Cão
Orelha: porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes
Uma
menina de 13 anos faz uma transmissão ao vivo em um grupo da rede social
Discord. Ela ateia fogo em um gato enquanto mostra em tempo real aos outros
usuários. O animal corre pela casa, alastrando as chamas. Depois, ela posta no
grupo: “Botei fogo na casa, daora”.
Essa
foi uma das cenas chocantes que as pesquisadoras independentes Tatiana Azevedo
e Letícia Oliveira tiveram acesso enquanto monitoravam grupos extremistas
no Discord entre 2023 e 2024. “São coisas que eu nunca vou
esquecer, mudaram a minha vida”, afirma Azevedo.
Elas
publicaram ano passado um relatório sobre situações brutais que ocorrem nos
grupos da rede social, chamados de panelas. Crianças e adolescentes estão
entre os principais envolvidos em crimes que também incluem incentivo à
automutilação, suicídio e estupros virtuais coletivos (em que as vítimas
são forçadas a praticar atos sexuais ou se exporem na rede social).
Os atos
são chamados de “lulz”, termo usado para designar uma “brincadeira” ou desafio
que muitas vezes envolve violência. “Começa com pequenas transgressões,
como pichar ou escrever no próprio corpo o nome do grupo, e muitas vezes
descamba para atos extremos. Eles fazem isso para ganhar status e serem
aceitos”, diz Azevedo.
Agressões
contra animais são comuns porque eles oferecem pouca ou nenhuma resistência.
Muitas vezes os autores cobram um valor (como uma assinatura) das pessoas que
queiram assistir ao espetáculo macabro.
O caso
de Orelha, cachorro
comunitário que foi espancado em um bairro nobre de Florianópolis (Santa
Catarina) e teve que passar por eutanásia no início de janeiro devido à
gravidade dos ferimentos, reacendeu o debate sobre o risco de jovens serem
expostos a ideias extremistas em ambientes virtuais sem moderação.
Nesta
terça-feira (3 de janeiro), a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu as
investigações sobre a morte de Orelha e pediu a internação de um
adolescente que teria sido o autor das agressões. Além disso, quatro
adolescentes foram apontados como autores de uma tentativa de afogamento de
outro cão comunitário do mesmo local, chamado Caramelo.
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Por que isso importa?
- Grandes redes
sociais têm permitido que grupos troquem mensagens violentas e conteúdo
extremista com pouca ou nenhuma moderação.
- Crianças e
adolescentes estão entre os públicos mais vulneráveis para esse tipo de
conteúdo.
Os
nomes e idades dos adolescentes não foram revelados em atenção ao Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA), que prevê sigilo total em casos envolvendo
menores de 18 anos. Dois pais e um tio dos jovens também foram indiciados por
tentar coagir um vigilante que teria testemunhado o crime.
Até o
momento, não há indícios de que os adolescentes faziam parte de grupos
extremistas online. Porém, especialistas apontam que situações como as de
Orelha e Caramelo são sintomáticas de um processo de radicalização.
“O
zoosadismo é um grande indicador de radicalização e um passo grande para a
mobilização à violência. A gente tem visto a violência como uma moeda social.
Quanto mais sádico e perverso, maior estatuto interno dentro da minha rede, da
minha panela, eu tenho”, disse o procurador Fábio Costa Pereira, que integra o
Projeto Sinais, de prevenção a violência extrema praticada por jovens e
adolescentes, nas redes sociais do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Para o
procurador, as famílias precisam ter cuidado com a maneira que os jovens usam a
internet. “Esses adolescentes têm acesso ilimitado a telas porque as famílias
permitem”, ele continua. “Muitas das nossas crianças e adolescentes passaram a
viver no mundo digital sem a percepção das consequências catastróficas que elas
têm no mundo real.”
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Animais e meninas são as principais vítimas de grupos violentos nas redes
Um dos
indícios de que os jovens são os mais afetados é que episódios violentos
monitorados pelas pesquisadoras no Discord aumentaram durante a pandemia e,
depois, em períodos de férias escolares. “São momentos em que os
adolescentes ficam em casa e podem usar a internet livremente. Por isso o ECA
Digital (medidas que visam proteger menores de 16 anos nas redes sociais, que
começam a valer em março) é tão importante”, afirma Oliveira.
Segundo
as autoras, as maiores vítimas de violência nos grupos são meninas e
animais. “As vítimas são predominantemente do gênero feminino. Animais
como gatos, cachorros, pássaros, sapos e outros animais de pequeno porte são
frequentemente violentados em sessões de tortura animal. Os agressores são,
majoritariamente, do sexo masculino”, diz um trecho do relatório.
Entre
os episódios narrados no relatório, está o de um adolescente de 17 anos do Rio
Grande do Sul que furtou, torturou e matou um cachorro e transmitiu ao vivo
pelo Discord. Outro de Goiás fez uma live enquanto maltratava e enforcava um
cão.
Azevedo
ainda conta ter presenciado o momento em que uma menina foi obrigada pelos
outros participantes a praticar atos de zoofilia com um cachorro. Ela explica
que líderes dos grupos, principalmente meninos, coagem meninas a fazerem o que
eles querem ameaçando expor vídeos íntimos ou as expondo aos pais. “Elas vão
ficar traumatizadas para o resto da vida”, acredita.
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Quem maltrata animais pode agredir pessoas
No ano
passado, o Brasil teve 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia – quase 5
mil no total. Houve um aumento de 20% em relação a 2024. Santa Catarina,
terra de Orelha e Caramelo, foi o segundo estado com mais notificações em 2025,
atrás apenas do Rio Grande do Sul.
ONGs de
proteção de direitos dos animais pontuam que os casos de violência quase nunca
são isolados. “Dois pesquisadores norte-americanos no começo da década de 1980
entenderam que a violência é uma só. As pessoas que abusam e violentam animais
podem violentar pessoas ou vice-versa”, afirma Rosangela Gebara, diretora de
relações institucionais da ONG Ampara Animal.
Os
pesquisadores citados, Phil Arkow e Frank Ascione, criaram a Teoria do Elo, que
identifica uma conexão próxima entre a crueldade animal e a violência doméstica
contra mulheres, crianças e idosos, alvos considerados vulneráveis. Estudos
sobre serial killers apontam que quase todos eles tiveram episódios de
maus-tratos a animais – como o Maníaco do Parque ou Jeffrey Dahmer.
“Se
você tem criança ou adolescente muito violento contra animais, isso tem que ser
investigado do ponto de vista psiquiátrico. Não se pode dizer que é coisa de
criança. Pode ser um fator preditivo, precoce, de pessoas desajustadas que
poderiam cometer crimes piores”, diz Gebara.
No
Brasil, frequentemente as punições a pessoas acusadas de maus-tratos a animais
são brandas ou substituídas por penas alternativas – com exceção dos casos que
mobilizaram a opinião pública.
A
primeira pessoa condenada por crueldade animal no país é Dalva Lina da Silva,
presa em 2018. Ela se apresentava como protetora de animais, mas ONGs
desconfiavam que os cachorros e gatos entregues a ela eram adotados muito
rapidamente. Um detetive particular a acompanhou por quase um mês e identificou
mais de 30 corpos de animais mortos em sacos de lixo que ela deixava na rua de
sua casa. Segundo as investigações, eles recebiam injeções letais de uma
substância controlada. A mulher recebeu pena de 12 anos de prisão,
posteriormente ampliados para 17 anos.
Os
casos de maior repercussão foram responsáveis pelas mudanças na legislação
penal nos últimos anos. Entre os episódios mais emblemáticos está o da cadela
Manchinha, em 2018, atacada e envenenada por um segurança na frente de uma
unidade do Carrefour em Osasco (São Paulo). A violência gerou protestos nas
ruas e redes sociais, contribuindo para consolidar no Congresso um projeto de
lei que revisou as penas por maus-tratos a animais domésticos.
Em
julho de 2020, o caso do pit bull Sansão – mutilado com a remoção das patas
traseiras em Confins (Minas Gerais) – ensejou a aprovação da chamada Lei
Sansão, em 2020, que aumentou a pena para quem cometer abuso, maus-tratos,
ferir ou mutilar cães e gatos.
O
episódio de Orelha deslanchou debates sobre possíveis alterações legislativas,
inclusive propostas recentes para aumentar ainda mais as penas ou vedar a
substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos para
crimes de maus-tratos.
Um dos
projetos de lei apresentados recentemente trata da proteção de animais
comunitários, como Orelha e Caramelo. Se aprovado, o texto reconhece a
existência de milhares de animais sem lar fixo e prevê programas de incentivo
para pessoas e comunidades responsáveis pelos cuidados com eles. Ainda não há
previsão de quando será votado.
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Conteúdo extremista se espalha pelas redes quase sem controle
Segundo estudo do Núcleo de
Estudos da Violência Universidade de São Paulo (USP), entre 2001 e 2024, houve
49 ataques a escolas no Brasil. Entre eles, há um padrão de comportamento: os
autores frequentemente estavam vinculados a comunidades digitais, como Discord,
X, Telegram e TikTok, e eram, em sua maioria, jovens, brancos e do sexo
masculino.
Apesar
do conteúdo extremista estar presente em quase todas as redes, o Discord parece
ser o ambiente preferido pelo seu modo de funcionamento. A rede é formada
de grupos fechados, cujo conteúdo veiculado internamente não é acessível para
quem está fora e sofre pouco controle de moderação. Para entrar, é necessário
ter um convite e muitas vezes passar por uma entrevista. Além disso, boa parte
do conteúdo é transmitida ao vivo, e não fica gravada após ser encerrada.
Investigações
mostraram que o Discord foi palco do planejamento de uma série de atos
violentos, como um ataque a bomba no
show da cantora Lady Gaga no Rio de Janeiro em 2025, que foi desarticulado pela
polícia após uma denúncia anônima, e atentados contra
pessoas em situação de rua em quatro estados em abril de 2025.
Em
2023, a rede foi associada a ataques armados em escolas no Brasil.
Representantes da empresa, junto com outras big techs, como X (antigo Twitter)
e TikTok, foram chamados a tomar providências pelo então ministro da Justiça,
Flávio Dino. De lá para cá, porém, pouca coisa mudou.
Para
Tatiana Azevedo, que em seu período infiltrada observou como as redes sociais
são permissivas com o acesso de menores de idade a discurso de ódio, nada
realmente deve mudar se não houver responsabilização das grandes empresas de
tecnologia.
“Algumas
têm iniciativas incipientes de controle, outras simplesmente lavam as mãos”,
afirma. “Tem que haver um investimento muito grande das big techs em dinheiro e
em ações que busquem mudanças reais, não só pra tampar buraco, senão ação
policial nenhuma vai ser suficiente.” Ela cita como exemplo a iniciativa do
Roblox de vedar a conversa entre menores, que, em vez de resolver o problema,
também criou um mercado de venda de contas verificadas.
Fonte: Por
Amanda Audi, da Agencia Pública

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