Fernando
Nogueira da Costa: Infiltração do crime organizado no sistema financeiro
As duas
maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o
Comando Vermelho (CV), estão presentes em todas as 27 unidades da federação.
Elas exercem hegemonia em 13 estados brasileiros.
O PCC
domina os seguintes estados: Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná,
Rondônia, Roraima, São Paulo e Piauí. O CV domina seis estados: Acre, Amazonas,
Mato Grosso, Pará, Tocantins e Rio de Janeiro, o estado onde a facção surgiu.
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Ambas
as facções deixaram de ser grupos restritos aos presídios para se tornarem
organizações transnacionais, realizando negócios internacionais. O PCC controla
a Rota Caipira: leva drogas da fronteira ao Porto de Santos, e se especializa
no atacado e no envio de drogas, principalmente para a Europa, um mercado
considerado mais rentável. O PCC possui conexões internacionais em 16 países,
com destaque para sua presença na Europa, incluindo Espanha, Portugal, Itália e
Irlanda. Sua principal atividade é a exportação de cocaína via portos (como o
de Santos) e a lavagem de dinheiro global.Já o CV controla a rota do Alto
Solimões e se concentra em abastecer o consumo interno de drogas no Brasil,
apesar de também ter negócios internacionais, embora de forma embrionária perto
do PCC. O CV tem maior concentração na América do Sul, com alcance em quatro
países: Colômbia, Peru, Bolívia e Suriname, e dados da Polícia Federal também
indicam negócios com Argentina, Paraguai e Venezuela. Sua expansão se
caracteriza pela agressividade territorial, buscando controlar rotas de
passagem pela Amazônia e terras indígenas até chegar aos centros consumidores,
como o Sudeste.
O
domínio armado de facções e milícias pode, sim, atingir atividades financeiras,
especialmente quanto à lavagem de dinheiro e a crimes financeiros. As facções
utilizam mecanismos complexos em suas operações financeiras.
O PCC
desenvolveu mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro e tem a lavagem de
dinheiro global como uma de suas atividades principais. No caso do CV, a
expansão para a Amazônia ocorreu em um contexto no qual já existiam modalidades
de crime organizado (como desmatamento, garimpo e grilagem).
Eles
possuíam tecnologia de lavagem de dinheiro sofisticada, como no caso do ouro.
Isto acabou por capacitar o CV a “lavar o dinheiro da droga”.
O crime
organizado, de forma ampla e disseminada, infiltra-se no sistema financeiro. O
Brasil tem enfrentado o desafio de se tornar o segundo país com mais tentativas
de golpes e fraudes digitais, atrás apenas da China. A Aliança de Combate a
Fraudes Digitais Bancárias, fruto de uma colaboração inédita entre os setores
público e privado (incluindo o Ministério da Justiça e Segurança Pública,
FEBRABAN, Banco Central, Polícia Federal, COAF, entre outros), foi criada para
enfrentar os crimes financeiros digitais de forma estruturada e contínua no
país.A Aliança visa combater fraudes e golpes bancários digitais. Eles se
tornaram um desafio grave e complexo. O BCB, em resposta aos incidentes no
sistema financeiro, adotou medidas para reforçar a segurança e combater a
lavagem de dinheiro, como a limitação de transações via Pix, e o endurecimento
de regras contra o uso irregular de "contas-bolsão" e as chamadas
"contas-laranja".
Essas
"contas-laranja" operam como um mercado organizado e são usadas para
movimentar recursos ilícitos, sendo um desafio persistente no combate ao crime
financeiro. Exigem atenção, pois podem envolver a cooptação de pessoas de baixa
renda.
Em
suma, o domínio armado não se limita ao controle territorial para o tráfico de
drogas, mas se estende ao uso de mecanismos para integrar dinheiro ilícito no
sistema financeiro através de atividades sofisticadas de lavagem de dinheiro e
exploração de brechas no ambiente digital.
Pode-se
pensar na relação entre domínio armado e atividades financeiras como um vírus
em um computador: o domínio armado (o vírus) é visível no controle territorial
e na violência, mas seu objetivo final e mais sofisticado é a infecção do
sistema financeiro (o computador). Os ativos financeiros são as formas de
manutenção de riqueza.
O crime
organizado se reproduz e se legitima por meio da lavagem de dinheiro e de
fraudes digitais. Transforma o lucro sujo em capital aparentemente limpo para
sustentar a organização.
O Banco
Central do Brasil (BC) adotou uma série de medidas regulatórias recentes para
reforçar a segurança e combater a infiltração do crime organizado,
especialmente quanto a fraudes digitais e lavagem de dinheiro, porque afetam o
mercado bancário. As atuações do BC incluem as seguintes.
Em
resposta a incidentes no sistema financeiro, como ataques hackers e operações
policiais capazes de revelarem o uso de instituições financeiras para lavagem
de dinheiro pelo crime organizado, o BC implementou ajustes regulatórios como
limitação de transações via Pix. O BC limitou a R$ 15 mil as transações via Pix
para instituições conectadas por meio de Provedoras de Serviços de Tecnologia
da Informação (PSTIs).
Antecipou
o prazo, de 2029 para maio de 2026, para todas as Instituições de Pagamento
(IPs) obterem licença. Elevou os requerimentos de gestão de riscos e o capital
mínimo das PSTIs, além de aumentar o capital mínimo das IPs conforme a
atividade. Publicou a regulação de ativos virtuais.
Endureceu
as regras contra o uso irregular de "contas-bolsão": contas em nome
da instituição financeira capazes de concentrarem recursos de vários clientes.
Mais recentemente, a regulamentação da prestação de serviços de Banking as a
Service (BaaS) também proibiu os prestadores desse serviço utilizarem
contas-bolsão.O Banco Central do Brasil lançou ferramentas e normas específicas
para combater a abertura fraudulenta de contas e o uso de
"contas-laranja" para movimentar recursos ilícitos. Criou uma
ferramenta chamada BC Protege+, possibilitando a pessoas e empresas informarem
ao sistema financeiro caso não desejam abrir contas de depósito à vista,
poupança ou pré-pagas. Esse serviço visa evitar a abertura fraudulenta de
contas usando identidade falsa. As instituições financeiras devem consultar o
banco de dados do BC Protege+ antes de abrir uma conta.
Aprovou
uma norma que obriga instituições financeiras e de pagamento a rejeitar
transações destinadas a contas com “fundada suspeita de envolvimento com
fraude.
Apesar
dessas medidas, o combate às “contas-laranja” ainda é visto como um problema a
ser superado. Parte do mercado defende o banimento de CPFs e CNPJs
comprovadamente usados para movimentar recursos ilícitos, mas não há consenso
no Banco Central, pois uma ala teme isso prejudicar a inclusão financeira:
muitas pessoas de baixa renda “alugam” suas contas.
O
objetivo da Aliança de Combate a Fraudes Digitais Bancárias, lançada em
fevereiro de 2025, é elevar o padrão de combate às fraudes e golpes bancários
digitais por meio de um Plano de Ações Conjuntas. São iniciativas focadas em
prevenção, repressão, compartilhamento de dados e recuperação de ativos.
O BC
observou inconsistências nas informações prestadas pelas instituições
supervisionadas e decidiu exigir a implementação de uma política de qualidade
de informações. Essa nova resolução entrará em vigor em janeiro de 2026 (com
prazo de adaptação até o fim do ano). Exige um "sistema de governança
robusto" e estabelece critérios como clareza, comparabilidade e
integridade para garantir as informações fornecidas à autoridade monetária, ao
mercado e aos clientes serem de alta qualidade, inclusive em "situações
adversas ou de crise". Essa medida é vista como um aprimoramento na
segurança e estabilidade do sistema financeiro.
Embora
o BC não tenha como missão primária combater o crime, ele atua em parceria com
órgãos como a Polícia Federal e o COAF, aplicando um modelo de supervisão
baseada em risco para fiscalizar as instituições e conter riscos. As ações do
BC demonstram um “freio de arrumação”, para ajustar o binômio inovação e
segurança, após o crescimento da digitalização ter facilitado a infiltração do
crime organizado no sistema financeiro.
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PF abre inquérito para investigar BRB por suspeitas de
gestão fraudulenta
A
Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para investigar eventual gestão
fraudulenta no Banco de Brasília (BRB), instituição financeira ligada ao
governo do Distrito Federal que fez uma proposta de compra do Banco Master, em
março do ano passado.
A
informação foi divulgada pela colunista Miriam Leitão, do jornal "O
Globo", e confirmada pelo blog.
O banco
estatal controlado pelo governo do DF gastou R$ 12 bilhões para comprar
carteiras de crédito vendidas pelo Master, mas que não pertenciam ao banco
de Daniel Vorcaro e não tinham garantias. O prejuízo para o BRB pode chegar a
R$ 5 bilhões.
Apesar
do rombo, a instituição permanece estável financeiramente e afirmou,
em nota divulgada ainda em janeiro, que o governo do Distrito Federal já sinalizou que pode fazer um
"aporte direto" no banco para cobrir os possíveis prejuízos gerados por
transações questionáveis com o Banco Master.
No
próximo mês, o BRB terá de apresentar seu balanço financeiro com
informações sobre o tamanho do rombo provocado pelas negociações com as
carteiras fraudulentas do Master.
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Tentativa de compra
➡️Ao longo de 2025, o BRB tentou comprar boa
parte do Master, uma operação que contou com grande apoio do governo do DF,
acionista controlador do banco público, mas foi barrada pelo Banco Central.
➡️Além da tentativa de compra, a Polícia
Federal apura se o BRB adquiriu carteiras de crédito problemáticas do Master. O
foco é entender se houve falhas nos processos internos de análise, aprovação e
governança das operações.
➡️Em novembro, uma operação da PF e do
Ministério Público afastou do cargo o então presidente do BRB, Paulo Henrique
Costa – demitido em definitivo em seguida.
➡️Além da PF, do MP e do Banco Central, a nova
direção do BRB e uma auditoria independente também investigam as transações –
mas ainda não divulgaram conclusões.
Nas
últimas semanas, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, afirmou
à TV Globo que se reuniu pelo menos quatro vezes, entre 2024 e 2025,
com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro – mas negou que tenha discutido a
compra do Master pelo BRB nesses encontros.
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Fraudes com CDBs
Segundo
as apurações da Polícia Federal e do Banco Central, o Banco Master emitiu R$ 50
bilhões em certificados de depósito bancário (CDBs) prometendo juros acima das
taxas de mercado e sem comprovar que tinha liquidez, ou seja, que conseguiria
pagar esses títulos no futuro.
Ao
comprar um CDB, o cliente empresta o dinheiro ao banco e recebe juros em troca.
Para reforçar essa impressão de liquidez, o Master aplicou parte desses R$ 50
bilhões em ativos que não existem, comprando créditos de uma empresa chamada
Tirreno.
O
Master não pagou nada por essa compra, mas logo em seguida vendeu esses mesmos
créditos ao BRB — que pagou R$ 12,2 bilhões, sem documentação, para
"socorrer" o caixa do Banco Master.
Essas
transações aconteceram no mesmo período em que o BRB tentava comprar o próprio
Banco Master — e convencer os órgãos de fiscalização de que a transação era
viável e não geraria risco aos acionistas do BRB, incluindo o governo do DF.
Além
disso, o Master era conhecido por comprar precatórios e investir em empresas em
dificuldade.
Para
evitar a quebra, foram realizadas tentativas de venda do banco, o que inclui
uma proposta do BRB. Todas acabaram canceladas, envoltas em questionamentos,
pressões políticas e falta de transparência.
O Banco
Master foi liquidado em novembro pelo Banco Central após identificação do alto
custo de captação e da exposição a investimentos considerados arriscados, com
juros muito acima do padrão de mercado.
Fonte:
Brasil 247/g1

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