande capital financeiro.
Ideologia
de submissão: A ideologia fascista (nacionalismo extremo, culto ao líder,
desprezo pela “luta de classes”) visa substituir a consciência de classe por
uma lealdade cega ao regime e à sua ditadura, dividindo e desarmando
politicamente os trabalhadores.
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2. Para a pequena burguesia (pequenos comerciantes, artesãos, profissionais
liberais):
Ambivalência
e desilusão: Frequentemente, setores da pequena burguesia são a base social
inicial do movimento fascista, atraídos pelo discurso antissistema,
anticapitalista falso (contra os “grandes monopólios judeus” ou
“cosmopolitas”), anticomunista e de restauração de uma “ordem tradicional”
idealizada e sacralizada.
Subjugação
final: Uma vez no poder, o fascismo não resolve seus problemas. Os grandes
monopólios que o financiam se fortalecem ainda mais, engolindo os pequenos
negócios e a burguesia não monopolista. A retórica “anticapitalista”
desaparece, e a pequena burguesia fica subordinada ao estado totalitário e ao
grande capital financeiro. Muitos de seus membros são cooptados para a
burocracia do partido ou milícias paramilitares, mas sem poder real.
Precarização:
Assim como os trabalhadores, enfrentam o controle ditatorial, a concorrência
desleal dos monopólios protegidos pelo regime e a espoliação econômica para
financiar o rearmamento e a guerra arruína a todos.
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3. Para a burguesia não-monopolista (média burguesia industrial e agrária):
Aliança
contraditória e subordinação: Apoiam o fascismo como um mal menor contra o
“perigo comunista” e a agitação operária. No curto prazo, beneficiam-se da
repressão aos sindicatos e da estabilidade forçada.
Perda
de autonomia e ruína: No médio e longo prazo, são subordinados aos interesses
dos grandes monopólios e do estado fascista, que direciona a economia para a
guerra. Perdem independência econômica e política, sendo forçados a se integrar
ao projeto corporativista e militarista. Muitos são absorvidos ou arruinados
pelos grandes conglomerados.
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4. Para a burguesia monopolista (grande capital, oligopólios, finanças):
Beneficiária
imediata e condutora oculta: É a classe que, em última instância, patrocina a
ascensão fascista para preservar e expandir seu poder e propriedade. Colhe os
frutos imediatos:
Destruição
do movimento operário.
Supressão
dos salários.
Controle
absoluto sobre a força de trabalho.
Enormes
contratos estatais para rearmamento e obras de infraestrutura.
Expansão
imperialista que abre novos mercados, fontes de matéria-prima e campos de
investimento.
Risco e
controle: No entanto, cede parte de seu poder político direto ao partido e ao
estado fascista. O regime desenvolve uma autonomia relativa e pode, em certos
momentos, chantagear ou mesmo expropriar setores da burguesia que não se
alinhem totalmente. O objetivo final do fascismo (guerra de conquista) é um
risco calculado que pode levar à destruição total, incluindo a do próprio
capital que o apoia.
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5. Para os camponeses e pobres rurais:
Retórica
e exploração: A ideologia fascista frequentemente idealiza o campesinato como a
“essência da nação”. Na prática, os camponeses são superexplorados através de
preços controlados, impostos altos e arrocho salarial. São vistos como fonte de
alimento para as cidades e de soldados para o exército.
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6. Para a intelectualidade e profissionais técnicos:
Cooptação
ou perseguição: Sofrem uma severa censura e controle ideológico. Aqueles que se
alinham ao regime podem ser cooptados para a propaganda, para a ciência
aplicada à guerra ou para a burocracia estatal. Os dissidentes ou considerados
“degenerados” (artistas modernos, cientistas de teorias “não-ariana”, etc.) são
perseguidos, silenciados ou forçados ao exílio.
O
“terror dos grandes monopólios” sob a forma fascista significa a tentativa da
suspensão brutal da luta de classes “de baixo para cima” e sua substituição por
uma guerra “de cima para baixo” contra a classe trabalhadora e todos os setores
opositores. É a solução reacionária e desesperada para a crise terminal do
capitalismo:
Internamente:
Elimina qualquer espaço democrático, congela os conflitos sociais através da
violência e mobiliza a sociedade para objetivos imperialistas.
Externamente:
Projeta as contradições insolúveis do sistema para fora, através do
militarismo, do colonialismo e da guerra, que se tornam a principal força
motriz da economia e da política.
O
resultado, como a história mostrou, é a catástrofe humana em escala massiva: a
guerra mundial, o genocídio, a destruição econômica e o esmagamento de qualquer
liberdade. O fascismo não resolve as contradições do imperialismo; ele as leva
ao paroxismo destrutivo, no qual todas as classes, exceto uma pequena elite no
ápice do poder, acabam sendo vítimas em maior ou menor grau, mesmo aquelas que
inicialmente o apoiaram.
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Fascismo por Dimitrov
Georgi
Dimitrov, em seu famoso discurso no VII Congresso da Internacional Comunista
(Comintern) em 1935 e em sua obra subsequente, apresentou a análise clássica do
fascismo que se tornou a linha oficial do movimento comunista internacional no
final dos anos 1930.
Sua
análise pode ser resumida nos seguintes pontos fundamentais:
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1. Definição do fascismo
Dimitrov
deu a definição mais canônica:
“O
fascismo é a ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais
chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro.”
Isso
significa que:
Não é
simplesmente uma ditadura burguesa qualquer, mas sua forma mais aberta,
terrorista e reacionária.
Não é
um poder “acima das classes” ou um “terceiro caminho”. É intrinsecamente ligado
ao capitalismo monopolista (capital financeiro).
Seu
caráter de classe é fundamental: ele serve aos interesses dos setores mais
agressivos do grande capital.
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2. Condições para sua ascensão
Dimitrov
enumerou as condições que permitem a tomada do poder pelos fascistas:
Crise
profunda do capitalismo, com estagnação econômica e empobrecimento das massas.
Crise
da democracia burguesa e instabilidade política, onde os métodos parlamentares
tradicionais não conseguem mais conter as contradições das lutas sociais e as
agravam.
Crise
nas massas trabalhadoras, que estão insatisfeitas e se radicalizam, mas onde o
partido revolucionário (comunista) ainda não é forte o suficiente para tomar o
poder e liderá-las para a libertação e ao socialismo.
Descontentamento
da pequena burguesia (e até de setores do proletariado atrasado), que o
fascismo consegue mobilizar com sua demagogia social.
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3. A demagogia social fascista
Um
ponto crucial da análise de Dimitrov era que o fascismo chega ao poder não
apenas pela violência, mas também pela demagogia:
Apresenta-se
como “revolucionário” e “antissistema”, criticando os grandes capitalistas e
banqueiros (usando, muitas vezes, um véu antissemita ou fanatismo religioso).
Faz
promessas vagas de justiça social, defesa dos pequenos produtores e unidade
nacional contra inimigos internos (comunistas, “traidores”) e externos.
No
entanto, uma vez no poder, descarta essa máscara e revela sua essência: uma
ditadura a serviço dos monopólios, esmagando tanto os trabalhadores quanto os
pequenos burgueses que o apoiaram e expropriam os setores da burguesia não
monopolista, acelerando a concentração de riquezas e as tensões sociais.
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4. O fascismo como terror antiproletário
Dimitrov
enfatizava que o alvo principal e imediato do fascismo é o movimento operário
organizado:
Destrói
todas as organizações da classe trabalhadora (partidos, sindicatos,
cooperativas).
Elimina
fisicamente ou desmoraliza ou prende seus líderes e militantes.
Suprime
todas as liberdades democráticas e direitos conquistados.
Cria um
aparato estatal terrorista (polícia política, milícias, campos de prisioneiros)
para garantir esse esmagamento.
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5. Estratégia de combate: a Frente Única
A
principal contribuição prática de Dimitrov foi derivar da sua análise uma
estratégia concreta para derrotar o fascismo: a Frente Única.
Erro
fatal: Considerar a social-democracia como “irmão gêmeo” ou “social-fascismo”
(tese anterior da Comintern que ele ajudou a superar). Isso dividia a classe
trabalhadora.
Necessidade
imperativa: Unir todos os trabalhadores, comunistas e social-democratas, em uma
frente única de luta contra o fascismo.
Ampliação:
Estender essa aliança para setores da pequena burguesia, camponeses e
intelectuais democráticos ameaçados pelo regime fascista — a frente popular. O
objetivo imediato não era a revolução socialista, mas defender as liberdades
democráticas e derrotar a ofensiva fascista.
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6. Relação entre fascismo e guerra
Dimitrov
via o fascismo como força motriz da guerra imperialista. A política econômica
fascista (autarquia, rearmamento) levava inevitavelmente ao conflito externo. E
a guerra imperialista era uma ferramenta para: redistribuir o mundo entre as
potências; esmagar ainda mais o movimento revolucionário internacional; e
super-explorar colônias e nações conquistadas.
Fonte:
Brasil 247

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