O
brasileiro no centro do escândalo que levou ex-embaixador do Reino Unido a
renunciar filiação ao partido do governo
O
ex-embaixador britânico Peter Mandelson decidiu deixar, na noite deste domingo
(01/02), o Partido Trabalhista, do primeiro-ministro Keir Starmer, alegando que
não queria "causar mais constrangimento" por causa de suas ligações
com o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein.
O nome
de Mandelson e de seu marido, o brasileiro Reinaldo Avila da Silva, aparecem
entre os milhões de documentos divulgados na sexta-feira relacionados a Epstein
— o maior número compartilhado pelo governo dos EUA desde que uma lei
determinou sua divulgação no ano passado.
Os
arquivos também revelaram trocas de emails com menções ao presidente Luiz
Inácio Lula da Sila e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Alguns
documentos sugerem que Epstein fez pagamentos entre 2003 e 2004, totalizando
US$ 75 mil (R$ 394,4 mil). Mandelson afirma não ter nenhum registro ou
lembrança de ter recebido essas quantias e não saber se os documentos são
autênticos.
Em sua
carta ao secretário-geral do Partido Trabalhista, ele disse: "Fui
novamente associado neste fim de semana ao compreensível furor em torno de
Jeffrey Epstein e sinto muito e lamento por isso."
Ser
mencionado ou ter sua imagem incluída nos arquivos divulgados pelo governo
americano não implica, necessariamente, um delito.
"Quero
aproveitar esta oportunidade para reiterar minhas desculpas às mulheres e
meninas cujas vozes deveriam ter sido ouvidas há muito tempo", escreveu
ele em seu comunicado.
<><>
Os pagamentos a Mandelson
Nos
arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça americano estão comprovantes
de pagamento feitos por Epstein a Peter Mandelson.
Entre
2003 e 2004, Epstein parece ter enviado três pagamentos separados de US$ 25 mil
(R$ 130 mil) cada.
Os
extratos bancários recentemente divulgados, noticiados inicialmente pelo jornal
Financial Times, são da época em que o britânico era deputado pelo partido
trabalhista Labor.
Os
pagamentos teriam sido enviados das contas bancárias de Epstein no banco JP
Morgan.
O
primeiro deles, datado de 14 de maio de 2003, foi enviado para uma conta
bancária do banco Barclays na qual Reinaldo Avila da Silva aparece como
titular. Peter Mandelson foi nomeado como beneficiário do pagamento.
Mandelson
e Silva são casados desde 2023.
O
segundo e o terceiro pagamento de US$ 25 mil foram feitos para contas do HSBC
com poucos dias de diferença em junho de 2004. Em ambos, Peter Mandelson é a
única pessoa mencionada como beneficiário.
Não
está claro se os três pagamentos chegaram a ser depositados em alguma das
contas mencionadas.
<><>
Empréstimo a Silva
Uma
troca de emails incluída no lote de documentos publicados nesta sexta também
indica que Epstein teria enviado 10 mil libras (R$ 72 mil) diretamente para
Reinaldo Avila da Silva, em um empréstimo para pagar os custos de um curso de
osteopatia.
Em um
email para Epstein de 2009, Silva detalha os custos do curso, fornece seus
dados bancários e agradece ao financista por "qualquer ajuda que você
possa me dar".
Epstein
responde algumas horas depois dizendo que transferiria o valor do empréstimo e
Silva responde com um agradecimento no dia seguinte.
Os
emails são de 16 de junho de 2009, quando Epstein cumpria pena de prisão por
solicitar prostituição de uma pessoa menor de 18 anos.
Durante
grande parte de sua sentença, Epstein tinha permissão para trabalhar em seu
escritório durante o dia e retornava à prisão todas as noites.
Questionado
sobre o empréstimo de da Silva, Mandelson disse que havia sido "muito
claro" sobre seu relacionamento com Epstein em entrevistas à BBC.
"Não
tenho nada mais a acrescentar", disse ele.
<><>
Fotos do ex-embaixador
Imagens
do ex-embaixador do Reino Unido nos EUA de cueca também foram descobertas no
último lote de arquivos de Epstein. Em uma das fotos editadas, ele aparece ao
lado de uma mulher, cujo rosto foi censurado.
Ele
disse que "não consegue precisar o local ou a mulher e não consigo
imaginar quais eram as circunstâncias".
Não se
sabe quando ou onde as imagens de Mandelson e da mulher foram tiradas.
Mandelson
foi nomeado para a Câmara dos Lordes e ocupou os cargos de secretário de
Negócios e vice-primeiro-ministro durante o governo do então primeiro-ministro
Gordon Brown (2007-2010).
Posteriormente,
em dezembro de 2024, foi nomeado pelo primeiro-ministro Keir Starmer para ser
embaixador do Reino Unido nos EUA, mas foi demitido em setembro de 2025, após
novas revelações sobre sua amizade com Epstein.
Emails
revelaram que ele havia entrado em contato com Epstein após a condenação do
financista americano em 2008, enviando uma série de mensagens de apoio.
Mandelson
concedeu entrevista à jornalista da BBC Laura Kuenssberg em 11 de janeiro e
disse que seu relacionamento com Epstein foi um "erro terrível".
Ele
também disse acreditar que foi "mantido separado" da vida sexual de
Epstein por ser gay e negou ter visto meninas jovens nas propriedades do
americano.
Dias
depois, ele ofereceu um pedido de desculpas mais direto às vítimas do
financista, dizendo ao programa Newsnight da BBC que estava "errado"
em continuar se associando a Epstein.
O
Secretário de Habitação do governo britânico, Steve Reed, foi questionado por
Laura Kuenssberg se o governo tinha conhecimento das supostas ligações
financeiras de Mandelson com Epstein e confirmou que não.
"Estamos
falando de coisas que aconteceram há mais de 20 anos", disse ele,
enfatizando que "não havia conhecimento" sobre o que estava
acontecendo naquela época.
Reed
acrescentou que o motivo da remoção de Mandelson do cargo de embaixador nos EUA
foi porque "havia coisas que ele não havia divulgado" ao governo.
"Acho
que ele deveria responder a perguntas sobre sua própria vida, não eu."
A
condenação de Epstein em 2008 fez parte de um acordo judicial que ele firmou na
Flórida. Ele foi sentenciado a 18 meses de prisão após se declarar culpado de
duas acusações, incluindo aliciar meninas de até 14 anos para prostituição.
Em
2019, Epstein morreu em uma cela de prisão em Nova York enquanto aguardava
julgamento por acusações de tráfico sexual.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário