quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O documento que escancara o projeto Trump: um mundo sem regras, sem Europa e sem democracia

Há documentos que nascem para orientar governos, e há documentos que nascem para revelar, com nitidez rara, o projeto de poder que se esconde atrás de uma retórica de força. A nova Estratégia de Segurança Nacional divulgada no início de dezembro pelo governo Trump entra para a segunda categoria: um manifesto de ruptura, profundamente ideológico, que abandona décadas de construção multilateral e exibe, sem pudor, uma visão de mundo regressiva, autoritária e alinhada às forças mais perigosas que avançam hoje no Ocidente.

O texto não é apenas um diagnóstico sombrio sobre o planeta — é um programa político destinado a moldá-lo segundo um nacionalismo agressivo, antiliberal e contrário a qualquer forma de equilíbrio internacional. Se os Estados Unidos foram, desde 1945, um dos pilares do multilateralismo, Trump agora se converte em seu principal coveiro.

<><> O ataque direto à Europa e o elogio à extrema-direita

O trecho dedicado à Europa é um libelo contra tudo o que o continente construiu desde o pós-guerra: integração, multilateralismo, ampliação de direitos, tolerância religiosa, Estado de bem-estar social, pluralidade étnica e cultural. Trump descreve a região como civilização “em declínio”, ameaçada por imigração, diversidade e valores sociais modernos. Trata-se do mesmo léxico das novas direitas europeias — de Orban à AfD alemã, dos nacionalistas italianos à nova primeira-ministra japonesa que ecoa Thatcher no Pacífico.

O que mais assusta é o elogio explícito à ascensão de “partidos patrióticos” na Europa, como se o avanço da xenofobia, do autoritarismo e das pautas antidireitos fosse um sinal de renovação democrática. É o oposto: é a legitimação, pelo presidente da maior potência militar do planeta, de forças que trabalham para dissolver consensos civilizatórios que levaram décadas para serem construídos.

Trump não apenas constata a emergência desses grupos: ele propõe que Washington “cultive resistência interna na Europa” — um eufemismo diplomático para dizer que os EUA devem apoiar, estimular e financiar políticos nacionalistas e antissistema capazes de desestabilizar a União Europeia e enfraquecer seus governos progressistas. O que está em jogo, portanto, não é apenas a política externa americana. É a arquitetura democrática do Ocidente.

O desprezo por migrantes — e o apagamento da própria história americana

No coração mais sombrio do documento, Trump afirma que a imigração representa “ameaça sistêmica” à segurança e à “continuidade civilizacional” dos Estados Unidos e da Europa — uma formulação que ecoa teorias conspiratórias da extrema direita e que jamais havia aparecido em um texto oficial da Casa Branca desde 1945.

A estratégia descreve fluxos migratórios como “vetores de instabilidade” e associa diversidade cultural à “erosão da identidade nacional”, num desprezo frontal por aqueles que literalmente construíram os Estados Unidos.

É impossível ler essas linhas sem lembrar que o país que hoje demoniza migrantes só existe porque foi erguido por eles: dos trabalhadores irlandeses e chineses que ligaram as costas leste e oeste com ferrovias, aos milhões de italianos, judeus, mexicanos, caribenhos e latino-americanos que sustentaram sua industrialização, sua agricultura, sua cultura urbana e seu dinamismo econômico.

Ao atacar migrantes como ameaça civilizacional, Trump apaga deliberadamente o fato histórico de que os EUA são, antes de tudo, uma nação de migrantes — e negar essa origem é negar o próprio fundamento democrático e plural da sociedade americana.

<><> O fim do multilateralismo e o retorno da Doutrina Monroe

A nova estratégia retoma, com verniz atualizado, a velha Doutrina Monroe: a primazia absoluta dos EUA sobre o hemisfério e o abandono — ou pior, a sabotagem — das instâncias multilaterais. Para Trump, a ONU é irrelevante, a União Europeia (UE) é decadente, a OTAN é um peso e tratados globais são obstáculos.

A cooperação climática desaparece. A lógica de comércio se desloca para um protecionismo ilimitado, sem contrapartidas ou previsibilidade. A retórica de “ordem internacional baseada em regras” — que já vinha fragilizada — é substituída por uma geopolítica do improviso, em que a força militar e o chantagismo comercial se tornam instrumentos rotineiros.

<><> A economia política do caos: quando o medo viraliza

Trump aposta no medo como ferramenta de governo. Ao pintar a Europa como região sitiada por migrantes, decadência social e “apagamento civilizacional”, ele tenta normalizar a narrativa segundo a qual o capitalismo democrático europeu estaria condenado, e que somente políticas securitárias ultranacionalistas poderiam salvá-lo.

Mas isso é economicamente falso e politicamente perigoso.

A Europa tem desafios sérios — envelhecimento, desaceleração produtiva, déficit energético —, mas nenhum deles se resolve com muros ou intolerância.

A extrema-direita opera, em essência, por meio da fabricação de inimigos imaginários como mecanismo de desvio da atenção coletiva. Governos e movimentos ultranacionalistas — os mesmos que Trump celebra como “renovadores” da política europeia — procuram culpar migrantes por crises econômicas que, na realidade, derivam de escolhas fiscais equivocadas, de políticas financeiras desreguladas, de desindustrialização acelerada e da erosão de direitos sociais.

A diversidade cultural, longe de representar ameaça, é recodificada como fonte de insegurança, enquanto as causas estruturais da violência urbana — desigualdade, abandono estatal, fragmentação territorial — são estrategicamente silenciadas. Em vez de discutir concentração de renda, precarização do trabalho, estagnação salarial, captura do Estado por setores financeiros e ausência de políticas industriais modernizadoras, a extrema-direita desloca o debate para a guerra cultural: banimento de livros, ataques a minorias, demonização de universidades e criminalização de valores progressistas.

Trata-se da criação de “culpados convenientes” — migrantes, mulheres, ambientalistas, professores, artistas, jornalistas —, cuja função é absorver a frustração social e impedir que a população volte seu olhar para os verdadeiros responsáveis pelas crises contemporâneas. Essas agendas autoritárias não oferecem soluções reais; oferecem, isto sim, um espetáculo emocional permanente, uma coreografia política baseada no medo e no ressentimento, que produz engajamento sem produzir bem-estar.

Enquanto o cidadão é convidado a combater inimigos fictícios, os interesses que lucram com a desigualdade, com a financeirização excessiva, com a precariedade laboral e com a destruição da capacidade produtiva nacional permanecem intactos e até fortalecidos. É essa engenharia do desvio — essa economia política da distração — que sustenta a ascensão global da extrema-direita e que o documento de Trump transforma, de forma inédita, em estratégia oficial de governo.

<><> O impacto global

Três grandes movimentos emergem do documento:

  • Uma ofensiva contra a integração europeia, enfraquecendo não apenas Bruxelas, mas a lógica de cooperação regional como alternativa ao hegemonismo.
  • A legitimação da extrema-direita global, que encontra em Trump não apenas inspiração, mas acolhimento estratégico.
  • A desestabilização das normas internacionais, criando um ambiente em que a lei do mais forte substitui a negociação diplomática.

<><> O que isso significa para a América Latina e o Brasil

Para o Brasil, o recado é claro: Trump deseja um continente disciplinado, alinhado e submisso. A nova doutrina mira diretamente projetos soberanos — sejam democráticos, progressistas ou desenvolvimentistas. Países que defendem autonomia tecnológica, política industrial verde ou cooperação Sul-Sul terão de enfrentar, outra vez, a máquina de pressão geopolítica dos EUA.

Mais grave: essa postura alimenta a extrema-direita brasileira, que ecoa as mesmas narrativas de medo, de declínio civilizacional e de anticorrupção abstrata, as quais sustentam a nova ordem trumpista. O documento é uma carta de legitimidade ao bolsonarismo, ao libertarianismo autoritário e à guerra cultural permanente.

Se a Europa é chamada de “civilização em declínio”, o que Trump diz — ainda que implicitamente — é que o Sul Global deve voltar ao lugar que os EUA desejam que ele ocupe.

<><> Um alerta final

O documento de Trump é um aviso alarmante. Uma plataforma de poder que busca reorganizar o mundo com base em identitarismos, supremacismos e medo. Um mundo onde o multilateralismo vira ruína; onde a extrema-direita deixa de ser anomalia e se torna método; onde governos progressistas europeus, latino-americanos ou asiáticos são tratados como obstáculos a serem contornados ou derrubados.

Cabe aos países que acreditam na democracia, no Estado de direito, na justiça social e na cooperação internacional erguer uma resposta coordenada. Não se trata apenas de preservar a ordem internacional: trata-se de impedir que a humanidade retorne às sombras que pensávamos ter deixado para trás.

¨      Um mundo ao gosto autoritário de Trump. Por Lluís Bassets

Donald Trump já alcançou seu objetivo em menos de um ano na Casa Branca. Ele é como um monarca absoluto; exatamente o que os idealizadores da Constituição buscavam evitar em 1787. Acadêmicos renomados em democracias reconhecem a regressão em direção a uma forma de autoritarismo semelhante à da Hungria, Venezuela ou Turquia. A liderança do mundo livre da qual ele tanto se vangloriava está se inclinando para um estilo autoritário e proselitista, como evidenciado pela nova Estratégia de Segurança Nacional com a qual Trump pretende moldar todo o cenário internacional a seu bel-prazer.

Para os americanos Steven Levitsky, Lucan A. Way e Daniel Ziblatt, trata-se de uma forma de "autoritarismo competitivo", "na qual os partidos competem nas eleições, mas os governantes rotineiramente abusam do poder para punir os críticos e desequilibrar o jogo contra a oposição". Embora encontrem em suas formas de expressão até mesmo "reminiscências das ditaduras militares da década de 1970", eles ainda acreditam que a ofensiva autoritária é reversível.

A Casa Branca agora não dá nenhum passo sem colocar o autoritarismo em primeiro plano. Ao contrário de estratégias semelhantes de presidentes anteriores, nada pode ser proposto agora que não seja para a maior glória de Trump e unicamente para proteger os interesses dos EUA. O mundo exterior é visto como um campo para a expansão autoritária, governada pelo ganho econômico e até mesmo pela ganância pessoal. Tudo o mais, sejam direitos humanos ou o tipo de regime político, é irrelevante.

No mundo de Trump, regido pela lei da força, apenas três homens fortes importam. Eles negociam entre si, dividem os despojos e comandam o mundo. São eles Xi JinpingVladimir Putin e ele próprio. Inspirado, no seu caso, pela Doutrina Monroe ("América para os americanos"), ele reserva para si todo o continente americano, tratando-o como um território doméstico e soberano, para acabar com a imigração, reprimir o tráfico de drogas, manter a ordem, controlar recursos estratégicos e impedir a entrada de concorrentes vindos de fora de suas fronteiras.

Trump se vê como o sucessor do presidente Theodore Roosevelt, que emprestou seu nome em 1904 ao Corolário da Doutrina Monroe, o qual ele usa para justificar a interferência nos assuntos internos de países latino-americanos. Se Roosevelt inspirou o intervencionismo político e militar ao longo do século XX, agora o Corolário Trump promove uma rede de regimes amigáveis ​​e complacentes com as políticas de Trump e a máxima pressão, inclusive militar, sobre aqueles que discordam. Somando-se aos seus impulsos anexacionistas em relação ao Canadá e à Groenlândia, o quintal que Trump vislumbra está se expandindo e promete lucros enormes.

No Oriente Médio, um problema constante para todos os presidentes, o objetivo é manter a segurança em mãos locais e garantir negócios lucrativos, muitas vezes em parceria com os déspotas locais. Da mesma forma, na África, o objetivo não é intimidar os governantes locais, nem se preocupar em expandir os valores liberais ou manter a ajuda ao desenvolvimento, mas sim obter oportunidades de negócios, recursos minerais e parceiros confiáveis, mantendo também os rebeldes sob controle.

No resto do mundo, existe apenas um inimigo estratégico digno de ser designado. Não é a Rússia, nem a China. Não é a Coreia do Norte, nem o Irã. É a Europa. Este documento foi bem recebido tanto em Moscou quanto em Pequim, ao contrário da indignação que provocou na maioria dos europeus. No caso russo, tendo a guerra na Ucrânia como pano de fundo, há particular júbilo com a acusação de que os europeus, fracos, estão consentindo com o "apagamento" de sua civilização. A China, declarada rival econômica e tecnológica com quem se pretende estabelecer "relações mutuamente vantajosas", também tem motivos para se orgulhar.

Diante das ambições da China em relação a Taiwan, Trump defende o status quo, assim como fizeram governos anteriores que se opuseram tanto à anexação quanto à independência, mas expressa isso como uma rejeição a qualquer iniciativa unilateral. Conhecendo sua inconstância, seu desprezo pela democracia e sua abordagem mercantilista às negociações, ele poderia facilmente aceitar a anexação da ilha se obtivesse concessões favoráveis. Por ora, ele já demonstrou sinais de fraqueza na guerra comercial e em gestos de apaziguamento em relação a Xi Jinping.

O trumpismo e o putinismo praticamente não diferem em nada. Compartilham o desprezo pela Europa, a predileção por Estados-nação que zelam zelosamente por sua soberania e fronteiras, a promoção do populismo supremacista de extrema-direita, objetivos destrutivos em relação à UE e até mesmo a rejeição de seu poder normativo. A Rússia, uma potência perigosa na estratégia anterior de Trump, não é mencionada no documento e só é citada agora porque muitos europeus a consideram uma ameaça existencial.

Uma única frase do laureado com o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, ilumina o mistério de tanto antieuropeísmo raivoso: "Trump e seus seguidores odeiam a Europa, e a odeiam porque ela ainda honra os ideais que eles estão abandonando nos Estados Unidos".

 

Fonte: Por Maria Luiza Falcão, para Terapia Politica/El País

 

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