sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Universidade: Resposta diante do cerco

Proponho refletir sobre o papel da universidade nos diversos planos e dimensões da formação de sujeitos epistêmicos e de reprodução das utopias da modernidade e suas derivações, no contexto atual de globalização do capitalismo cognitivo. Na parte I deste texto, apresentei um pequeno glossário de termos derivados do conceito de utopia, como distopia, retrotopia, desutopia, heterotopia, focalizando sua utilidade para compreensão dos contextos e impactos do digital no mundo contemporâneo.

Com base nessa fundamentação, buscando avaliar formas viáveis de superação do caráter utópico da educação superior, analiso nesta parte II o forma protopia como princípio gerador de projetos realistas e viáveis visando à concretização de mudanças contingentes e estratégicas de uma dada realidade social em geral e no interior de instituições sociais, como a universidade. Na parte III, compartilharei uma reflexão sobre pertinência e possibilidades de uma tecno-protopia como estratégia capaz de articular forças políticas e movimentos sociais em torno de um projeto de universidade pública de fato autônoma, comprometida com competência sociotécnica, soberania tecnológica, emancipação de sujeitos epistêmicos e sensibilidade eco-etno-social.

<><> Universidade e Utopia

Em 1953, Robert Hutchins, então Reitor da Universidade de Chicago, resgatou o conceito de utopia para propor uma universidade ideal, comprometida com o desenvolvimento de uma sociedade avançada não apenas em aspectos econômicos e tecnológicos, mas também humanísticos e sociais, numa visão liberal. Hutchins (1953) apresenta o capitalismo industrial como uma utopia em processo de concretização, exigindo um novo modelo de educação superior, uma “Universidade da Utopia”, definida por interdisciplinaridade, flexibilidade, abrangência e racionalidade prática. Dessa forma, propunha superar o especialismo, o positivismo e o cientificismo, segundo ele fatores responsáveis pelo distanciamento da universidade tradicional em relação à sociedade moderna.

Em oposição ao otimismo utópico do capitalismo industrial e considerando o contexto político influenciado pelo macarthismo e pela Guerra Fria, algumas vertentes da teoria crítica europeia postularam que a educação formal contribui para a manutenção das relações de classe e do sistema jurídico-político. Louis Althusser (1980 [1966]), em Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado, utiliza conceitos do marxismo gramsciano, como a ‘hegemonia’, para avançar sua análise crítica do Estado, o que posteriormente fundamentou a abordagem da “educação como reprodução social” (Bourdieu & Passeron, 1975). Essas abordagens alimentaram expectativas utópicas de uma transformação radical na educação, capaz de gerar novas formas de subjetividade e sociabilidade, viabilizando uma revolução cultural capaz de romper com os regimes de reprodução ideológica pela pedagogia formal.

Nos discursos utópicos sobre educação, observa-se uma disputa em torno da subjetividade, destacando as categorias de pedagogia, reprodução e replicação como centrais para a formação de subjetividades futuras, tanto em transições graduais quanto em rupturas radicais. Jameson (2005) argumenta que escolas e universidades são instituições utópicas criadas para explorar os futuros possíveis e aponta que a educação tem papel cada vez mais relevante na construção de identidades diante das novas subjetividades. Na utopia socialista, educação e reprodução social convergem numa pedagogia coletiva voltada à formação de sujeitos críticos para uma nova ordem econômica, social e política. Conforme Jameson (2005, p. 168), compreende “o tipo de transformação radical da subjetividade pressuposta pela maioria das revoluções, uma mutação nas naturezas humanas e o surgimento de um ser humano totalmente novo.” A visão jamesoniana da utopia de uma revolução tranquila pela educação revela certa “impaciência com a pedagogia” pois os modelos formativos do Ocidente, comprometidos com a tradição e a institucionalidade, produzem respostas tímidas, lentas e tardias (Lewis, 2009). Por isso, mostram-se incapazes de realizar a profunda mudança em valores, afetos e consciência, necessários para alcançar os objetivos utópicos do marxismo ocidental.

Particularmente em relação à educação superior, cabe neste momento avaliar se a instituição universitária – invenção histórica do Ocidente europeu para promoção da cultura grecolatina cristã, recriada na época clássica para formação de quadros do Estado moderno, reinventada na era pós-iluminista como lugar da produção do conhecimento científico, ativa na condição de usina ideológica da tecnociência – seria capaz de desempenhar essa missão radicalmente trans-formadora. Constatados alguns dos limites e problemas da utopia universitária iluminista, atualizada pelo socialismo democrático, consideremos então a questão da protopia.

<><> Da protopia

Em 2006, no contexto do movimento Universidade Nova, propus o neologismo ‘protopia’ como epílogo e título de uma coletânea de ensaios sobre o futuro da universidade brasileira (Almeida Filho, 2007). Na transição para o segundo governo Lula, essa iniciativa serviu de inspiração para o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), a mais abrangente tentativa recente de reforma universitária realizada no Brasil, entre os anos de 2007 e 2012. Naquele texto, a palavra ‘protopia’ nomeava “uma proposta provocadora, realista, viável, portanto realizável; […] movimento assumidamente desejante, mobilizador, histórico (no sentido de operado pela ação humana) […], a favor de um lugar; movemo-nos em direção a este lugar; neste movimento, construímos o novo lugar, nossa protopia, a Universidade Nova” (Almeida Filho, 2007, p. 295).

Anos depois, descobri que a noção de protopia havia sido incorporada ao debate sobre ciberpolítica e mundo virtual por Kevin Kelly, fundador da revista Wired, intelectual orgânico do autonomeado “futurismo”, bastante celebrado no imaginário do Vale do Silício. Isso ocorreu numa postagem datada de 2011, no site The Technium, frequentemente citada na literatura cinzenta dos estudos de futuros: “nosso destino não é nem utopia nem distopia nem status quo, mas protopia. […] Como uma protopia contém tantos novos problemas quanto novos benefícios, essa complexa interação de trabalho e ruptura é de difícil previsão”.

Sob a liderança do próprio Kelly, num movimento quase viral de vulgarização em-linha, a noção de protopia tem se disseminado em redes sociais, portais e blogs de gurus, mentores empresariais, palestrantes e influenciadores digitais. Nos países do Norte, numerosas iniciativas de criação institucional, consultoria empresarial, preparação de quadros e produção ideológica rapidamente se organizaram, fomentando um hype típico da cibercultura contemporânea. Em março de 2023, mereceu uma special series do influente New York Times, intitulada Protopia Movement.

Não obstante seu caráter de modismo, se embasada num referencial teórico consistente, a ideia de protopia pode se configurar como uma importante questão filosófica e teórica (Bielskyte, 2021). Nesse sentido, será um atraente e promissor quadro referencial para a ação política, social e cultural necessária para transformar de modo sustentável o contexto contemporâneo, caracterizado por complexidade, inovação disruptiva, interdependência global e incerteza radical numa “complexa interação de trabalho e ruptura”.

Hanzi Freinacht (2022) propõe transformar a noção de protopia em conceito. Relacionando as etapas históricas de modernidade, pós-modernidade e metamodernidade às formas de imaginar o futuro: Utopia, Eutopia e Protopia, ele critica as utopias clássicas por serem insuficientes e perigosas. Segundo Freinacht, a utopia da modernidade, associada ao iluminismo, é marcada por teleologia rígida e lógica binária, buscando eliminar conflitos e diferenças, o que levou a projetos políticos autoritários e violentos. Buscando superar essa concepção, retoma a ideia de eutopia – sem mencionar ter sido proposta por Mumford, conforme vimos acima – para identificar “o bom lugar” e rejeitar o sentido de “lugar nenhum”. Diferentemente da utopia, a eutopia não projeta um futuro distante, mas vincula-se ao pensamento pós-moderno, a crítica às grandes narrativas e a valorização do contexto, enfatizando a diversidade cultural. No entanto, para Freinacht (2022), a eutopia tem limitações estruturais: ancorada em exceções muitas vezes personalizadas, carece de escalabilidade, continuidade histórica e capacidade de coordenação sistêmica.

No impasse entre o universalismo perigoso da utopia e o particularismo fragmentário da eutopia, Freinacht (2022) baliza o conceito de Protopia, compreendido como representativo de uma metamodernidade. A protopia combinaria o impulso direcional e mobilizador da utopia com a sensibilidade crítica e plural da eutopia, sem absolutizar nem eliminar qualquer um desses modos de conceber as mudanças sistêmicas. A protopia se apresenta precisamente como uma tendência convergente, oferecendo uma gramática conceitual para pensar transformações sociais profundas sem recorrer às ilusões ou armadilhas do passado.

A superação das crises da modernidade e os limites da pós-modernidade de fato exigem uma imaginação política capaz de articular esperança sem dogmatismo e crítica sem imobilismo. A perspectiva da protopia, enfim, não aponta para um único futuro desejável, mas para um espaço de possibilidades, implicando um “horizonte de eventos” onde podem emergir distintos futuros (Shermer, 2018). Retomando, de certo modo, a ideia de heterotopia de Foucault, o conceito de protopia se refere à mobilização ou ao movimento proativo para implementar propostas de criação ou mudanças profundas em uma determinada realidade.

Sob diversos ângulos, direcionada à concretização de projetos realistas e possíveis, a perspectiva da protopia se revela uma “ironia crítica”: reconhece os riscos das grandes narrativas, sem ignorar os conflitos de interesses dos micropoderes; entende bem os perigos do ceticismo que paralisa, mas também considera as limitações de agir diante da incerteza. No contexto educacional, especialmente, a protopia aposta no potencial da aprendizagem e na transformação gradual das instituições sociais por meio de “práticas sociotécnicas formadoras” pertinentes à esfera da cultura e ao imaginário social.

Retomei o tema da protopia em 2020, num artigo escrito em colaboração com Luis Eugenio de Souza (Almeida-Filho; Souza, 2020). Inicialmente, examinamos dois modelos de universidade surgidos na Europa do século 19. O primeiro modelo é utópico, supostamente humboldtiano, baseado na autonomia institucional, na liberdade acadêmica e na centralidade da pesquisa científica como princípio formativo. O segundo é atópico, derivado da Reforma Bonaparte na França pós-revolucionária, caracterizado pela subordinação direta do ensino superior ao controle estatal (Almeida-Filho, 2025). Consideramos que a proposta de reforma universitária do governo Bolsonaro [2019-2022] representava um modelo distópico, na medida em que ameaçava a autonomia universitária, subordinava o conhecimento às lógicas de mercado e fragilizava a universidade pública enquanto instituição estratégica para a democracia, a ciência e a inclusão social (Almeida-Filho & Souza, 2020). Como alternativa, propusemos uma protopia para a universidade brasileira com base na inclusão social e étnico-racial, por meio de reorganização curricular em ciclos formativos e fortalecimento do vínculo entre universidade, educação básica e desenvolvimento nacional.

<><> Autonomia ameaçada

A história das universidades no Brasil começou ainda no período imperial, seguindo um modelo francês caracterizado por faculdades isoladas e pouca autonomia universitária (Almeida-Filho, 2025). Mesmo com a criação oficial das universidades no país, já no século 20, a fragmentação institucional, o controle estatal e as restrições à autonomia continuaram como características marcantes desse sistema. A reforma universitária de 1968 promovida pelo regime militar intensificou essa situação ao mesclar modelos organizacionais e pedagógicos incompatíveis (Almeida-Filho & Souza, 2020).

Com o fim do regime militar, projetos utópicos de reforma universitária, expressos nos princípios constitucionais da educação pública, gratuita, democrática e de qualidade, foram propostos, porém permaneceram no plano normativo, sem efetiva concretização institucional. Tentativas de reforma nos governos FHC e Lula-1 enfrentaram resistências políticas e acadêmicas que impediram sua implementação plena. Como projeto de reforma universitária, ainda que contestado pela reação interna das instituições de ensino e reduzido e limitado nos seus processos de implementação, registre-se o programa REUNI, mencionado acima, implementado nos governos Lula-2 e Dilma Rousseff.

A partir de 2019, instalou-se no país, e em todo o mundo, uma luta ideológica (equivocadamente designada como “guerra cultural”) contra a racionalidade e a civilização, contra a ciência e a arte, contra a política e a democracia. Naquela conjuntura, as instituições públicas se viram sob cerrado ataque. Vetores distópicos vicejavam num pais que se mostrava em permanente estado de mal-estar social: ambientes persecutórios, totalitários, perversão de valores e violência, descumprimento da responsabilidade pelo que chamamos de serviços públicos ou políticas públicas, não somente por omissão, mas ativamente (Almeida-Filho & Souza, 2020). A universidade, espaço autônomo que representa o pensamento crítico, foi demonizada (Salles, 2019), tornando-se um dos principais alvos dos agentes da distopia representativos de tendências históricas da sociedade brasileira.

Recentemente, tem-se consolidado, em escala global, um processo de constrangimento político do espaço educacional, visando sobretudo desconstruir um patrimônio cultural da humanidade: a universidade (Lyer & Suba, 2019). Tal movimento se intensifica no contexto do agravamento simultâneo de crises econômicas, sociais, políticas e morais, associadas à ascensão de governos orientados por uma escatologia política peculiar, cujos efeitos se expressam no desmonte de políticas públicas, na erosão de direitos sociais e na crescente ameaça às liberdades civis.

Trata-se de um cenário marcado pela perseguição à inteligência crítica, no qual ganham força o negacionismo científico, o obscurantismo cultural e o fascismo social, alimentando práticas de intolerância, racismo e xenofobia. É nesse ambiente distópico e regressivo que emergem propostas que atentam diretamente contra a autonomia e a liberdade acadêmica das universidades, impondo-lhes uma racionalidade imediatista e utilitarista, bem como modelos de organização, financiamento e controle estatal que, com as devidas ressalvas históricas, remetem à herança da reforma bonapartista (Almeida-Filho, 2025).

Não tenho dúvida de que o ataque às universidades constitui, em essência, um ataque à própria democracia. Em numerosos países, observa-se o avanço persistente do cerco obscurantista, expresso no negacionismo científico e humanista. Isso ocorre porque a universidade pública permanece como um espaço imprescindível à cidadania e à vida democrática, no qual se cultiva a liberdade ampla de crítica, por meio da análise rigorosa, da reflexão e da proposição criativa, desempenhando funções que nenhum parlamento consegue exercer com densidade intelectual e inventividade nas esferas da política, da cultura e das técnicas (Salles, 2019).

No âmbito da educação superior, vejo que a disputa central se dá em torno do próprio conceito de autonomia universitária. Para enfrentar e vencer esse desafio, creio que é necessário revisar criticamente as formas tradicionais de luta, investindo na construção de uma nova aliança entre forças progressistas, animada por uma esperança política renovada e orientada por práticas proativas, criativas, engajadas e socialmente enraizadas. Contudo, tal enfrentamento não pode reproduzir agendas políticas cristalizadas, nem reiterar formas ultrapassadas de atuação que apenas respondem a provocações e acabam por reforçar a lógica do adversário. Persistir nesses caminhos significa desperdiçar a oportunidade de corrigir erros históricos, elaborar perdas passadas e refletir, de modo mais profundo, sobre os princípios que nos unem e nos definem (Salles, 2019).

Herdeira de uma tradição historicamente democrática, a universidade deve afirmar e defender sua autonomia, exercitando-a em todos os domínios, sobretudo no campo político. Em termos mais precisos, para se afirmar como detentora de autonomia institucional, a universidade pública não pode se reduzir à condição de agência estatal, burocratizada, regulada de forma excessiva, financeiramente dependente e subordinada à esfera política do Executivo. Tampouco pode se converter em empreendimento privado, limitado à prestação de serviços docentes, tecnocientíficos ou gerenciais, destituído de ethos e ética, vulnerável às pressões do mercado, às emendas parlamentares e a mecanismos contingentes de financiamento.

Ao contrário, adotando uma postura criativa, realista e pragmática – em consonância com o espírito da protopia – as universidades públicas brasileiras precisam dispor de instrumentos efetivos que viabilizem a autonomia plena dos meios, articulada a uma autonomia relativa dos fins, resultante de pactuações democráticas com a sociedade real, e não apenas sob a tutela de um Estado frequentemente apropriado politicamente pelas elites dominantes. Tal defesa exige vigor político-ideológico e rigor teórico-metodológico, implicando o enfrentamento de censuras e a promoção de uma ética eco-etno-social, ainda que se reconheça a complexidade e a dificuldade dessa tarefa.

No registro da protopia, a universidade não pode se conceber como um quarto poder soberano, isolado e autossuficiente, nem assumir a posição passiva de espectadora do colapso civilizatório, pois a necropolítica é implacável em seu poder destrutivo. Em um país constituído sobre bases colonialistas, racistas e patriarcais, com tradição universitária recente e ainda frágil, onde persiste a dificuldade de reconhecer que autonomia institucional e liberdade acadêmica são condições indispensáveis ao desenvolvimento do ensino e da pesquisa, torna-se especialmente desafiador aceitar a existência de um ente público autônomo em relação à instância que o financia, legitimado por competências científicas, tecnológicas, artísticas e culturais socialmente reconhecidas.

Nesse contexto, creio que cabe à universidade pública assumir como responsabilidade fundamental a produção sistemática de conhecimento, com qualidade-equidade, buscando excelência acadêmica e sustentabilidade em seus processos, produtos, efeitos e impactos, nos planos social, institucional e pedagógico.

 

Fonte: Por Naomar Almeida-Filho, em Outras Palavras

 

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