Universidade:
Resposta diante do cerco
Proponho
refletir sobre o papel da universidade nos diversos planos e dimensões da
formação de sujeitos epistêmicos e de reprodução das utopias da modernidade e
suas derivações, no contexto atual de globalização do capitalismo cognitivo. Na
parte I deste texto, apresentei um pequeno glossário de termos derivados do
conceito de utopia, como distopia, retrotopia, desutopia, heterotopia,
focalizando sua utilidade para compreensão dos contextos e impactos do digital
no mundo contemporâneo.
Com
base nessa fundamentação, buscando avaliar formas viáveis de superação do
caráter utópico da educação superior, analiso nesta parte II o forma protopia
como princípio gerador de projetos realistas e viáveis visando à concretização
de mudanças contingentes e estratégicas de uma dada realidade social em geral e
no interior de instituições sociais, como a universidade. Na parte III,
compartilharei uma reflexão sobre pertinência e possibilidades de uma
tecno-protopia como estratégia capaz de articular forças políticas e movimentos
sociais em torno de um projeto de universidade pública de fato autônoma,
comprometida com competência sociotécnica, soberania tecnológica, emancipação
de sujeitos epistêmicos e sensibilidade eco-etno-social.
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Universidade e Utopia
Em
1953, Robert Hutchins, então Reitor da Universidade de Chicago, resgatou o
conceito de utopia para propor uma universidade ideal, comprometida com o
desenvolvimento de uma sociedade avançada não apenas em aspectos econômicos e
tecnológicos, mas também humanísticos e sociais, numa visão liberal. Hutchins
(1953) apresenta o capitalismo industrial como uma utopia em processo de
concretização, exigindo um novo modelo de educação superior, uma “Universidade
da Utopia”, definida por interdisciplinaridade, flexibilidade, abrangência e
racionalidade prática. Dessa forma, propunha superar o especialismo, o
positivismo e o cientificismo, segundo ele fatores responsáveis pelo
distanciamento da universidade tradicional em relação à sociedade moderna.
Em
oposição ao otimismo utópico do capitalismo industrial e considerando o
contexto político influenciado pelo macarthismo e pela Guerra Fria, algumas
vertentes da teoria crítica europeia postularam que a educação formal contribui
para a manutenção das relações de classe e do sistema jurídico-político. Louis
Althusser (1980 [1966]), em Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado,
utiliza conceitos do marxismo gramsciano, como a ‘hegemonia’, para avançar sua
análise crítica do Estado, o que posteriormente fundamentou a abordagem da
“educação como reprodução social” (Bourdieu & Passeron, 1975). Essas
abordagens alimentaram expectativas utópicas de uma transformação radical na
educação, capaz de gerar novas formas de subjetividade e sociabilidade, viabilizando
uma revolução cultural capaz de romper com os regimes de reprodução ideológica
pela pedagogia formal.
Nos
discursos utópicos sobre educação, observa-se uma disputa em torno da
subjetividade, destacando as categorias de pedagogia, reprodução e replicação
como centrais para a formação de subjetividades futuras, tanto em transições
graduais quanto em rupturas radicais. Jameson (2005) argumenta que escolas e
universidades são instituições utópicas criadas para explorar os futuros
possíveis e aponta que a educação tem papel cada vez mais relevante na
construção de identidades diante das novas subjetividades. Na utopia
socialista, educação e reprodução social convergem numa pedagogia coletiva
voltada à formação de sujeitos críticos para uma nova ordem econômica, social e
política. Conforme Jameson (2005, p. 168), compreende “o tipo de transformação
radical da subjetividade pressuposta pela maioria das revoluções, uma mutação
nas naturezas humanas e o surgimento de um ser humano totalmente novo.” A visão
jamesoniana da utopia de uma revolução tranquila pela educação revela certa
“impaciência com a pedagogia” pois os modelos formativos do Ocidente,
comprometidos com a tradição e a institucionalidade, produzem respostas
tímidas, lentas e tardias (Lewis, 2009). Por isso, mostram-se incapazes de
realizar a profunda mudança em valores, afetos e consciência, necessários para
alcançar os objetivos utópicos do marxismo ocidental.
Particularmente
em relação à educação superior, cabe neste momento avaliar se a instituição
universitária – invenção histórica do Ocidente europeu para promoção da cultura
grecolatina cristã, recriada na época clássica para formação de quadros do
Estado moderno, reinventada na era pós-iluminista como lugar da produção do
conhecimento científico, ativa na condição de usina ideológica da tecnociência
– seria capaz de desempenhar essa missão radicalmente trans-formadora.
Constatados alguns dos limites e problemas da utopia universitária iluminista,
atualizada pelo socialismo democrático, consideremos então a questão da
protopia.
<><>
Da protopia
Em
2006, no contexto do movimento Universidade Nova, propus o neologismo
‘protopia’ como epílogo e título de uma coletânea de ensaios sobre o futuro da
universidade brasileira (Almeida Filho, 2007). Na transição para o segundo
governo Lula, essa iniciativa serviu de inspiração para o Programa de Apoio a
Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), a mais
abrangente tentativa recente de reforma universitária realizada no Brasil,
entre os anos de 2007 e 2012. Naquele texto, a palavra ‘protopia’ nomeava “uma
proposta provocadora, realista, viável, portanto realizável; […] movimento
assumidamente desejante, mobilizador, histórico (no sentido de operado pela
ação humana) […], a favor de um lugar; movemo-nos em direção a este lugar; neste
movimento, construímos o novo lugar, nossa protopia, a Universidade Nova”
(Almeida Filho, 2007, p. 295).
Anos
depois, descobri que a noção de protopia havia sido incorporada ao debate sobre
ciberpolítica e mundo virtual por Kevin Kelly, fundador da revista Wired,
intelectual orgânico do autonomeado “futurismo”, bastante celebrado no
imaginário do Vale do Silício. Isso ocorreu numa postagem datada de 2011, no
site The Technium, frequentemente citada na literatura cinzenta dos estudos de
futuros: “nosso destino não é nem utopia nem distopia nem status quo, mas
protopia. […] Como uma protopia contém tantos novos problemas quanto novos
benefícios, essa complexa interação de trabalho e ruptura é de difícil
previsão”.
Sob a
liderança do próprio Kelly, num movimento quase viral de vulgarização em-linha,
a noção de protopia tem se disseminado em redes sociais, portais e blogs de
gurus, mentores empresariais, palestrantes e influenciadores digitais. Nos
países do Norte, numerosas iniciativas de criação institucional, consultoria
empresarial, preparação de quadros e produção ideológica rapidamente se
organizaram, fomentando um hype típico da cibercultura contemporânea. Em março
de 2023, mereceu uma special series do influente New York Times, intitulada
Protopia Movement.
Não
obstante seu caráter de modismo, se embasada num referencial teórico
consistente, a ideia de protopia pode se configurar como uma importante questão
filosófica e teórica (Bielskyte, 2021). Nesse sentido, será um atraente e
promissor quadro referencial para a ação política, social e cultural necessária
para transformar de modo sustentável o contexto contemporâneo, caracterizado
por complexidade, inovação disruptiva, interdependência global e incerteza
radical numa “complexa interação de trabalho e ruptura”.
Hanzi
Freinacht (2022) propõe transformar a noção de protopia em conceito.
Relacionando as etapas históricas de modernidade, pós-modernidade e
metamodernidade às formas de imaginar o futuro: Utopia, Eutopia e Protopia, ele
critica as utopias clássicas por serem insuficientes e perigosas. Segundo
Freinacht, a utopia da modernidade, associada ao iluminismo, é marcada por
teleologia rígida e lógica binária, buscando eliminar conflitos e diferenças, o
que levou a projetos políticos autoritários e violentos. Buscando superar essa
concepção, retoma a ideia de eutopia – sem mencionar ter sido proposta por
Mumford, conforme vimos acima – para identificar “o bom lugar” e rejeitar o
sentido de “lugar nenhum”. Diferentemente da utopia, a eutopia não projeta um
futuro distante, mas vincula-se ao pensamento pós-moderno, a crítica às grandes
narrativas e a valorização do contexto, enfatizando a diversidade cultural. No
entanto, para Freinacht (2022), a eutopia tem limitações estruturais: ancorada
em exceções muitas vezes personalizadas, carece de escalabilidade, continuidade
histórica e capacidade de coordenação sistêmica.
No
impasse entre o universalismo perigoso da utopia e o particularismo
fragmentário da eutopia, Freinacht (2022) baliza o conceito de Protopia,
compreendido como representativo de uma metamodernidade. A protopia combinaria
o impulso direcional e mobilizador da utopia com a sensibilidade crítica e
plural da eutopia, sem absolutizar nem eliminar qualquer um desses modos de
conceber as mudanças sistêmicas. A protopia se apresenta precisamente como uma
tendência convergente, oferecendo uma gramática conceitual para pensar
transformações sociais profundas sem recorrer às ilusões ou armadilhas do
passado.
A
superação das crises da modernidade e os limites da pós-modernidade de fato
exigem uma imaginação política capaz de articular esperança sem dogmatismo e
crítica sem imobilismo. A perspectiva da protopia, enfim, não aponta para um
único futuro desejável, mas para um espaço de possibilidades, implicando um
“horizonte de eventos” onde podem emergir distintos futuros (Shermer, 2018).
Retomando, de certo modo, a ideia de heterotopia de Foucault, o conceito de
protopia se refere à mobilização ou ao movimento proativo para implementar
propostas de criação ou mudanças profundas em uma determinada realidade.
Sob
diversos ângulos, direcionada à concretização de projetos realistas e
possíveis, a perspectiva da protopia se revela uma “ironia crítica”: reconhece
os riscos das grandes narrativas, sem ignorar os conflitos de interesses dos
micropoderes; entende bem os perigos do ceticismo que paralisa, mas também
considera as limitações de agir diante da incerteza. No contexto educacional,
especialmente, a protopia aposta no potencial da aprendizagem e na
transformação gradual das instituições sociais por meio de “práticas
sociotécnicas formadoras” pertinentes à esfera da cultura e ao imaginário
social.
Retomei
o tema da protopia em 2020, num artigo escrito em colaboração com Luis Eugenio
de Souza (Almeida-Filho; Souza, 2020). Inicialmente, examinamos dois modelos de
universidade surgidos na Europa do século 19. O primeiro modelo é utópico,
supostamente humboldtiano, baseado na autonomia institucional, na liberdade
acadêmica e na centralidade da pesquisa científica como princípio formativo. O
segundo é atópico, derivado da Reforma Bonaparte na França pós-revolucionária,
caracterizado pela subordinação direta do ensino superior ao controle estatal
(Almeida-Filho, 2025). Consideramos que a proposta de reforma universitária do
governo Bolsonaro [2019-2022] representava um modelo distópico, na medida em
que ameaçava a autonomia universitária, subordinava o conhecimento às lógicas
de mercado e fragilizava a universidade pública enquanto instituição
estratégica para a democracia, a ciência e a inclusão social (Almeida-Filho
& Souza, 2020). Como alternativa, propusemos uma protopia para a
universidade brasileira com base na inclusão social e étnico-racial, por meio
de reorganização curricular em ciclos formativos e fortalecimento do vínculo
entre universidade, educação básica e desenvolvimento nacional.
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Autonomia ameaçada
A
história das universidades no Brasil começou ainda no período imperial,
seguindo um modelo francês caracterizado por faculdades isoladas e pouca
autonomia universitária (Almeida-Filho, 2025). Mesmo com a criação oficial das
universidades no país, já no século 20, a fragmentação institucional, o
controle estatal e as restrições à autonomia continuaram como características
marcantes desse sistema. A reforma universitária de 1968 promovida pelo regime
militar intensificou essa situação ao mesclar modelos organizacionais e
pedagógicos incompatíveis (Almeida-Filho & Souza, 2020).
Com o
fim do regime militar, projetos utópicos de reforma universitária, expressos
nos princípios constitucionais da educação pública, gratuita, democrática e de
qualidade, foram propostos, porém permaneceram no plano normativo, sem efetiva
concretização institucional. Tentativas de reforma nos governos FHC e Lula-1
enfrentaram resistências políticas e acadêmicas que impediram sua implementação
plena. Como projeto de reforma universitária, ainda que contestado pela reação
interna das instituições de ensino e reduzido e limitado nos seus processos de
implementação, registre-se o programa REUNI, mencionado acima, implementado nos
governos Lula-2 e Dilma Rousseff.
A
partir de 2019, instalou-se no país, e em todo o mundo, uma luta ideológica
(equivocadamente designada como “guerra cultural”) contra a racionalidade e a
civilização, contra a ciência e a arte, contra a política e a democracia.
Naquela conjuntura, as instituições públicas se viram sob cerrado ataque.
Vetores distópicos vicejavam num pais que se mostrava em permanente estado de
mal-estar social: ambientes persecutórios, totalitários, perversão de valores e
violência, descumprimento da responsabilidade pelo que chamamos de serviços
públicos ou políticas públicas, não somente por omissão, mas ativamente
(Almeida-Filho & Souza, 2020). A universidade, espaço autônomo que
representa o pensamento crítico, foi demonizada (Salles, 2019), tornando-se um
dos principais alvos dos agentes da distopia representativos de tendências
históricas da sociedade brasileira.
Recentemente,
tem-se consolidado, em escala global, um processo de constrangimento político
do espaço educacional, visando sobretudo desconstruir um patrimônio cultural da
humanidade: a universidade (Lyer & Suba, 2019). Tal movimento se
intensifica no contexto do agravamento simultâneo de crises econômicas,
sociais, políticas e morais, associadas à ascensão de governos orientados por
uma escatologia política peculiar, cujos efeitos se expressam no desmonte de
políticas públicas, na erosão de direitos sociais e na crescente ameaça às
liberdades civis.
Trata-se
de um cenário marcado pela perseguição à inteligência crítica, no qual ganham
força o negacionismo científico, o obscurantismo cultural e o fascismo social,
alimentando práticas de intolerância, racismo e xenofobia. É nesse ambiente
distópico e regressivo que emergem propostas que atentam diretamente contra a
autonomia e a liberdade acadêmica das universidades, impondo-lhes uma
racionalidade imediatista e utilitarista, bem como modelos de organização,
financiamento e controle estatal que, com as devidas ressalvas históricas,
remetem à herança da reforma bonapartista (Almeida-Filho, 2025).
Não
tenho dúvida de que o ataque às universidades constitui, em essência, um ataque
à própria democracia. Em numerosos países, observa-se o avanço persistente do
cerco obscurantista, expresso no negacionismo científico e humanista. Isso
ocorre porque a universidade pública permanece como um espaço imprescindível à
cidadania e à vida democrática, no qual se cultiva a liberdade ampla de
crítica, por meio da análise rigorosa, da reflexão e da proposição criativa,
desempenhando funções que nenhum parlamento consegue exercer com densidade
intelectual e inventividade nas esferas da política, da cultura e das técnicas
(Salles, 2019).
No
âmbito da educação superior, vejo que a disputa central se dá em torno do
próprio conceito de autonomia universitária. Para enfrentar e vencer esse
desafio, creio que é necessário revisar criticamente as formas tradicionais de
luta, investindo na construção de uma nova aliança entre forças progressistas,
animada por uma esperança política renovada e orientada por práticas proativas,
criativas, engajadas e socialmente enraizadas. Contudo, tal enfrentamento não
pode reproduzir agendas políticas cristalizadas, nem reiterar formas
ultrapassadas de atuação que apenas respondem a provocações e acabam por
reforçar a lógica do adversário. Persistir nesses caminhos significa
desperdiçar a oportunidade de corrigir erros históricos, elaborar perdas
passadas e refletir, de modo mais profundo, sobre os princípios que nos unem e
nos definem (Salles, 2019).
Herdeira
de uma tradição historicamente democrática, a universidade deve afirmar e
defender sua autonomia, exercitando-a em todos os domínios, sobretudo no campo
político. Em termos mais precisos, para se afirmar como detentora de autonomia
institucional, a universidade pública não pode se reduzir à condição de agência
estatal, burocratizada, regulada de forma excessiva, financeiramente dependente
e subordinada à esfera política do Executivo. Tampouco pode se converter em
empreendimento privado, limitado à prestação de serviços docentes,
tecnocientíficos ou gerenciais, destituído de ethos e ética, vulnerável às
pressões do mercado, às emendas parlamentares e a mecanismos contingentes de
financiamento.
Ao
contrário, adotando uma postura criativa, realista e pragmática – em
consonância com o espírito da protopia – as universidades públicas brasileiras
precisam dispor de instrumentos efetivos que viabilizem a autonomia plena dos
meios, articulada a uma autonomia relativa dos fins, resultante de pactuações
democráticas com a sociedade real, e não apenas sob a tutela de um Estado
frequentemente apropriado politicamente pelas elites dominantes. Tal defesa
exige vigor político-ideológico e rigor teórico-metodológico, implicando o
enfrentamento de censuras e a promoção de uma ética eco-etno-social, ainda que
se reconheça a complexidade e a dificuldade dessa tarefa.
No
registro da protopia, a universidade não pode se conceber como um quarto poder
soberano, isolado e autossuficiente, nem assumir a posição passiva de
espectadora do colapso civilizatório, pois a necropolítica é implacável em seu
poder destrutivo. Em um país constituído sobre bases colonialistas, racistas e
patriarcais, com tradição universitária recente e ainda frágil, onde persiste a
dificuldade de reconhecer que autonomia institucional e liberdade acadêmica são
condições indispensáveis ao desenvolvimento do ensino e da pesquisa, torna-se
especialmente desafiador aceitar a existência de um ente público autônomo em
relação à instância que o financia, legitimado por competências científicas,
tecnológicas, artísticas e culturais socialmente reconhecidas.
Nesse
contexto, creio que cabe à universidade pública assumir como responsabilidade
fundamental a produção sistemática de conhecimento, com qualidade-equidade,
buscando excelência acadêmica e sustentabilidade em seus processos, produtos,
efeitos e impactos, nos planos social, institucional e pedagógico.
Fonte:
Por Naomar Almeida-Filho, em Outras Palavras

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