Como
o islamismo influenciou religiões de matriz africana no Brasil
Roupas
brancas às sextas-feiras, o som dos atabaques, patuás junto ao corpo, a cabeça
no chão como gesto de respeito.
Esses
são alguns rituais praticados em terreiros de candomblé, umbanda e quimbanda —
religiões de matriz africana que surgidas no Brasil com a vinda forçada de
povos escravizados.
Mas o
que muita gente não sabe — e muitos livros de história não registram — é que
estes rituais têm influência do islamismo africano, já que parte dos
escravizados que vieram ao Brasil seguiam esta fé.
Os
malês, como ficaram conhecidos os africanos muçulmanos escravizados, vieram da
região do Golfo do Benim e desembarcaram no Brasil entre os séculos 18 e 19.
De
acordo com a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, docente do departamento de
Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o termo malê tem origem no
iorubá e está associado a muçulmano, mestre ou sábio — refletindo o
reconhecimento social que esses africanos possuíam em suas regiões de origem,
sobretudo no atual sudoeste da Nigéria e Benim.
Vivendo
principalmente em Salvador, eles dominavam a leitura e a escrita em árabe,
conheciam o Alcorão e mantinham práticas religiosas regulares — como orações,
jejum e ensino religioso estruturado.
No
Brasil, os malês se destacaram pelo alto grau de organização religiosa,
política e intelectual.
"Por
serem muçulmanos, eles se reconheciam entre si, mesmo não tendo vindo todos da
mesma região. A religião criava um vínculo que facilitava a organização
coletiva", explica Barbosa.
Mas
essas práticas eram reprimidas pelas autoridades coloniais e depois imperiais
do Brasil — onde por séculos o catolicismo foi a religião oficial e outras
crenças, inclusive as de africanos não-islâmicos, foram fortemente reprimidas.
Até
que, em 1835, os malês protagonizaram um dos levantes regenciais (revoltas
ocorridas no Brasil durante o Período Regencial, entre 1831 e 1840) mais
importantes do século 19 e uma das principais rebeliões de africanos
escravizados em áreas urbanas do Brasil.
A
Revolta dos Malês ocorreu em 25 de janeiro de 1835, em Salvador.
Segundo
o historiador Wilher Freitas Guimarães, mestre em educação pela Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), o movimento foi protagonizado
por cerca de 600 africanos escravizados, em sua maioria muçulmanos.
Vestidos
com abadás brancos e portando amuletos considerados protetores, os
participantes se organizaram para enfrentar as forças do poder colonial.
O
levante foi rapidamente reprimido pelas autoridades, mas é apontado por
pesquisadores como um marco da resistência negra no período regencial e da
presença islâmica africana na história do Brasil.
Após a
revolta, o Islã passou a ser ainda mais associado ao risco de insurreição.
Segundo
o antropólogo e historiador Vitor Queiroz, o episódio gerou pânico entre
autoridades e parlamentares, que temiam que o Brasil seguisse o caminho do
Haiti.
A
Revolução Haitiana, iniciada em 1791 na então colônia francesa de
Saint-Domingue, foi a única revolta de pessoas escravizadas nas Américas que
resultou na criação de um Estado independente, governado por ex-escravizados.
"Esse
medo levou à perseguição dos muçulmanos, a tentativas de deportação e ao
fortalecimento do controle sobre suas práticas religiosas, o que acabou
reforçando o apagamento de sua presença na história oficial", explica
Queiroz, coordenador do Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e
Tradicionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Outra
explicação para o pouco conhecimento sobre a história dos malês no Brasil era o
próprio desinteresse das elites da época nesse povo escravizado, acrescenta o
antropólogo e historiador.
Fatores
demográficos também contribuíram para esse silenciamento.
Com a
proibição ao tráfico transatlântico de escravizados para o Brasil, em 1850, a
entrada de africanos da África Ocidental, região mais islamizada, diminuiu
drasticamente.
Sem
reposição populacional e sob vigilância constante, essa presença foi se
diluindo ao longo da segunda metade do século 19.
Mais
tarde, essa herança foi ofuscada pela imigração árabe e pela consolidação de
correntes islâmicas mais ortodoxas.
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Símbolos islâmicos nos terreiros
O que
sobreviveu da cultura islâmica africana no Brasil se perpetuou na memória oral
e nas religiões afro-brasileiras, influenciadas por três principais grupos
originários: banto (vindo de Angola e Congo), jeje (do antigo Daomé) e nagô (de
tradição iorubá).
Entre
os exemplos mais visíveis está o uso do branco, especialmente às sextas-feiras.
Barbosa,
professora da USP, explica que no Islã a cor está associada à preparação
espiritual e à limpeza ritual. Segundo ela, antes da reza, há um ritual de
purificação do corpo, que inclui banho e higiene.
"Os
muçulmanos usam roupa branca porque era a roupa que o profeta Muhammad usava. É
uma roupa que precisa estar limpa, purificada, especialmente para a oração de
sexta-feira", afirma.
A
presença dessa cor também aparece nos terreiros, mas não como reprodução pura e
simples do rito islâmico — uma comparação com a qual é preciso cautela, diz o
historiador Wilher Freitas Guimarães.
"Temos
que ter o cuidado epistemológico em não associar diretamente a influência
islâmica como estruturadora das práticas religiosas de matriz africana",
afirma.
Segundo
ele, o uso do branco nas religiões de matriz africana resulta de uma formação
própria ocorrida no Brasil, na qual a participação dos africanos muçulmanos
atuou como um dos componentes, e não origem exclusiva.
Outra
convergência, embora Guimarães novamente aponte que não se pode falar em uma
influência direta, está no uso de patuás e amuletos.
No Islã
tradicional, especialmente no norte da África e Península Arábica, não se usa o
termo "patuá" — mas existem as hizbs ou ta'wiz, pequenos pedaços de
papel ou couro com versículos do Alcorão escritos à mão, para proteção.
Nas
tradições islâmicas africanas, a escrita tem função protetiva — e muitos patuás
usados no Brasil também trazem inscrições, reforçando a conexão com as forças
espirituais.
"Ao
escrever no patuá, [uma pessoa] aumenta o vínculo com as forças espirituais e
deixa claro sua intenção, no objeto, com as forças nas quais acredita",
explica Guimarães.
Barbosa
aponta para outros rituais que revelam esse encontro de heranças, como o
encostar a cabeça no chão como gesto de respeito, o uso de pequenas bolsas de
couro junto ao corpo e até a organização comunitária dos terreiros.
André
Aluize, antropólogo e sacerdote de candomblé (função conhecida também como pai
de santo ou babalorixá) da nação ketu (uma das vertentes do candomblé, neste
caso de origem iorubá), também pondera que não é possível fazer uma ligação
direta entre certos elementos presentes em religiões afro-brasileiras e
práticas islâmicas.
Para
Aluize, vice-coordenador da Rede Temática Educaxé (grupo de estudos na
Universidade Estadual Paulista), é melhor falar em "incorporação" e
"ressignificação" desses elementos no Brasil.
O
pesquisador destaca a influência islâmica, por exemplo, nas batas e adornos de
cabeça utilizados nos terreiros, como os turbantes.
Outro
exemplo é o atabaque. Embora o instrumento tenha origem africana, Aluize
explica que ele chegou ao Brasil trazido por povos escravizados com forte
identidade cultural islâmica.
Nos
terreiros, os atabaques não são apenas instrumentos musicais, mas entidades
sagradas, indispensáveis para a realização dos rituais, ressalta o antropólogo.
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A violência em comum
Mais do
que falar em sincretismo, especialistas sugerem olhar para essa convergência
como resultado de um diálogo forçado entre tradições submetidas à violência da
escravidão.
Aluize
propõe que a relação entre o Islã e as religiões afro-brasileiras seja
compreendida em dois momentos principais.
O
primeiro tem a ver com a ancestralidade africana comum, anterior à formação
histórica das religiões organizadas.
"Independentemente
do tempo histórico, das convenções, territorialidades, dogmas e doutrinas, a
noção de sagrado e as relações com ele têm origem no continente africano",
destaca Aluize.
O
segundo ocorre com a chegada forçada dos malês ao Brasil, quando suas práticas
e concepções religiosas passam a dialogar com outras tradições africanas já
presentes no território.
Para a
professora Francirosy Campos Barbosa, da USP, o termo "mistura" não
contempla a complexidade do encontro de culturas e crenças ocorrido no Brasil.
"Não
é uma fusão equilibrada, mas uma aproximação construída por pessoas africanas
escravizadas, que precisavam criar estratégias para manter vivas suas
crenças", explica.
Assim,
elementos do Islã, especialmente aqueles ligados à espiritualidade africana,
não sobreviveram como religião organizada, mas foram fragmentados e
reinterpretados.
Para
Guimarães, não se trata de afirmar a continuidade de um rito islâmico, mas de
reconhecer uma adaptação estratégica.
"Talvez
seja mais produtivo falar em sobrevivência religiosa. Não foi uma mistura
livre, mas uma adaptação calculada para continuar existindo em um ambiente de
repressão", afirma.
Sacerdote
de candomblé, o antropólogo André Aluize avalia que muitas comunidades de
terreiro já veem de forma positiva as influências do islamismo, entendendo-o
como parte da formação das religiões afro-brasileiras.
Contribui
para isso o crescimento recente de pesquisas acadêmicas sobre religiosidades de
matriz africana no Brasil, que ajudam a reconhecer a
"plurietnicidade" na origem dessas tradições, ele aponta.
Para o
público geral, reconhecer a presença islâmica africana na formação religiosa e
cultural do Brasil ajuda a ampliar a leitura sobre a escravidão para além da
violência física e do trabalho forçado, dizem os entrevistados.
Segundo
Barbosa, há pouco espaço para compreender os africanos escravizados como
pessoas letradas e organizadas. A escassez de estudos e a presença limitada da
revolta dos Malês nos livros didáticos, segundo a pesquisadora, refletem esse
processo de invisibilização.
Para
ela, o resgate dessa história ajuda a revelar a contribuição do Islã para a
história brasileira.
"Infelizmente,
há o estigma de um Islã terrorista, que oprime mulheres. Não há o devido
conhecimento sobre os muçulmanos, sua história rica de conhecimento e expansão.
Com os africanos, pior ainda, porque vivemos em um país racista. Difícil vermos
religiosos negros sendo protagonistas", lamenta a antropóloga.
Fonte:
BBC News Brasil

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